Almoço
de domingo, vamos todos nos reunir em volta do meu pai João Luís, quase oito
décadas de vida, amor e doce rabugice. E ele, como de costume, vai desfiar histórias
retiradas do fundo do baú das memórias.
Meu
pai sofre de síndrome da saudade eterna do que já passou.
Do
que passou, leia-se: o cheiro do quebra-queixo que era vendido no centro da
cidade, a rachadura na parede da sala de estar do tio avô, a cor do vestido da personagem
da última novela de Janete Clair.
O
que não quer dizer que tenha gosto simplista. Ao contrário, ele é das pessoas
mais cultas e refinadas que conheço. Saudosista,
coleciona velhos LPs de “música boa”. Exigente, passa horas de controle remoto em
punho, procurando na TV fechada programas intelectuais que dão “traço” de
audiência. E que ele emenda, jocoso: - Pois é, o traço sou eu.
Mas quando se trata de passado, seus olhos brilham. Ele, invariavelmente, sentirá saudade
até daquilo que foi ruim, do que doía, daquilo que, quando era presente era
muito, muito chato.
Esse
é o velho João Luís. Neto de João, o
Jones. Pai do João, o Paulo. E avô do João, o Gabriel (meu amado filho). Conversador
nato. Desses que, quando começa a falar, todos param para ouvir. Até porque, se
não pararem, ele interrompe a narrativa num muxoxo: - Não conto mais.
-
Conta, pai - dizemos todos, em coro.
E
sabemos que será divertido, pois ele tem o dom de tornar a narrativa de um
filme, muitíssimo mais interessante do que a própria película. Em meio a
interjeições – O filme é lindo!- o velho João vai narrando a cena, com a voz
embargada, e os olhos quase lacrimejantes, nos revelando um filme que só o
olhar dele presenciou.
O
mesmo acontece com os relatos das histórias que viveu, emocionadas e
emocionantes. E se não viveu, ele dá um jeito de estar presente na história do
outro, contando exatamente o que ouviu e jurando que estava lá.
Nesses
relatos vemos meu pai, aos dezessete anos, acordando às quatro da manhã só pra
levar o irmão mais velho, Luiz Guilherme, ao quartel em Vila Velha, onde servia o
exército.
Motivo: era o único jeito de vovô liberar o automóvel, coisa rara nos
idos de 50. Atravessava a cidade pela Lindenberg e voltava se sentindo um
piloto de corrida.
Também o presenciamos vendo chegar ao Colégio Estadual, a bela morena que viria
a ser minha mãe, com cabelo curtinho, última moda no Rio de Janeiro, onde
passara as férias. Diante dos comentários elogiosos de outros rapazes da turma,
ele afirma: - Tá no papo.
Foi
com esse papo inteligente que o rapaz de boa família da capital passou a
namorar a moça bonita do continente. No portão de casa, como ela recorda, na
Rua Luciano das Neves, ele disparava a falar, falar, e ela a ouvir, a ouvir.
Como o faz até hoje.
E
assim, chegamos ao domingo em que ele nos contou a história do cachorro que
caiu da mudança.
-
Mas pai, isso é só uma expressão. Cachorro
que caiu da mudança, diz-se da pessoa que está perdida numa determinada
situação.
-
É, mas aconteceu comigo.
E
toca a contar: - Fim dos anos 50, dona Carmosina e seu Lacerda, meus sogros, iam
se mudar para a Praia do Suá.
Chego
eu, na hora marcada, com o caminhão da mudança e encontro a família sentada,
impassível, e Iedda anunciando, cheia de dedos: - Mamãe não quer mais se mudar.
Sem
pensar duas vezes, eu retruco, resoluto: - Ah, mas agora ela vai!
E,
virando-me para os funcionários da mudança: - Podem começar.
Refaço
agora a sequência descrita pelo meu pai: o caminhão segue na frente entulhado
de móveis e lembranças. Ele acompanha atrás, em seu carro, quando, num
cruzamento no cine Santa Cecília, vê despencar da mudança um pacotinho de pelo,
que aterrissa, quase que suavemente no meio da rua.
-
Para, para! - grita ele, deixando o volante de seu carro, em meio ao trânsito
da época, no centro de Vitória, para recuperar, ileso e assustado, o cãozinho da
minha mãe, Jerry, que meu tio Roberto deixara escapulir do alto do caminhão.
Aí
está: o cachorro que caiu da mudança.
E - acreditem - foi meu pai quem o salvou.
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