julho 29, 2012

[Filme] A Vida de Pi


Entretanto está marcada a estreia do filme baseado na obra de Yann Martel, A Vida de Pi (já comentado aqui), para dia 29 Novembro de 2012, nos EUA. 

Acho este livro muito complicado de adaptar ao cinema, no entanto parece que Ang Lee parece ter conseguido.

O trailer deixa-me algumas reservas, visualmente parece muito bonito, quanto à história... O melhor é esperar para ver! :)

Fica o trailer:


A Terra das Ameixas Verdes - Herta Müller

Título original: Herztier
Ano da edição original: 1994
Autor: Herta Müller
Tradução do inglês: Maria Alexandra A. Lopes
Editora:Difel

"A Terra das Ameixas Verdes é uma obra sublime, um relato contido e agudo de existências em perigo sob a ditadura de Ceausescu. Romance político? Também. Mas é sobretudo um poderoso libelo contra a desumanidade tortuosa dos sistemas de governo cuja legitimidade deriva do silêncio e do medo. Um romance polifónico e anónimo: da maior parte das personagens conhecemos apenas o primeiro nome; da narradora, nem sequer isso…
Partindo do (aparente) suicídio de Lola, uma jovem - a narradora anónima - encontra apoio num grupo de três rapazes que, com ela, se interrogam e procuram entender tanto a morte de Lola como a sua própria impotência perante um regime que não se abstém de humilhar e silenciar todos aqueles que ousam desafiá-lo. Os quatro irão enfrentar os meandros de um poder corrosivo que visa diminuí-los e isolá-los, aniquilando-lhes a vontade e a capacidade de ter esperança.
Romance de resistência. Resistência ao silêncio asfixiante, porque cúmplice e perpetuador de despotismos, A Terra das Ameixas Verdes é um texto de «palavra difícil» porque as palavras apodrecem verdes na boca, trivializando experiências de terrível indizibilidade. Como dizer o medo da experiência? Como descrever a vontade de morrer? E no entanto, há o imperativo de dizê-lo.
Entre o silêncio impossível e a palavra estrangulada, esta é uma história de feridas jamais fechadas e do despudor impenitente de uma ditadura insidiosa que, obrigando à interiorização, sobreviveu nas marcas inelidíveis que deixou nos corpos e nas almas."

A Terra das Ameixas Verdes não é um livro fácil de ler. A mim custou-me muito a entrar na narrativa e estive muito perto de desistir de o ler, de o guardar para uma outra altura. No entanto, depois de uma pequena pausa, reiniciei a leitura, com mais calma, porque é um livro que, pelo menos de início, exigiu de mim alguma concentração extra. Depois de ter conseguido entrar no ritmo da narrativa este livro acabou por ser uma boa surpresa. Gostei bastante da escrita e da perspectiva em que a narradora colocou a história.

A Terra das Ameixas Verdes não é um livro bonito mas sim um livro opressivo e angustiante. Não poderia ser de outra forma uma vez que retrata os anos 60, 70 da ditadura comunista de Nicolae Ceausescu na Roménia.
Os protagonistas são um grupo de jovens, Kurt, Georg, Edgar, a narradora, de quem não sabemos o nome e Lola a companheira de quarto da narradora, cuja morte acaba por juntar estes quatro jovens, que descobrem que a sua aversão ao regime os une. São perseguidos, vigiados, ameaçados e interrogados por um agente do Securitate, a polícia secreta do regime, o Capitão Pjele e o seu cão feroz e ameaçador. Embora este agente os tenha na sua lista, a verdade é que eles não são militantes activos de nenhuma organização anti-regime, são apenas quatro jovens  que não concordam com  Ceausescu e que são aterrorizados por causa das conversas que têm entre eles. Não distribuem panfletos, não nos é dito que tentem convencer outros a juntarem-se à causa. Parece que estes quatro são perseguidos apenas e só por causa dos seus pensamentos, muitos deles nem sequer verbalizados. 
O cerco a estes quatro vai-se apertando a uma velocidade crescente, eles vão ficando cada vez mais deprimidos, perdidos, sem qualquer ponta de esperança, sentimento que, aliás nunca foi muito notório entre eles. A atitude deles sempre foi muito fatalista, como se o desfecho que acabou por ocorrer fosse óbvio, inevitável, nada mais poderia acontecer. Daí este livro ser tão opressivo. Eles nunca tomaram uma atitude que fosse declaradamente contra o regime e as suas vidas foram sendo, de forma lenta mas consistente, desfeitas. Psicologicamente abalados, afastados uns dos outros, intimidados pelas ameaças feitas não só a eles mas também às suas famílias. Herta Müller mostra-nos aqui uma forma de repressão, de destruição da capacidade de luta e de viver, que por vezes é tão subtil que parece mentira, parece inventada, o que torna este livro ainda mais angustiante. Neste livro não há espaço para o amor, para a confiança despreocupada nos outros. O único espaço que existe é para o medo e para morte, nas suas mais variadas formas.

