Mostrando postagens com marcador Miguel de Cervantes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Miguel de Cervantes. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de junho de 2019

Cervantes / ‘Dom Quixote’ e seus números





‘Dom Quixote’ e seus números

O cálculo mental que Sancho faz perto do fim da segunda parte do livro é só um exemplo de como Cervantes completava seus personagens com os mínimos detalhes


MONTERO GLEZ
17 FEV 2019 - 18:58 COT

Sabe-se que Albert Einstein lia Dom Quixote. Era o romance que levava em suas viagens e sempre o tinha em sua mesa de cabeceira. Sentia atração pelo personagem cervantino; um fidalgo de La Mancha para quem a cavalaria era “uma ciência que encerra em si todas ou a maior parte das ciências do mundo”.

Para Einstein, por sua vez, a literatura não seria apenas uma maneira de se relacionar com o acaso, mas também uma forma de se identificar com a matemática pura, que ele definiu, em sua forma, como a poesia das ideias lógicas.
De um ponto de vista sempre criativo, Einstein manteve sua falta de respeito por estruturas rígidas. Fez isso da maneira quixotesca, criando a irreverente Academia Olímpia com um grupo de amigos. Uma irmandade com rituais típicos dos romances de cavalaria, da qual o cientista foi nomeado presidente.
Da forma como correram as coisas, pode-se dizer que a aventura científica de Einstein foi quixotesca, já que teve de enfrentar os moinhos do mundo acadêmico de sua época. “Agora eu também sou um membro oficial da guilda das prostitutas”, escreveu em uma carta, depois de conseguir seu cargo de professor na Universidade de Zurique.
Quixotismos à parte, é possível que, levado por sua condição científica, Albert Einstein tenha se indagado alguma vez sobre a velocidade das pás dos moinhos que aparecem no romance de Cervantes. É possível, inclusive, que tenha feito cálculos sobre o valor da força normal entre Rocinante e o solo de La Mancha, que, ao ser tão horizontal, coincidiria com o peso do cavalo somado aos ossos de seu cavaleiro, no momento exato de investir contra os gigantes. Certamente Einstein analisava os episódios do romance a partir das abstrações propostas pelas leis da física. É possível também que gostasse da maneira rústica que Sancho Pança tinha de fazer operações aritméticas.






Ilustração de Gustave Dourei para 'O Quijote'.
Ilustração de Gustave Dourei para 'O Quijote'.


O cálculo mental que Sancho faz quase no fim da segunda parte do livro nos mostra que Cervantes era um autor que completava seus personagens com os mínimos detalhes. Neste caso, Quixote propõe a seu escudeiro que defina um preço para cada açoite com que deve punir a si mesmo. Sancho responde “um quartilho”, ou seja, a quarta parte de um real para cada açoite. Fazendo contas, Sancho diz que não ganhará menos de três mil e trezentos quartilhos. Em seguida, expõe seu cálculo mental, separando milhares de centenas, os três mil dos trezentos, para depois começar a fazer metades e meias metades, o que resulta em um jogo numérico:
(3.300 : 4) = (3.000 + 300) : 4 = (3.000 : 4) + (300 : 4) = 750 + 75 = 825
“São ao todo oitocentos e vinte e cinco reais”, replica Sancho, esperando chegar à sua casa com o dinheiro, “rico e contente, embora bem açoitado”.
O romance de Cervantes não está repleto somente de questões aritméticas como a citada, mas também algébricas, geométricas e inclusive lógicas. Serve como exemplo o famoso paradoxo do enforcado, quando chega até Sancho, governador da ínsula Barataria, um forasteiro com uma história que, no fim, contraria toda a lógica por apresentar duas opções iguais em relação à sua possibilidade.
Segundo o forasteiro, um rio dividia duas partes de um mesmo terreno, e sobre esse rio havia uma ponte e uma forca. A lei dizia que se alguém queria atravessar a ponte tinha de dizer primeiro, sob juramento, aonde ia e o que ia fazer. Se dizia a verdade, era autorizado a passar. Se mentia, morria enforcado.
Então, aconteceu que um homem foi cruzar a ponte jurando que ia morrer naquela forca. Se sua passagem fosse liberada, teria mentido em seu juramento e, por mentir, deveria ser enforcado. Mas, se fosse enforcado, teria dito a verdade e, por isso mesmo, por dizer a verdade, deveria ter ficado livre.
Sancho acabou deixando o homem com vida. Fizesse o que fizesse, se o enforcasse ou se o deixasse livre, em qualquer dos dois casos, Sancho violaria a lei.
Por isso, teve uma saída lógica na qual demonstrou sua habilidade na hora de resolver o paradoxo. A mesma lógica que combinou com astúcia no caso do açoitamento. Em vez de atingir seu corpo, açoitou o tronco de uma árvore.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Os livros que muito poucos conseguem terminar



