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sábado, 5 de maio de 2018

Vargas Llosa / Colômbia a ponto


Fernando Vicente

Colômbia a ponto

Se as pesquisas são mais ou menos exatas, Iván Duque deverá ganhar as eleições do próximo dia 27 com folga e, talvez, até no primeiro turno


Mario Vargas Llosa
5 mai 2018

Ninguém nunca me pôde explicar por que os colombianos falam o melhor espanhol de toda a América Latina. Não me refiro à elite culta, mas aos homens e mulheres comuns nos quais são notáveis a precisão e a eloquência com que costumam expressar-se, e a riqueza de seu vocabulário. É verdade que a Colômbia teve ilustres gramáticos e linguistas desde o século XIX, e certamente conhecer nossa língua e saber usá-la deve ter sido, há muito tempo, preocupação central de seus programas escolares.
Outra coisa notável e surpreendente desse país é que, apesar de ter sofrido por mais de cinquenta anos com guerrilhas sanguinárias, vinculadas ao narcotráfico, algo que em qualquer outra nação latino-americana teria ocasionado um golpe de Estado e uma ditadura militar de longos anos, seguiu funcionando como uma democracia, liberdade de imprensa, eleições livres e juízes mais ou menos independentes. Quando o presidente Juan Manuel Santos e as FARC iniciaram as negociações de paz, o mundo inteiro festejou, e mais ainda quando, depois de um longo vaivém, ambas as partes chegaram a um acordo que parecia pôr fim a essa guerra interminável.
Por isso o mundo inteiro (e eu mesmo) tivemos uma surpresa maiúscula quando, no referendo que deveria consolidar aquele acordo, os eleitores colombianos o rejeitaram de modo inequívoco, dando razão a quem, como o ex-presidente Álvaro Uribe, se opunha a ele considerando que o Governo tinha feito concessões demais às FARC, sobretudo no que se refere aos crimes, sequestros e tortura de suas vítimas.
Acabo de passar uns dias na Colômbia, onde serão realizadas eleições em 27 de maio, e aqueles acordos de paz são o ponto nevrálgico dos debates. Fiquei impressionado com a virulência dos ataques dos adversários dos acordos ao presidente Santos, a quem acusam de ter feito concessões demais a uma guerrilha desalmada, sustentada pelo narcotráfico e que deixou semeadas por todo o país dezenas de milhares de famílias de vítimas. E essas críticas parecem contar com o respaldo de um grande setor da opinião pública. Um só exemplo pode dar ideia do volume das críticas: Humberto de La Calle, que foi o chefe negociador do lado do Governo e agora é candidato à Presidência pelo Partido Liberal, tem nas pesquisas um porcentual ridículo, que oscila entre três e quatro por cento das intenções de voto. Por usa vez, Iván Duque, o candidato do Centro Democrático, o partido de Uribe, que tem como vice-presidenta Marta Lucía Ramírez, de origem conservadora, lidera as pesquisas com dez pontos acima de seu mais próximo adversário, o esquerdista Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá.

Acredito que, em longo prazo, a história fará justiça a Juan Manuel Santos

Acredito que, em longo prazo, a história fará justiça a Juan Manuel Santos, e uma maioria de colombianos terminará aceitando que foi oportuno e corajoso iniciar aquelas negociações para pôr fim a uma guerra que vinha sangrando o país e emperrando seu progresso, um anacronismo em uma época como a nossa, em que uma coisa pelo menos ficou clara: não é disparando tiros, assassinando, sequestrando e traficando drogas que se acaba com a pobreza, as desigualdades e as injustiças de uma sociedade. Não há um só exemplo que prove o contrário e, sim, na realidade, seria bem o oposto: se tivessem triunfado, as FARC teriam feito da Colômbia uma segunda Cuba ou uma segunda Venezuela, ou seja, uma ditadura brutal e paupérrima.
Com todas as deficiências que uma maioria de colombianos vê nos acordos de paz, estes serviram pelo menos para algo evidente: que, apesar do que a propaganda revolucionária e extremista fazia crer, as FARC, longe de representarem o “povo”, eram uma organização subserviente e temida, e ao mesmo tempo desprezada. O povo colombiano em sua imensa maioria a repudia e, em vez de aplaudir sua incorporação à vida política, a vê com ódio e temor. Por isso o candidato presidencial da antiga guerrilha, Rodrigo Londoño (Timochenko), teve de renunciar a sua candidatura, e os únicos parlamentares das FARC no novo Congresso serão só aqueles que preencherão o número mínimo de cadeiras garantidas pelos acordos de paz, embora os votos dos eleitores os tenham rejeitado.
Os acordos de paz não teriam sido possíveis sem os duros golpes que o Governo de Álvaro Uribe impôs à guerrilha, um Governo do qual, convém recordar, Juan Manuel Santos foi um enérgico ministro da Defesa. “Faltou apenas isto para acabar com as FARC”, me disse um amigo, apertando os dedos. Não sei se é correto, mas sei que, sem aqueles graves reveses militares que o anterior Governo lhes assestou, e que devolveram a confiança e recuperaram as estradas e boa parte do território que os guerrilheiros terroristas ocupavam, estes não teriam jamais chegado a sentar-se à mesa de negociações.