A maneira como Herta Müller nos vai contando esta história é muito interessante, porque não é um livro típico, dos muitos que já se escreveram sobre ditaduras, quer de direita quer de esquerda, mas sim um livro que se debruça mais sobre cada um destes jovens e vai-nos mostrando, página a página como eles vão sendo destruídos pelo ambiente em que vivem. Com uma escrita nada óbvia e que é quase poética, nalgumas partes do livro, A Terra das Ameixas Verdes é mais do que um romance, uma ficção. A palavra que me ocorre é humano, é um livro muito humano.

Recomendo sem reservas, é um livro que para além de ser uma extraordinária obra literária é também um livro que me obrigou a pesquisar alguns factos. Conheço muito pouco sobre a história dos países da Europa do Leste e a Roménia não é excepção. 
Um bom sítio para se ler este livro!
Fiquei a conhecer um pouco melhor aquela região e começo a sentir uma inclinação pelos escritores dos balcãs. Para além de Herta Müller, também Ivo Andrić foi uma boa surpresa, com o seu A Ponte Sobre o Drina e, que provavelmente não teria conhecido se nunca tivessem ganho o Prémio Nobel da Literatura, em 2009 e 1961, respectivamente.

Leiam tanto um como outro! Boas leituras!



Excerto:
"Por entre as plantas mais estúpidas que arrancou, o pai diz: As ameixas verdes fazem mal, o caroço ainda está mole e trinca-se a própria morte. Ninguém nos pode valer, morremos mesmo. Com as febres claras, o coração queima-se-te por dentro.
Os olhos do pai estão nublados e a criança vê que o amor que o pai lhe tem é como um vício. Que ele não consegue controlar o seu amor. Que ele, que fez cemitérios, deseja morte à criança.
Daí que mais tarde a criança coma bolsos inteiros de ameixas. Todos os dias, quando o pai não está a ver, a criança esconde metades de árvores na barriga. A criança come e pensa, isto é para morrer.
Porém como o pai não vê, a criança não tem de morrer.
As plantas mais estúpidas eram os cardos-do-coalho.
O pai sabia alguma coisa da vida. Assim como todos os que falam da morte sabem como é que a vida continua."

julho 12, 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Título original: Terra Sonâmbula
Ano de edição: 1992
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Primeiro romance do moçambicano Mia Couto, já bem conhecido e apreciado pelo público português, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo os recentes tempos de guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. 
Terra Sonâmbula é um romance admirável, sem dúvida uma das melhores obras literárias que nos últimos anos se escreveram em português."

