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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Era do cinema analógico chega ao fim depois de 125 anos

Artigo compartilhado do site FILMES E SEED, de 10 de maio de 2012

Era do cinema analógico chega ao fim depois de 125 anos

A invenção do rolo de celuloide deu início à história da imagem em movimento. Hoje, 125 anos mais tarde, chega ao fim a era da projeção analógica. E até as pequenas salas de cinema se curvam à tecnologia digital.

Oliver Hauschke, projecionista de um cineclube em Colônia, no oeste alemão, trabalha há 15 anos no setor, projetando em média 14 filmes por dia. Um trabalho árduo. "O filme é enviado em uma lata, dentro da qual ficam guardadas as partes do rolo de filme. Temos que 'colar' essas partes umas nas outras. Só para isso precisamos de uma hora", conta Hauschke.

Apertar o play

Já nas salas multiplex de cinema, a projeção digital já é padrão. No Cinenova, onde Hauschke trabalha, a nova tecnologia só foi inserida há pouco. Em uma das três salas do cineclube, os filmes terão projeção digital, sem os rolos de filme. Todos os procedimentos manuais tornaram-se supérfluos desde a inserção da tecnologia digital. Hauschke confessa sua satisfação e diz não ter problemas em se despedir dos velhos rolos de filme.

Já a projecionista e cineasta iniciante Nicole Wegner vê a coisa com outros olhos. Ela adora usar o equipamento antigo. "É ótimo ligar um projetor. Aí ele começa a crepitar e a luz se acende. É lindo. Agora, com a tecnologia digital, meu trabalho não é mais tão agradável", diz ela. Com a projeção digital, o filme chega em um disco rígido ou em forma de arquivo no servidor, que por sua vez está ligado ao projetor. O projecionista não tem muito o que fazer.

"É preciso apenas apertar o play e pronto. Tudo acontece automaticamente: as cortinas se abrem, a luz se apaga, o projetor é ligado e o filme começa. No final, tudo funciona automaticamente de novo, no sentido oposto", descreve Wegner.

A eterna rotina de colocar e tirar filmes, cortar e separar deixa os dedos sujos, relata Hauschke. Ele não tem mais vontade de trabalhar desta forma.

Já para Nicole Wegner, a profissão de projecionista sempre foi um ofício artesanal que, como todos os outros, deixa as mãos sujas. Mas ela também vê as vantagens da nova tecnologia. "Não poderia ter feito meu último filme se tivesse sido obrigada a rodar analogicamente. Eu tinha 80 horas de material bruto. Revelar isso tudo não seria praticável do ponto de vista financeiro", analisa a projecionista e cineasta.

"Queremos uma imagem perfeita?"

A fase de testes com o projetor digital no Cinenova, onde Hauschke e Wegner trabalham, transcorreu sem maiores problemas. "Foi ótimo quando pude testar a nova tecnologia pela primeira vez", conta Hauschke. Ele está absolutamente convencido da qualidade da projeção digital.

"A imagem é mais nítida que no rolo de 35 milímetros. E posso passar o filme várias vezes, sem que ele fique gasto. O rolo de filme vai ganhando riscos com as projeções frequentes e ficando mais opaco", fala o projecionista.

Já Wegner se pergunta se isso incomoda, de fato, o espectador: "Queremos uma imagem perfeita? Gosto da imagem que respira, da imperfeição dentro dela, quando o filme encalha, porque ali as partes foram coladas".

Os primórdios dos rolos de filme

A sujeira dos dedos dos projecionistas do futuro não teve ter sido algo em que o religioso norte-americano Hannibal Goodwin, que patenteou o celuloide há 125 anos, em 1887, tenha pensado. Sua invenção na época significou uma revolução, uma vez que as imagens, antes, só podiam ser gravadas em lâminas de vidro sensíveis à luz. Com o advento do celuloide, o filme se tornou praticamente infinito, já que passou a ser possível colar quantos filmes se quisesse uns nos outros. A sequência de 24 quadros por segundo é o que o olho humano registra como uma imagem fluida.

