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sábado, 7 de agosto de 2010

CIRCO DE LETRAS
Os amores de Verão ficam enterrados na areia

Um título lamechas merece uma crónica lamechas. E prometo não desiludir, já que o tema é o amor e, como todos bem sabemos, o amor é sempre lamechas. Um coração esgravatado numa árvore, outro coração escrito na mesa da sala de aula, outro ainda desenhado na areia... Cada um com o seu feitio, o seu humor, a sua forma de estar. Sentado ao divã, está hoje o que tem areia nos pés (e alguma na cabeça), o amor de Verão.

Antes de nos apaixonarmos por isto, é melhor esclarecer que o amor de Verão não leva a lado nenhum. É exactamente igual aos outros. A vantagem é que este tem piada. Não se mata, não se morre, não se cai num caldeirão nem se é expulso do Paraíso. O amor de Verão dói. Mas passa. Dói agora. Amanhã não existe. Claro que fica gravado (a cores), mas bem arrumadinho.

No resto do ano, o amor é regrado, metódico. "Jantamos amanhã?", "Amanhã não posso, tenho reunião. Depois.", "Quando?", "Quando te der mais jeito.", "Não me dá jeito, eu trabalho.", "Eu também.", "Raios!". Este amor não dá jeito nenhum. É um amor que faz contas, que cumpre horários, que pensa. Um amor que apenas se faz no café, na fila para o autocarro ou no escritório é um amor triste.

Já o amor de Verão calça chinelos e queima os sapatos, veste t-shirts e rasga os fatos e as gravatas. Nem sequer usa maquilhagem. Pega na guitarra partida e começa a tocar os Jardins Proibidos. Desafinado. Mas é mesmo assim, porque lá no peito também bate um coração. O amor de Verão não dá rosas nem caixinhas de chocolate. Apanha escaldões e fica com a marca da pulseira que a miúda nos deu. Protector? Para quê? O amor de Verão não usa protector. Nem quer. Aliás, o amor de Verão não é vermelho, é ultra-violeta.

O amor de Verão acaba com areia na toalha, com os pés molhados e com os tais coraçõezinhos desenhados à beira-mar. Depois vem uma onda e lá se foi o amor. Para onde? Onde está? Onde ficam os amores de Verão?

Foto: DR

terça-feira, 27 de julho de 2010

Inception - A Origem
"Não podias antes ter sonhado com uma praia?"

A premissa é muito boa, os enredos papam-se, a forma de os contar fraquinha.

Não sou crítico de cinema, mas tendo em conta que faço parte do público, sou parte integrante e essencial de toda esta indústria. Portanto, tenho todo o direito em dar a minha opinião. E aqui vai ela (dividida por vários pontos).

Fiquei com a sensação horrível de não perceber por que raio a música para chamar à realidade as "almas" era o "Non, je ne regrette rien" da Edith Piaf. Lançar a curiosidade várias vezes no início do filme, outras tantas durante o filme e no fim não haver uma explicação é um claro exemplo do que não se deve fazer numa boa história. Compreendo que possa ser uma private joke do realizador, especialmente dirigida a Cobb (o personagem interpretado por Di Caprio). A música fala de arrependimentos ("Não, eu não lamento nada", numa tradução muito livre) e toda a história de Cobb no filme assenta no arrependimento de ter sido o "culpado" da morte de Mal, a sua mulher. De qualquer das formas, isto deveria ser explicado no filme. Não exaustivamente explicado - porque o bom cinema e o bom argumento é aquele que faz pensar - mas colocar Edith Piaf num filme que retrata uma situação "actual" é inadequado, não faz sentido. Está fora do contexto. Pelo menos se não for explicado. E não foi. Bastava um simples apontamento "Porquê esta música?", seguido de um "Não é a música, são as palavras" do Cobb e estava tudo resolvido. Ou bastava ficar pela pergunta. Deixar isto em aberto é que não. Dá um ar de "colocada ali à pressão porque a letra até faz sentido e nós somos muita bons a mandar private jokes entre nós que o público não compreende porque é burro demais para isso".