Li este livro pela primeira vez há uns largos anos. Na altura, pouco percebi, no entanto gostei.
Porque é que gostamos de coisas que não percebemos? Talvez aquilo que não percebemos nos intrigue, nos desperte para o desconhecido e nos ajude a alargar horizontes e a sair da nossa zona de conforto.
Terra Sonâmbula, deve ter sido o primeiro livro "estranho" que li. Estranho na escrita, com personagens difíceis de conceber mas com uma linguagem que, embora não conseguisse captar na sua totalidade, não me era tão estranha assim. Um livro cheio de palavras inventadas que mostrou que uma história não tem de ser regrada e cheia de barreiras gramaticais. Quando se conseguem quebrar barreiras e ultrapassar preconceitos, a linguagem deixa de ser rígida e é possível reinventar toda a língua e as palavras tem o significado que lhe queremos dar. Não deixa de ser reconfortante que nem tudo na vida tenha de fazer sentido. Sabendo isso é mais fácil apreciar as coisas que realmente importam e a beleza de uma nova linguagem, a linguagem dos sonhos, dos sentimentos, a linguagem mais próxima da primeira palavra proferida pelo Homem há milhares de anos atrás.

Mia Couto é irrepreensível na forma como nos conta uma parte da história de Moçambique, apoderando-se dos sonhos dos dois jovens Muidinga e Kindzu. É um livro cuja beleza reside na forma como está escrito e nos sentimentos nobres que o escritor tão bem descreve. Tudo o resto é feio e angustiante, igual a todas as guerras.

Este é um livro difícil de descrever e de comentar porque embora fale de assuntos muito concretos e muito reais, fá-lo de uma forma pouco palpável e qualquer tentativa, da minha parte, para tentar fazer ver o porquê de este ser um livro especial e que não devem deixar de ler, seria uma tentativa inútil de chegar perto da qualidade literária de Mia Couto.
Por isso vou-me limitar aquilo que consigo transmitir por palavras "normais".


Em Terra Sonâmbula, Mia Couto fala-nos de um país destruído pela guerra, onde as pessoas se sentem perdidas e desenraizadas. Todos são órfãos de alguma espécie, todos perderam e têm a certeza de que vão continuar a perder. Muidinga é um rapaz, de idade um pouco indefinida, é jovem mas não consegui perceber quão jovem seria, que foi salvo por Tuhair. Sem qualquer memória do que lhe aconteceu, o rapaz tem como única referência este homem que foge de algo ou de alguém que não identifica. Encontram abrigo num machimbombo incendiado à beira da estrada, uma estrada que parece ela própria deslocar-se. Toda a paisagem envolvente parece mudar, como se não fossem só as pessoas a deslocarem-se, fugindo da guerra, de um conflito que não conseguem perceber. Como se toda a terra fosse sonâmbula e caminhasse sem destino certo.
Perto do machimbombo Muidinga encontra uns cadernos, junto a um cadáver. Estes cadernos foram escritos por Kindzu, mais um jovem sem idade, porque as crianças da guerra parecem-nos sempre mais velhas, precocemente envelhecidas. Nos seus cadernos Kindzu registou a viagem que iniciou com o objectivo de se tornar um naparama, figuras temidas pela população por serem uma espécie de exército de almas guerreiras, abençoadas pelos feiticeiros e que lutavam contra a guerra. O relato da aventura de Kindzu passa a ser uma parte importante na vida de Muidinga e Tuhair, permitindo-lhes evadir-se da vida triste e temerosa que levam no machimbombo destruído. Com os cadernos de Kinzu a capacidade de sonhar e a esperança de um futuro mais risonho mantêm-se vivas!

Terra Sonâmbula foi o primeiro livro de Mia Couto e a "brincriação" com as palavras é genial e refrescante. É curioso voltar a uma obra mais antiga de um escritor que têm evoluído na forma como escreve, tornando-se mais maduro. As últimas obras dele são mais "normais" mas igualmente boas. São apenas uma outra vertente de um escritor que acredito, escreveria novamente e com a mesma qualidade Terra Sonâmbula.
O livro para além da guerra e das pessoas que nela se vêm envolvidas, fala nas tradições, nas crenças de uma sociedade fechada e muitas vezes preconceituosa.
Com este livro veio-me à memória um dos pouco poemas que conheço e recordo (não sou dada à poesia) do tempo da escola, "Pedra Filosofal" de António Gedeão:

"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


Obra de leitura obrigatória!

