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Os Escuteiros Mirós


Huguinho, Zézinho e Luisinho tinham como missão ajudar países em dificuldades a atravessar as troikas. Um dia viram Portugal a tentar passar pelo euro fora da passadeira e decidiram emprestar-lhe uma bengala feita de tsu’s entrelaçados em ratings. Mas nada feito, iria ser atropelado. Já no chão, apiedaram-se do pobre país e decidiram ajudá-lo fazendo uns trabalhos manuais no intervalo da catequese para que os missionários da austeridade os levassem e vendessem nos países dos ricos. Huguinho fez uma nossa senhora de Fátima em cortiça encastrada num mini altar de latas de sardinha, Zezinho fez um cristiano Ronaldo com restos de bolachas maria que sobejaram do banco alimentar, amassadas em molho coalhado de bitoque, e Luisinho pintou umas naturezas mortas com peras rocha vestidas de minhota. Teria sido um sucesso não fora uma providência cautelar de mme canavilhas dizendo com a arte não se brinca.

Murmurando entendimento V – os princípios de Dona Confiança


A Família Confiança era uma família muito pura. Mesmo daquela pureza que já não se fabrica e só se encontra ou em alfarrabistas de p’reza ou em boutiques de produtos tradicionais. Está inclusivamente em fase de lançamento uma cadeia de lojas: ‘Confiança Portuguesa’. Não vai vender galos de barcelos, nem latas de sardinha, nem pães de deus, nem mesmo rendas da madeiras, mas antes uns pacotes com um sortido de confiança composto por: 1 Constituição encadernada em lombada francesa, um cartão da adse, um cartão de eleitor, um cartão de descontos do pingo doce, e uma ficha de inscrição no acp.

Mas voltemos à família Confiança, mais especificamente à menina Confiança. Nasceu ali à rua do Arsenal, entre duas lojas de bacalhau, bem pertinho donde enfiaram uns tiros no bom do dom Carlos e seu primogénito amado, e bem cedo se revelou uma moça que nunca quebrava as expectativas de ninguém.

O seu primeiro namorado, César Camacho, a primeira vez que lhe tentou dar um beijo levou com uma chave de fendas no olho esquerdo e ainda hoje vende as melhores castanhas assadas do País à porta do cemitério da Ajuda. Luís Gonçalves, o segundo, ainda ia com a sua mão direita a pouco mais de 3 cm acima do joelho de Confiança quando esta lhe enfia com uma faca de barrar manteiga pelo ouvido esquerdo, deixando-o numa espécie de permanente otite com pernas. Já tendo cristalizado a sua imagem de amante cruel, permitiu a primeira cópula digna desse nome a Gustavo Meirim, não deixando de posteriormente o humilhar publicamente revelando detalhes não dignificantes e ainda menos glorificantes, como sejam, um testículo ligeiramente pontiagudo que incomodamente a distraia no momento de gratificação. Gustava apenas conseguiu ter uma nova erecção já com 73 anos depois de uma dose de viagra intravenoso que lhe foi administrado a troco de um comodato de duas propriedades rústicas no sobral de monte agraço.

Menina Confiança, entretanto Dona Confiança, tinha assim bem sedimentada a fama de que quem lhe tocasse nunca mais se esqueceria. Sou uma mulher de princípios, dizia de forma quase solene, o meu corpo é como se fosse um artigo constitucional.

É evidente que este comportamento de Confiança (Fia, para os amigos que, obviamente, não tinha) tanto afastava clientela como atraia outra mais afoita. Foi assim que um belo dia, dois amigos, Pedro e Paulo, decidiram fazer uma aposta: qual deles a conseguiria conquistar sem que levasse mazelas significativas para casa.

Primeiro foi lá Paulo. Levava um relógio em contagem decrescente (quanto tempo faltava até que conseguisse molhar a sopa) e apresentou-se insinuando que tinha um dedinho maroto que fazia milagres, inclusivamente já conseguira transformar um protectorado numa casa de fado. Confiança olhou para ele com desdém e perguntou-lhe logo se o dedinho não lhe cabia no cuzinho. Espantado com a franqueza, Paulo decidiu que ainda tinha de tomar um bocado mais de balanço e, com o dedinho entre as pernas, foi fazer antes uma reforma de estado.

Pedro observou a cena à distância com uma certa apreensão, mas pensava ter uma arma secreta: a sua franja arrebatadora. Quando chegou à fala com Confiança todo ele eram falinhas mansas e não tardou a conseguir um tete a tete. Não prometia nada, sabia de antemão que ela tinha umas fornicatio legis muito restritivas mas ele estava disposto a todos os sacrifícios para cumprir (‘foder com jeitinho’ era a frase inspiradora que usava de si para si)