Mas foi o empresário George Eastman que conseguiu comercializar o celuloide de maneira bem-sucedida. O fundador da Kodak tornou a câmera com rolo de filme de celuloide acessível a qualquer pessoa. Em 1888, ele lançava no mercado a Kodak N°1 – câmera fotográfica compacta e leve. No entanto, o celuloide provou ser altamente explosivo e não foi mais usado desde os anos 1950. Desde então, passou-se a usar o rolo de filme de poliéster.

Peça de museu

A falência da Kodak no início deste ano foi o início do fim do filme de rolo. Embora haja até hoje filmes rodados em película de 35mm, a pós-produção é feita há anos com tecnologia digital. Grandes produções, como Avatar ou O Hobbit, são filmadas exclusivamente com uso de tecnologia digital.

Os distribuidores são os que obtêm mais vantagens com a digitalização do cinema, pois economizam os altos custos das cópias e do transporte de rolos de filme, que podem pesar até 25 quilos. Por outro lado, as salas de cinema são obrigadas a arcar com os custos da adaptação à tecnologia digital. Um projetor novo custa entre 60 e 80 mil euros.

Os pequenos cineclubes não têm, porém, alternativa. Daqui a pouco, os rolos de filme convencionais irão se extinguir. E a profissão do projecionista vai se tornar cada vez mais dispensável. Hauschke já teve sua carga horária reduzida e está pensando em encontrar outra profissão. Já Wegner quer continuar fazendo e projetando filmes – de preferência analógicos.

Autora: Silke Wünsch (sv)

Revisão: Francis França

Notícia publicada no site Deutsche Welle - Legal Notice. Todas as informações nela contidas são de responsabilidade do autor.

Texto reproduzido do site: www filmes seed pr gov br

domingo, 3 de março de 2024

Cinema analógico em 2023: um bom ano para filmar com película

Publicado originalmente no site FILMSPOT, em 31 de dezembro de 2023 

"O Síndrome do Vinagre" por Samuel Andrade

Cinema analógico em 2023: um bom ano para filmar com película

No espaço de um ano, Portugal conheceu 34 estreias de filmes rodados em película. Mas a preferência pelo suporte analógico extravasou o circuito comercial de cinema.

Mais um ciclo de doze meses à volta do Sol, mais uma temporada de debates sobre os prós e contras de fazer cinema em película ou em digital, mas um ano onde não faltaram propostas de filmes rodados em suportes analógicos.

Retomando uma tradição do Síndrome do Vinagre, destacamos os pontos altos das 34 estreias cinematográficas em Portugal - de curta ou longa-metragem - rodadas, inteira ou parcialmente, em película. Uma lista de que fazem parte Damien Chazelle e o seu "Babylon", M. Night Shyamalan com "Batem à Porta", a dupla portuguesa João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata que usou película em 16mm para registar as suas recordações de "Os Verdes Anos", ou o islandês Hlynur Pálmason em "Terra de Deus", entre outros nomes habituados ao suporte analógico como Martin Scorsese, ou Wes Anderson.

A diversidade de cineastas que optam por esta solução inclui nomes mais ou menos notórios e um leque alargado de géneros, orçamentos e origem geográfica. No seu todo sugere a conclusão de que o cinema filmado em película, nos dias que correm, continua a não se cingir a modas de nostalgia estética, caprichos autorais, ou pormenores de produção. O analógico é, pura e simplesmente, mais uma ferramenta à disposição dos realizadores e paralela aos suportes digitais de captação de imagem.

Nesta reflexão, importa sublinhar que 2023 não foi um ano particularmente cimeiro para os grandes formatos analógicos; nesse âmbito, somente "Oppenheimer", rodado em 65mm, foi digno representante de uma prática que, de há uma década a esta parte, tem sido recuperada pelo cinema norte-americano.