Boas leituras!

Excerto (um dos infinitos possíveis de escolher):
"Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar."

Deixo-vos ainda o trailer do filme Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, baseado neste livro de Mia Couto:


junho 29, 2012

O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu - Jonas Jonasson

Título original: Hundraaringen som klev ut genom fönstret och försvann
Ano da edição original: 2009
Autor: Jonas Jonasson
Tradução do francês: Mário Matos
Editora:Porto Editora

"No dia em que Allan Karlsson celebra 100 anos, toda a cidade o aguarda para uma grande festa em sua honra. 
Mas Allan tem outros planos... Morrer de velho? Sim, mas não ali!
Munido de um par de chinelos gastos, joelhos empenados e uma ousadia tremenda, Allan lança-se numa extraordinária aventura, arrastado numa torrente de equívocos e golpes de sorte.
E ao mesmo tempo que acompanhamos a sua última viagem (ou será que não?), conhecemos o seu passado, perdido entre guerras, explosões e mulheres fatais - qual delas a mais perigosa"

Este livro é absurdo da primeira à última página! A história é absurda, Allan Karlsson, o centenário que no dia do seu centésimo aniversário decide que não quer morrer no lar de terceira idade, é absurdo e, por fim, todo o livro é absurdamente bom e divertido! :)

Allan Karlsson decide, num impulso, no dia do seu centésimo aniversário que, não quer participar na festa que o lar de terceira idade lhe está a preparar. Calça as pantufas, salta, com alguma dificuldade, pois os seus joelhos já não são o que eram, pela janela do seu quarto e parte, sem destino, à procura de mais uma aventura.

O livro relata aquela que julgamos ser a última aventura de Allan Karlsson, ao mesmo tempo que nos conta a longa vida do velhinho. E que vida a deste homem! Dono de uma personalidade simples, de bom carácter mas com uma noção de certo e errado por vezes duvidosa, viajou pelo mundo e atravessou a pé os Himalaias. Quem diria, ao iniciar a leitura deste livro, que estaríamos na presença de alguém que participou de forma activa, embora nada premeditada, nos destinos do mundo, sendo que na maior parte das vezes a única coisa que o guiava era o prazer de comer uma boa refeição acompanhada de uma boa bebida, qualquer uma, desde que contivesse álcool. :) Allan Karlssom, o homem que não suportava falar de política, que não tomava partido, ao longo da sua longa vida, jantou com todos os líderes mundiais, Franco, Estaline, Mao Tsé-Tung, Truman, Churchil, De Gaulle e por aí fora, tudo porque Allan tinha um talento especial para lidar com explosivos...

O Allan com cem anos continua igual a si mesmo, vivendo segundo o lema de que o que tiver que ser será e que tudo se resolverá. Ao fugir do lar de terceira idade dá início a uma aventura hilariante que toma proporções inimagináveis, que vai envolver a polícia, a imprensa nacional e um grupo de gangsters que só queriam recuperar a mala que Allan levou consigo, apenas e só porque lhe pareceu o melhor a fazer, talvez na mala estivessem uns sapatos que pudesse trocar pelas suas pantufas mija-pés!
E mais não digo. Acrescento apenas que Allan, ao longo desta sua aventura, reúne à sua volta um grupo de pessoas dignas de conhecer. Temos Jullius, um pequeno delinquente sexagenário, Benny um vendedor de cachorros quentes que é quase licenciado em tudo o que se possa imaginar, Minha Linda uma ruiva explosiva e Sónia a paquiderme... Curiosos? :)

Adorei este livro, é muito divertido sem deixar de ser um livro historicamente interessante. Gostei muito da escrita de Jonas Jonasson, e as personagens são extraordinárias! O tom é muito semelhante ao da série de

Recomendo!