Dona Confiança pareceu claudicar com a primeira abordagem. Era um rapaz de indole respeitadora, as suas intenções apresentavam-se como das melhores, nem no inferno se encontrariam daquelas certamente. Nas primeiras horas a estratégia de Pedro começou a dar resultado, e um redondo e prolongado beijo parecia ir selar um compromisso entre Pedro e Confiança, com esta a permitir avanços pela sua constitucionalidade dignos dum coup d’état - olha para as minhas maminhas como se elas fossem duas bastilhas, chegou mesmo a sussurrar-lhe ao ouvido, enquanto Pedro já se via a mascar bastilhas.
Mas como qualquer macho, com ou sem franja, com ou sem agenda libertina, Pedro sabia que teria de ir testando passo a passo Confiança para ver até onde poderia ir - se me deres a tua betesga eu serei o teu rossio, foi a vez dele sussurrar. Pensava ele que depois da sua mão já ter poisado por terrenos de reserva natural, poderia doravante urbanizar e em propriedade horizontal por qualquer lado sem precisar de comprar maiorias na vereação. Quando a coxa já é um direito adquirido por que carga d’água terá um homem de recuar para o joelho, perguntava-se.
Mas Dona Confiança era muito zelosa dos seus princípios e estava convicta de que tinha adquirido um estatuto de inviolável que não poderia perder por qualquer franja por mais voluptuosa que ela fosse.
E assim, estava já Pedro a alçar a perna para um movimento mais acrobático quando Confiança se lhe escapa por entre os rins e decide ir acertar linha das sobrancelhas e pintar as unhas de outra cor, fazendo-o estatelar-se no arraiolos que nem um Junot de porcelana.

Será desprezo genuíno, será jogo, será apenas prudência, será capricho, ruminava Pedro por entre os ossos doridos a fazer de escombros. Mas Dona Confiança já estava noutra, remoçada e de peitos ao nível do entrecot, deixou Pedro a lamuriar-se com Paulo que entretanto já declarava aos quatro ventos que ela afinal nem era grande coisa e que mais valia uma pila na mão que duas vulvas a voar, ou melhor, um imposto novo na mão que duas constituições velhas a voar.

Murmurando entendimento IV – madibando-se para isto tudo


Cristina Lagarde veio reconhecer que tinha sido contratada para fazer uma fmímica gestual mas que entretanto começou a ter visões e baralhou-se toda. Não teve coragem para parar e seguiu fazendo as suas pantominas em forma de resgate porque não queria atrapalhar as cerimónias fúnebres.

Murmurando entendimento III – do cabaré para o convento, ida e volta


Simão Bivalves sempre fora um reformista da primeira hora. Vivera torturado pelos desmandos e manobras daquele que ficaria sorbonianamente especializado em tortura, e encontrara em Passos Coelho uma espécie de vamos-lá-ver-se-dá, tipo chave de fendas em promoção. Habituado a escarnecer e a elogiar, com uma discricionariedade da família dos pequenos caprichos, Simão punha-se agora a jeito para servir de mais um alibi ideológico a uma bateria de testes chamada pomposamente governo de salvação com troika em opção.

Pau para toda a colher, arrastou-se de gabinetes em gabinetes, tentando vender-se como eminência parda mas pago a preço de conselheiro laranja. Andou próximo do poder e sentiu-se recompensado por aquela sensação pirilâmpica de quem está tão próximo da luz que se julga ser interruptor.

Emprestou a alta verve, a média cultura e a baixa vergonha ao serviço do desdém olímpico e da cumplicidade banana, contradisse tudo o que já tinha dito com a limpeza típica das superioridades de ocasião, e ganhou referências que nunca sonhara sequer ter que suportar num grupo de sueca de reformados.

Inchou com o vento que teve à mão e desinchou com as picadelas dos ouriços do poder, esbracejando que não se pode ser maquiavel com medicis estragados.

Simão Bivalves dedica-se agora a mostrar que afinal sempre foi um espirito livre. Da mesma fora que nada prende o diáfano flato ao espasmódico colón.

Murmurando entendimento II – pib com laranja


Como o nosso PIB ainda está muito cru para enfrentar novamente a vida lá fora, há que o preparar.

Num almofariz coloque as reformas do estado, o crescimento e a competitividade.

Esmague até que fique uma pasta.

Num tabuleiro de ir à troika tempere o PIB por igual com as reformas de estado esmagadas.

Junte no tabuleiro 2 folhas de orçamento de estado, 3 manifestações de polícias, 4 exames de professores e o sumo de laranja.

Por fim coloque a manteiga.

Leve ao Bundesbank pré-aquecido e deixe assar aproximadamente ano e meio.

Entretanto, num tacho, leve à comissão europeia o restante caldo, o deficit público, a manteiga e os miúdos (as gerações mais novas).

Tempere um pouco com demagogia e corrupção.

Deixe cozer entre 4 a 5 meses, até as novas gerações ficarem tenrinhas.

Passado um ano do PIB estar no bundesbank vire-o de forma a que fique com as exportações para cima.

Depois das novas gerações estarem fodidas, perdão, cozidas, retire-as com um escorredor (qualquer instituto público serve) para um centro de emprego raso.

Ao caldo que sobrou junte água suficiente para afogar dois quarteis de bombeiros.

Deixe foder, perdão, ferver. Depois de ferver junte os reformados, mexa e aguente duas ou três inconstitucionalidades.

Entretanto, corte os miúdos (novas gerações) e desfie a parte do consumo privado do PIB. Não se esqueça de limpar bem a TSU.

Depois dos reformados fodidos, perdão, cozidos, junte os miúdos e misture.

Coloque tudo num tabuleiro de ir ao Bundesbank e espalhe. Por cima coloque uma rodelas de funcionários públicos.

