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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Gay Talese desautoriza seu livro mais recente por falta de credibilidade


Gay Talese desautoriza seu livro mais recente por falta de credibilidade

O escritor afirma que não confia mais em sua fonte do livro-reportagem ‘The Voyeur’s Motel’


Cristina F. Pereda
Washington, 1 jul 2016

O que prometia ser a reportagem do ano já não é mais. O escritor norte-americano Gay Talese, autor de The Voyeur’s Motel (O motel do voyeur) admitiu na quinta-feira que não vai promover o livro com o mesmo título por ter perdido a confiança na principal fonte de sua história. Um fragmento da obra, publicado na revista The New Yorker, causou um grande impacto no começo deste ano com a surpreendente história do dono de um hotel que tinha espionado seus hóspedes durante décadas.




“Gerald Foos não é confiável. É um homem desonesto, totalmente desonesto”, declarou na quinta-feira Talese ao jornal The Washington Post. “Fiz o que pude neste livro, mas pode ser que não tenha sido o suficiente”.
Entrar em The Voyeur’s Motel era avançar através de um labirinto de surpresas incômodas, incluindo o papel do autor. Talese tinha sido procurado por Gerald Foos, um homem que reconhecia ter remodelado seu hotel para criar um teto falso nos quartos e poder catalogar as práticas sexuais de seus hóspedes. Admitiu ter feito isso durante décadas. Para verificar, Talese foi visitá-lo no motel nos arredores de Denver (Colorado), durante três dias. Uma noite espiaram um casal juntos.
Tanto Talese quanto os editores do livro e da revista The New Yorker, confiaram em uma única fonte desta história: Foos. Mas assim que a história foi publicada, muitos meios de comunicação tentaram amarrar as pontas soltas na reportagem. O The Washington Post, por exemplo, tentou verificar se o hotel realmente pertencia ao protagonista durante os anos em que afirmava ter espionado casais. A história de Talese baseia-se em um catálogo com anotações durante décadas cuja veracidade foi recentemente questionada pelo Post.
O jornal afirma em uma entrevista exclusiva quase tão picante quanto a reportagem original que na última quarta-feira mostrou ao autor os registros demonstrando que o hotel foi vendido logo após sua visita ao Colorado. Isso questiona qualquer afirmação de que Foos conservava acesso aos quartos a partir daquele momento.
“Não vou mais fazer a divulgação meu livro. Como posso fazer isso se a sua credibilidade acaba de ser jogada no lixo?”, diz o autor, de 84 anos, ao Post. “Nunca deveria ter acreditado em uma palavra que ele me falou”. Talese explicou no texto publicado no começo do ano que a história tinha vindo à tona depois chegar a um acordo econômico pelo qual Foos recebeu dinheiro em troca de permitir o acesso a seus diários.
A data de publicação do que ainda pode ser um dos livros do ano é 12 de julho. O impacto inicial de The Voyeur’s Motel foi tão grande que Steven Spielberg comprou os direitos para transformá-lo em filme. Estava justificado: Talese é um dos jornalistas norte-americanos mais respeitados das últimas décadas dentro e fora de seu país. Apesar de ter admitido na reportagem que não tinha conseguido resolver todas as discrepâncias na versão oferecida por Foos, a natureza da história do voyeur prendia qualquer leitor forçando-o a deixar de lado as dúvidas morais até o momento de fechar a revista.
Quando Talese já tinha repassado o catálogo de hábitos sexuais dos hóspedes do motel, revela uma das histórias mais chocantes do texto. Foos alega ter sido testemunha da morte por estrangulamento de uma mulher em um dos quartos, mas não chamou a polícia. Talese tampouco. O escritor afirma no texto que não conseguiu confirmar nos arquivos públicos esse homicídio, mas atribuiu a uma incongruência nos dados registrados.
Talese trouxe à luz os possíveis crimes cometidos, de espionagem até omissão no assassinato às autoridades ou sua possível cumplicidade no voyeurismo de Foos, 36 anos depois, quando já tinham prescrito. As investigações do Postagora revelam que Foos não só não era o dono do motel naquela época, mas, ao contrário do que havia afirmado anteriormente, nem tinha acesso aos quartos que espionava e o novo proprietário, além disso, tinha reformado o teto falso ao qual supostamente tinha acesso.
Aqueles que pensaram no começo do ano que o escândalo estava completo, erraram. Dias antes da publicação de toda a história, The Voyeur’s Motel acaba de acrescentar mais um capítulo na que pode ser a polêmica do ano.