Boas leituras!

Nota: Os países nórdicos têm uma tara qualquer por títulos enormes e descritivos! Neste caso funciona muito bem, porque acaba por ser o primeiro indício de que estamos na presença de um livro genialmente divertido!


Excerto:
"Allan constatou que conseguia ser ao mesmo tempo uma ratazana e um cão, em menos de um minuto. Estaline devia ser doido, se ainda achava que ia ter a ajuda dele. De qualquer forma estava farto de ser insultado. Tinha ido a Moscovo para ser útil, e não para ser maltratado. Estaline que se desembrulhasse sozinho. 
- Estava a pensar cá numa coisa - disse Allan.
- Ah, sim? E em quê? - perguntou Estaline, furioso.
- Não acha que devia rapar esse bigode?
A noite terminou com esta pergunta. O intérprete perdera os sentidos."

junho 21, 2012

Por Favor Não Matem a Cotovia - Harper Lee

Título original: To Kill a Mockingbird
Ano da edição original: 1960
Autor: Harper Lee
Tradução: Fernando Ferreira-Alves
Editora:Difel

"Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos os dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX."


Não sei por onde começar... Por um lado tenho imensas coisas para dizer, por outro, o que dizer sobre este livro fabuloso, emocionante e divertido? Harper Lee escreveu um único livro e, fê-lo tão bem, que ficou sem palavras, optando por não escrever mais nada.

A história passa-se numa pequena cidade do sul dos EUA, em Maycomb, nos anos 30, em plena Grande Depressão, no seio de uma comunidade conservadora e fechada. 
Scout Finch é uma menina de 7 anos, rebelde e maria-rapaz, é extremamente inteligente e possui uma inocência desarmante. O irmão, Jem, uns anitos mais velho é o seu companheiro inseparável de brincadeira. Juntamente com Dill, o rapaz que passa os Verões em casa da tia, vizinha dos Finch, formam um trio maravilha, cujas brincadeiras acabam muitas vezes em castigo. Um preço baixo a pagar pelo excesso de imaginação. :)
Atticus Finch é pai de Scout e Jem, viúvo e advogado, é um pai invulgar para a época, deixando as crianças mais ou menos à vontade e tratando-os sempre como seres inteligentes e capazes, e não como meras crianças. A relação deste com os filhos é fantástica porque, embora estes o tratem pelo nome, muito raramente o chamam de pai, o carinho que os une é indiscutível e notório. As personagens são, a par da história, um dos pontos mais fortes deste livro.

Quando Atticus é escolhido para defender em tribunal um negro acusado de violar uma jovem branca, a vida da família Finch sofre alguns percalços, com os habitantes de Maycomb a não tolerarem que Atticus trabalhe para os "pretos". Muitas destas pessoas admitem até a inocência do rapaz, no entanto nem lhes passa pela cabeça ilibá-lo do que quer que seja, nunca quando do outro lado está um branco, mesmo que um não muito estimado na comunidade.

São estas contradições, estes defeitos de carácter que Scout e Jem vão estranhando, ao longo de todo o processo, e questionando, uma vez que, na sua inocência de pessoas bem criadas, não conseguem perceber o conceito de racismo.
Por Favor Não Matem a Cotovia é um livro que mais do que tudo fala de respeito. Respeito pela diferença, respeito pelo espaço dos outros, pelas opiniões dos outros e respeito pelos mais velhos. O facto de não se focar apenas no racismo poderá ser umas das razões que o tem destacado, ao longo dos anos, de toda a literatura que existe sobre o tema. No entanto, acredito que é o tom despretensioso com que é escrito, onde nenhum ponto de vista é imposto, que o tornam na obra incontornável e actual que é. Quem ainda acredita que é na cor da pele que reside o nosso valor como seres humanos não se sentirá ofendido ou espicaçado com a leitura deste livro, no mínimo sentir-se-à envergonhado por nunca se ter apercebido de algo tão óbvio e de ter precisado que uma criança de 7 anos lho explicasse.

