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terça-feira, 12 de maio de 2020

Morre Little Richard, grande pioneiro do rock n’ roll



Little Richard, em um estúdio de gravação em 1959.
Little Richard, em um estúdio de gravação em 1959.MICHAEL OCHS ARCHIVES 

Morre Little Richard, grande pioneiro do rock n’ roll

Criador do “A-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom” e fundador do gênero nos anos cinquenta, com Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, sai de cena aos 87 anos


El País
9 May 2020

Richard Wayne Penniman, conhecido como Little Richard, faleceu neste sábado aos 87 anos. Afetado por problemas de saúde há anos e vítima de vários ataques cardíacos, a morte daquele que é considerado um dos três pais do rock ao lado de Chuck Berry e Jerry Lee Lewis foi confirmada pelo filho à revista Rolling Stone, embora a causa não tenha sido mencionada.

Little Richard (1932, Macon, Geórgia) conquistou os jovens dos anos cinquenta com singles como Tutti Frutti (1956), seguido por uma esmagadora lista de sucessos: Long Tall Sally Rip It Up no mesmo ano, Lucille, um ano depois e Good Golly Miss Molly em 1958. “Acho que meu legado deve ser exatamente esse, quando comecei no show business, não havia parecido ao rock‘n’roll. Quando lancei Tutti Frutti foi quando o rock começou a atacar”, disse em uma entrevista em 2013, quando anunciou a aposentadoria.

Little Richard, em um show no intervalo de u m jogo de futebol americano da NFL em 2004.
Little Richard, em um show no intervalo de u m jogo de futebol americano da NFL em 2004.ANDY LYONS / AFP


Sempre crítico em relação ao seu lugar na história, Richard tinha muito claro que o nascimento do rock‘n’roll se deveu ao fato de que os brancos o terem tirado da comunidade negra e não tinha qualquer inibição de afirmar, como fez em Gijón em 2005: “Fomos nós, os negros, que criamos o rock‘n’roll. Elvis era incrível, mas ele não foi um criador. Não quero dizer com isso que fosse pior, mas os autênticos criadores do rock‘n’roll. foram negros. Agora está acontecendo o mesmo com Eminem e o rap, que é outro estilo também criado pelos negros”.

Embora sempre tenha se sentido um pouco menosprezado, Little Richard, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis romperam regras e abriram caminho para mitos como Elvis Presley, os Beatles, que sempre reconheceram sua influência, e os Rolling Stones. Para a memória ficam muitas canções e seu famoso grito de guerra: “A-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom”.


domingo, 10 de maio de 2020

Little Richard / O músico que libertou a música dos tabus



Little Richard



Little Richard

O músico que libertou a música dos tabus

Pioneiro do gênero, idolatrado pelos Beatles a David Bowie, inspirou uma geração que sem ele não teria trilhado o caminho da liberdade pregado pelo rock n’roll



Diego A. Manrique
09 May 2020

O rock n’roll, quando se manifestou em meados da década de cinquenta, trazia promessas de libertação. No entanto, Little Richard, que morreu neste sábado aos 87 anos, já tinha sido libertado quando os holofotes se voltaram para ele. Nascido em Macon, no Estado da Geórgia (EUA), em 1932, cresceu em uma família numerosa com fortes crenças religiosas. Exuberante demais para um meio tão pacato, foi expulso de casa quando ainda era adolescente. E não voltou até completar vinte anos, depois do assassinato do pai, quando teve de contribuir com o orçamento familiar, mesmo que fosse lavando pratos na rodoviária de Macon (por outro lado, um bom lugar para paquerar, reconheceu).

Little Richard


Naqueles dias, um homossexual podia se integrar sem problemas ao submundo dos “medicine shows” (espetáculos em que charlatães vendiam “remédios milagrosos”) e das casas noturnas mais libertinas do chamado chitlin’ circuit. Gravou discos avulsos para a RCA e a Peacock quando ainda não tinha um estilo definido: para conseguir essa diferenciação foram essenciais os ensinamentos de Esquerita, um selvagem do piano vindo da Carolina do Sul, que também dominava as artes da maquiagem, dos penteados e da indumentária de fantasia.