Os acordos de paz não teriam sido possíveis sem os duros golpes que o Governo de Álvaro Uribe impôs à guerrilha

O que acontecerá agora? Se as pesquisas são mais ou menos exatas, Iván Duque deverá ganhar com folga e, talvez, até no primeiro turno. Apesar de sua juventude, é um homem muito capaz e, além de sua formação econômica e a experiência financeira em organizações internacionais, é um homem culto, que não se envergonha de ler poesia e romances. Na chapa presidencial é acompanhado por uma mulher que conheço bem e não vacilo em dizer que é admirável: Marta Lucía Ramírez. O risco de populismo e extremismo, encarnado por Gustavo Petro, parece, portanto, descartado em boa hora para os colombianos. Duque e Ramírez não propõem desconsiderar os acordos, mas aperfeiçoá-los.
Não será fácil a tarefa para o futuro governante desse país que fala tão bem e de tão sólida entranha democrática. Há um milhão de venezuelanos que, ao fugirem da fome, do desemprego e da repressão que transformaram seu país em um inferno, escaparam para a Colômbia, que os acolheu generosamente. Mas, entre aqueles exilados, Maduro, seguindo o exemplo de Fidel Castro quando dos famosos marielitos, aproveitou para esvaziar suas prisões de criminosos e foragidos e incentivá-los a escapar para o país vizinho. Deste modo, deixa espaço nos ergástulos para enchê-los com os opositores democratas que se multiplicam a cada dia, enquanto a Venezuela afunda na miséria e no caos, e castiga um país vizinho que abriu os braços às infelizes vítimas de sua demagogia e desvarios. Não só a Venezuela precisa livrar-se o quanto antes de Maduro e da gangue que o acompanha em suas ações malignas, mas também a Colômbia e o restante da América Latina, que sofrem por igual com a tragédia que vive a terra de Bolívar.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Joan Faus / A Colômbia é o país mais promissor da América Latina





“A Colômbia é o país 

mais promissor da América Latina”

Ruchir Sharma, responsável pelo departamento de mercados emergentes do banco de investimento Morgan Stanley, há anos analisa a evolução dos países emergentes



