Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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terça-feira, março 24, 2009

Batotas, tribunais e analogias




"Vamos avançar com uma providência cautelar que anule a decisão ilegal da ERC e reponha a Telecinco como concorrente", disse Carlos Pinto Coelho, accionista e porta-voz da Telecinco.

Mais um pedido de indemnização cível por todos os prejuízos causados, mais uma acção contra os três elementos da ERC que votaram contra o projecto da Telecinco, a saber… Azeredo Lopes (presidente da ERC), Estrela Serrano e Elísio Oliveira.

Assim a Justiça funcionasse…

Na conferência de imprensa, do lado de lá da mesa, os cinco accionistas da Telecinco. Do lado de cá… alguns jornalistas, quase todos muito jovens, a maioria sem uma pergunta na cabeça. Autênticos pieds de micro

Televisões, só a TVI. Compreende-se que a SIC não tenha ido (depois da festa, a ressaca….), mas a RTP já se percebe mal, já que se tratava de um assunto de relevância nacional e manifesto interesse público. Nem sequer o serviço audiovisual da Agência Lusa foi… o que só vem reforçar a ideia de que a ordem é para silenciar a polémica.

Curiosamente, ainda ontem e anteontem, televisões rádios e jornais gastaram rios de tinta para dissecar o caso do árbitro que ajudou o Benfica a vencer o Sporting na final da Taça da Liga.
Também aqui houve um árbitro que manipulou resultados… e não me venham dizer que a concessão do 5ºcanal de televisão generalista em sinal aberto é de menos importância que um golo na baliza do Sporting.

sábado, fevereiro 25, 2006

Mauritânia, 1985 - para além da reportagem (4)

Os dias iam passando e começamos a suspeitar que havia a possibilidade de nunca mais vermos o equipamento que estava retido na alfândega do porto de Nouadhibou. E isso não poderia acontecer… não havia modo de justificar a perda desse equipamento, porque pura e simplesmente não era suposto estarmos ali. Deveríamos ter permanecido a bordo, por mais chato que isso fosse… portanto, era bom ter a certeza que, quando o barco nos viesse buscar, embarcaríamos com o equipamento que tínhamos trazido. E não era pouco: duas cameras de filmar Ècclair, uma Nagra de som, um kit de iluminação, vários microfones, tripé, dezenas de latas de película 35 m/m virgem, não sei quantos quilómetros de fita de arrasto… enfim, o “entulho” do costume, na época em que as reportagens se faziam em filme. Eram aproximadamente mil quilos de carga. Uma pilha de caixas e caixotes metálicos.
De modo que, um dia, pedimos ao Dimas que nos emprestasse o carro. Julgo que ele adivinhou o que íamos fazer, mas nem perguntou. Só nos pediu que não fizéssemos nada que piorasse a situação… Com o carro, fomos até às imediações da zona portuária. Não havia quase ninguém por ali. Quando um soldado passou, pedimos-lhe para nos ajudar. Ele entrou logo para o carro. Explicámos que estávamos com um “problema” com umas caixas que nos pertenciam e que estavam na alfândega. O homem olhou para nós… percorreu com os olhos o interior do carro, as nossas caras, abriu o guarda-luvas… e depois disse que precisava de três coisas. Duas estavam ali, à vista: uma garrafa de água mineral de litro e meio e um pacote de litro de leite. A terceira necessidade era uma nota de mil óuguiyas (a moeda local), na época o equivalente a 10 euros… Satisfeitas essas necessidades, pusemos o carro em marcha. Chegámos à cancela da alfândega e ele, que ia no lugar do pendura, à frente, disse qualquer coisa a um outro tipo. A cancela subiu. Entrámos no barracão onde estava o nosso equipamento. Pusemos tudo na mala do carro e no tejadilho, amarrado com cordas. A mala nem fechava e as molas traseiras do velho Renault 18 mal aguentavam com o peso… Voltámos à cancela que, de novo, subiu e saímos dali. Assim que virámos a esquina, o tipo disse “au revoir”. Nós fomos guardar as coisas em casa do Dimas. O soldadinho, pela certa, foi fazer uma farra…