Richard Wayne Penniman tinha uma banda própria eficaz, os Upsetters, mas o selo californiano Specialty exigiu que gravasse em Nova Orleans. Lá, no agora mítico estúdio de Cossimo Matassa, sob a direção de Bumps Blackwell, com instrumentistas que trabalhavam regularmente para Fats Domino, aconteceu uma espécie de fusão nuclear: Tutti Frutti (1956), com seu delirante grito de “A-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom”, que mais tarde daria título a um livro memorável de Nik Cohn.

Little Richard


Tutti Frutti foi ofuscada, como era habitual então, pela versão asseptizada de um cantor branco, Pat Boone. Mas entre 1956 e 1957 Little Richard estava incandescente: a cada poucas semanas lançava singles irresistíveis, frequentemente reforçados por lados B ―Slippin’ and Slidin, Ready Teddy― que também alcançaram enorme popularidade. Seus shows eram terremotos e algo disso se nota em Sabes o que Quero, um filme disparatado que misturava Jane Mansfield com algumas das figuras do emergente rock n’roll. Sem explicitá-lo, pregava a possibilidade de ser sexualmente diferente. Do outro lado do Atlântico, um futuro camaleão, David Bowie, entendeu imediatamente a mensagem.


Tudo mudou de rumo em 1957, em uma turnê pela Austrália, quando durante um voo noturno achou que tinha visto uma luz celestial ―segundo seus companheiros, poderia ser o combustível do próprio avião ou inclusive do Sputnik soviético― algo que interpretou como uma mensagem divina que o instava a se arrepender dos pecados e voltar à música de igreja. A verdade é que a gravadora continuou lançando avassaladoras canções profanas, como Good Golly Miss Golly e Oh My Soul. Somente em 1959, depois de se formar pregador batista em uma escola no Alabama e de se casar com Ernestine Harvin, começou a gravar gospel. Sem muita sorte, apesar de ter produtores como Jerry Wexler e Quincy Jones.

Os Beatles o salvaram da irrelevância. Idolatrado especialmente por Paul McCartney, os ingleses interpretaram temas dele (ou que haviam descoberto em sua voz, caso de Kansas City). Pouco a pouco Little Richard entendeu que podia ganhar a vida no nascente circuito da nostalgia, onde só precisava recriar seus sucessos e exagerar seus maneirismos. Não tolerava concorrentes: desistiu dos serviços guitarrísticos de um ainda desconhecido Jimi Hendrix por sua espetacularidade cênica. Anos depois, tampouco teria conexão com Prince, que era visualmente seu descendente.

Little Richard




Mas Little Richard acreditava ser capaz de fazer música do momento, especialmente soul. Embora não tenham ocupado o topo das paradas se sucesso, durante os anos sessenta e início dos setenta, já instalado em Los Angeles, fez grandes canções com Don & Dewey, Johnny Guitar Watson, H. B. Barnum, Don Covay e ―o mais perigoso de todos― Larry Williams. Como contaria em sua fantasiosa biografia, Quasar of Rock, é quase um milagre que Richard e Williams tenham evitado sérios aborrecimentos com policiais, traficantes e amantes despeitados.

Houve recaídas nas drogas e em sua muito flexível religião, até que em meados dos anos oitenta estabeleceu-se em Hollywood. Conseguiu fazer pontas em filmes de sucesso e se transformou em algo como o pastor favorito das celebridades, especializado em unir casais em matrimônio, com ambientação de rock n’roll. Podia entender melhor as extravagâncias dos milionários californianos do que os jogos do glam rock a partir da identidade sexual. De fato, durante temporadas detestou seu papel de ídolo gay: “Fazia isso para que os brancos aceitassem que era capaz de comover suas namoradas”.