Ruchir Sharma, de Morgan Stanley
Ruchir Sharma, responsável pelo departamento de mercados emergentes do banco de investimento Morgan Stanley, analisa há anos a evolução dos países emergentes. Em 2012, ele publicou o livro Breakout Nations, atualizado em abril passado com um novo epílogo. Nesta entrevista concedida por telefone desde Nova York, ele analisa os desafios que a América Latina enfrenta.
Pergunta. Qual a sua opinião sobre a volatilidade econômica que alguns países emergentes viveram nas últimas semanas?
Resposta. A última década foi realmente uma década excepcional para os países emergentes, fruto de uma combinação nada usual de preços de matérias primas em alta pela demanda da China, muita liquidez e um custo de capital de risco muito baixo. Os países emergentes tiveram uma década muito pobre nos anos 80 e 90, portanto havia espaço para a recuperação. E logo veio o boom da última década, mas muitos não compreenderam esse boom e pensaram que permaneceria por um longo período de tempo. Em países como o Brasil todo o foco se afastou das reformas e se centrou mais em como gastar o dinheiro. As prioridades mudaram e o que vemos agora é que o boom das matérias-primas está chegando a uma espécie de fim.
P. E como essa volatilidade afeta a América Latina, por exemplo, a instabilidade do peso argentino?
R. Não acho que estejamos às portas de outra crise nos países emergentes, o que vemos é que há mais diferenciação. Na América Latina, a última década foi realmente do Brasil, mas agora o Brasil não está acertando e há muito otimismo sobre o México em Wall Street. A Venezuela é um país esquecido. É muito difícil dizer que a Argentina seja um grande problema porque é demasiado pequena para ter peso no mundo emergente.
P. O senhor vê um enfoque muito diferente nas receitas econômicas do México e do Brasil?
R. O foco em termos da ortodoxia econômica é bem diferente. O Peru, a Colômbia e o México têm bancos centrais muito independentes, um bom sistema de pensões, assim como o Chile. Acreditam mais no livre comércio, acabam de assinar um acordo nesse sentido com a Aliança do Pacífico. Esses países têm mais tecnocratas e menos interferência política nos assuntos centrais das decisões de política econômica. A disciplina fiscal também foi melhor. No caso do Brasil, houve uma deterioração na inflação e no déficit orçamentário; e há muito mais interferência do governo no setor privado. De um ponto de vista simplista, no lado esquerdo do continente estamos vendo as boas decisões de política econômica, enquanto no direito, as más.
P. Qual país latino-americano o senhor acha que tem melhores perspectivas de futuro?
R. Para mim a Colômbia é o que tem um futuro mais brilhante. É o mais promissor na América Latina porque no México o processo também parece brilhante, mas as expectativas são muito altas e o México terá que cumpri-las. Já na Colômbia as expectativas não são tão elevadas. As perspectivas parecem melhores do lado esquerdo, o que eu chamo da nova costa do ouro da América Latina, que são essencialmente o México, o Peru e a Colômbia.
P. O que acha que o Brasil deveria ter feito para evitar que sua economia perdesse velocidade?
R. O problema é que o gasto público é muito elevado em termos de percentual do PIB. Muito desse gasto não é em infraestrutura, mas em ter uma burocracia demasiado grande ou um estado de bem estar expansivo. Todo país deve ter gasto governamental, mas no caso do Brasil o percentual é o mais elevado entre todos os emergentes do mundo. E tudo isso contribui para que tenha impostos elevados, o que torna difícil fazer negócios.
P. O senhor acha que alguns desses países ganharão peso como atores políticos internacionais?
R. Terão que se concentrar muito mais em seus esforços econômicos internos. O Chile, o Peru, o México e a Colômbia parecem mais próximos entre si, por exemplo, com a assinatura dos acordos de livre comércio; já o Brasil, a Argentina e a Venezuela estão cada vez mais isolados na região.
P. Com o desenvolvimento econômico as classes médias foram se ampliado nesses países. O senhor teme que isso possa gerar protestos como os que vimos no Brasil em 2013?
R. Pode acontecer, mas não acho que seja uma questão de classes médias e sim fruto de uma insatisfação com os líderes políticos que estão no poder há um longo tempo. Em países como o Chile ou o México houve mudanças de governo. Os países mais vulneráveis acho que são os que têm um partido político que está no governo há muito tempo e não há perspectiva de mudança.
P. O senhor alertou sobre a enorme dificuldade dos países em desenvolvimento convergirem com os avançados...
R. No caso da América Latina foi preciso o típico: preços de matérias primas elevados para um crescimento rápido. Mas as matérias primas costumam subir durante uma década e nas duas seguintes tendem a cair. A América Latina tem que impulsionar mais sua base manufatureira e reduzir sua dependência das matérias primas, mas por ora não vemos muito disso.
P. Acredita que a retirada dos estímulos da Reserva Federal dos EUA afetará negativamente os países latino-americanos?
R. Eu me surpreenderia se fosse um grande problema para os emergentes. O grande risco é o crescimento da China se desacelerar, esse país comprar menos matérias primas e os preços caírem. Esse é um risco muito maior para a América Latina.
P. E um crescimento menor da China afetaria toda a região da mesma e maneira?
R. O Brasil é um candidato de risco, mas na verdade são todos porque a maioria das exportações de quase todos os países, com exceção do México, é de matérias primas. A Colômbia está numa situação um pouco melhor porque depende mais do petróleo e o consumo chinês de petróleo não é tão elevado.