Os livros que muito poucos conseguem terminar

O autor Nick Hornby propõe queimar os livros que se leem por pura pose



1.- O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
No episódio A Pequena Garota no “Big Ten”, da 13ª temporada de Os Simpsons, a pequena Lisa quer se fazer passar por estudante universitária. Em uma cena, bisbilhota o armário de uma estudante e descobre este grande romance. A conversa das duas é a seguinte: “Você está lendo O Arco-Íris da Gravidade?”, pergunta-lhe a pequena Simpson. “Bom, estou relendo”, responde a estudante. A brincadeira, e o fato de que apareça nessa série, resume até que ponto esse e outros romances do autor mais misterioso da literatura americana alcançaram o status de literatura ilegível. Não para todos, claro. É famoso o caso do professor George Lavine, que cancelou suas aulas para se recolher durante três longos meses de 1973 com o único objetivo de devorá-lo. Quando saiu de sua reclusão, afirmou que Pynchon era o melhor que havia acontecido para as letras americanas do século XX.

2.- Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski
Não adianta muito que se possa ler como um thriller psicológico e torturado que não se resolve até o último parágrafo. Talvez por seu título, que alguns consideram aplicável ao que representa sua escritura e sua leitura, poucos se atrevem a criticar os delírios de Raskolnikov, ou os abandonam na sexta manifestação de tormento.

3.- Guerra e Paz, de Leon Tolstói

Outro exemplo da literatura russa, que se costuma colocar neste tipo de lista com piadas como: “Lamentavelmente, não cheguei nem ao primeiro disparo da guerra”. Embora muitos o considerem uma leitura trepidante ambientada durante a invasão napoleônica da Mãe Rússia, eles prefeririam ver a versão cinematográfica. Carrega o estigma recorrente de que ler para os russos é complicado e mais cansativo que escalar algum pico dos Urais. Seu autor o escreveu convalescendo, depois de quebrar um braço ao cair de um cavalo. Alguns leitores declaram, neste tipo de debate, ter se sentido assim durante sua leitura.

4.- Orgulho e Preconceito, de Jane Austen
Outro romance que esconde pistas em seu título. Alguns leitores terminam de lê-lo pelo primeiro elemento, por orgulho, enquanto outros nem se aproximam dele por causa do segundo, por puro preconceito. É um festival de murmúrios e vaivéns românticos, inclusive cômicos, mas o leitor contemporâneo frequentemente se cansa das tensões sexuais que celebra, entretanto, nas comédias da televisão. Esse leitor pouco paciente não é o único. O gênio Mark Twain chegou a declarar: “Cada vez que leio Orgulho e Preconceito, tenho vontade de desenterrar [a autora] e golpeá-la no crânio com sua própria tíbia”.
5.- A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne
Foi publicado por volumes durante oito anos. O autor morreu antes que se publicasse como romance; de fato, muitos especialistas consideram a obra inacabada depois de tantas páginas. O livro pretende ser a autobiografia do narrador, que se perde em digressões e rodeios infinitos e hilários, mas não adequados para todos os gostos. É uma peça fundamental da narrativa moderna e cômica, mas o fato de que o protagonista não nasça até o terceiro volume não ajuda muita gente a aguentar manter o livro nas mãos. Talvez prefiram a adaptação de Michael Winterbottom, embora seja uma adaptação pouco fiel, como não poderia deixar de ser.
6.- A Divina Comédia, de Dante
O poema escrito por Dante Alighieri no século XIV pertence ao grupo dos que talvez enganem o leitor desprevinido pelo título. Crucial na superação do pensamento medieval e ácido como um limão nos olhos graças aos comentários sobre sua época, foi até adaptado em um monólogo por Richard Pryor. No entanto, muitos ficam na primeira parte (intitulada Inferno) ou não passam pela segunda, o Purgatório, e muito menos terminam a última, batizada de Paraíso.