Diante da indiferença do mercado, abandonou a gravação de discos, mas não os shows. Pude vê-lo em ação em um festival realizado em Gijón (Espanha) em 2005, quando esgotou a paciência dos organizadores ao exigir as chaves de uma igreja onde pudesse rezar em solidão. Para ir do camarim até o palco pediu um carro de luxo que chacoalhava por um terreno montanhoso, sem estradas. É verdade que, uma vez que encarou o público, parecia entrar em combustão. Como seus espectadores, que sentiram seus corpos renascerem. Esse era o verdadeiro prodígio do reverendo Penniman.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Posters / Bohemian Rhapsoy / 2018





Posters
Bohemian Rhapsody
2018
Directed by: Dexter Fletcher / Bryan Singer
Starring: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy
















terça-feira, 13 de junho de 2017

Roger Waters / “The Wall ainda é um ato de protesto”



Roger Waters

“The Wall ainda é um ato de protesto”

Ex-líder do Pink Floyd recupera em um filme o show sobre o lendário disco


PABLO GUIMÓN
24 JUN 2015 - 10:28 COT

The Wall pegou a estrada pela primeira vez em 1980 e revolucionou a escala e a ideia do que poderia ser um show de rock. Em 1982, transformou-se em filme cult nas mãos de Alan Parker e Bob Geldof, que fazia o papel do jovem e atormentado Pink.
Waters deixou o Pink Floyd em 1985 e brigou na Justiça com David Gilmour e Nick Mason pelos direitos da marca e do material. Perdeu os direitos sobre o Pink Floyd, mas ficou com os do álbum The Wall. Em 21 de julho de 1990, oito meses após a queda da Cortina de Ferro, o álbum foi reencarnado em um show de grandeza épica, realizado em Berlim, com o qual o Olimpo do rock quis demolir o muro cultural entre os dois blocos. Naquela noite, The Wall transcendeu os muros da música.
Em 2010, um Waters sessentão embarcou com o The Wall em uma turnê mundial estratosférica por três anos, que terminou documentada em um novo filme. Intitulado Roger Waters The Wall e codirigido pelo cantor e Sean Evans, estreou no ano passado no Festival de Toronto e chega aos cinemas de todo o mundo em setembro. As entradas já estão à venda.
Ao longo de toda essa história, curiosamente, o sentido do próprio disco foi mudando. Em um hotel em Londres, Roger Waters (Surrey, Reino Unido, 1943) conversa com o EL PAÍS sobre como uma confissão íntima acabou se transformando em um grito contra qualquer abuso de poder.

Pergunta. Já parou para pensar sobre a ironia de que The Wall, que surgiu de sua frustração com o grande público e as turnês, tornou-se, 35 anos depois, um dos maiores espetáculos ao vivo de todos os tempos?





Estou em um lugar muito diferente daquele do miserável e fodido Roger, de muitos anos atrás. Agora estou mais feliz com o público e comigo mesmo"