América Latina

Brasil
Os problemas do Brasil são profundos. Não vejo nenhuma mudança de rumo cedo no Brasil, há muitos assuntos por resolver, a moeda tem que se desvalorizar. Seu setor de manufatura e a produção industrial seguirão com problemas, não vejo um futuro muito brilhante para Brasil nos próximos anos em termos econômicos.
México
Tem feito reformas econômicas mas agora temos que ver que as expectativas se convertam em resultados concretos. Há muita expectativa com o novo presidente [Enrique Peña Nieto] e as reformas, mas por hora o crescimento econômico foi decepcionante. O que a gente está olhando agora é que neste ano se consiga o crescimento econômico, há uma boa oportunidade de que assim seja mas estou preocupado pelo crescente otimismo no México.
Colômbia
A situação política é muito estável, parece que há uma vontade de reeleger o [o presidente Juan Manuel] Santos e ele está muito centrado em conseguir o acordo de paz com a FARC. Tem um plano muito ambicioso de construção de infraestruturas. As possibilidades de que Colômbia seja uma nação de sucesso são bastante elevadas.
Peru
Também aparece bem mas a situação política é um pouco mais instável. Teve um alívio com [o presidente Ollanta] Humala mas persiste a incerteza de se poderia fazer algo mais populista e abandonar a ortodoxia econômica. Não acho que o faça mas o risco persiste. Além disso, Peru é bem mais vulnerável aos preços das matérias-primas que a Colômbia, que é mais dependente em petróleo.
Chile
A perspectiva do Chile não é tão boa, não porque esteja indo mau, mas porque parece que alcançou um nível de rendimentos per capita relativamente alto e é difícil saber qual será o seguinte impulso a seu crescimento. A economia chilena ainda depende largamente das matérias-primas, não têm outros setores que estejam tão bem. A investigação, o desenvolvimento e a inovação são fatores que impulsionam o crescimento e Chile não está fazendo muito nessas frentes. Apesar de o Chile ter sido um ótimo modelo para América Latina nas últimas duas décadas, não acho que esteja fazendo muito mais agora para o fazer melhor.




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Álvaro Uribe / O homem que convenceu a Colômbia a dizer não à paz


Álvaro Uribe

Álvaro Uribe 

O homem que convenceu a Colômbia a dizer não à paz

Ex-presidente Álvaro Uribe, que mantém uma disputa frontal com seu sucessor, foi o grande artífice da campanha contra o acordo com as FARC


JAVIER LAFUENTE
9 OUT 2016 - 17:00 COT



Nos anos noventa, ser colombiano era considerado pior que uma desgraça. Significava viver num país devastado por guerrilhas, paramilitares e cartéis do narcotráfico. A Colômbia não era tanto García Márquez; era mais Pablo Escobar e a cocaína. Os colombianos conseguiram se livrar da sensação de párias que lhes perseguia, em boa medida, graças à chegada de Álvaro Uribe Vélez (Medellín, 1954) ao poder, em 2002. Em meio à crise econômica galopante, e com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) batendo às portas da capital, Uribe congregou todo o país ao redor da necessidade de maior segurança e de um sentimento que une os colombianos quase tanto como a seleção de futebol: a rejeição à guerrilha. Uma máxima que, quase 15 anos depois, continua dando frutos políticos, como ficou comprovado no plebiscito de semana passada pela vitória do não, da qual ele foi o grande artífice. O homem que canalizou o ódio dos colombianos contra o grupo armado agora tem o desafio de demonstrar, contra os prognósticos, que pode fazer o mesmo com o maior desejo: a paz.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

‘O abraço da serpente’, um marco para o cinema da Colômbia


‘O abraço da serpente’, 

um marco para o cinema 

da Colômbia

Especialistas explicam por que o filme virou um sucesso dentro e fora do seu país de origem