Depois do PIB assado, retire-o.

Aumente a temperatura do Bundesbank para o máximo e coloque os reformados, os funcionários públicos e os desempregados a tostar. Passados dois meses retire.

Sirva o PIB em pedaços, acompanhado com os desempregados e rodelas de laranja.

Está pronto para servir aos mercados.

Murmurando entendimento I


Aparentemente «a troika reconhece erros mas são para manter» o que me parece uma atitude bastante acertada. Julgo até que da nossa brilhante história o ‘erro da troika’ é dos erros melhorzinhos que nós temos feito e para além disso tem a virtude de podermos dizer que não fomos nós, foram os outros meninos. Se considerarmos erros como por exemplo o terramoto de lisboa, a presidência de godinho lopes, a morte de dom Carlos, a aventura de alcácer quibir e a exportação da orsi feher , o memorandum e respectivos folhos foram dos melhores figurinos com que nos equipámos. Vamos-mos lá entender:  nós evoluímos na cadeia alimentar das crises, pois deixámos de ser um país com crise para sermos uma crise com país.

Como já vi escrito em qualquer lado: nós não somos os herdeiros dos que foram à Índia, nós somos herdeiros dos que ficaram.

A arca de Nelo #3


Quando Nelo, ex-nelo agora já Nelão Duarte, desembarcou ali na zona do cais do Sodré, decidiu subir a rua do alecrim para ver como paravam as modas no império. Deixou na barca a maior parte das parelhas e fez-se à calçada apenas com Sócrates que, tal como a sua amiga do peito nelinha moura guedes, estava desejoso de testar a popularidade, mas ninguém o convidara para apresentar concursos pelo que vivia torturado.

Chegados à zona da rua das flores e ainda sem tragédia à vista Nelo perguntou-se porque se viam tantos paneleiros num país que precisava de aumentar a sua natalidade. Ninguém lhe respondeu em condições, e ele deu-se conta de que havia relaxamento. Sacou do telemóvel e ditou: tenho de fazer um novo código de costumes, algo que fique para a posteridade e não nos deixe nas mãos de constituições mariconças. A par disso vou então fazer um programa cautelar, ou seja, cada português vai vender uma cautela da lotaria do natal a 4 alemães. No final o pinto da costa faz um sorteio e por coincidência a sorte grande sai a um árbitro da póvoa do varzim que estava a juntar para reforçar a marquise contra os ventos da maresia e que teria prometido 3 penalties ao fócuporto numa fase crítica do campeonato.

Já Nelão Duarte, envergando uma capa de arminho lilás comprada na Benetton, estava a distribuir autógrafos em frente à igreja dos mártires quando é chamado de urgência à barca: havia uma rebelião entre as parelhas, criara-se, na sua ausência, uma facção que queria antes desembarcar em Alcochete e vir tomar a capital pela ponte fairy (ex-vasco da gama), aproveitando para comer um peixinho grelhado.

Vou comer uns chocos fritos e já volto - disse Nelão Duarte à multidão que o aclamava.

A arca de Nelo #2


A arca de nelo está ancorada junto ao mar da palha com vista para a casa dos bicos, onde mme saramaga ainda pensa que estamos todos ceguinhos, e o ambiente no convés é de alguma expectativa: aparentemente portas e passos já foram na enxurrada mas ainda não se percebe se é o momento certo de desembarcar. Inesperadamente aparece um pardal vestido de Wellington a segurar um novo livro de gonçalo m tavares no bico, com o título: ‘pilhagens da minha terra’. Josefa Noémia avisa então Nelo Duarte de que se calhar os ingleses tomaram conta disto para fazerem corridas de galgos. Gera-se alguma consternação entre as parelhas de reserva mas Joana amaral dias, alheia às convulsões, avisa que só vai a terra se estiver garantido que o salão de beleza que lhe estica o cabelo e põe betume na cara ainda está operacional. Nelo acha que está na altura de largar o leme e tomar as rédeas. Reúne toda a tripulação, sobe para uma réplica do cavalo de d. José em gesso, e anuncia: doravante serei proclamado Nelão Duarte e irei tomar conta do País. Os casais que estiverem comigo serão nomeados generais de freguesia. Acabou o tempo do protectorado, das troikalinadas e dos cismas grisalhos, viva a União Platinada. Há lugar para todos: piegas, coninhas, machetes e zorrinhos, desde que chamem de imperatriz à minha josefa noémia. A minha primeira medida será fazer um viaduto sobre o marquês e um túnel entre o barreiro e o cais do Sodré: o povo deve perceber que há alternativas.  Distribuição de kerastase para todos os carecas e push-ups para as mamocas de todas as tábuas de engomar. Quero tudo de cabeça levantada e a encher o peito de ar.

A arca de Nelo


Nelo Duarte depois de ter sido Secretário de Estado da Pachacha social única e dos Medalhões de Vitela foi colocado como embaixador especial do instituto meteorológico na primavera árabe. Após ter sido enrabado na praça Tarhir ao ser confundido com uma jornalista da revista Burda, decidiu mudar completamente de vida e voltar à Pátria para a salvar da revolução em curso que estava a ser conduzida pelos libertários do Termidor orçamental.