Resposta. Minha relação com o público mudou em um dia de 1999. Depois de deixar o Pink Floyd, fiz algumas turnês sozinho. Eram tempos muito difíceis. Eu estava brigando com meus ex-colegas pelo nome da banda, foi uma dessas épocas que constroem o caráter. Decidi parar por um momento. Então Don Henley [do The Eagles] me convidou para participar de um show beneficente com ele, Neil Young e John Fogerty. Aceitei e foi maravilhoso. O público escutava. Não era como antes, quando todos gritavam uns com os outros, bebendo cerveja, pediam outra rodada aos gritos enquanto você tinha que tocar. Odiava aquilo. Mas nesse show vivi novamente esse grande sentimento de amor e pensei que poderia voltar para a estrada. Anos depois me propus a fazer The Wall.
P. Como se monta um show como este?
R. A primeira coisa que fiz foi chamar Mark Fisher, que morreu há dois anos, de repente e infelizmente. Tinha trabalhado com ele em 1977 no espetáculo Animals e depois em todas as grandes turnês. Com ele comecei a fazer infláveis, aeronaves e Deus sabe mais o que. Disse a ele que queria voltar para a estrada com The Wall. Ele começou a rir. "Parece uma loucura?", perguntei. Me disse que não. Sugeri fazer algo com telas, mas ele respondeu que, se fosse para fazer, tinha que ser como antes. Tinha que construir um muro e derrubá-lo. Imediatamente soube que era verdade.
P. O que você ainda tem do personagem Pink?
R. Estou em um lugar muito diferente daquele do miserável e fodido Roger, de muitos anos atrás. Agora estou muito mais feliz com o público e comigo mesmo, apesar de menos feliz com o que está acontecendo no mundo.


P. De que maneira?





Tenho uma boa lembrança de Berlim, mas também havia a angústia e a responsabilidade de encontrar uma maneira de aquilo funcionasse. E não funcionou economicamente"

R. The Wall é ainda um ato de protesto. É muito menos sobre a história do garoto e sua perda e mais sobre a preocupação de todas as pessoas que perdemos em guerras. No final do dia, todos nós podemos ser efeitos colaterais, que é um eufemismo para pessoas inocentes mortas. The Wall é hoje uma peça sobre qualquer pessoa que sofre em qualquer conflito.
P. Por que ainda é relevante?
R. Ainda não aprendemos a proteger este pequeno planeta do desastre. Falo da mudança climática, dos oceanos, mas não só isso. Após a Segunda Guerra Mundial, pensávamos que os países ocidentais tinham uma coisa chamada democracia, que faria tudo funcionar. Mas temos que perceber que existem agora outras forças que são mais poderosas do que essa antiga ideia grega. Dinheiro, ganância, o lado escuro da natureza humana... é uma batalha intensa e difícil, que estamos perdendo.
P. O que o famoso show em Berlim, após a queda do Muro, significou para o The Wall?
R. Tentei separar, porque foi muito diferente como espetáculo, independentemente do contexto histórico. Em primeiro lugar, porque havia mais artistas. E em segundo lugar, porque foi incrivelmente complexo em termos de finanças. Tenho uma boa lembrança, mas também [havia] a angústia e a responsabilidade de encontrar uma maneira de que aquilo funcionasse. E não funcionou economicamente.
P. O que diferencia este filme do de Alan Parker?
R. É uma declaração muito poderosa, mas muito diferente daquela. Falta a parte mais narrativa. Em Goodbye Blue Sky, por exemplo, em vez de uma animação sobre a guerra, há símbolos caindo. É mais sutil, mas talvez mais político.
P. De fato irritou muita gente.
R. Você não pode fazer omeletes sem quebrar ovos. Reclamaram que havia imagens em sequência da estrela de David e o símbolo do dólar caindo do avião. Disseram que eu era antissemita, que sugeria que os judeus estão obcecados com o dinheiro. E não queria dizer isso. Então mudei aquilo, não afetava o que queria dizer.
P. Sempre montou sua obra a partir de álbuns. Agora parece que as pessoas não consomem obras tão longas e complexas.
R. Se você fosse a um show veria que havia jovens. Captou a atenção deles e não estavam entediados. Estou trabalhando em outra peça agora com um conceito completamente diferente, espero conseguir esse efeito.