ANA MARCOS
Bogotá 18 FEV 2016 - 09:27 COT

O abraço da serpente foi filmado em preto e branco numa cenário multicolorido, a Amazônia colombiana. O longa é protagonizado por dois indígenas que se comunicam em sua língua nativa. Seu diretor, Ciro Guerra, com menos de 40 anos, havia realizado apenas três filmes até agora, todos eles na categoria dos independentes. O realizador levou cinco anos para conseguir estrear este trabalho, que foi apenas o sétimo filme colombiano mais visto de 2015 dentro do país, com 119.462 espectadores – uma cifra modesta em comparação aos mais de dois milhões do documentário Colombia Magia Salvaje e dos 1,12 milhão da comédia Uno al año no hace daño, segundo dados da Cine Colombia, principal empresa local de distribuição e exibição.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Popeye, chefe dos pistoleiros de Escobar, é libertado após 23 anos de prisão

Pablo Escobar


Popeye, chefe dos pistoleiros de Escobar, é libertado após 23 anos de prisão

John Jairo Velásquez, um dos matadores de aluguel mais sanguinários do cartel de Medellín, sai da cadeia depois de cumprir 60% de sua pena


Popeye com um livro sobre Pablo Escobar. / AP
Quatro dias depois de um juiz da Colômbia expedir sua liberdade condicional, o homem que comandava os matadores de aluguel do chefão Pablo Escobar, e ficou conhecido pelo apelido de Popeye, foi solto após passar 23 anos na prisão. Às 21h da terça-feira (23h em Brasília), John Jairo Velásquez Vásquez, de 52 anos, voltou às ruas escoltado por uma caravana de cinco carros blindados e acompanhado por funcionários da Defensoría del Pueblo (órgão colombiano encarregado de zelar pelos direitos humanos), a quem, pela manhã, ele havia pedido proteção, através de uma carta escrita de próprio punho.
Popeye, que admitiu em várias entrevistas ter matado mais de 300 pessoas e ordenado a morte de outras 3.000 no fim dos anos oitenta e início dos anos noventa, durante o período de violência protagonizado pelos cartéis da droga, teme a liberdade. Ele sabe que tem muitos inimigos por causa de seus crimes e por ter sido testemunha-chave de vários processos judiciais – como o que esclareceu o assassinato do candidato liberal Luis Carlos Galán Sarmiento em 1989, idealizado pelo político Alberto Santofimio Botero – e diz que eles já colocaram sua cabeça a prêmio.
A libertação de Popeye estava prevista desde a segunda-feira, mas foi retardada porque as autoridades queriam comprovar que o pistoleiro, que começou no submundo do crime aos 18 anos em pleno auge do cartel de Medellín, não tinha nenhum outro processo penal pendente. Enquanto isso, algumas vítimas do cartel afirmaram não entender como um dos protagonistas do narcoterrorismo que assombrou o país há mais de duas décadas poderia sair da prisão após ter cumprido 60% de sua pena.
A operação de libertação daquele que foi um dos homens de confiança de Escobar se tornou um mistério durante toda a terça-feira. Com o passar das horas, as câmeras de televisão foram se aglomerando nas portas da penitenciária de segurança máxima de Cómbita, a duas horas de Bogotá, para registrar sua saída.
Para escoltar Popeye, a polícia precisou montar um esquema de segurança. Em um pedágio na estrada que leva a Bogotá, conhecido pelo nome de Albarracín, a primeira escolta foi substituída por outra que o acompanhou até a capital. Não se sabe qual será seu paradeiro de agora em diante. A imprensa local noticiou que ele deve entrar para um grupo de reintegração e socialização.
Fez 14 cursos na prisão e se formou em recuperação ambiental
Popeye, que fez 14 cursos de nível superior enquanto esteve preso e se formou em recuperação ambiental, surpreendeu a opinião pública e as autoridades pela frieza com que descreveu seus crimes. “Se Pablo Escobar nascesse outra vez eu me juntaria a ele sem pensar duas vezes”, disse em uma entrevista. Apesar disso, ele também se declarou um “bandido aposentado que abandonou seu posto”. Em uma entrevista ao jornal El Tiempo, em fevereiro de 2013, Popeye afirmou que quando fosse libertado gostaria de ter uma chance de se redimir dos milhares de crimes que cometeu. “Sou um homem que procura uma oportunidade na sociedade. Um homem que está em paz consigo mesmo. Quando eu sair, repito, não quero fazer mal a ninguém. Não tenho medo da justiça porque percebi que até para um homem como Popeye pode haver justiça”, disse.
Este assassino, que se entregou à Justiça em 1991 com Pablo Escobar e acompanhou o chefão no tempo em que este ficou em uma prisão que ele mesmo mandou construir e da qual fugiu um ano depois, terá agora um período de quatro anos de liberdade condicional e terá que se apresentar às autoridades periodicamente, além de se comprometer a não voltar a cometer crimes. Sua saída reabre velhas feridas da guerra contra o narcotráfico que ainda não estão curadas na Colômbia.