Contudo, os impressionantes números de bilheteira de projeções em 70mm do filme de Christopher Nolan, a "ampliação" para este suporte de títulos como "Babylon", ou a curiosa decisão de adaptar filmes digitais, como "Napoleão" e "Rebel Moon: Part One – A Child of Fire", às máquinas de projeção em 70mm, fazem antever, do ponto de vista de cinema analógico, interessantes e otimistas transformações futuras na própria indústria de distribuição cinematográfica.

A jusante da produção cinematográfica, outras áreas de criação audiovisual – e, aqui, nem falamos de contextos sem representação comercial, mas profusos no uso da película, como o cinema experimental ou de curta-metragem – continuam a recorrer a suportes analógicos de rodagem.

Séries de televisão – um produto, diga-se, cada vez mais "cativo" do ambiente digital das plataformas de streaming – como "Swarm" (Amazon Prime), "The Idol" (HBO), "Winning Time: The Rise of the Lakers Dynasty" (HBO), ou o fenómeno de sucesso crítico "Succession", que em 2023 conheceu a última temporada, foram inteiramente registadas em película de 35mm.

Paralelamente, os videoclipes e a publicidade são genuínos viveiros de rodagem analógica (em abono deste argumento, basta consultar as listas de reprodução do canal de YouTube da Kodak, no lado dos clips musicais e comerciais).

No último ano, por exemplo, ficou na memória tanto o plano-sequência, filmado em 16mm com uma câmara Arriflex, que ilustra o tema 'What Was I Made For?', de Billie Eilish, composto para o filme "Barbie", como o facto de a marca de vestuário Nike ter concebido, em Lisboa, um "spot publicitário analógico" para as sapatilhas Air Max 86.

À primeira vista, o panorama revela-se favorável. Só nos próximos dois meses, Portugal contará com as estreias – todas rodadas em 35mm – de "Folhas Caídas" (11 de janeiro), "White Bird: A Wonder Story" (18 de janeiro), "Pobres Criaturas" (25 de janeiro), "Vidas Passadas" (8 de fevereiro) e "The Iron Claw" (22 de fevereiro), às quais se juntarão novos projetos assinados por alguns "indefetíveis da película" como Alice Rohrwacher ("La Chimera") Luca Guadagnino ("Challengers"), ou Robert Eggers ("Nosferatu").

Texto e imagem reproduzidos do site: filmspot pt

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Era do cinema analógico chega ao fim depois de 125 anos.

Hannibal Goodwin inventou o celuloide em 1887.

 O projecionista Oliver Hauschke comemora as novas técnicas.

 Nicole Wegner: 'saudosismo'.

Rolos de filme chegam a pesar até 25 quilos.

Era do cinema analógico chega ao fim depois de 125 anos.

A invenção do rolo de celuloide deu início à história da imagem em movimento. Hoje, 125 anos mais tarde, chega ao fim a era da projeção analógica. E até as pequenas salas de cinema se curvam à tecnologia digital.

Oliver Hauschke, projecionista de um cineclube em Colônia, no oeste alemão, trabalha há 15 anos no setor, projetando em média 14 filmes por dia. Um trabalho árduo. "O filme é enviado em uma lata, dentro da qual ficam guardadas as partes do rolo de filme. Temos que 'colar' essas partes umas nas outras. Só para isso precisamos de uma hora", conta Hauschke.

Apertar o play.

Já nas salas multiplex de cinema, a projeção digital já é padrão. No Cinenova, onde Hauschke trabalha, a nova tecnologia só foi inserida há pouco. Em uma das três salas do cineclube, os filmes terão projeção digital, sem os rolos de filme. Todos os procedimentos manuais tornaram-se supérfluos desde a inserção da tecnologia digital. Hauschke confessa sua satisfação e diz não ter problemas em se despedir dos velhos rolos de filme.

Já a projecionista e cineasta iniciante Nicole Wegner vê a coisa com outros olhos. Ela adora usar o equipamento antigo. "É ótimo ligar um projetor. Aí ele começa a crepitar e a luz se acende. É lindo. Agora, com a tecnologia digital, meu trabalho não é mais tão agradável", diz ela. Com a projeção digital, o filme chega em um disco rígido ou em forma de arquivo no servidor, que por sua vez está ligado ao projetor. O projecionista não tem muito o que fazer.