domingo, 3 de julho de 2016

Gay Talese / O barulho do Twitter ofusca a reportagem do ano


Gay Talese

O barulho do Twitter ofusca a reportagem do ano

Gay Talese narra a história real de um ‘voyeur’ que reformou um motel para espiar os clientes


Cristina F. Pereda
Washington, 11 abr 2016

O escritor norte-americano Gay Talese descobriu, na semana passada, como é estar no meio de uma tempestade de críticas nas redes sociais. Primeiro, declarou durante uma conferência em Boston que não se lembrava de nenhuma escritora que o tivesse influenciado na juventude, no início de sua carreira. Depois, um artigo do The New York Times contava que ele perguntou a uma repórter afroamericana se iria “fazer as unhas” depois da entrevista e “quando e por que” tinha sido contratada pelo jornal.

O alvoroço durou mais de 24 horas e incluiu um comunicado da defensora do leitor do Times por ter publicado uma peça visivelmente favorável ao escritor, a correspondente avalanche de mensagens no Twitter em defesa de escritoras e jornalistas e contra a discriminação, além de iniciativas para recomendar autoras que Talese deveria ler.
Mas nenhuma dessas mensagens fazia referência à última publicação do escritor, uma reportagem ao mesmo tempo aterradora e desconcertante na revista The New Yorker que antecipa seu próximo livro. The Voyeur’s Motel [O Motel do Voyeur] conta a história de Gerald Foos, um homem que contatou Talese para contar que comprou um motel de beira de estrada no Colorado, construiu um teto falso para poder espiar os quartos e catalogou as práticas sexuais dos hóspedes durante décadas. Só duas pessoas sabiam desse ataque à privacidade: a mulher do voyeur e Talese. O escritor chegou a visitar o motel e espiar um casal junto com o proprietário.
A Internet podia ter pegado fogo nos últimos dias debatendo se Talese foi cúmplice de um delito, onde estão os limites éticos do jornalismo ou os valores de um dos jornalistas mais admirados e respeitados dos Estados Unidos. No segundo semestre, o escritor de 84 anos publicará um livro baseado na valiosa informação compartilhada por Foos, o voyeur, que também recebeu pelas diárias. Quando o conteúdo vir à luz, 36 anos depois, talvez já tenha prescrito qualquer dos crimes em que os dois possam ter incorrido.


Gay Talese / “Fazer reportagens é muito mais interessante do que inventar histórias”

Gay Talese
Gay Talese

“Fazer reportagens é muito mais interessante do que inventar histórias”

O jornalista e escritor Gay Talese narra em 'Unto the sons' a mudança de sua família para Nova Jersey


EDUARDO LAGO
Nova York 13 JUN 2014 - 17:02 COT

Fundador nos anos 1950 de uma nova forma de entender o jornalismo, com a aplicação das técnicas próprias da criação literária à reportagem, Gay Talese (Ocean City, Nova Jersey, 1932) é autor de cerca de dez de títulos que reduzem efetivamente a distância entre as duas formas de entender a escrita e imprimem ao que faz um caráter de permanência só é aplicável à verdadeira criação literária. Sua forma de abordar os temas é inigualável devido ao insólito de sua perspectiva. Entre suas obras, estão a crônica esportiva sob o ponto de vista do ídolo derrotado (O silêncio do herói), a máfia retratada em sua intimidade (Honra teu pai), ou a sexualidade explorada a partir do lado mais distante da respeitabilidade social (A mulher do próximo). Autor de um livro de memórias fascinante (Vida de escritor), acaba de ser publicado em espanhol Unto the sons (ainda sem edição no Brasil), crônica da mudança de sua família calabresa para Nova Jersey.
“Acima de tudo, é uma história sobre a imigração, que continua sendo o tema mais candente nos Estados Unidos, onde há uma estranha mistura de rejeição e aceitação em relação aos imigrantes, contradição que dá o que pensar. As pessoas se esquecem de onde vêm.”
Gay Talese, fotografado em Ocean City (Nova Jersey).
 / 
CHRISTOPHER FELVER

Como em todos os livros de Talese, o processo de gestação foi extremamente lento: “É algo que aprendi com meu pai. Ele demorava uma eternidade para terminar um terno. Cada movimento da linha e da agulha era um episódio em si. Sinto a mesma coisa. Comecei a pesquisa para esse livro especificamente em 1956, na Biblioteca do Vaticano, onde estavam todos os documentos sobre o Reino das Duas Sicílias. Depois fui ao povoado dos meus pais, na Calábria, uma aldeia que atende pelo nome de Maida. Em Unto the sons não conto a história de Dante ou Da Vinci, mas de uma legião de camponeses pobres, supersticiosos e ignorantes. Essas são as minhas origens.”