 7.- Moby Dick, de Herman Melville
Se o protagonista de outro relato deste autor, Bartleby, o Escrivão – esse advogado nova-iorquino entediado, entre outras coisas, com seu trabalho – diz aquilo de “Preferiria não fazer isso”, muitos leitores adotam essa frase quando encaram o romance definitivo de Melville. Não compartilham a obsessão cega do Capitão Ahab por caçar a baleia e se enjoam com a primeira tormenta em alto mar. Não estão sozinhos, apesar da legião de fãs que realmente vibram com o livro. Em uma recente reedição em castelhano desta obra, o autor do prólogo inclui uma saborosa curiosidade. O músico Moby (sim, aquele que faz canções que saem em oitenta anúncios) admite que, embora tenha adotado esse pseudônimo, jamais terminou de ler o romance porque lhe parece “muito longo”. Uma pista: esse músico calvo se chama, na verdade, Richard Melville. Seu tio-bisavô é o consagradíssimo autor.
8.- Paradiso, de José Lezama Lima
As mais de 600 páginas desta espécie de romance de aprendizagem, exuberante em sua prosa como uma árvore repleta de frutos, são um inferno para muitos leitores. Muitos resolvem abordar a formação do poeta José Cemí aconselhados por Julio Cortázar, um autor fundamental para muitos adolescentes, do qual tentam devorar todas suas pistas, mas a linguagem personalíssima e o longo alcance afugentam uma altíssima porcentagem do público de um dos principais romances em castelhano do século XX. É mais curioso ainda quando se sabe que o autor é cubano, já que os cubanos geralmente são pouco dados a introspecções. Na narrativa latino-americana, apesar do recente culto global a Roberto Bolaño, também se costuma brincar com 2.666, do escritor chileno, que não alcança esse número de páginas, mas tem mais de mil.
 9.- As Aventuras do Bom Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek / Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes
O mesmo bufo de tédio e desinteresse nas salas de aula checas e espanholas. E o pior é que ambos são emitidos pela obrigação de ler dois dos romances mais divertidos e delirantes da história. Duas histórias pitorescas com dois anti-heróis absolutamente inesquecíveis que carregam o problema de ser o clássico mais aplaudido de ambos os países. Seu problema? Obrigar alunos imberbes com os feromônios disparados a mergulhar em suas numerosíssimas páginas para transformá-los em “um livro de La Mancha – ou de Praga – do qual não quero me lembrar”. No entanto, quando lidos mais tarde, são mais viciantes que um saquinho de pipocas ou que a série de TV com maior audiência.
10.- Graça Infinita, de David Foster Wallace
 É curioso que um romance que trata, entre outras coisas, do vício e do colapso da cultura do entretenimento desanime tantas pessoas. Suas mais de mil páginas – centenas delas são notas de rodapé – o convertem em um dos livros pós-modernos fundamentais na história da literatura, mas também fazem com que muitos acreditem que seu depressivo autor, que acabou se suicidando, tenha escrito, efetivamente, uma espécie de piada infinita sem graça. Os leitores atuais traçam uma linha no chão e formam dois grupos: aquele dos que amam o livro e aquele dos que o odeiam.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Shakespeare e Cervantes, essa é a questão

Ilustração de Ana Juan.
400 ANOS DA MORTE DE DOIS GÊNIOS

Shakespeare e Cervantes, essa é a questão

A coincidência da morte de dois gigantes da literatura incentiva a busca por identidade comum


ALBERTO MANGUEL
16 ABR 2016 - 14:15 COT



Ampliar foto
.