Alguém tem que apostar em você nos primeiros anos, quando você vende 10.000 ou 20.000 discos. Spotify é uma piada, não pagam nada aos artistas"

P. Do que se trata?
R. Não posso explicar com detalhes. É sobre um avô e seu neto tentando responder à pergunta de por que crianças são mortas.
P. O Pink Floyd foi retomado em 2005. Acredita que podem voltar a se reunir? Como é sua relação com Gilmour?
R. Olha, não falo com David desde... Não me lembro quando. Já Nick e eu somos bons amigos, sempre fomos. Mas não, não haverá uma reunião do Pink Floyd. Isso é história e foi ótimo. Que sorte tive de estar nessa banda! Com Syd [Barrett] no começo. Sem ele não teríamos sequer começado. Fizemos grandes álbuns juntos. Estou feliz por ter estado com eles e no momento em que era possível fazer discos. Quando pessoas como eu iam a uma loja e compravam um disco. Porque agora só querem roubá-lo.
P. Acha que não seria possível uma banda como Pink Floyd agora?
R. Não. Alguém tem que apostar em você nos primeiros anos, quando você vende 10.000 ou 20.000 discos. O Spotify é uma piada, não paga nada aos artistas. Você tem que ter milhares de streams para ganhar 20 dólares. Isso é ridículo. Talvez tenha que pegar a estrada para defender ao vivo meu próximo trabalho. Porque vou te dizer o que não vou fazer: não sei se vou dá-lo para o Spotify para que o ofereça de graça.
Roger Waters The Wall, dirigido por Roger Waters e Sean Evans, estreia nos cinemas de todo o mundo em 29 de setembro. As entradas já estão à venda em: www.rogerwatersthewall.com
EL PAÍS



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Roger Waters / “Não se ganha nada construindo muros. Só os idiotas fazem isso”


Roger Waters

Roger Waters

“Não se ganha nada construindo muros. Só os idiotas fazem isso”

Crítico com o mundo que vivemos, gênio criativo do Pink Floyd chega aos 73 anos com um novo disco solo


JOSEBA ELOLA
10 JUN 2017 - 13:18 COT







Roger Waters na gravação do discoAmpliar foto
Roger Waters na gravação do disco SEAN EVANS


Guerras pavorosas. Guerras que expulsam pessoas de suas terras, que matam, que destroem famílias. Não é de se estranhar que as guerras continuem tão presentes nas músicas do britânico Roger Waters. Seu pai morreu na Segunda Guerra Mundial. Seu avô, na Primeira.


Aquele garoto que cresceu sem um pai continua muito vivo dentro desse homem de 73 anos. 
O gênio criativo do Pink Floyd, o homem sofredor que se esgoela levado por suas obsessões, o esquerdista crítico com a ordem estabelecida, o de letras pungentes, está de volta. E se passaram 25 anos. Sim, é verdade, há 12, em 2005, escreveu uma ópera, Ça Ira, uma raridade em sua longa trajetória. Mas desde 1992, data de seu último disco de rock solo, não trazia uma nova coleção de músicas. 
Voltas e voltas, round and round. A vida dá voltas, já escrevia em ‘Us and Them’, pérola do mítico álbum The Dark Side of the Moon (1972), que catapultou os Floyd à fama, ao reconhecimento mundial. Isso de dar voltas, no seu caso, se confirma. Quando na segunda metade dos anos oitenta, após deixar o grupo, Waters brigava com seus colegas para que não pudessem usar o nome Pink Floyd sem que ele estivesse no projeto, David Gilmour e Nick Mason pareciam os donos do legado da banda: eram eles que andavam por todas as partes cantando Money. Mas o tempo o devolveu a Waters.Após percorrer o mundo com a turnê mais bem-sucedida da história de um artista solo – 220 apresentações entre 2010 e 2013, mais de 458 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais) arrecadados –, a que realizou retomando The Wall, obra do Pink Floyd fundamentalmente composta por ele, retorna agora com Is This the Life We Really Want?, editado pela Columbia (Sony Music), um disco de aroma maduro, lembrando bastante os do Pink Floyd dos setenta, desses que transmitem a sensação de que o apocalipse espreita, mas que ainda existe um raio de luz que passa por uma fresta da persiana. Um disco que viaja do ruído da sociedade da informação, desse barulho em vivemos instalados, à intimidade oferecida por um momento de paz embalado pelo som cálido de um violão. Que fala da guerra, dos refugiados, de uma sociedade guiada pelo medo, do silêncio e da indiferença de tantos diante do que está acontecendo.