O seu principal objectivo era juntar num cacilheiro, especialmente decorado pela omnipresente vasconcelas, um casal de representantes de toda esta gesta da reforma do Estado e Barracas afins, fazendo dela uma grande arca para que depois do dilúvio não se perdesse nada e Portugal voltasse a ser aquele sonho quinhentista que sempre foi e do qual nunca devia ter saído.

O primeiro casal a entrar foi a menina ferreira leite e o escuteiro bagão que tiveram direito a um camarote com vista para a Trafaria e com o rádio sintonizado na rádio renascença. Depois destes devidamente instalados entrou clara ferreira alves com um frasco de água oxigenada e de braço dado com pacheco pereira e que tiveram direito a um beliche duplo com vista para o cristo rei, e paredes meias com o camarote de judite de sousa e marcelo rebelo da mesma. Os vários casais foram subindo para o cacilheiro de forma ordeira e apenas se verificaram algumas escaramuças quando mário crespo se recusou a emparelhar com amélia de rey colaço pela compreensiva razão de que esta já não estava com boas cores.

Como Nelo Duarte era um verdadeiro institucionalista reservou um camarote onde juntou um contador de electricidade  marado com uma via verde a piscar amarelo e outro onde juntou uma constituição da república com dois baralhos de tarot. Chegou a ter uma cegonha da ren a acasalar com o dono dum restaurante chinês, mas o chinês não passou o controlo sanitário, não perdeu tempo e tinha de reserva uma funcionária pública que juntou a um pensionista viúvo de outra encaixando-os num camarote com vista para a rua da betesga. Ana drago conseguiu entrar mascarada de iva da restauração juntamente com marques mendes mascarado de boletim do euromilhões.

Inevitavelmente cada enviado da troika teve de se juntar com uma deputada da maioria e foi muito notada a escolha do careca por aquela moça do psd já entradota mas com uma franja toda janota.

Depois do cacilheiro ter ido fazer um cruzeiro na costa da Somália, Nelo Duarte mais a sua Josefa Noémia, já devidamente coroada de grumeta d’honor, entraram na barra e esperaram que aparecesse a pomba com o raminho de oliveira, o que poderia indiciar que francisco louçã já teria sido empossado de director geral das alfândegas, no entanto, constataram que ainda se estava na fase em que mario soares era o director das Al Pândegas.

(pode ser que ainda continue)

Aero-remodelismo


Raul Bilirrubina, o famoso escritor de utopias literárias , nas quais usava o pseudónimo de Cardoso Cuco Castelo, aquando da apresentação do seu último livro disse que se iria dedicar à politica.

A audiência primeiro pensou que se trataria duma blague para chamar a atenção, mas rapidamente percebeu que representava uma decisão séria.

Ao se ter criado um ambiente de alguma surpresa, Cardoso Cuco Castelo, ou melhor Raul Bilirrubina, achou por bem dar mais detalhes sobre o que iria fazer. E eis que revela algo ainda mais inesperado: tinha sido convidado para Ministro das Florestas e preparava-se para aceitar.

Não podemos tomar a árvore pela floresta, relembrou, e como ele ficaria com o pelouro da floresta teria ocasião de olhar para todos os outros e dizer-lhes: «vocês só estão a ver a árvore, deixem comigo que eu vejo a floresta»

A audiência saltava de estupefacção em estupefacção, apesar de não terem chegado a ficar estupefacientes, e agora já nem sabiam se deviam considerar aquilo uma brincadeira, ou uma grande ingenuidade do escritor, ou até uma maior ingenuidade de quem o tivesse, eventualmente, convidado, e no limite até terá havido um ou outro convidado que tenha pensado que ali se revelava finalmente uma qualquer genialidade até aí escondida.

Claro que apareceu logo um brincalhão de serviço que esganiçou o previsível aparte de que todos os guardas florestais iriam ser promovidos a secretários de estado, mas em geral as pessoas entreolhavam-se num silêncio pontilhado daquele típico esgar de lábio em meia-lua e olhos quase arregalados.

Já se estava na fase dos autógrafos quando Cardoso Cuco Castelo, aliás Raúl Bilirrubina, disse a um dos assistentes que era preciso ter cuidado pois se uma andorinha não fazia uma primavera uma árvore já podia fazer uma floresta. Este último, intrigado, perguntou como seria isso? Tudo tem a ver com as sementes, respondeu com algum enigmatismo Cardoso CC, - aliás, bem, já sabem o nome dele - e nesta remodelação pretendeu-se voltar a ver as coisas mais por cima da rama.

O incidente passou, as pessoas também já estavam mais a pensar em ir para casa jantar e assistir aos comentários sobre os novos episódios da nova telenovela Les Irrévocables, mas no final da sessão uma pessoa foi ficando, ficando até só restar ela e o próprio futuro ministro das florestas, os dois especados na sala que nem dois pinheiros preparados para lhes sacarem a resina.

Senhor ministro, acho que lhe poderia ser útil. Como assim, respondeu Cardoso CC, entre o surpreendido e o negligente sem esconder o incomodado. Tenho muita experiência no desbaste e calculo que vai ter muito que desbastar. Talvez, respondeu Cardoso, cofiando um bigode que não tinha há mais de 15 anos, mas ainda não lhe despertando a atenção a ponto de ter desistido de fazer ir fazer uma mijinha - não se esqueça do que tem para me dizer, mas já não aguentava mais; aaahh, ffff.