domingo, 29 de junho de 2014

James Rodríguez / O herdeiro do ‘Pibe’ Valderrama


COPA DO MUNDO 2014

James, o herdeiro do ‘Pibe’ Valderrama

O atacante colombiano, de 23 anos e artilheiro do torneio com dois gols contra o Uruguai, transforma-se na referência do time de Pekerman



James Rodríguez celebra o segundo gol contra o Uruguai. /PAOLO AGUILAR (EFE)
Não é a primeira vez que James Rodríguez (Cúcuta, Colômbia, 23 anos) bate um recorde. O meio-campista que fez o Maracanã explodir com dois gols que permitiram à Colômbia passar às quartas de final pela primeira vez em sua história já está acostumado com isso. Neste sábado, ele se transformou no maior goleador do torneio, com cinco gols, e também no jogador colombiano que mais vezes marcou em uma Copa do Mundo. Ele marcou 10 gols desde 11 de outubro de 2011, quando vestiu pela primeira vez a camisa da seleção da Colômbia. Por isso são muitas as vozes que o classificam como melhor jogador da Copa de 2014, incluindo o técnico Oscar Tabárez, do derrotado Uruguai. Nas redes sociais, já circula uma comparação: “Messi, cinco gols em três Copas; Cristiano Ronaldo, três gols em três Copas; James, cinco gols em uma Copa”.
Muitos previam isso, e agora é uma realidade. James é o substituto do genial Carlos El Pibe Valderrama, um dos melhores meias que a Colômbia teve em sua história. Seu temperamento não se compara ao que ele é dentro de campo. James é um jovem simples e muito tímido. Até há pouco tempo, suas respostas eram monossilábicas. Pouco a pouco ele foi ganhando confiança frente às câmeras e ao assédio dos jornalistas. E nunca nega um autógrafo. James sempre gostou de salsa, mas sempre disse que não sabe dançar. Claro, quem vê as comemorações de gol não pensa assim. Quando marcou o segundo contra a Costa do Marfim, ele foi até o banco para que Armero guiasse a equipe na coreografia, que é ensaiada nos quartos de hotel da concentração.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Juan Gabriel Vásquez / Traga-me um livro de García Márquez

Gabriel García Márquez
Traga-me um livro de García Márquez


A gigantesca indústria de distribuição colombiana se dedicou a impor condições assassinas aos livreiros independentes com os livros de García Márquez



