04 fevereiro 2011

Devaneios

Sentamo-nos naquele sótão, ermo, empoeirado, escondidos atrás daqueles sacos de batatas - como era seu costume. Sua personalidade, seus gostos, sua ironia refinada e seu espírito perspicaz me pareciam tão familiar, denotavam uma proximidade - fugaz, por essência. Tudo aquilo que havia investigado imprimiam características daquela alma solitária, daqueles olhos cujo brilho intenso cativavam e fustigavam minh'alma. Ansiava por (re)ver aquele sorriso que abria-lhe covas na bochecha. Havia tanto a conversar, tanto a questionar, tanto a conhecer, sonhos a convergir, planos a estabelecer, risos e olhares a partilhar. Não deu tempo... a brisa tocou-me. O vento forte agitava a cortina branca, o ceú estava carregado. Choveu. Os pingos d'água resvalaram em minha cama - eu acordei, mas não quis me levantar. Dei-me conta do abismo que nos separa. Tão próximos e distantes. Tão distantes e próximos. 67 anos, algumas décadas, algumas fronteiras. Ou poucos quilômetros. Ou alguns bytes. Ou algumas horas. Ou, ou, ou. Não podia voltar ao sonho, então voltei a ler-te, Anne.

Análise, de Fernando Pessoa

Tão abstrata é a idéia do teu ser

Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

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