Unto the sons conta a mudança de sua família calabresa para Nova Jersey

— E como era o lugar?
— Foi como se me transportasse ao século XV. As pessoas se deslocavam em mulas, as cabras viviam dentro de casa, as mulheres levavam cântaros na cabeça e dormia-se em colchões de palha.
Tudo em Unto the sons tem duas caras, duas histórias, duas perspectivas, separadas pela experiência da imigração, marcadas pela travessia do Atlântico. O livro presta extrema atenção, além dos personagens familiares, a uma casta que governa à sombra as ações de homens e mulheres: a máfia, assunto ao qual Talese dedicou um livro memorável.




A imigração continua sendo o tema mais candente nos Estados Unidos”

E essa sombra é projetada de forma diferente quando se muda de continente? “Não. As pessoas não se dão conta, mas na verdade Unto the sons e Honra teu pai são livros gêmeos. Seria possível dizer inclusive que são o mesmo livro. O fio condutor somos nós dois, o filho do alfaiate e o filho do gângster. Temos a mesma idade e experiências muito parecidas. Nossos pais imigraram para a América no mesmo ano, com uma diferença importante: meu pai não se deu bem e Joe Bonnano, sim. Ganhou muito dinheiro, tinha carros caros, inclusive seus ternos eram mais elegantes. Eles se conheceram por meu intermédio e se tornaram amigos.”
Sobre o livro paira o fantasma da Segunda Guerra Mundial, acontecimento que marcou a vida de Gay Talese, dando forma à sua sensibilidade de modo irreversível. Como pano de fundo, a sombra sinistra do fascismo, que o futuro jornalista não chegaria a compreender totalmente até que conheceu os familiares que tinham lutado ao lado de Mussolini. “Durante minha adolescência, em Ocean City, e no início de minha juventude, era tudo muito confuso. Não entendia bem o que acontecia com meu pai. Durante o dia, na alfaiataria, estava com os aliados, mas à noite ele ouvia com preocupação os boletins de rádio e simpatizava com os fascistas. Quando ouviu a notícia do bombardeio de Monte Cassino, ficou arrasado. Só consegui entender bem aquilo quando conheci meus tios, na Calábria, e os entrevistei. A história está no início do livro. Tinha passado minha vida toda vendo as fotos deles, exibindo o uniforme do fascio. Quando os conheci eram um velhos camponeses que tinham passado muitos anos prisioneiros, depois da guerra, no Norte da África e na Polônia”.




Escrevi ficção apenas uma vez na minha vida. Em 1966, um conto”

Por mais que se atenha estritamente aos fatos, quando se lê Talese a sensação é a de estar dentro de um mundo totalmente imaginário. Nunca tentou escrever ficção? “Uma única vez, em 1966. Escrevi um conto. Fui um péssimo aluno. Me dava muito mal com meus professores. Tive uma professora de literatura que era lindíssima, acredito que estava apaixonado por ela, mas a odiava porque sempre me suspendia. Então escrevi um conto no qual me imaginei taxista em Nova York. Um dia ela está na calçada e dá sinal. Eu abaixo a aba do boné para que não me reconheça e a observo pelo retrovisor. Tem de ir ao aeroporto e está muito nervosa porque está atrasada e me diz isso, e eu digo que não se preocupe, mas em vez de levá-la ao aeroporto pego todos os tipos de desvios e no fim ela perde o avião. Na cena final ela está irritadíssima e eu abro a porta e tiro o boné para que ela perceba quem sou. O título é A vingança. Publiquei em uma revista e gostaram. Na verdade, meus editores pediram que eu escrevesse mais contos, mas não quis. Escrever reportagens me parece algo muito mais interessante do que ficar inventando histórias.”




Meu mestre foi [o repórter do ‘New Yorker’] Joseph Mitchell”

Gay Talese evoca com entusiasmo, mas sem nostalgia, o mundo do jornalismo quando chegou a Nova York nos anos 1950: “Havia sete jornais, três tabloides (o New York News, o Daily Mirror e o Daily News) e então o New York Times, o Herald Tribune, o World Telegram e o Sun. O colunista americano mais famoso dos anos 1950 era Walter Winchell. Ninguém se lembra dele, mas na época era um deus. Mas meu mestre foi Joseph Mitchell. Publicou uma reportagem magistral na New Yorker sobre os ratos de Manhattan. Dizia que nunca tinha entrevistado ninguém mais inteligente do que eles. Era um gênio [risos]”.