fevereiro 22, 2025

[Ebook] El Descontento - Beatriz Serrano

Título original: 
El Descontento
Ano da edição original: 2023
Autor: Beatriz Serrano
Editora: Temas de Hoy

"La presentadora del pódcast Arsénico Caviar y ganadora del Ondas, debuta con una afilada novela sobre una mujer harta del trabajo. El descontento es la historia de Marisa, una mujer en la treintena que vive anestesiada mediante orfidales y vídeos de Youtube. Solo así es capaz de soportar las rutinas y pesares de su día a día en una agencia de publicidad a la que tan solo acude presencialmente para ahorrar dinero en aire acondicionado durante el sofocante agosto madrileño. Marisa odia el trabajo. Sin embargo, no puede dejarlo: le gustan demasiado las cosas bonitas. La semana previa a un team building organizado por su empresa, la ansiedad de Marisa se dispara; compartir un fin de semana entero con sus compañeros de oficina le resulta insoportable, y el recuerdo enterrado de una tragedia ocurrida en la oficina tiempo atrás vuelve para atormentarla. A medida que pasan los días, su máscara social, tan cuidada y pulida a lo largo de los años, se irá resquebrajando hasta hacerlo volar todo por los aires. Esta es una novela sobre las crisis vividas por cualquier persona que trabaja. Sobre la soledad, la necesidad de vínculos y conexiones y de encontrar la chispa para no tirarse delante de un autobús un lunes por la mañana."

El Descontento é uma história dos tempos modernos. Uma jovem, do meio criativo e publicitário, odeia de forma visceral tudo o que diz respeito ao seu trabalho. Odeia o escritório e todos os seus rituais, odeia os colegas, que mal conhece e que não quer conhecer. Odeia a vida acelerada, as horas desperdiçadas a fingir que está a ser produtiva. Odeia o fingimento de todos e odeia a hipocrisia de todos acharem que o que fazem é importante e que pode mudar o mundo.

Vive atormentada com a sensação de desperdício da sua vida mas, ao mesmo tempo não parece ter motivação para alterar nada. Não pensa em despedir-se, não vocaliza o seu desespero, não tenta fazer diferente de todos os outros que critica. Aparece todos os dias, participa nos rituais, faz o que acha que esperam dela e, deve estar a fazer alguma coisa bem, porque vai sendo promovida e olham para ela como uma espécie de referência na área. Se ao menos pudessem ouvir tudo que lhe passa pela cabeça...

Vamos acompanhando o dia-a-dia de Marisa, a ansiedade de que sofre, a angústia, os pensamentos homicidas e suicidas, a tristeza e a solidão que a acompanham desde que se lembra mas que piorou com a morte da única colega de trabalho que parecia compreende-la. É viciada em vídeos de Youtube, aos quais recorre para tudo na sua vida, para dormir, para relaxar, para "roubar" ideias para o seu trabalho, para aprender pequenos factos sobre tudo e sobre nada. Parece que toda a sua experiência de vida está ligada a um vídeo que viu no Youtube.

Quando a empresa onde trabalha decide organizar um team building, que implicará um fim-de-semana fora com todos os seus colegas de trabalho, Marisa parece começar a ceder à pressão e, embora acabe por perceber que os colegas a podem surpreender pela positiva, o estado mental de Marisa não lhe permite aproveitar o momento.

Parece um livro deprimente mas, a forma como Beatriz Serrano nos expõe os pensamento de Marisa é divertida e com muita ironia à mistura. Embora seja um livro leve, com uma escrita bastante oral, que me permitiu lê-lo na língua original sem grandes dificuldades, está ao mesmo tempo carregado de uma ansiedade, de uma tristeza e de uma espécie de desespero que o bom humor da escrita apenas atenua.

É um livro que nos faz pensar e com o qual todos nós nos conseguimos identificar, de alguma forma.

Gostei bastante. Da escrita, que aproxima Marisa de todos nós, do sentido de humor e, da forma como a história se desenrola. 

Recomendo. Se estiverem numa fase má na vossa vida profissional, recomendo precaução porque, pode ajudar a aligeirar mas também pode piorar o vosso estado mental. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Observo a mi jefe con ganas de estamparle la mandarina enla cara. Me resulta increíble que haya sido capaz de encontrar él solo a dos personas sin piernas pero necesite mi ayuda para encontrar a una mujer.
 - De qué tipo? - pregunto intentando no mostrarme demasiado irritada.
 - No lo tengo claro - dice de manera pensativa -, quizás una mujer que pueda empoderar a otras mujeres, pero también a los hombres.
 - Ajá.
Repaso mi lista mental de vídeos de YoutUbe, de charlas y ponencias feministas con oradoras excelentes que me he puesto antes de dormir y pienso en las que puedan resultar más descafeinadas, más amables, más empresariales. Una parte de mí se muere del asco, como si estuviera traicionando a mi proprio género.
«Empoderar a los hombres», como si les hiciera falta creerse todavía más su poder. Pienso em charlas sobre brecha salarial, sobre por qué las mujeres abandonan su carrera para cuidar de sus hijos o sobre la carga mental que suponen las tareas del hogar. Pienso en charlas sobre destruir el género, el sexo, el patriarcado. Pienso en charlas sobre el machismo en el lugar de trabajo, sobre la necesidad de políticas igualitarias mejor aplicadas o sobre la falta de compromiso real en las empresas en temas de igualdad. Sé que mi jefe no busca eso, sino que busca una oradora tipo de género feminimo que pueda llenar una hora de tiempo haciendo un montón de variaciones de la frase «Queres es poder». Como todos los demás, tengan o no tengan piernas. Lo único que me pide es una mujer. Cualquier mujer. Quiere llevar a una ponente para que no salten las alarmas, para cubrirse las espaldas, para salvar la reputación. Que se joda. Le lanzo dos nombres de dos charlas que he visto últimamente.
 - La primera de ellas es terapeuta menstrual. - Veo como sus ojos se abren de par en parm pero anota su nombre - No te asustes, simplesmente enseña a entender los ciclos menstruales para sacarles mayor partido alegando que a las mujeres nunca se han explicado cómo funciona nuestro ciclo; por ejemplo, dependiendo del momento hormonal en el que estés pudes ser más creativa o estar más encerrada en ti misma o ser más agresiva, y eso puede beneficiarte en tu día a día.
 - Y eso puede servir a los hombres?
 - Bueno, creo que si pueden empatizar con un señor sin piernas también podrán empatizar con una mujer con la regla.
Ramón toma nota, aunque no parece muy convecido.
 - La segunda de ellas es una mujer trans que fue prostituta y ahora escribe, produce y dirige su propria serie en HBO. Tiene un mnólogo muy intersante en YouTube que se titula «A mí también me suda el coño», échale un vistazo."