Na ponte, Yusuf apercebe-se de que está lixado e liga a música para acordar a malta. Dá uns tiros, vê que não tem hipótese e atira-se da ponte com a carrinha. Tudo muito rápido. No máximo demorou 30 segundos (o que no segundo nível equivale a 9 minutos). Aqui lanço o desafio: quem conseguir atravessar um longo corredor, lutar com um homem, matá-lo, entrar no quarto, apreciar cinco corpos a levitar, ver as gotas de sangue a sair da boca de um deles, engendrar um plano, ir buscar um fio, enrolar todos esses corpos num só, tirá-los do quarto, conduzi-los pelo longo corredor, levá-los para o elevador, abrir um alçapão, cortar um dos fios, colocar explosivos em vários pontos-chave, e esperar pelo "empurrão", tudo isto em 9 minutos e com gravidade zero, merece uma estátua. 9 minutos demorei eu a escrever este parágrafo (de notar que fui várias vezes à casa-de-banho e escrevi só com uma mão).

O Saito demora uma eternidade a morrer. Esteja em que nível estiver (1º: 10 segundos, 2º: 3 minutos ou 3º: 60 minutos), o ferimento da bala (exactamente no peito) ter-lhe-ia custado a vida de imediato.

Robert Fischer faz a pergunta que melhor define o filme: "Não podias antes ter sonhado com uma praia?". A pergunta foi dirigida a Eames e funcionou como piadinha-a-meio-do-filme-para-aligeirar-as-coisas. No cinema a malta acha graça, ri-se e pensa: "Caraças, é verdade! Por que é que ele, em vez de ter sonhado estar no meio dos "Alpes" cobertos de neve e cheios de frio de arma em punho para abater o exército escondido num forte blindado, não sonhou com uma praia paradisíaca? Os militares podiam, na mesma, ser mauzões (porque eram defensores da mente do Fischer), não teriam era de ter melhores armas que eles. Por que não sonhar com bazookas e shotguns, em vez daquelas mariquices de armas automáticas e facas?

Por agora é só. Terei de rever o filme. Com certeza que houve pormenores que não apanhei. Estes marcaram-me pela negativa. Outros surgirão que podem dar outro peso à balança. No entanto, não compreendo a febre que este filme tem provocado. Imagino se tivesse vampiros. Melhor, vampiros que também viajavam dentro dos sonhos. Era a loucura! No Top 250 do IMDB está em 3º lugar! 3º lugar! De certezinha que estou a sonhar. Esta não é a "verdadeira" realidade. Não pode ser! Quero acordar. Põe a tocar Edith Piaf, pá!

sábado, 10 de julho de 2010

CIRCO DE LETRAS
Portugal dá trabalho

Verão. Que maravilha! A altura em que o português oficializa aquilo que, por obrigação ou livre vontade, faz durante todo o ano: estar de férias. Conheço algumas pessoas - muito poucas! - que estão desempregadas por obrigação. Foram despedidas ou simplesmente não conseguem arranjar emprego. Conheço outras que são desempregadas profissionais. Entram para o desemprego às nove, saem ao meio-dia e meia para almoçar, às duas regressam para desempregar mais um bocadinho e saem às cinco e meia com um dia de desemprego no bolso. Trabalho nem vê-lo.

Mas este país não é para trabalhadores. É para empregados. Empregados de mesa, empregados de balcão, empregados de limpeza… Trabalhar é um verbo que não está no nosso dicionário genético, uma assinatura que está fora do nosso Bilhete de Identidade. E digo Bilhete de Identidade porque dá muito trabalho ir fazer o Cartão do Cidadão. Tirar senha, esperar na sala, ir para a fila, preencher papéis, tirar outra senha porque aquela era para a Electricidade, esperar outra vez, ir para outra fila ainda maior, preencher outros papéis e pagar. Está feito. Dá trabalho, claro. Tudo dá trabalho, particularmente em Portugal. Nós é que não gostamos. Preferimos emprego. Tem mais pinta e dá outro estatuto.

É isto que nos distingue dos outros países: nós somos a criança rabugenta da creche. Se nos dizem bem, julgamo-nos os maiores e exigimos ser o último a ir à baliza, se nos dão um puxão de orelhas, fazemos birra e mandamos a bola para a estrada. Podemos é ter o azar de acertar no carro do director. E aí corremos o sério risco de ir para casa… de férias.

Foto: DR