Um livreiro de rua conversa com o autor de Cem Anos de Solidão em Cartagena das Índias, em maio de 2013. / JOAQUÍN SARMIENTO (GETTY)
No final de janeiro, no meio de uma dessas altas temperaturas que matam até pássaros em pleno voo, cheguei pela primeira vez em Aracataca. O povoado onde nasceu Gabriel García Márquez tem um museu Gabriel García Márquez, um percurso sobre Gabriel García Márquez, um restaurante Gabo (na rua dos Turcos, que os leitores deCem anos de solidão conhecem bem), uma emissora chamada Macondo Estéreo e até um holandês errante que abriu um hotel, a Residência Gitana, e mudou seu sobrenome por um que resultasse um pouco mais familiar aos locais: Buendía (Bom dia). Foi ele, Tim Buendía, que me perguntou na hora do almoço se eu achava que os livros podiam ser arranjados. Eu disse a verdade: que não sabia, mas que uma situação assim não podia durar muito; porque eu também gostaria, assim como tantos leitores de Gabriel García Márquez, poder comprar seus livros nas livrarias colombianas.
O primeiro a falar do problema no (macondiano) povoado foi o jornalista Nicolás Morales Thomas. Em novembro do ano passado, Morales escreveu uma coluna longa e detalhada em que dava conta do fenômeno, que em poucas palavras é o seguinte: Faz  alguns anos que o grupo editorial Norma decidiu fechar uma das coleções de literatura mais importantes da história latino-americana recente e só conservou os direitos de um autor: Gabriel García Márquez. Desaparecida a editora –bem como os responsáveis pela antiga e maravilhosa coleção literária–, o que fica é só uma gigantesca indústria de distribuição que, com a rentabilidade como religião, se dedicou a impor condições assassinas aos livreiros independentes. O objeto da chantagem (o exame de corpo de delito, digamos assim) são os livros de García Márquez.
Quando eu o visitei para falar do assunto, David Roa, o responsável pela livraria La Madriguera del Conejo, me explicou a situação. Os revendedores de García Márquez não deixam seus livros em estoque, como é prática corrente, mas exigem a compra à vista; e não dão o desconto de 40%, como é prática corrente, mas de apenas 25%. Em poucas palavras: as condições que a Norma impõe aos livreiros independentes fazem com que para eles seja impossível, por não dizer suicida, ter livros de Gabriel García Márquez. E eu me encontrei então diante desta situação fabulosa: o único livro de García Márquez disponível em La Madriguera del Conejo, os Contos completos, estava na edição mexicana de Diana; outras livrarias, como Casa Tomada, importavam edições de bolso espanholas para atender à demanda; na livraria Prólogo pude comprar Eu não vim fazer um discurso, cujos direitos na Colômbia não são da Norma, mas sim da editora Mondadori.
A única livraria que pode aceitar estas condições –além dos supermercados e os quiosques de vários tipos– é a Livraria Nacional, uma rede cujo poder é incontestável. Ali pude encontrar os livros de García Márquez, mas encontrei na única edição disponível na Colômbia: uma coleção de livros feios, baratos e negligenciados, cujo objetivo primordial são os estudantes. Na Colômbia é impossível encontrar uma edição bem cuidada –uma capa dura e um bom papel, isso para não falar de uma edição crítica– do escritor colombiano mais importante (e sim, mais lido) de todos os tempos. Da próxima vez que você for à Espanha, ao México ou a Buenos Aires, aproveite para comprar livros de García Márquez. Não se sabe quando vai precisar dar um presente.



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Evelio Rosero / Prece por um Papa envenenado / Uma evocação literária-vaticana

Evelio Rosero
Bogotá, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas

Evelio Rosero

Prece por um Papa envenenado 

Uma evocação literária-vaticana

Evelio Rosero, autor colombiano, reflete sua admiração pelo papa João Paulo I em ‘Prece por um Papa envenenado’

         

O Papa Luciani, João Paulo I. / GIANNI GIANSANTI (CORBIS)
Era quase uma promessa. Quase Evelio Rosero (Bogotá, 1958) tinha se proposto a não voltar a escrever outro romance histórico quando, há dois anos lançou La Carroza de Bolívar,uma história ambiciosa que se centrou em desmitificar a figura do Libertador. “Senti que era como uma camisa de força ter que depender de dados históricos”, diz. Preferia —prefere— a folha em branco, trabalhar com a imaginação. Mas a casualidade costuma surpreender. Agora, o escritor colombiano resgata a figura de João Paulo I em Prece por um Papa envenenado (na tradução livre), um livro lançado na Espanha ainda sem edição em português.
E foi por casualidade que Rosero se encontrou, em uma livraria de Bogotá, com o primeiro pontífice que nasceu no século XX. Queria ler biografia e se deparou com Em nome de Deus, uma investigação de David A. Yallop publicada em 1984. A história é bastante conhecida: Albino Luciani apareceu morto nas dependências do Vaticano no dia 26 de agosto de 1978, apenas 33 dias após ter sido eleito Papa. Mas o trabalho de Yallop cativou o escritor. Trata-se de “uma investigação séria, que reflete com argumentos incontroversos a respeito da morte de Luciani, além de sua vida e pensamento, questiona e denuncia o papel da Igreja católica, a cúria e a máfia italiana, responsáveis pelo envenenamento”.
Esta não é a primeira vez que o tema dos Papas e da Igreja aparecem na obra deste escritor que começou a ter importância internacional quando seu romance Os Exércitos ganhou em 2006 o prêmio Tusquets de Romance e depois se alçou com o Independent Foreing Fiction Prize em 2009 e o ALOA Prize, em 2011. Seu romance Los Almuerzos, que foi publicado na Colômbia em 2001 e na Espanha em 2009 (sem edição em português ainda), narra a história de uma pequena paróquia em Bogotá, e em outro conto longo que se chama Ausentes, o personagem central é Paulo VI e sua visita à capital colombiana em 1968.