Nossa aptidão para ver constelações de estrelas distantes entre si, e geralmente mortas, aparece em outras áreas de nossa vida sensível. Agrupamos em uma mesma cartografia imaginária marcos geográficos diferentes, feitos históricos isolados, pessoas cujo único ponto em comum é um idioma ou um aniversário compartilhado. Criamos circunstâncias cujas explicações podem ser encontradas apenas na astrologia ou na quiromancia, e a partir dessas assombrações, tentamos responder a velhas perguntas metafísicas sobre o azar e a sorte. O fato de que as mortes de William Shakespeare e Miguel de Cervantes sejam quase coincidentes faz com que não apenas associemos os dois personagens singulares em comemorações oficiais obrigatórias, como também busquemos nesses seres tão diferentes uma identidade em comum.
Do ponto de vista histórico, suas realidades foram notoriamente distintas. A Inglaterra de Shakespeare transitou entre a autoridade de Isabel e a de Jaime, a primeira de ambições imperiais e a segunda de preocupações internas, características que se refletiram em obras como Hamlet e Julio César, por um lado, e em Macbeth e O Rei Lear, por outro. O teatro era uma arte menosprezada na Inglaterra: quando Shakespeare morreu, depois de ter escrito algumas das obras que hoje em dia consideramos universalmente imprescindíveis para nossa imaginação, não houve cerimônias oficiais em Stratford-upon-Avaon, nenhum de seus contemporâneos europeus escreveu uma elegia em sua homenagem, e ninguém na Inglaterra propôs que fosse sepultado na abadia de Westminster, onde jazem escritores célebres como Edmund Spenser e Geoffrey Chaucer. Shakespeare era (segundo seu quase contemporâneo John Aubrey) filho de um açougueiro, e quando era adolescente, gostava de recitar poemas diante dos perturbados matadouros. Foi ator, empresário teatral, cobrador de impostos (como Cervantes) e não sabemos com certeza se alguma vez viajou para outro país. A primeira tradução de uma de suas obras apareceu na Alemanha, em 1762, quase um século e meio depois de sua morte.

O espanhol do autor de Dom Quixote é despreocupado, generoso, esbanjador. Importa mais o que conta que como o conta

Cervantes viveu em uma Espanha que estendia sua autoridade sobre a parte do Novo Mundo a que tinha direito pelo Tratado de Tordesilhas, com a cruz e a espada, decapitando “um número infinito de almas”, disse o padre Las Casas, para “inchar-se de riquezas em um curto espaço de dias e elevar-se a estados muito altos e sem proporções de seu povo” com a “insaciável cobiça e ambição que tiveram, que foi maior do que o mundo poderia ser”. Com sucessivas expulsões de judeus e árabes, convertendo-os em seguida, a Espanha tentou inventar uma identidade cristã pura para si própria, negando a realidade de suas raízes entrelaçadas. Em tais circunstâncias, Dom Quixote foi um ato subversivo, com a entrega da autoria do que seria a obra-prima da literatura espanhola a um mouro, Cide Hamete, e com o testemunho do mourisco Ricote denunciando a infâmia das medidas de expulsão. Miguel de Cervantes (conta ele mesmo) foi “soldado por muitos anos e preso durante cinco anos e meio. Perdeu a mão esquerda com um tiro de mosquete na batalha de Lepanto, uma ferida que, embora pareça feia, foi tratada como bela”. Teve missões na Andaluzia, foi cobrador de impostos (como Shakespeare), ficou preso em Sevilha, foi membro da Congregação de Escravos do Santíssimo Sacramento, e mais tarde, noviço da Terceira Ordem. Quixote tornou-o tão famoso que, quando escreveu a segunda parte, disse ao bacharel Carrasco, e sem exageros, “que tenho para mim que atualmente foram impressos mais de doze mil livros dessa história; senão, diga isso a Portugal, Barcelona e Valência, onde eles foram impressos; e ainda há boatos de que está sendo impresso na Antuérpia, e para mim se verifica que não haverá nação ou língua em que ela não será traduzida”.

Dom Quixote desenhado por Robert Smirke para uma tradução inglesa de 1818. O pintor britânico ilustrou tanto a novela de Cervantes quanto os dramas de Shakespeare.


A língua de Shakespeare havia chegado ao seu ponto mais alto. A confluência das línguas germânicas e latinas e o riquíssimo vocabulário do inglês do século XVI permitiram que Shakespeare alcançasse assombrosas extensão sonora e profundidade epistemológica. Quando Macbeth afirma que sua mão ensanguentada “faria púrpura do mar universal, tornando rubro o que em si mesmo é verde”, (“the multitudinous seas incarnadine / Making the green one red”), os lentos epítetos multissilábicos latinos são contrapostos aos bruscos e contundentes monossílabos saxões, ressaltando a brutalidade do ato. Instrumento da Reforma Protestante, a língua inglesa foi submetida a um severo escrutínio pelos censores. Em 1667, na História da Real Sociedade de Londres, o bispo Sprat alertou sobre os perigos sedutores dos extravagantes labirintos do barroco e recomendou o retorno à primitiva pureza e brevidade da linguagem, “quando os homens comunicavam um certo número de coisas em um número igual de palavras”. Apesar dos magníficos exemplos do barroco inglês - sir Thomas Browne, Robert Burton, o próprio Shakespeare, claro -, a Igreja anglicana exigia exatidão e concisão, que permitiriam aos eleitos o entendimento da Verdade Revelada, como havia feito a equipe de tradutores da Bíblia por ordem do rei Jaime. Shakespeare, no entanto, conseguiu ser milagrosamente barroco e exato, expansivo e escrupuloso ao mesmo tempo. A acumulação de metáforas, a profusão de adjetivos, as mudanças de vocabulário e de tom aprofundam e não diluem o sentido de seus versos. O talvez famoso demais monólogo de Hamlet seria impossível em espanhol porque exige escolher entre o ser e o estar. Em seis monossílabos ingleses, o príncipe da Dinamarca define a preocupação essencial de todo ser humano consciente; Calderón, no entanto, precisa de 30 versos espanhóis para dizer a mesma coisa.