Para além dos temas mais ou menos pesados, o livro é naturalmente muito divertido pois, Scout, Jem e Dill são crianças maravilhosas. A leitura é muito fluída, não só porque a escrita é muito acessível mas porque as personagens estão todas muito bem desenvolvidas e a autora consegue manter-nos, enquanto leitores, sempre interessados na história.

Gostei muito e por isso, recomendo, sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto:
"Tinha a sua própria visão das coisas, talvez bastante diferente da minha... filho, eu disse-te que se tu não tivesses perdido a cabeça, eu ter-te-ia mandado ler para ela na mesma. Queria que visses qualquer coisa nela...queria que visses o que é a verdadeira coragem, em vez de pensares que coragem é um homem com uma arma nas mãos. Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim. Raramente se ganha, mas às vezes conseguimos. E Mrs. Dubose ganhou, do princípio ao fim, da cabeça aos pés. Segundo a sua visão das coisas, ela morreu livre e sem dever nada a ninguém. Era a pessoa mais corajosa que já conheci."

Nota: Existe pelo menos um filme baseado na obra de Harper Lee: "To Kill a Mockingbird". Fica aqui o trailer:

junho 11, 2012

Mau Tempo no Canal - Vitorino Nemésio

Título original: Mau Tempo no Canal
Ano de edição: 1944 
Autor: Vitorino Nemésio 
Editora: INCM - Imprensa Nacional Casa da Moeda

"«Creio que o isolamento de cada ilha açoriana dá lugar à constante presença de um fantástico individual, que percorre de um modo exemplar o romance de Nemésio, desde a personagem mais singela até à de maior complexidade. Fantástico individual que está em luta aberta contra um maravilhoso colectivo. Assistimos a um descer dentro de cada um, como se dentro de si pisassem os degraus da escada em curva - perfeita sucessão de serpentes cegas - que levam, na geografia insular, ao lago subterrâneo da ilha Graciosa; a única das cinco ilhas centrais que as páginas de Mau Tempo no Canal não contemplam.»"                                                                                       
                                                             Do prefácio de João Miguel Fernandes Jorge

Mau Tempo no Canal é um livro sobre os Açores, mas não é bem um livro sobre os Açores. Foi escrito nos Açores, a acção tem lugar no Arquipélago, as personagens são açorianas, no entanto, a história poderia passar-se em qualquer outra ilha perdida no meio de um qualquer oceano. Posto isto, Mau Tempo no Canal é, para além de muitas outras coisas, um livro sobre o isolamento e sobre as amarras da sociedade que nos impõem caminhos que na realidade não desejamos. Tendo como pano de fundo o Canal do Faial, Vitorino Nemésio vai-nos contando uma história de amor, que acaba por não o ser, aliás, poucas são as coisas que correm como planeado neste livro. :) A protagonista, Margarida Clark Dulmo é uma filha da terra, pertencente a uma das famílias mais antigas e respeitáveis da ilha. Margarida é uma miúda inteligente, divertida, corajosa e sonhadora. Todos os seus sonhos acabam, no entanto, por ir contra ao que a família espera dela, um casamento conveniente que permita à família recuperar algum do fulgor económico que perdeu, com a má gestão do pai, Diogo Dulmo, e com a cada vez mais rara caça de baleias.
O livro começa com a promessa de uma história de amor entre Margarida e João Garcia, um rapaz não tão bem-visto no seio dos Clark Dulmo. João Garcia parte para o continente para cumprir serviço militar, deixando Margarida quando ainda havia muito pouco para recordar, no entanto, o que sente por ela em vez de desaparecer, cresce e Margarida acaba por se tornar na única mulher que realmente amou. Margarida, pelo contrário, acaba por afastar João Garcia, embora ao longo do livro se perceba que sente por ele mais do que quer dar a entender. Na verdade, Margarida, nos dias de hoje seria, provavelmente, uma mulher concentrada na carreira profissional, sem procurar a felicidade numa relação amorosa, mas sim no seu desenvolvimento pessoal. Posto isto e, tendo em conta que a acção se desenrola entre 1917 e 1919, num sítio rodeado por mar, podemos intuir que a vida de Margarida não será propriamente fácil e as suas escolhas serão tudo menos pacíficas. :) Tendo sempre presente que, num meio pequeno, de certa forma isolado, todos os problemas parecem maiores, todos os dilemas, questões de vida ou morte. Neste aspecto, Margarida não é muito diferente de todas as outras pessoas da ilha.