Evelio Rosero, autor de 'Prece por um Papa'. / GIANNI GIANSANTI (CORBIS)
“Estudei em colégios religiosos até que me rebelei no ensino médio”, lembra. Talvez por essa rebeldia, o pontificado de Luciani passou sem pena nem glória pela vida de Rosero. Quando anunciaram que havia morrido envenenado, ele tinha 20 anos, estava apaixonado e nem se abalou.
O novo romance de Evelio Rosero mostra Luciani “como a humilde cura da mais humilde paróquia”, visitador de doentes, de prisioneiros, que fugiu —enquanto pôde— de viver em luxuosos apartamentos, que advogava pelos pobres, um sonhador, “um pobre homem acostumado a pequenas coisas e ao silêncio”, que chamava os fiéis de irmãos e não de filhos. “E o imolaram, na mesma noite em que ele varria os traficantes do templo de Jesus”. Uma história que avança no meio de um coro de prostitutas —“são elas as que narram, as que repreendem e debocham do autor”—, onde Luciani enfrenta homens poderosos como o bispo Marcinkus, diretor do Banco do Vaticano.
Há quem tenha visto neste romance de Rosero alguém parecido com o que hoje o mundo conhece como Papa Francisco. E pode ser, mas Rosero adverte que quando terminou da escrever, nem sequer Ratzinger havia renunciado. “O Papa Francisco é muito opaco comparado com Luciani, que propunha realmente mudanças fundamentais na Igreja e que são as que eu menciono no romance, como aceitar o anticoncepcional, o bebê de proveta, pretendia que as mulheres pudessem exercer o sacerdócio, fazer uma Igreja para os pobres, lhes destinar uma parte de sua riqueza. Isso é algo que Francisco mencionaou mas sem fazer ainda nada de verdade”.


Capa do novo livro de Evelio Rosero, 'Prece por um papa envenenado', um elogio à figura histórica de João Paulo I.
Há mais uma coisa em João Paulo I que seduziu Evelio Rosero: “Acho que ele era na realidade um escritor e é uma lástima que tenha sido envenenado porque a meu modo de ver é possível que ainda estivesse escrevendo”. Luciani publicou um livro com cartas imaginadas a escritores, poetas e dramaturgos como Twain, Péguy, Casella, Dickens e Marlowe, que também aparecem no romance do escritor colombiano. Há outro livro,Briznas de catequesis, em que ele dedica um capítulo inteiro ao Papa. “Temo que interromper o romance possa parecer dissonante, mas corro o risco porque me parecia importante que ficasse a lição dada por Luciani”. E uma das razões é a preocupação do Papa italiano com a pedofilia. “Quantos pedófilos foram castigados? Pelo contrário, a Igreja os protegeu, jogou terra em cima do assunto. Luciani era consente disso”.
Mas seu romance está longe de ser um ataque frontal aos erros da Igreja. “Não sou visceral com a Igreja. disse que é possuidora de grandes pensadores que levaram a mensagem de Cristo, mas isso também é contra-atacado pela presença de outros hierarcas que buscaram o enriquecimento”.
Rosero se dedica agora aos seus leitores. Se não escreve, lê, anda de bicicleta, e, embora não tenha muitos amigos,  se encontra com frequência com eles —“Assim estou me preparando para assumir o trabalho de outro livro”—. Quando chegar esse momento voltará aos seus cadernos, porque é ali que imagina, constrói, e escreve, onde realmente é cômodo para ele. “Meu trabalho autêntico é escrever”, diz e assegura que, ao final, o que importa ao leitor é o livro e não o que passa por trás do livro.