O mestre de Avon conseguiu ser milagrosamente barroco e exato, expansivo e escrupuloso ao mesmo tempo

O espanhol de Cervantes é despreocupado, generoso, esbanjador. Ele se importa mais com o que conta do que com como conta, e menos com como conta do que com o puro prazer de alinhavar palavras. Frase após frase, parágrafo após parágrafo, é na fluência das palavras que viajamos pelos caminhos de sua Espanha empoeirada e difícil, e seguimos as violentas aventuras do herói justiceiro e reconhecemos os personagens vivos de Dom Quixote e Sancho. As inspiradas e sinceras declarações do primeiro e as vulgares e não menos sinceras palavras do segundo cobram vigor dramático na enxurrada verbal que as arrasta. Essencialmente, a máquina literária inteira de Dom Quixoteé mais verossímil, mais compreensível, mais vigorosa que qualquer uma de suas partes. As citações cervantinas extraídas de contexto parecem quase banais; a obra completa é talvez o melhor romance que já foi escrito e o mais original.
Se quisermos ceder ao nosso impulso associativo, podemos considerar esses dois escritores como opostos ou complementares. Podemos ver um deles à luz (ou à sombra) da Reforma e o outro da Contrarreforma. Podemos ver um deles como mestre de um gênero popular e de pouco prestígio e o outro como mestre de um gênero popular e de prestígio. Podemos vê-los como iguais, artistas empregando os métodos à disposição para criar obras iluminadas e geniais, sem saber que eram iluminadas e geniais. Shakespeare nunca reuniu os textos de suas obras teatrais (a tarefa ficou a cargo de seu amigo Bem Jonson), e Cervantes estava convencido que sua fama dependeria da Viagem de Parnaso, e de Persiles e Sigismunda.

O riquíssimo vocabulário do inglês do século XVI permitiu a Shakespeare uma extensão sonora e uma profundidade epistemológica assombrosas

Esses dois monstros se conheceram? Podemos suspeitar que Shakespeare ouviu falar de Dom Quixote e que o leu, ou leu ao menos o episódio de Cardenio, que converteu em uma peça que hoje em dia está perdida; Roger Chartier investigou detalhadamente essa tentadora hipótese. A resposta provavelmente é não, mas, se o encontro aconteceu, é possível que nenhum dos dois tenha reconhecido o outro como uma estrela de importância universal, ou que simplesmente não admitiram outro corpo celeste de igual intensidade e tamanho nas suas órbitas. Quando Joyce e Proust encontraram-se, trocaram três ou quatro banalidades, Joyce queixou-se de suas dores de cabeça, e Proust de suas dores no estômago. Talvez tenha acontecido algo semelhante com Shakespeare e Cervantes.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Descobertos em Sevilha quatro textos inéditos sobre Cervantes

Miguel de Cervantes


Descobertos em Sevilha quatro textos inéditos sobre Cervantes

Os documentos provam que o romancista permitiu que seu salário fosse entregue a uma mulher, desconhecida em sua biografia