Aquele momento em que um homem espera que outro mije geralmente é ocupado pelo que espera com pensamentos de registo obscuro, no entanto aquele representante do que restava de uma audiência não perdeu tempo e disse bem alto: veja lá se esse ministério não vai servir para que os outros tenham onde fazer uma mijinha na hora do desbaste de custos.

Cardoso saiu da casa de banho ligeiramente alterado, nada que lhe tivesse perturbado o sempre delicado movimento do fecho éclair mas o suficiente para o colocar em expectativa – o que quer dizer com isso?

Senhor ministro, acho que na remodelação lhe deram esse ministério não por causa daquela lengalenga da árvore e da floresta, mas para terem um sítio qualquer onde os cortes sejam fáceis e naturais de fazer e, pelo sim pelo não, sempre lá podem ir fazer uma mijadela de vez em quando. Diga-lhes só para não mijarem contra o vento.

Uma república acima das nossas possibilidades


D. Duarte Pio – Isabelinha, minha querida, se calhar está na altura de fazermos um golpe de estado

D. Isabel – Senhor, acho que não tenho nada que vestir para uma ocasião dessas

D. Duarte Pio – No estado em que isto está o mais ajustado é um fato-macaco

D. Isabel – Querido, chamam-se jardineiras e já não me servem desde que entrámos para a moeda única

D. Duarte Pio – Tudo te fica bem, minha rainha, desde que não ponhas uma saia muito travada, pois podemos precisar de correr, por mim tudo bem

D. Isabel – Senhor, já mostras a magnanimidade dos grandes estadistas…

D. Duarte Pio – Achas que depois devemos manter o menino passos coelho e os outros como ministros do reino?

D. Isabel – Credo, Senhor, antes chamar a padeira de Aljubarrota e juntá-la com o Miguel de Vasconcelos

D. Duarte Pio – Então e exilamo-los para onde?

D. Isabel – Há aquela ilha das cagarras ….

D. Duarte Pio – Mas essa já está reservada para o senhor doutor anibal…e se lhes pusermos também umas anilhas e os deixarmos ir para casa, assim nem davam despesa?...

D. Isabel – Dava uma imagem de poupança, sim… e o que fazemos com os da troika?

D. Duarte Pio – Então, ao selassié fazemos barão da damaia e aos outros viscondes da bobadela

D. Isabel – E aos mercados?...

D. Duarte Pio – Então, montamos uma Câmara Alta no bolhão e pomo-los lá a perorar com yelds

D. Isabel – Mas isso é que é uma verdadeira mudança de regime, meu Amor, corre-te no sangue o fluido dos grandes reformadores

D. Duarte Pio – Sinto que estive os anos todos a ser preparado para este grande momento

D. Isabel – Mas olha, amor, eu hoje tinha combinado ir aos saldos, achas que podemos fazer o golpe de estado antes amanhã…eu até já teria o guarda-roupa mais adequado e tudo para a restauração 2.0

D. Duarte Pio – Vais ter de fazer sacrifícios, uma rainha tem de pensar primeiro no seu povo…

D. Isabel – Achas que o povo está à frente da minha reputação e tudo?

D. Duarte Pio – Não sei… isso vai ter de ficar definido na nova constituição

D. Isabel – Mas achas que vai ser preciso fazer outra!? Não serviria o catálogo da Redoute?

D. Duarte Pio – Não sei, eles com a república ficaram um bocado esquisitos

D. Isabel – Meus Deus, em que estado é que isto estará… Não seria melhor arranjarmos um regente?

D. Duarte Pio – Sim…e até podíamos deixar tudo como está !, só que passava a ser monarquia e já não eramos responsáveis pelas dívidas da república

Isabel – Amor, tanto talento desperdiçado, mas posso à mesma comprar roupa nova para o golpe de estado, não posso?

Uma salvação acima das nossas possibilidades



Baptista da Silva – olha lá, achas que está na altura de dar mais alguma entrevista?

Capitão Roby – eu noutro dia comi uma gaja que é pivot e meto-te na boa numa mesa redonda

Baptista da Silva – desta vez tinha pensado em dizer que era observador por parte do kremlin

Capitão roby – tem cuidado que eu uma vez comi uma ucraniana com tranças mas fiquei ulcerado no estômago, julgo que estava contaminada

Baptista da Silva – sim, tens razão, se calhar opto por dizer que sou fiscal d’excel

Capitão roby – por acaso noutro dia comi uma miúda em cima dum power point e ela disse-me que eu tinha um outlook fatal

Baptista da Silva – olha, estou a pensar apresentar um estudo que demonstra que há uma correlação directa entre a austeridade e a austeridade

Capitão roby – isso lembra-me uma vez em que eu andava a comer umas gémeas que também trabalhavam em correlação

Baptista da silva – a libido e a economia andam muito ligados…

Captão roby – não me digas…o mais parecido que comi com uma economista foi uma escritora de livros infantis

Baptista da Silva - sim, e na economia também se aprende a controlar os impulsos sob pena de tudo se esvair em superavits precoces...