O Pink Floyd em 1968
O Pink Floyd em 1968 GETTY

Em uma manhã ensolarada e limpa em Nova York, Waters entra com passadas firmes em uma sala de estúdios de gravação próximos ao parque Madison Square Garden e se acomoda em uma poltrona diante da mesa de mixagem. Às vezes, os anos favorecem as pessoas. Aquele garoto feioso das capas dos anos setenta é hoje um homem atraente que quase lembra, guardadas as devidas proporções, Richard Gere. Camiseta negra, calça jeans azul justa, botas negras, olhar azul, George Roger Waters (Great Bookham, Surrey, Reino Unido, 6 de setembro de 1943), o Lennon do Pink Floyd, dispara com língua afiada quando fala de política e menciona sem reservas sua dura infância quando fala de si mesmo. Conversa pausadamente, pronunciando todas e cada uma das sílabas com um inglês muito british que não foi contaminado com o sotaque americano, mesmo morando já há vários anos na cidade dos arranha-céus.
Pergunta. O senhor escreve sobre a guerra desde 1968. Em seu novo disco, fala de pessoas que morrem em guerras distantes. Isso se deve ao fato de o seu pai ter morrido na Segunda Guerra Mundial?
Reposta. A guerra está presente porque está sempre aí. Mas, sim, pode ser que isso ocorra pelo fato de eu ter uma empatia especial com as vítimas. E isso talvez tenha a ver com o fato de que mataram meu avô e meu pai nas duas guerras mundiais. Meu avô morreu em 24 de setembro de 1916 e seu filho, em 18 de fevereiro de 1944. Por isso, talvez tenha a ver com essa agonia gerada pela perda e que milhões de pessoas estão sofrendo com isso no mundo todo.
“Escrever alivia. Compartilhar um sentimento e mostrar-se diante dos demais pode ser catártico. Você se expõe à aprovação, ao ridículo”
P. Em 17 de fevereiro de 2014, você visitou o local onde o pai morreu, a 30 quilômetros de Roma, conduzido por um veterano de guerra, Henry Schindler. O que descobriu nessa viagem?
R. Toda a viagem, a visita ao jardim do memorial, ver o nome de meu pai inscrito na pedra, tudo isso me fez entender a dimensão da necessidade de eu conquistar a aprovação dessa pessoa que mal conheci, pois eu era muito pequeno quando ele morreu. Mas eu o admirava e o respeitava por causa das histórias e lendas que minha mãe contava sobre ele. Comprovei como ele era e é importante para mim. Certa vez, depois de um show, um veterano se aproximou de mim, olhou-me bem nos olhos, pegou minha mão e disse: “Seu pai estaria orgulhoso de você”. Fiquei sem palavras. Emocionou-me muito ouvir aquele homem dizer aquilo.
P. Quem ele era?
R. Era um veterano do Vietnã. Costumo convidá-los para os shows. Fiz isso na turnê de The Wall. Convido-os e fico com eles no intervalo do concerto para cumprimentá-los. Aparecem ali homens feridos, homens com queimaduras.
P. O que representou para o senhor crescer sem um pai?
R. Você passa toda a vida fazendo trejeitos toda vez que está com outro homem, tenta impressioná-lo. Fiz isso desde que era pequeno, faço desde então.

