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maio 09, 2010

Estorvo - Chico Buarque


"Chico Buarque, compositor, cantor, poeta, escritor e dramaturgo é uma das figuras mais populares da cultura brasileira. Conhecido pelas suas canções, é no entanto um ficcionista de indiscutível talento. Narrativa simultaneamente poética e alucinante, Estorvo constitui uma grande metáfora do Brasil e porventura do mundo contemporâneo. Uma das mais sólidas obras da literatura brasileira dos últimos tempos, e um livro de grande sucesso em Portugal."



Primeiro livro que leio do Chico Buarque e, embora não o tenha achado extraordinário deixou-me com vontade de ler outros dele. Mais do que da história, gostei da escrita, é próxima e permite uma leitura muito serena e tranquila, embora a história não o seja.

O livro fala-nos de um homem de quem nada sabemos, nem o nome e, de quem a história não irá revelar muito mais. O livro é uma sequência de acontecimentos por onde este homem vagueia de forma quase fantasmagórica e aparentemente sem qualquer lógica, como que perdido dentro de um sonho do qual não consegue despertar. Todas as acções dele são estranhas e todos os sítios por onde passa são bizarros e repletos de personagens estranhas e desconcertantes.
Tudo começa quando um homem de fato e gravata toca à campainha do nosso homem sem nome. Ele não o conhece, não faz ideia do que está ali a fazer mas, como não conhece ninguém que use fato e gravata, acha que não pode ser coisa boa e foge. Assim, sem mais nem menos, espera que ele se vá embora e sai de casa para não mais voltar.
O resto do livro é uma viagem repleta de regressos a sítios esquecidos há muitos anos, de reencontros embaraçosos e de recordações que sentimos serem dolorosas mesmo não sabendo o porquê. Este homem é extremamente solitário, preso a uma vida que parece não compreender e da qual percebe cada vez menos. Nunca percebemos porque faz o que faz, porque decide fugir, porque decide roubar a irmã, porque fala constantemente de uma mãe que parece não existir a não ser na cabeça dele e porque é que ao ao longo do livro ele vai parecendo cada vez menos real. Estará a enlouquecer? Será ele real? Não sabemos, e a verdade é que a história está escrita de uma maneira tal que isso não importa. O que se retira da história são sentimentos. Sentimentos que eu identifico com a alienação que vivemos hoje em dia, afastados das pessoas que nos amam e que magoamos sem querer, inseridos numa sociedade cada vez mais violenta, exigente e corrupta.
Ele vê-se envolvido em algo que não pediu mas que também não repeliu. A mente dele é uma confusão permanente e temos dificuldade em distinguir o que está realmente a acontecer daquilo que apenas está na cabeça dele. Vive cheio de remorsos e tem pavor de enfrentar e assumir as responsabilidades pelo que fez no passado.

No início achei o livro difícil e confuso. Estava a gostar da escrita mas a história estava-me a deixar baralhada. No início este homem pareceu-me demasiado esquisito para me prender à história mas, à medida que ele vai ficando cada vez mais perdido, comecei a gostar muito de ler. A páginas tantas sentimos uma inevitabilidade na vida deste homem sem nome, como se nada do que ele fizesse pudesse parar o decorrer dos acontecimentos, ele é cada vez mais um espectador na sua própria vida, uma marioneta.
O facto de o Chico Buarque conseguir fazer passar com as palavras sentimentos tão complexos é de louvar e, o livro vale por isso, pela força que se sente em cada palavra e frase escrita.

Vale a pena ler, mas por favor façam-no numa edição de qualidade. Esta tinha gralhas imperdoáveis por serem escandalosamente fáceis de detectar e, se calhar até de corrigir. Em todo o livro, nas palavras com "ó" este aparece substituído por um "ú" e vice-versa. Por exemplo, em todo o livro "último" é "óltimo", "dúvida" é "dóvida" e "ónibus" à vezes é "únibus"... Mais para a frente, também os "É" passam a ser "Ú"... Porquê?! Não faço ideia, mas acho estranho porque esta edição, da revista Visão, não deixa de ser uma edição Dom Quixote. Quer isto dizer que o livro "oficial" da Dom Quixote também está cheio destas gralhas?! É óbvio que não. Mas, então como é possível que fazer uma edição mais barata altere a grafia do que já está bem escrito?! Não percebo...

Queria só dizer, para terminar, que é ao ler livros de autores lusófonos que me apercebo da inutilidade do acordo ortográfico na literatura. A língua portuguesa é tão mais rica desta forma. Eu pelo menos vivo bem com as diferenças. E gosto delas! :)