Capitão roby – aishh... nessa onda o pior que me aconteceu foi numa fase em que andei com a mania da miúda única… passava o tempo com restrições e quando voltei ao mercado reparei que estava muito desvalorizado e nem tinha dado por isso, foi um castigo para voltar a sacar umas miúdas novas

Baptista da Silva – pois é, isso é terrível, eu se calhar vou antes fazer um estudo empírico a demonstrar que o que trama a moeda única é ela ser única, por exemplo, num país com várias moedas únicas acho que esta crise nunca aconteceria

Capitão roby – olha, lembras bem, uma vez andei com umas empíricas suecas e digo-te, nunca chegava a ser necessário arranjar uma teoria para aquilo tal a variedade de resultados, e bons, que se obtinha. Eu sou um apologista fanático do estado social em formato loiro e robusto, detesto escanzeladas, aliás, estou sempre em greve de escanzelo.

Baptista da Silva – eu também gosto muito do estado social, uma vez fiz um estudo para a rádio renascença em que demonstrava que há uma correlação directa entre o nº de terços rezados pelas pessoas juntinhas em Fátima e o número de avé marias produzidos pelo País…

Capitão roby – sim, sim, as religiosas são as melhores, um tipo tem é que lhes levar os filhos à catequese, ouvir uma ou outra ladainha, mas depois são muito certinhas, têm a noção do dever, não sei se estás a perceber?

Baptista da Silva – por isso é que eu já defendi que para nós termos bem a noção do dever, têm é de nos emprestar ainda mais, pois quanto mais devermos mais noção temos, e assim por diante, é logarítmico e tudo, já expliquei isso uma vez numa conferência para prémios nobel da paz que organizei no Porto Brandão

Capitão roby – nem me fales da Porto Brandão, pá, uma vez comi lá uma gajita a julgar que era a angelina joli e afinal era a empregada duma pastelaria na costa da Caparica que tinha perdido o autocarro e sofria de asma e tinha o peito metido para dentro

Baptista da Silva – meu Deus, o mundo é muito dado a confusões, é…, olha que ainda noutro dia estava a dar uma conferência para tipos com problemas de inserção social e depois descobri que aquilo era mesmo o conselho de ministros, e nem foi o tipo do lacinho que me levou lá!

Capitão roby – eu gosto muito de inserção social! Muito mesmo. Sem isso não há salvação. Aliás, só concebo mesmo a sociabilidade em geral num ambiente de inserção em particular.

Baptista da Silva - então se calhar hoje vou mesmo aceitar o estatuto de observador da salvação nacional, vendo bem uma pessoa não se pode estar sempre a expor, não é?

Capitão Roby - discrição acima de tudo, sim, o segredo é a cama do negócio

Uma democracia acima das nossas possibilidades


PSD – então rapazes, vamos lá fingir que chegamos a um acordo qualquer sobre qualquer coisa com um objectivo  qualquer

CDS – bem, eu já paguei o meu preço de reputação…, agora é a vossa vez

PS – queridos, eu só preciso de ir aguentando isto até às novas eleições, vocês já sabem…

PSD – primeiro temos de escolher um tema para estarmos de acordo…

CDS – podíamos escrever um texto sobre a cereja do fundão….

PS – é pá, também é chato dar cabo da reputação da cereja…

PSD – olhem, e se disséssemos que nos tínhamos reunido em boliqueime e isto ficava como o os ‘acordos de boliqueime’, desarmávamos o gajo…

CDS – pois, pois, e falávamos das amendoeiras em flor e assim…

PS – e vocês levavam a mal se intercalássemos uns versos do Manuel Alegre?

PSD – por mim tudo bem desde que eu ainda vá lanchar a casa…

CDS – e eu com isto já perdi a missa do meio-dia…

PS – a democracia tem um preço…

PSD – acham que 3 páginas chegam?

CDS – se calhar devíamos falar sobre as berlengas para dar um ar de ainda maior abrangência ao acordo?

PS – sim… tipo refúgio pós troika, o gajo anda obcecado com o pós troika… será que ele pensa que também há uma depressão pós troika?

PSD – já se bebia era qualquer coisa…detesto consensos assim com a boca seca

CDS – quando íamos com o Paulinho às feiras tínhamos sempre ginjinha com fartura…

PS – e não terá ele abusado da bebida?...

PSD – vá lá, não me distraiam que isto está quase pronto…olhem lá, se pusermos isto a acabar com um verso do Herberto Helder, então é que isto fica mesmo à prova de bala, hem?

CDS – não pode é ter palavrões por causa do bébé da ministra cristas!

PS – olha que até está a ficar um texto todo catita, sim senhor, belo Compromisso de Salv[e-se quem puder]ação Nacional que a gente aqui arranjou, hem!

PSD – vocês não acham que o gajo vai topar que isto é tudo só treta para ver se ele se cala?

CDS – na… ele quer é ir sossegado de férias e que a Mariazinha não o chateie, e que o bulhão pato seja amigo das ameijoas, o importante é o primado da família e…

PS – é pá esquecemos-nos de pôr isso…

PSD – meninos agora já não vai a tempo, falei da miscigenação das raças, da língua portuguesa, do pastel de nata, da ínclita geração e já foi um pau, agora tenho de me despachar porque já mandei pôr o pargo no forno lá em casa

CDS – isto está tão consensual que até o rato mickey assinava, pá!