P. Essa ausência influiu no fato de se tornar músico, na necessidade de escrever canções?
R. Provavelmente. A verdade é que não sei de onde vem a escrita, é algo completamente misterioso. Mas a necessidade infinita do tapinha no ombro, a busca de um pai “bem certo” tem sido uma constante na minha vida.
P. As canções o ajudaram a se impor às guerras interiores, às suas batalhas consigo mesmo?
R. Sim, estou certo de que é assim. Às vezes, explico as coisas a mim mesmo e para os outros por meio da música ou da poesia...
P. Ou seja, escrever canções alivia...
R. Sim, escrever alivia, é gratificante. Compartilhar um sentimento ou mostrar-se diante dos demais pode ser catártico. Você se expõe à aprovação, ao ridículo. E com muita frequência as pessoas respondem com amor, empatizam se você expressa um sentimento que reconhecem. Nunca contei isto a ninguém, mas muitas vezes na minha vida disse a mim mesmo: “por que não lhe falei?” É frequente a gente falar com alguém e guardar algo porque está preocupado com qual será a resposta. Minha experiência é que não compartilhar, tentar ocultar aspectos negativos sobre si, não se arriscar a contar, não admitir algo que você fez porque acha que te retirarão o amor é quase sempre uma má decisão.


P. Bem, às vezes, contar o que se passa com a gente pode ferir o outro...
R. Sim, é verdade. A vida é complexa.
P. O senhor foi contestador desde muito pequeno. De onde procede essa veia contra a autoridade?
R. Vivi um incidente na creche quando tinha dois ou três anos. Havia um brinquedo, um caminhão vermelho doado pelos americanos, um triciclo. Um dia me sentei em cima e minhas calças rasgaram. Uma moça que trabalhava na creche decidiu que tinha de costurá-las, assim, tirou-as de mim à força. Eu me senti como se estivessem me violando. Resisti e briguei com ela com toda a força que tinha meu pequeno corpo, mas ela era forte demais para mim.
P. Você tinha dois ou três anos e se lembra do incidente?
R. Perfeitamente, é uma lembrança muito forte. Eu me senti vítima dessa bovina errante que não entendia meus sentimentos, os de uma criança. Vivenciei vergonha, humilhação. Posso ter uma ideia do que deve ser alguém estuprar a gente, de tão intenso que foi. Eu gritava como um possesso. Tinha enorme sensação de desamparo.
“Marine Le Pen, o maldito Nigel Farage e Donald ‘Maldito’ Trump se enganam. Temos que acolher os refugiados compreender de onde vêm”

P. E essa sensação de desamparo o acompanhou na escola?
R. Basta que te aconteça uma vez para que você se preocupe com que volte a suceder. E assim foi, já adolescente, durante um fim de semana com a Cadet Force, uma espécie de versão júnior do Exército, ou da Marinha. Estávamos em um barco, em uma estação naval no norte da Inglaterra. Uma noite me ocorreu algo similar. Um grupo de rapazes me atacou. É algo que costumavam fazer. Te assaltavam no meio da noite, baixavam as suas calças e colocavam betume nas bolas. A há há.
P. Daí o “We don’t need no education” [não necessitamos de educação’, verso da arquifamosa ­Another Brick in the Wall, de Pink Floyd]…
R. Alguém me mostrou um desenho que fiz, que agora está na exposição do Pink Floyd do Victoria and Albert Museum, de Londres, onde aparece um professor apontando um menino pequeno e lhe dizendo: “Você é patético. Nunca chegará a ser nada”.
P. Sério?
R. Assim nos tratavam na escola. Lembro-me de pessoas que supostamente era professores que escreviam na lousa: “Isto é lixo”. Atacavam ad hominem as crianças, eram uns sacanas. Não todos, havia gente muito decente, mas alguns eram uns porcos.
P. Ou seja, você não passou muito bem nos anos da escola...
R. Oh, não, odiei cada minuto do colégio.