"É preciso apenas apertar o play e pronto. Tudo acontece automaticamente: as cortinas se abrem, a luz se apaga, o projetor é ligado e o filme começa. No final, tudo funciona automaticamente de novo, no sentido oposto", descreve Wegner.

A eterna rotina de colocar e tirar filmes, cortar e separar deixa os dedos sujos, relata Hauschke. Ele não tem mais vontade de trabalhar desta forma.

Já para Nicole Wegner, a profissão de projecionista sempre foi um ofício artesanal que, como todos os outros, deixa as mãos sujas. Mas ela também vê as vantagens da nova tecnologia. "Não poderia ter feito meu último filme se tivesse sido obrigada a rodar analogicamente. Eu tinha 80 horas de material bruto. Revelar isso tudo não seria praticável do ponto de vista financeiro", analisa a projecionista e cineasta.

"Queremos uma imagem perfeita?"

A fase de testes com o projetor digital no Cinenova, onde Hauschke e Wegner trabalham, transcorreu sem maiores problemas. "Foi ótimo quando pude testar a nova tecnologia pela primeira vez", conta Hauschke. Ele está absolutamente convencido da qualidade da projeção digital.

"A imagem é mais nítida que no rolo de 35 milímetros. E posso passar o filme várias vezes, sem que ele fique gasto. O rolo de filme vai ganhando riscos com as projeções frequentes e ficando mais opaco", fala o projecionista.

Já Wegner se pergunta se isso incomoda, de fato, o espectador: "Queremos uma imagem perfeita? Gosto da imagem que respira, da imperfeição dentro dela, quando o filme encalha, porque ali as partes foram coladas".

Os primórdios dos rolos de filme.

A sujeira dos dedos dos projecionistas do futuro não teve ter sido algo em que o religioso norte-americano Hannibal Goodwin, que patenteou o celuloide há 125 anos, em 1887, tenha pensado. Sua invenção na época significou uma revolução, uma vez que as imagens, antes, só podiam ser gravadas em lâminas de vidro sensíveis à luz. Com o advento do celuloide, o filme se tornou praticamente infinito, já que passou a ser possível colar quantos filmes se quisesse uns nos outros. A sequência de 24 quadros por segundo é o que o olho humano registra como uma imagem fluida.

Mas foi o empresário George Eastman que conseguiu comercializar o celuloide de maneira bem-sucedida. O fundador da Kodak tornou a câmera com rolo de filme de celuloide acessível a qualquer pessoa. Em 1888, ele lançava no mercado a Kodak N°1 – câmera fotográfica compacta e leve. No entanto, o celuloide provou ser altamente explosivo e não foi mais usado desde os anos 1950. Desde então, passou-se a usar o rolo de filme de poliéster.

Peça de museu.


A falência da Kodak no início deste ano foi o início do fim do filme de rolo. Embora haja até hoje filmes rodados em película de 35mm, a pós-produção é feita há anos com tecnologia digital. Grandes produções, como Avatar ou O Hobbit, são filmadas exclusivamente com uso de tecnologia digital.

Os distribuidores são os que obtêm mais vantagens com a digitalização do cinema, pois economizam os altos custos das cópias e do transporte de rolos de filme, que podem pesar até 25 quilos. Por outro lado, as salas de cinema são obrigadas a arcar com os custos da adaptação à tecnologia digital. Um projetor novo custa entre 60 e 80 mil euros.

Os pequenos cineclubes não têm, porém, alternativa. Daqui a pouco, os rolos de filme convencionais irão se extinguir. E a profissão do projecionista vai se tornar cada vez mais dispensável. Hauschke já teve sua carga horária reduzida e está pensando em encontrar outra profissão. Já Wegner quer continuar fazendo e projetando filmes – de preferência analógicos.

Autora: Silke Wünsch (sv)
Revisão: Francis França

DW.DE.

Fotos e texto reproduzidos do site: