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quarta-feira, janeiro 11, 2012

A emigração segundo Miguel Relvas, o apátrida. Novas medidas de austeridade segundo Vitor Gaspar, o sonso, e Carlos Costa, o grilo (quase) silencioso - e as vozes lúcidas de Joseph Stiglitz e Javier Solana


1. Miguel Relvas, com o queixo bem definido, próprio de um homem determinado, falava à vinda de um passeio por terras de África.


Esboço de sorrisinho na manga, homem poderoso, dono e senhor de todas as influências, dizia que, quando em Maputo,  tinha saído à noite e que, aí, tinha falado com jovens portugueses, jovens em quem Portugal tinha investido, formação superior, jovens a quem o País não tinha nada para oferecer e que, naturalmente, se estavam a fazer à vida longe de casa. Relvas falava, queixo bem erguido, semblante de quem se sente empossado dos maiores poderes, podia referir bons exemplos, casos a serem copiados por todos os jovens que o estivessem a ouvir. E acrescentava: E não os ouvi falar de saudades, de Pátria…. Faltou acrescentar. ‘E assim é que é’.

Que um jovem, num bar, à noite, copo na mão, não se tenha posto a chorar no ombro do Relvas parece-me até saudável.

Agora que um ministro venha dizer que os jovens nem se lembram da sua Pátria e que o diga como se isso fosse uma coisa boa, já me parece insuportável. Só faltou dizer com ar orgulhoso ‘os jovens, bem formados, que mandámos daqui para fora, já nem português falam e não fazem eles senão bem!’

Que um governante – e o mais influente – tenha esta mentalidade parece-me incrível, perigoso. Pessoas assim acabam com o País se necessário for ('se necessário for' aos interesses de alguém - que não nós -, leia-se). Vendem as principais, as mais lucrativas, as mais estratégicas empresas nacionais a estados (e querem lá saber se esses estados que, assim, se tornam donos dos nossos recursos mais estratégicos, de empresas altamente empregadoras, são estados em que o conceito de direitos humanos não é exactamente o mesmo que em estados democráticos e livres), aconselham os jovens a porem-se a milhas, fazem manobras supostamente apenas contabilísticas mas que colocam ainda mais em risco a sustentabilidade da segurança social e desbaratam as poupanças de pessoas que pensavam que os seus descontos estavam a salvo – e sempre com um arzinho lampeiro de quem está a fazer apenas a ménage.

Podiam ser liberais mas nem isso. A dupla Passos Coelho e Miguel Relvas confunde liberalismo com desbunda.


2. Ainda o ano vai no adro, ainda estamos a dia 10 de Janeiro, e o tema já é a derrapagem do défice. Quando ontem (ou melhor, anteontem que já passa da 1 da manhã) ouvi isto, apurei o ouvido, tentei perceber: mas de que ano, senhores?, se o ano ainda mal começou. Mais à frente, o jornalista acrescenta, ‘o défice deste ano’ e isso é atribuído à nova responsabilidade que veio com a transferência do fundo de pensões dos bancários e a um maior enfraquecimento da economia.

Nada disto é inesperado. O inesperado é que o Orçamento acabou de ser aprovado - e já se antevê um desvio? É possível tamanha incompetência?

Mas que, com as políticas seguidas, isto é o que se pode esperar:  o caminho é o da derrapagem permanente, uma infernal descida em espiral negativa, um dramático acelerar que se verifica quando não se interrompe um ciclo vicioso - já se sabe.

Com as medidas que estão a ser tomadas, de esvaziamento do poder de compra, de empobrecimento, desemprego e insegurança, com a leviandade que se verifica na condução das políticas públicas, a única consequência possível é a espiral de degradação económica, que conduz a menos base de tributação, que conduz a maior desequilíbrio emtre receitas e despesas, o que conduz a menor capacidade de suportar o serviço da dívida, o que conduz à insolvência. Digo-o eu aqui, desde há muito tempo, diz quem consegue fazer operações aritméticas simples, dizem vozes isentas e entendidas.

Aliás, não é também isto que diz o relatório do Banco de Portugal quando antecipa uma recessão superior e avança com a necessidade de novas medidas de austeridade?

Aliás, não é isto também que diz o sonso do Gaspar, cada vez mais sabido, quando diz e repete e volta a repetir - seis vezes o disse - que 'por esses motivos' (e referia-se à transferência do fundo de pensões) não haverá novas medidas? É que ele sabe bem que mais austeridade cega se está a forjar e que o motivo maior será a recessão cavada, a miséria que, cada vez mais, se abate sobre a população, cada vez menos gente a pagar impostos (e esses, nós!, pagando cada vez mais), cada vez mais empresas a sairem daqui para fora.

E, em voz pianíssima, avança que, para já, vai vender mais coisas do que as previstas (o quê? os Jerónimos aos chineses? A Sé aos brasileiros? o CCB aos angolanos? o Museu Nacional de Arte Antiga aos russos? Só se for isso) e mais concessões do que as previstas (what? vai fazer mais PPP, será?)

Ao 10º dia do ano?! Como é que é possível tamanha tontice, tamanha incompetência?! Andam aos papéis, não acertam uma, enganam-se todas as semanas e todas as semanas aparecem a corrigir o tiro e, pelo meio, vão acertando às cegas, abatendo todas as nossas esperanças. Revoltante.

Entretanto, Carlos Costa, ainda que de mansinho, lá vai começando a tentar espevitar a inteligência do Gaspar e da dupla Passos e Relvas, lembrando-lhes que têm que pensar na economia. Mas qual economia, senhores? As empresas que já pularam daqui para fora? As outras que ainda cá estão mas com a corda na garganta? E quem é que vem de fora meter-se num país entregue a uma gente destas?


3. Alguns de vocês dizem-me, às vezes, que perco o norte quando falo desta turminha que está a tomar o país de assalto. Acho que não, que não me desnorteio. Não gosto deles, claro que não. Acho que para se ser governante é preciso mil vezes mais do que esta dupla e alguns dos seus ajudantes poderão alguma vez dar. Mas isto não é uma questão de gosto. Isto é uma questão de contas. E, meus amigos, quando o negócio são números, aí sou muito objectiva.


4. E também não vivo confinada a este nosso País. Sei que esta política não sai toda da cabeça (pouco) iluminada da dupla maravilha. Eles são apenas uns executantes a um tempo provincianos, deslumbrados e incompetentes. Mas, claro, esta é a política dominante desta Europa entregue à voragem dos especuladores e à miopia e incompetente quadradice da Merkel e Companhia.
 

5. Mas, enfim, vou passar a palavra a quem sabe disto muito, muito mais que eu.  


Escreveu, há pouco tempo, Joseph Stiglitz (e aconselho-vos a espreitar também o seu curriculum):

"Os líderes europeus têm proclamado repetidamente o seu empenho em salvar o euro, mas aqueles que tanto têm insistido nisso poderiam dizer também que estão empenhados em não fazer aquilo que é necessário. Eles reconheceram que a austeridade significará uma desaceleração do crescimento – na verdade, é cada vez mais provável que haja uma recessão – e que, sem crescimento, os países em apuros da Zona Euro não conseguirão gerir as suas dívidas. Mas eles nada fizeram para promover o crescimento. Estão numa espiral da morte.

Espero que os acontecimentos provem que estou errado e que o meu pessimismo acabe por se revelar excessivo. Mas receio que os riscos pendam mais para o lado negativo. Com efeito, 2012 poderá provar ser o ano em que as experiências com o euro, o culminar de um processo de 50 anos de integração política e económica na Europa, chegarão ao fim.

Nesse caso, em vez de trazer consigo o esperado fim da Grande Recessão de 2008, uma contracção que durou demasiado tempo e causou muito sofrimento, o ano de 2012 poderá marcar o início de uma nova fase ainda mais aterradora da pior calamidade económica mundial em três quartos de século."


Mas para que não se pense que é voz única, aqui vai mais um testemunho. 


Javier Solana, cujo curriculum escreveu há dias um artigo de que transcrevo:

"Além disso, queremos que a União Europeia renasça mais forte desta crise. Para isso é necessário que exista um melhor equilíbrio entre a austeridade e as politicas de crescimento económico. Sem crescimento e baixo desemprego, não é possível resolver os problemas da Zona Euro. A União Europeia deve ainda aliar as suas estratégias económicas à competitividade de longo prazo, que é determinada pelo valor acrescentado de bens e serviços.

A China e a Índia aprenderam muito bem esta lição. Em menos de 15 anos, cerca de 20% dos seus gastos serão para investir em pesquisa e desenvolvimento, mais do dobro da percentagem actual. Entretanto, a União Europeia vai enfrentar um sério problema demográfico: em 2025, representará apenas 6,5% da população mundial, face aos 61% da Ásia. A média de idades será 45, enquanto na Índia será 28, na China 37 e nos Estados Unidos 38. Na ausência de estratégias adequadas para a imigração, integração, cuidados de saúde e educação, o crescimento e competitividade da Europa vai cair e as tensões sociais vão agravar-se e multiplicar-se."


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Sabem o que vos digo, meus Amigos? Um dia destes ainda me vou deixar de estar com palpites a partir aqui da bancada e vou passar à acção. Não sei se me amigue com algum partido (mas qual, senhores?!), se forme eu um novo, se salte para o ringue e resolva a coisa doutra maneira. Mas alguma coisa um dia destes vou ter que fazer.

by Annie Leibovitz  (como é bom de ver)

Entretanto, Caríssimos, vão por mim e deslizem até mais abaixo, batam três vezes, acendam um fósforo, sussurrem que vão da minha parte, depois saltem para o meio da pista, ali onde há alguma luz e, então, falem de amor (mas cuidado com quem está ao vosso lado...  não vá estarem no trabalho e o/a vosso/a colega de trabalho pensar que estão a fazer-lhe uma inusitada declaração de amor).

E não se vão abaixo com esta treta de más notícias. A coisa há-de virar! Tenham um bom dia.