MARGOT MOLINA
Sevilha 11 AGO 2014 - 12:42 COT

O trabalho, quase detetivesco, de um arquivista de La Puebla de Cazalla, um município da planície sevilhana, na Espanha, iluminou aspectos desconhecidos da biografia de Miguel de Cervantes. A descoberta de quatro documentos inéditos em diferentes arquivos traz novos dados sobre seu trabalho como arrecadador da Fazenda Real e a possibilidade de que houvesse uma quarta mulher em sua vida.
José Cabello Núñez, encarregado do Arquivo Municipal de La Puebla de Cazalla, encontrou por acaso, há três anos, um manuscrito de 5 de março de 1593 no qual Cervantes era inscrito na Prefeitura de La Puebla como comissário de víveres da Armada Real, a pedido do fornecedor da frota das Índias, Cristóbal de Barros. O trabalho do romancista era arrecadar trigo e cevada para abastecer a frota de Felipe II. “O documento é importante porque confirma que Cervantes esteve em La Puebla, algo que era desconhecido até agora, e o relaciona pela primeira vez com Cristóbal de Barros, o armador que construiu os navios que participaram da batalha de Lepanto, na qual Cervantes também lutou, além de ser fornecedor geral para os galeões da Armada e a frota do caminho das Índias”, segundo comentou nessa segunda-feira o pesquisador que descobriu o primeiro manuscrito entre os milhares de documentos de La Puebla de 1543 a 1894, depositados no Arquivo do Distrito Notarial de Morón de la Frontera.

“Por ordem e mandato de Cristóbal de Barros, fornecedor dos galeões da armada das Índias, veio para esta vila Miguel de Cervantes Sayabedra para tributar os vassalos desta vila para o fornecimento dos ditos galeões (...) combinamos e acertamos com o dito comissário que lhe daremos cento e trinta ‘fanegas’ (medida de capacidade) de trigo e vinte ‘fanegas’ de cevada, com o qual se contenta e satisfaz toda a repartição que esta vila poderia fazer”, diz o documento guardado no Arquivo Notarial de Morón.
“Todos esses documentos se conservaram graças à uma ordem do século XIX que obrigou a Prefeitura de La Puebla a depositar todos os documentos notariais em Morón [como capital da região], uma vez que o resto do arquivo de La Puebla foi queimado durante a Guerra Civil. Em 2002, para comemorar o quinto centenário da outorga da carta para La Puebla de Cazalla pelo conde de Ureña, todos os documentos foram microfilmados e eu os fui lendo e classificando durante os últimos anos”, explica Cabello Núñez, que a partir desse primeiro descobrimento começou a seguir um caminho que o levou a localizar outros três documentos relacionados com o pai do romance moderno, que passou 10 anos na província de Sevilha, de 1587 a 1597, quando a capital andaluza era uma das cidades mais importantes do mundo.
A relação do romancista com Cristóbal de Barros levou Cabello Núñez até o Arquivo Geral das Índias de Sevilha, onde encontrou um lavramento de Barros fechado em novembro de 1593 no qual ordenava o pagamento de um salário de 19.200 maravedis, “uma quantidade bastante digna para a época”, diz o pesquisador, por 48 dias de serviço como “comissário” da Fazenda Real recolhendo tributos em vários municípios da província de Sevilha. “No Arquivo das Índias também localizei outro documento que reconhece que Cervantes realizou esse serviço entre 21 de fevereiro e 28 de abril de 1593. Mas, na minha opinião, a descoberta mais interessante é a procuração que encontrei no Arquivo de Protocolos Notariais de Sevilha, no qual Cervantes outorga uma procuração para Magdalena Enríquez, uma mulher que nunca antes havia aparecido relacionada com o escritor, para receber seu salário. O documento é o único dos quatro que está assinado por ele”, afirma o arquivista municipal, que escreveu dois artigos, ambos ainda sem publicação, nos quais relaciona todo o trabalho dos últimos anos.

O romancista outorgou uma procuração para Magdalena Enríquez, uma confeiteira de Sevilha, para que recebesse seu salário

“Tudo isso abre as portas para novas investigações que poderão dar mais luz à biografia do autor de Dom Quixote. Até o momento era conhecida a existência de três mulheres importantes em sua vida: Ana Franca de Rojas, com a qual teve uma filha natural chamada Isabel de Saavedra; Catalina de Salazar y Palacios, com quem se casou em 1584, e Jerónima Alarcón, uma sevilhana de quem Cervantes aparece como fiador e pagador de algumas casas em 1589”, esclarece o pesquisador.
“Desta mulher, Magdalena Enríquez, sabemos somente que era confeiteira e natural de Sevilha. Ela fazia os biscoitos, esse pão sem levedura que era cozido duas vezes para que durasse meses, com os quais os barcos eram abastecidos antes de zarpar para a América. Ela devia ser viúva, pois de outra forma não poderiam ter feito uma procuração em seu nome, e ter algum tipo de relação com Cervantes quando ele assinou uma procuração para receber seu salário, já que deveria partir para uma nova tarefa e não poderia esperar o pagamento”, explica Cabello Núñez.