De manhã, era ela que tocava lá em casa. Não por imposição do meu pai ou da minha mãe, mas sim por culpa do rádio velho pequenino em cima do armário da casa de banho. O meu pai fazia a barba, a minha mãe fazia o pequeno-almoço, o meu irmão resmungava porque não queria tomar banho e eu resmungava porque não queria ir para a escola. A vida é sempre assim. Os pais fazem e os filhos resmungam.
A música passava na Rádio Renascença, julgo eu, e avisava-nos que a vida não havia parado. A escola, os professores, o futebol, os amigos, os inimigos, os testes, os berlindes, os tempos livres, as idas a pé para casa, os medos de ficar sozinho em casa, os filmes do Indiana Jones, os Legos, as fortalezas de almofadas, as casas de cassetes de vídeo. Tudo isto era real e tudo isto esta música começou.