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Mauritânia, 1985 - o senhor Dimas

As voltas da vida, os divórcios, as mudanças de casa, o vento que entra pelas janelas… tudo contribui para irmos perdendo objectos, anotações, fotografias, os ícones da memória. As minhas fotos da Mauritânia ficaram por aí. Essas e muitas outras. Para encontrar uma foto do Dimas, tive de rastrear o homem, chatear a família dele… é que o tipo continua a viver em Nouadhibou. As fotos que consegui não são famosas, mas o que me interessa aqui é prestar-lhe uma homenagem pela coragem e desapego que evidenciou quando nos ajudou, naqueles dias.
Dimas dos Santos não foi só o salvador que nos tirou da cadeia. Foi, também, um amigo. Aos fins-de-semana lá íamos de passeio… ver as maravilhas locais.
O mercado de peixe, as praias, o comboio que vinha das minas de minério do deserto e que era, ainda é, o maior comboio do Mundo, com milhares de vagões puxados por centenas de locomotivas. Diziam os mauritanos que o comboio demorava dois dias a passar… Mas o que mais me impressionou na Mauritânia foi a percepção do relacionamento social entre as diferentes classes e categorias de pessoas.
Os árabes, surpreendentemente brancos e, alguns, até de olhos claros, eram os donos da terra e das pessoas. Donos, no sentido largo da palavra. Vi, diversas vezes, soldados ou polícias negros ajoelharem-se, em plena via pública, e beijarem a ponta das vestes de um árabe. Achei aquilo um hábito estranho, mas depois explicaram-me que a escravatura tinha sido abolida, oficialmente, em 1980… apenas 5 anos antes(!). O que significava que, na prática, tudo continuava na mesma. Mesmo percebida a questão, nunca deixei de me interrogar porque motivo um tipo armado aceitaria ter de beijar a fralda de um outro gajo e submeter-se à sua vontade de modo indiscriminado.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Mauritânia, 1985 - para além da reportagem (3)

A primeira preocupação, quando acordei na primeira manhã de detenção domiciliária, foi ir à janela espreitar, para ver onde estava o polícia que nos guardava. Não vi nenhum. Fui ao terraço da casa, para ver melhor. Não havia qualquer polícia à volta da casa, nem nas imediações. Depois do pequeno-almoço, arrisquei sair. Dei uma volta ao quarteirão, depois alarguei o raio de acção. Uma hora depois de andar às voltas da casa, percebi que ninguém nos guardava. Também não tínhamos para onde fugir… aqueles mauritanos eram espertos, sem dúvida. Mas tínhamos liberdade de acção. Decidimos ir ao banco trocar dinheiro. O único balcão que havia em Nouadhibou era do Banco Nacional da Mauritânia. Entrámos, não havia outros clientes. Fomos rapidamente atendidos pelo único funcionário à vista. Dissemos ao que íamos. Prontificou-se imediatamente a realizar a operação. Trocámos uma nota de 100 dólares americanos, julgo. O funcionário tinha um impresso na mão e procurava qualquer coisa… ao fim de uns minutos voltou ao balcão e perguntou-nos se tínhamos numa caneta… tínhamos. Pediu-nos a bic emprestada e entrou num gabinete, de caneta e papel em riste. Regressou com o papel preenchido e assinado pelo director do banco. No final, oferecemos a bic ao Banco Nacional da Mauritânia.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Mauritânia, 1985 - para além da reportagem (2)

