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sábado, 27 de julho de 2013

Lêdo Ivo / Esconderijo


Lêdo Ivo
ESCONDERIJO

A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta


Lêdo Ivo
Poesía completa
Rio de Janeiro, Braskem, 2004, p. 615





sexta-feira, 26 de julho de 2013

Lêdo Ivo / O plagiário


Lêdo Ivo
O PLAGIÁRIO

O espelho plagia
a paisagem que entra
pela janela aberta.


Lêdo Ivo
Poesía completa
Rio de Janeiro, Braskem, 2004, p. 614



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Lêdo Ivo / A uma dama hesitante


Lêdo Ivo
A UMA DAMA HESITANTE

Se a senhora aspira
a ser a musa eterna
do poeta, nâo hesite:
abra as pernas! abra as pernas!

Lêdo Ivo
Poesía completa
Rio de Janeiro, Braskem, 2004, p. 615


sábado, 16 de março de 2013

Lêdo Ivo / Lapa



Lêdo Ivo
LAPA


Esta noite o amor do mundo mira-se no espelho
da puta desdentada vestida de vermelho.


Lêdo Ivo
Poesia completa (1940 - 2004)
Rio de Janeiro, Topbooks Editora, 2004, p. 656







quarta-feira, 13 de março de 2013

Lêdo Ivo / Os pobres na estação rodoviária

George Segal
The Commuters, 1980
Port Authority Bus Terminal, NY, 2012
Foto de Triunfo Arciniegas

Lêdo Ivo
Os pobres na estação rodoviária


Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida na névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão e vêm, saltan e seguram malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidas nos guichês, sussurram palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê que doem na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns de eles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos lugares
mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

(A noite misteriosa, 1973-1982)

Lêdo Ivo
Poesia completa (1940 - 2004)
Rio de Janeiro, Topbooks Editora, 2004, p. 635






terça-feira, 12 de março de 2013

Lêdo Ivo / Marinha




Lêdo Ivo
MARINHA


O dia é negro
como teu púbis

Nesse negrume
acendo o lume

do meu desejo
e a noite raia

como um navio
na tua praia

Lêdo Ivo
Poesia completa (1940 - 2004)
Rio de Janeiro, Topbooks Editora, 2004, p. 820





domingo, 10 de março de 2013

Lêdo Ivo / A mancha irreparável



Fotografía de Oliviero Toscani

Lêdo Ivo
LA MANCHA IRREPARÁVEL



Teu púbis: a ovelha negra
no branco rebanho de teu corpo.


Lêdo Ivo
Poesia completa (1940 - 2004)
Rio de Janeiro, Topbooks Editora, 2004, p. 779