fevereiro 16, 2025

A Carne - Rosa Montero

Título original: 
La Carne
Ano da edição original: 2016
Autor: Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Numa noite, Soledad contrata um gigolô para que a acompanhe a um espetáculo de ópera, um ardil, na verdade, que não é mais do que uma tentativa de provocação a um ex-amante. No entanto, um violento e imprevisível incidente alterará por completo o curso daquela noite e marcará o início, entre ambos, de uma relação vulcânica, inquietante, e talvez perigosa. Ela tem sessenta anos; o gigolô trinta e dois. Começa o jogo...
A narração desta aventura irá mesclar-se  com as histórias dos escritores malditos da exposição que Soledad se encontra a preparar para a Biblioteca Nacional - e ser maldito é «desejarmos ser como os outros mas não conseguirmos, querer que nos amem mas só causarmos medo, talvez riso, não suportarmos a vida e, sobretudo, não nos suportarmos a nós próprios».
Como a própria Soledad, talvez?
Devorar ou ser devorado: A Carne é um romance audaz e surpreendente, o mais livre e pessoal de todos os que Rosa Montero já escreveu, que nos fala do passar dos anos, do medo da morte, da necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo. Tudo através da voz de uma eterna sedutora, apanhada de surpresa pelo seu próprio envelhecimento."

Soledad acabou de fazer 60 anos e, apesar da idade, é uma mulher ativa, que cuida de si, faz exercício e  continua a trabalhar.

Parece viver atormentada pela decadência do corpo. Sente que, por mais que se esforce, há uma altura em que o corpo deixa de obedecer e não há nada que se possa fazer.

Namorou e continua a namorar muito mas, amar, nunca amou e sente que nunca foi verdadeiramente amada. Talvez por isso, nunca tenha casado e também não tem filhos. 

Gosta de homens bonitos e mais novos. Não se imagina com alguém da sua idade vivendo permanentemente com medo da rejeição, de não corresponder às expetativas dos amantes mais jovens. É obsessiva e ciumenta, o que a leva a fazer e a dizer coisas que a tornam um pouco assustadora mas não é má pessoa. Está a passar por uma fase menos boa e está a sentir alguma dificuldade em ajustar-se.
 
Soledad, é uma mulher que recusa envelhecer, que é carente e insegura e começa a sentir medo de ficar sozinha. Por isso coloca nas suas relações amorosas todas as suas esperanças, quer amar e ser amada.

Mais um livro de Rosa Montero que surpreende, pela história em si, pelo tema e pelas referências a escritores e às suas vidas malditas. A escrita só surpreende quem nunca leu Rosa Montero, porque para quem já leu, a qualidade é aquela à qual a escritora já nos habituou.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto (pág. 21):
"Peitos redondos, pequenos, um pouco descaídos, logicamente, mas ainda bonitos. Corpo trabalhado no ginásio. Tudo natural. Sessenta anos. Para sessenta anos não estava nada mal. Mas, claro, a partir desse dia era o raio de uma sexagenária. Esticou um braço e acendeu a luz. O foco do closet acendeu-se por cima dela e todas as suas carnes, antes aceitavelmente rijas com a iluminação indireta, pareceram vir abaixo de repente, como que submetidas a uma força de gravidade 3G, revelando ondas, concavidades, rugas, decadência muscular. Observou-se lentamente ao espelho, sem compaixão. «O corpo é uma coisa terrível», disse em voz alta, ou seja, num monólogo, que é uma maneira de demonstrar loucura.
Efetivamente, o corpo era uma coisa terrível. A velhice e a deterioração escondiam-se, insidiosamente e, com frequência, o interessado era o último a saber, como os cornudos do teatro clássico. Por exemplo, às vezes, no Retiro, alguma trintona com calções muito curtos corria à sua frente, visivelmente satisfeita com as suas coxas, ignorando que, na realidade, já estavam a encher-se de celulite e que, sob a luz daquele sol inclemente, revelavam um aspeto bastante penoso.
Soledad corria com calças, evidentemente.
Carme traidora, carne inimiga, que nos tornava prisioneiras da sua derrota. Ou prisioneiros, porque os homens também descobriam, de repente, na perspetiva de uma espelho, um pescoço cheio de peles de galápago, por exemplo. Para além dos problemas da próstata ou do pavor de não estarem aptos para as lides amorosas. A carne tirana escravizava todos.
Apagou o foco. Também não valia a pena ser masoquista, sobretudo no dia em que fazia sessenta anos."