Em 1985, estar preso na cadeia de Nouadhibou era uma experiência do “além”… os detidos nem eram alimentados convenientemente. Ou tinham família que lhes levasse um prato de sopa ou tinham de se sujeitar à ração fornecida pelo Crescente Vermelho, uma organização similar à Cruz Vermelha existente em países muçulmanos. E essa ração… não era comestível.
As nossas perspectivas para o futuro imediato não eram brilhantes, como podem imaginar. As primeiras horas de detenção foram confusas. De toda a equipa (éramos quatro) só eu falava francês suficiente para discutir condições com o Chefe da Polícia. Mas, quem já passou pela experiência sabe, discutir com sucesso com um árabe é uma tarefa ao alcance de poucos. Foi um pormenor (como sempre…) que nos salvou. No mar, antes de abandonarmos o barco, o capitão tinha-me dito que, caso surgisse algum problema, “para chamar o Dimas”. E assim fiz. Pedi ao Chefe da Polícia para chamar o “monsieur Dimas”.
Quem é o Dimas? Dimas dos Santos, o único português que vivia naquele fim do mundo, capitão de armamento de uma empresa de pesca mauritana. Era uma espécie de santo protector dos pescadores portugueses que andavam por aquelas paragens. Era um “desbloqueador” de problemas. Quando Dimas chegou à cadeia, demorou apenas algumas horas a negociar a nossa condição de prisioneiros. Ficámos detidos, ainda, mas em prisão domiciliária… em casa do Dimas.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Mauritânia, 1985 - para além da reportagem (1)

A Mauritânia é, hoje, governada pelo coronel Ely Uld Mohammed Vall que tomou o poder, há pouco tempo, através de um golpe de estado que derrubou do cadeirão Maaouyia Uld Taya.
Quando por lá andei, Taya tinha acabado de derrubar o antecessor, de modo que, desde 1984, pouco mudou no “país dos homens azuis”.
A história que vou aqui contar nunca foi “oficialmente” conhecida na RTP. Na época, a inexistência de comunicações telefónicas via satélite levava a que, por vezes, estivéssemos semanas incomunicáveis. Em Lisboa, ninguém estranhava, por isso, que uma equipa de reportagem não desse sinais de vida durante muitos dias. De modo que deu tempo para nos metermos na “enrascada” e para nos “desenrascarmos” sem necessidade de pedir ajuda “ao papá e à mamã”. Cheguei à Mauritânia por mero acaso. Foi um acto de pura inconsciência, digamos. Eu e um grupo de “gloriosos malucos” constituído por António Hipólito (camera-man), José Morujo (assistente de camera) e o António Gaspar (operador de som), tínhamos saído de Lisboa a bordo de um barco da pesca longínqua. Íamos fazer um documentário sobre essa duríssima faina da pesca em alto mar. O documentário intitulou-se “O Cabo dos Trabalhos” e foi para o ar integrado na série “Linhas de Pesca”, na RTP-1.
Era uma viagem demasiado longa, quase três meses no mar. A zona de pesca era ao largo da Mauritânia. Filmámos a bordo durante umas semanas até que cheguei à conclusão de que o trabalho estava feito. E tínhamos ainda, pela frente, mais de um mês de mar…
A impaciência deu-me para ir “pedir boleia”, através do rádio do barco… às tantas, entrou um português na conversa, capitão de um outro navio de pesca, que trabalhava para uma empresa mauritana. Ofereceu-se para nos levar para terra, já que navegava por perto e estava já a caminho de Nouadhibou, o seu porto de abrigo. Aceitámos com entusiasmo. Mas esquecemo-nos que não tínhamos visto para entrar no país, esquecemo-nos que Nouadhibou estava perto da fronteira com o Sahara Espanhol, esquecemo-nos que havia uma guerra no Sahara Espanhol em que a Mauritânia participava e esquecemo-nos que tinha havido um golpe de estado no país, recentemente.
O outro navio veio ter com o nosso, mudámo-nos de armas e bagagens para o novo barco, combinámos com o nosso comandante que voltaríamos a embarcar quando ele tivesse de ir a Nouadhibou declarar a tonelagem do pescado capturado. E lá fomos de “boleia”. Chegámos 24 horas depois e, assim que pusemos pé em terra, fomos presos.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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