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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O que estou a ler

Estou a ler este mais recente número da Colóquio Letras, o 178, maioritamente dedicado a Ruy Belo,
e também este ensaio da Maria Filomena Mónica sobre uma das coisas que temos mais certa, mais um volume de uma colecção preciosa da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Finalmente, e foi isto que ficou por dizer há uns tempos quando se falou aqui de Aleister Crowley, estou a ler ficção fantástica daquele que foi um dos expoentes mediáticos do Ocultismo no século passado e que se considerava a si próprio o pior homem do mundo. Foi por mero acaso que descobri estas histórias, até porque desconhecia que ele tinha escrito ficção apenas o conhecendo da tradição esotérica/ocultista e das ligações ao nosso Fernando Pessoa.
Também estou a ler BD, mas isso fica para outro post.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Poemas - 9

ESPLENDOR NA RELVA

eu sei que Deanne Loomis não existe

mas entre as mais essa mulher caminha

e a sua evolução segue uma linha

que à imaginação pura resiste



A vida passa e em passar consiste

e embora eu não tenha a que tinha

ao começar há pouco esta minha

evocação de deanie quem desiste



na flor que dentro em breve há-de murchar?

(e aquele que no auge a não olhar

que saiba que passou e que jamais



lhe será dado ver o que ela era)

Mas em deanie prossegue a primavera

e vejo que caminha entre as mais



- Ruy Belo





Para o Filipe V.Nicolau, dear friend e companheiro de cinefilia.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Primeira Palavra

Acompahando a recente curvatura da terra
o primeiro olhar descreveu a sua orbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
à superfície do tempo

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, Lisboa: Editorial Presença, 1996, p.49

sábado, 10 de outubro de 2009

Remate Para Qualquer Poema

Passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se reflectiram desertaram

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 43

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O Percurso Diário...Um poema por noite !

Hoje a um poema por noite associo outro do mesmo autor!
http://2.bp.blogspot.com/_muNcEhHAFJM/SVjnIkMZJLI



O PERCURSO DIÁRIO

x
Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse sol e fora do sol também
morrido a morte para mim

x
Ruy Belo, Todos os Poemas, in Poemário 2009, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

sábado, 11 de julho de 2009

Quanto vale o vento e o vidro da janela do quarto?

Foto roubada no blogue "Chiclete de açúcar mascavo"

O valor do vento
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus poemas de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo : Orla Marítima e Outros Poemas, Lisboa, Assírio&Alvim, 2008, p. 25

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Administrar a tristeza

foto: Bologna, setembro 2007
A mão no arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.


Ruy Belo: Orla Marítima e outros poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, pp. 7-8