Primeiros anos da banda britânica
Primeiros anos da banda britânica  REDFERBS

P. Depois estudou arquitetura. Em que momento decidiu que queria ser músico?
R. Quando tinha 14 ou 15 anos. Parecia a única possibilidade de ganhar dinheiro ou de conseguir dormir com alguém [risos].
P. Era tão difícil assim naqueles tempos?
R. Sim. A outra opção era ganhar nas apostas esportivas. Lembro-me que eu trabalhava como arquiteto em 1967, mas logo nos tornamos músicos profissionais e tive de deixar o estúdio em que trabalhava. Durante anos vivemos com nada, quase não ganhávamos dinheiro. Pouco a pouco fomos tendo mais sucesso, fazendo shows por todo o país, aprendemos a fazer discos. E finalmente conseguimos fazer um que era realmente bom, The Dark Side of the Moon, que foi um grande êxito. O resto é história.
P. O que representou para você, no auge do Pink Floyd, a saída de Syd Barrett [o primeiro líder da banda, vítima do consumo de LSD] do grupo?
R. Foi muito sofrido. Eu o conhecia desde pequeno. Ficou louco. De repente, a pessoa que era meu amigo, um garoto encantador e com muito talento, parecia um zumbi... A banda tinha tido sucesso graças a ele, compunha todas as canções. Foi devastador. E também muito desgastante. Quando você se apoia em alguém que é seu amigo e ele de repente desaparece, fica a sensação de que isso pode ser o final de tudo. Foi muito dolorido e estranho, mas conseguimos superar. E representou uma grande mudança. Todos nós nos vimos obrigados a compor. Eu já tinha escrito um par de canções quando ele ainda estava na banda, por isso já estava claro que tinha algumas ideias para expressar. Quando ele se foi tive de ser quem passou a criar tudo.
P. O que aprendeu de sua fase no Pink Floyd e, em particular, daqueles anos em que se separaram, em meados dos anos oitenta?
R. Não acho que tenha aprendido muito nesses anos [ri]. A gente aprende com os erros que comete com as mulheres. Muito. Ou pelo menos eu aprendi. Muito.
“Não creio ter aprendido muito com a ruptura do Pink Floyd. A gente aprende com os erros que comete com as mulheres. Ou pelo menos eu aprendi. Muito”
P. Sério?
R. Sim. Cometi erros muuuuito graves. Mas no final você aprende a ser mais honesto consigo mesmo. Como dizíamos antes, o pior é esconder. E o amor é transcendental. Se você se entrega, vão te ferir, mas também você crescerá e experimentará alegria. Se você não se abre ao amor, você murcha e morre. Também aprendi que não devemos estar abertos só ao amor carnal, a estar com uma mulher para o sexo ou para formar uma família. Você tem que ser capaz de estar com as pessoas que precisam de você, com outros seres humanos. Assim, quando alguém se apresenta às portas da sua fronteira, cheio de pó, porque teve de viver onde lhe coube viver, você tem que lhe dar abrigo. Marine Le Pen, o maldito Nigel Farage e Donald Maldito Trump se enganam. Temos que acolher os refugiados, compreender as sociedades de onde vêm, suas convicções religiosas; temos que abrir espaço em nosso coração para os outros. Nada se ganha construindo muros, apontando para os outros e dizendo: “Nós somos os bons e esses são os maus”. Isso só fazem os idiotas. E fazem isso diariamente, a todo o momento, inventam histórias para apoiar sua visão, nisso consiste a propaganda. Isso é o que têm em comum com Joseph Goebbels. Ele se deu conta de que isso funcionava, e funciona, infelizmente. Por isso é preciso resistir.
P. Você agora mora nos Estados Unidos, um país em que Donald Trump venceu...
R. Ganhei, Ganhei, Ganhei [diz, imitando a voz de Trump]
P. … E os impostos que paga serão destinados a incrementar os gastos militares. Como vivencia isso?
R. É terrível
P. Você veio viver aqui...
R. Vim por meu filho, o menor de meus filhos, depois de um divórcio. Minha esposa era americana e trouxe meu filho, por isso eu o segui...
P. E como se sente?
R. Estou feliz aqui, agora. Encontrei uma boa mulher [ri]. Bem, já está, acho que assim temos que deixar.