PS – esperemos que agora não venha o soares e estrague isto que nos deu tanto trabalho a escrever

PDS – assim até dá gosto fazer Consensos & Compromissos nacionais, pá, ainda franchisamos esta coisa, melhor que nisto só mesmo nas cartas de demissão, ...agora é a vez do PS também fazer uma dessas para nós brincarmos, hem!

CDS – sim, senão depois disto brincamos com quê?! Este selassié nem usa rastas!

Um presidente acima das nossas possibilidades


M. – Filho, desta vez vais mostrar que és um homem, ou quê!?

A. – filha, estamos quase em férias…deixa lá isto passar…

M. – Nem penses! Ainda te chamam banana!

A. – mas ó filha, eu tinha prometido aos nossos netinhos que ia jogar com eles ao sete e meio para o Algarve!

M. – Eu levo os miúdos para baixo e tu ficas cá para mostrar que existes!

A. – mas eu existo…

M. – Tu não existes, filho, fora dos programas de comédia não existes, desta vez vais ter mesmo de fazer alguma coisa para te fazeres presidente existente!

A. – achas que se eu fizer outro discurso sobre o estatuto político dos Açores estará bem?

M. – Ó filho, tu atreve-te! Tu agora vais ter mesmo de deixá-los à toa! Não me interessa nada do que vais dizer, eles têm é de ficar: à toa.

A. – então…mas só se eu disser que aceito o Portas mas só se ele fizer um corte de cabelo igual do Nuno Melo…

M. – Não dá, filho, ele ainda compra um capachinho e safa-se, tens de ser mais incisivo, raio! Será que também vou ter que ser eu a resolver isto como tive de fazer ontem com os estores que estavam encravados!

A. – ó querida, isso é que me fazias mesmo um grande favor… eu estou aqui com uma dor nas cruzes e tudo por causa duma posição que tive de fazer com as costas durante a última tomada de posse

M. – Olha, tu vais lá e dizes que sim mas que não eventualmente assim-assim, ou então coiso.

A. – parece-me bem pensado e dá imagem de durão, mas olha…e depois posso ir para baixo com os netinhos?

M. – Só podes ir quando o Portas ficar careca, antes disso estás proibido. Deixo empadão no congelador e já limpei a gravata cor de salmonete que estava com aquela nódoa de sardinha assada

A. – e se eles depois me disserem: 'então agora tome conta disto'... o que é que eu faço?

M. – Nesse caso, chamas a troika e marcamos aquele cruzeiro na Somália para ver os piratas!

A. – mas ó filha, eu preferia ir antes jantar fora uns salmonetes ali a setúbal?

M. – Primeiro os piratas, depois, quando voltarmos, se setúbal ainda for nosso vamos aos salmonetes!

A. – estou com muito medo, já sem sei se consigo fazer a minha cara de pau…

M. – Consegues querido, claro que consegues, fazes assim: quando estiveres a ler o discurso pensa naquele dia em que o nosso netinho mais novo te bolsou para cima das calças e então faz a mesma cara!

A. – achas então que eu ainda sou muito homem?

M. – Claro, filho! Uma mulher nunca faria figuras destas!

Acabaram as gaspadinhas venha a lotaria popular


Pouco ou nada tenho escrito sobre a chamada realidade realmente real (tirando uns dispersos da vie au tanga, au bailout e au rachat) pois, como seria expectável, irei daqui a uns tempos escrever os textos que serão definitivos sobre o tema e preciso de manter o meu estatuto técnico de espectador distante - pois não tenho perfil churchilizável. Contudo, apenas uma doença de índole hemorroidal aguda e em fase eruptiva me impediria de sentar aqui neste momento e declarar que, dois pontos:
se por mero acaso, ou leviandade de punho, voltarmos a eleger um tal engenheiro técnico pós-graduado em velhas oportunidades, nem que seja para tesoureiro numa junta de freguesia, é porque somos uns tais de gajos que merecemos ser confiscados de todos os depósitos acima de qualquer valor.

vai-se a ver é carolina herrera


Os nuestros hermanos, que não podem ver nada, na impossibilidade de arranjarem um consultor da onu porque são fracos em línguas, desencantaram um tal de Mulas Granados - que por acaso terá participado num tal de estudo do FMI - que escrevia artigos sob pseudónimo numa tal de fundação. Convenhamos que se esforçaram, mas não é nada que se pareça com o nosso baptista da silva. Aguarda-se agora a divulgação da marca da mala que vão oferecer às suas pepas xavieres.

alô, fala dos mercados?