É com pena que chego ao fim deste livro sem ter gostado especialmente dele. Não me identifiquei com a escrita elaborada de Vitorino Nemésio, não me conseguiu envolver nas vidas das personagens ou mesmo fazer sentir o ambiente das ilhas. Manter a concentração foi o maior desafio que encontrei neste livro. No entanto, embora não tenha ficado impressionada com ele, fiz um esforço extra para tentar chegar ao fim (confesso que saltei parágrafos) queria saber como acabava tudo. A história é boa, a forma com nos é contada é que, pessoalmente, não me cativou. Gostei, por exemplo, dos diálogos, da escrita em "açoriano" praticamente indecifrável mas que ajudavam a criar o ambiente vivido e gostei de algumas descrições. A forma como tudo isto está ligado, pareceu-me por vezes desconexo, confuso e com muitas descrições, para mim desnecessárias. Cheguei a mais de meio do livro e pensei em desistir, custava-me voltar a pegar nele, exactamente porque me sentia completamente desligada da história, tão desligada que a memória do que tinha lido era muito vaga e cheguei a confundir personagens... Só quando li algumas críticas é que me apercebi de que nem tudo acontecia na mesma ilha e que o canal separava a ilha do Pico e do Faial... (shame on me). Só voltei a pegar nele por puro despeito e, na realidade, lá mais para a frente a história ganha outro balanço e, como já referi, gostei da parte dos diálogos e por isso fui lendo. 

Não fiquei impressionada e duvido que alguma vez volte a ele, no entanto, não li nenhuma crítica negativa sobre ele, pelo contrário, sempre li coisas muito positivas sobre este livro. Sendo assim, não posso deixar de o recomendar, é muito provável que o problema seja meu! :)

Boas leituras!

Excerto:
" O mundo, aliás, nunca lhe aparecera tão vivo, representado na sua solidão de solteiro pela própria força do silêncio da noite e do esgotamento de um dia gasto à espera daquela mensagem de Margarida que dois meses enchiam de uma necessidade dolente e tornavam cada vez mais longínqua. Mas a própria intensidade e uso desse desejo criava em João Garcia um começo de palpitação daquilo por que esperava, como se a carta fosse o seu próprio cérebro excitado, e as sombra do fundo do quarto, o guarda-fato de espelho, o cubículo que lhe servia de escritório abafado em veludos puídos e me laçarotes encarnados derivassem da projecção do papel em que Margarida lhe escrevesse."

maio 31, 2012

Desaparecido para Sempre - Harlan Coben

Título original: Gone for Good
Ano da edição original: 2002
Autor: Harlan Coben
Tradução: Lucinda Santos Silva
Editora: Editorial Presença

"«Onze anos atrás, a 17 de Outubro, na pequena cidade de Livingston, Nova Jérsia, o meu irmão Ken Klein, então com vinte e quatro anos, violou brutalmente e estrangulou a nossa vizinha Julie Miller. Na cave dela.»

Esta é, pelo menos, a versão oficial da Polícia, mas nem Will, irmão de Ken, nem os seus pais jamais duvidaram da inocência de Ken, apesar das evidências junto ao local do crime. Onze anos passaram e nunca mais se soube do paradeiro de Ken. Estaria ele vivo ou morto? Will sempre preferiu acreditar na segunda hipótese, até ao dia em que a sua mãe, no leito de morte, lhe revela que Ken está, afinal, vivo. A partir daqui, o medo e a inquietude começam a dominar a vida de Will e isto será apenas o início do desencadear de novos e perturbadores acontecimentos. Praticamente na mesma altura, Sheila, a namorada por quem Will sente um amor incondicional, desaparece misteriosamente, deixando atrás de si um rasto de dúvida e medo. Will descobre ainda que o suposto reaparecimento do seu irmão está estranhamente associado a um grupo de colegas dos tempos de escola, e uma agente do FBI revela-lhe que Sheila é procurada por duplo homicídio. Histórias interligadas, informações surpreendentes e personagens misteriosas constituem o mote destes thriller intenso, cujo suspense aumenta vorazmente ao virar de cada página. Um livro excepcional, capaz de despertar verdadeiras emoções em todos os amantes do género."

E, surpreendentemente, este foi um policial do qual gostei e que me fez continuar a virar as páginas, espicaçada pela curiosidade. É raro, e o mérito só pode ser do escritor e da forma como nos apresenta a história. Harlan Coben foi, ao fim de apenas algumas páginas, adicionado à minha lista de escritores de policiais com os quais aceito gastar o meu tempo. :)

Vou tentar não arruinar a possível leitura do livro aos que continuam a visitar este meu cantinho, ou aqueles que, por algum acaso, aqui venham parar. Assumido o compromisso, vamos ao que interessa, o livro!

Em Desaparecido para Sempre, a personagem principal, Will Klein é, sem que nada o fizesse prever envolvido numa perigosa e confusa trama, que envolve a sua actual namorada, Sheila, e o seu irmão Ken, procurado há mais de onze anos pelo violento assassínio de Julie, a ex-namorada de Will. Confuso? Um pouco... Pelo meio temos agentes do FBI com interesses pessoais no caso, temos um mafioso famoso por ser implacável, temos um ex-nazi que procura redimir-se dos erros do passado ajudando almas perdidas e temos um homem conhecido por Ghost, temido por todos por ser extremamente violento e frio no seu "trabalho".
Estas personagens vão estar envolvidas em cenas violentas, algumas com o dom de nos deixar de estômago embrulhado. Não é um livro bonito e a maior parte do tempo anda à volta de temas pouco agradáveis.

Curiosos? Deixo-vos só o aviso de que nada do que parece é. Nada neste livro é preto ou branco, ninguém ali é simplesmente bom ou puramente mau.

Desaparecido para Sempre é um livro escrito numa linguagem muito simples, coloquial, com sentido de humor e com uma história bem estruturada. As personagens são interessantes e bem desenvolvidas. É fácil simpatizarmos com Will porque mesmo no meio de toda a desgraça e azar que o rodeia, tem sentido de humor, não perde a ingenuidade que o caracteriza e torcemos, com sinceridade para que tudo se resolva pelo melhor. :) Faz uma boa dupla com Squares, uma personagem que vive ele próprio com os seus terrores e erros do passado.
Com o desenrolar da história, e à medida que os mistérios vão sendo revelados, houve muita coisa que me pareceu inverosímil, no entanto, isso não incomoda, faz parte do género e quando isso é assimilado a leitura flui muito bem. A história mantém-se interessante ao longo de todo o livro e os capítulos muito curtos ajudam a uma leitura tendencialmente mais compulsiva.

São raros os livros deste género que recomendo. Com este, a recomendação é reforçada com um "sem qualquer hesitação".

Boas leituras!

Excerto:
"Seria de pensar que depois de tantos anos, já se insensibilizara ao sofá puído, à carpete manchada de água e ao televisor tão velho que nem sequer tinha ligação por cabo. Mas não. Pois todos os sentidos lhe diziam que o corpo da irmã ainda lá estava, inchado e apodrecido, o cheirete da morte tão espesso que até custava a engolir."