Seguindo os sábios conselhos dum ex-membro da confraria do bacalhau e consultor pro bono da ONU o governo requereu o alargamento do prazo de pagamento da dívida pública, já só falta Gaspar dar uma mala Chanel a cada pensionista para apaziguar o tribunal constitucional e tudo voltará à normalidade.

dou-vos um mandamento novo


Nós somos aquele país que acaba o ano com um baptista da silva e começa o seguinte logo com uma pepa xavier. Por outro lado, não satisfeito com o tsunicómio criado há uns meses atrás, o governo mete moeda e saca dum relatório efemirizado, revelando que afinal se consegue voltar ao Estado equilibrado de salazar e caetano ( esta expressão continua a ser bastante boa, que fazer) sem precisar de pôr ninguém no tarrafal desde que uns quantos se contentem em ir viver para debaixo das pontes. Como democrata evoluído estou completamente de acordo com tudo desde que não me calhe. Como regra, o democrata evoluído deve pensar apenas nos seus interesses e por duas ordens de razões: a) somos os melhores a saber os nossos interesses (isto faz parte da evolução, por exemplo no tempo do Estado de Salazar e Caetano eram eles quem sabiam o que era o melhor para nós); b) não devemos ajuizar dos interesses dos outros porque nos podemos enganar (enganarmo-nos faz parte da evolução, antes praticamente ninguém se enganava porque morria relativamente cedo). Esclarecida a minha posição, serve o presente apenas para declarar que se deus nosso senhor me proteger presentemente prometerei votar pelo bem comum nas próximas eleições.

anda, caralho


Apesar de não possuir caderneta profissional de terapeuta julgo que todos, numa aproximação imperfeita ao Mandamento do Senhor, temos a obrigação de proporcionar ao próximo um mínimo de condições para que ele extravase a sua raiva interior e que o faça da forma mais benigna para os que o rodeiam. Este é o ponto, e é um ponto bonito, na minha maneira de ver.

Um dos locais de eleição para esse transvase de bílis é do conhecimento de todos: o trânsito. Não irei discorrer sobre o tema em teoria, ele já está tratado seja por especialistas, seja por curiosos, seja por amantes da opinião livre em geral e da badalhoquice em particular.

A forma que escolhi para cumprir este mandamento na sua versão terapêutica foi atrasar-me ligeiramente a arrancar ao sinal verde, proporcionando assim ao condutor de trás momentos de verdadeiro êxtase de raiva e ódio sobre mim expelidos de forma concentrada, mas sempre devidamente controlada e confinada no espaço.

A fórmula de escape terapeutico que tenho assistido com mais frequência e que me parece de resultados mais imediatos é um «anda, caralho», dito apenas com um ligeiro arregalar de olhos e um levantar das maçãs do rosto que muitas vezes evidencia duas rugas laterais de belo efeito em caucasianas sem maqulhagem excessiva. Na maioria das situações este movimento terapêutico atinge-se com um mero atraso-de-arranque de 1,5  segundos mas já encontrei casos desesperados de reacção aos 6 décimos de segundo.

Um segundo modelo de intervenção é aquele que tem associado o formato de impropério simples:  «foda-se, arranca!». Dado o grande potencial de dinamização económica que tem associado, geralmente é adequado a pessoas com uma intervenção cívica relevante e que se preocupam realmente com o estado das contas nacionais, deficits e espirais recessivas. Por regra, esta fórmula terapêutica deve vir acompanhada com aquele movimento de braços que numa primeira fase se afastam em leque do volante para depois nele aterrarem com veemência  recolocando-se em posição de ataque ao semáforo e ao carro da frente (o terapeuta - eu) . Grandes oscilações de pescoço já não são necessariamente observadas nestas ocasiões, e como se seguem arranques rápidos a terapia conclui-se sem efeitos secundários. Já acompanhei pacientes que depois do arranque chegam mesmo a conseguir bufar duas ou três vezes o que é altamente recomendável desde que não embacie.

Uma outra técnica terapêutica que também aconselho é a que está associada a sinais de amarelo intermitente. Atrasar o arranque acima dos 2 segundos em bastantes destas situações consegue proporcionar ao nosso cliente do carro de trás aquele movimento para trás com a cabeça e olhos no zénite e que, com jeitinho e paciência, conseguimos que ainda esboce um «merda, mexe-te, merda». Se repararmos, este impropério terapêutico é de enorme potencial pois não só permite a irritação adicional de ter de dizer desenroladamente 3 émes seguidos, sendo que um deles é um verbo, e ainda para mais é uma frase capicua, o que nalguns espíritos mais escrupulosos adiciona bastante valor-de-exasperação.

É evidente que - e os leitores mais atentos e conhecedores certamente já terão pensado neste reparo - nem sempre a terapia termina nem esgota com o mero atraso de arranque seguido de impropério de ódio dirigido contra certos-incertos. É preciso garantir que se segue um alívio e esse alívio tem de ser muitas vezes concretizado com expressões em surdina como «não tens nada para fazer, cabrão», ou «é por causa destes cabrões que isto não anda para a frente», ou mesmo até um «país de conas é o que isto é» (as generalizações em certas sessões terapeuticas podem ser bastante apropriadas). E é nestes momentos que o terapeuta que todos temos dentro de nós se deve sentir realizado.
Mais realizado que isto só mesmo hoje a seguir ao almoço quando uma miúda bem gira do pescoço cima, ali num semáforo às Amoreiras, depois de lhe ter atrasado um arranque em coisa de mais de 1,45 segundos, lhe consegui sacar um «fode-me assim outra vez, meu amor, fode», com sopradela de franja e tudo. São estas coisas gratificantes que nos ficam. Nem passei factura, que Deus me perdoe.