06 fevereiro 2011

O Diário de Anne Frank

Pedro Bial diz, naquele famoso vídeo poético-filosófico, que se pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria: "usem filtro solar". Se eu também pudesse, daria apenas uma dica - mas para estes tempos mesmo, se possível para ontem: "leiam O Diário de Anne Frank". O primeiro conselho tem base científica. O meu, apenas subjetiva. Vem da leitura chocante e envolvente deste que é um dos livros mais intimistas e apaixonantes que tive a oportunidade de devanear.

Anne M. Frank acaba de completar 13 anos (junho de 1942) quando ganha um diário que, em breve, se tornará sua melhor amiga - apelidada carinhosamente de Kitty. Nessas páginas, a pequena notável narra muitas de suas vivências, sentimentos, medos, alegrias, sonhos, desabafos e revelações, delineando traços de sua personalidade e caráter e remontando aos leitores a sociedade da época. Um mês após ganhar o presente, Anne e sua família são obrigados a se refugiar em um sótão aos fundos do prédio onde Otto Frank, seu pai, trabalha. O lugar fica conhecido como Anexo Secreto.

Anne vive nesse confinamento até agosto de 1944, com seu pai, sua mãe Edith, sua irmã mais velha, Margot, com a família van Daan (Hermann, Petronella e o filho Peter) e com o dentista amigo da família Frank, Albert Dussel. Sagaz, Anne narra bem muitos dos conflitos pertinentes ao confinamento no Anexo Secreto - uma espécie de Big Brother, mas sem o prêmio milionário. Aliás, o prêmio, neste caso, é muito mais valioso: suas próprias vidas.

Apaixonada por escrita e por história, Anne não apenas divaga parte de sua subjetividade, como disserta incríveis registros sobre o contexto sócio-político-econômico de um dos períodos mais trágicos da história - a Segunda Guerra Mundial e a terrível perseguição nazista. O relato secreto dessa judia refugiada em Amsterdã retrata com veemência as atrocidades cometidas pelos nazistas Europa a fora e ganha importância histórica, tornando-se símbolo da luta contra a opressão e a barbárie.

Seguir a vida dessa garota perspicaz, inteligente e de personalidade forte é cativante. Seu pensamento nos mostra como estava à frente de seu tempo. Sem delongas e tabus, aborda temas como feminismo e a inserção da mulher na sociedade, religião, sexualidade, entre outros, com uma propriedade impressionante para sua tenra idade. Expõe, sem medo, seus sentimentos - como a aversão que adquire por sua mãe e, por vezes, sua irmã. Anne demonstra ser forte, durona, independente, racional, engraçada, quando, interiormente, é frágil, sentimental, pensativa, com tendência à depressão. Como Anne mesmo se define, ela é um 'feixe de contradições'. "Uma contradição imposta de fora e uma contradição imposta de dentro", explica.

Ao longo das páginas, percebemos o amadurecimento de Anne - que termina o diário com 15 anos completos. Suas indagações e reflexões denotam a mudaça de conceitos, admitidos por ela, inclusive. Descobertas e até uma paixão inesperada conferem o caráter romancista da obra verídica. Não há como não se emocionar ao término da história e nem se sentir parte da vida de Anne Frank. A sensação de fechar o livro após as 349 páginas, tendo os olhos estagnados momentaneamente na última folha em branco, é como pôr fim à voz daquela que há dias tem sido uma amiga confidente e que nunca mais ressoará, a não ser o eco de tudo o que já foi dito. O final, infelizmente, é um final - ainda que desde a primeira página torçamos para que haja uma surpresa boa, digna e justa, como a nobre alma de Anne M. Frank.

Em canto

Incrível é o encanto, que, em canto, encanta. Simplesmente, surge. Emerge, desponta, irrompe, brota, emana. Um sorriso, um olhar, uma imagem, um som. O encanto ecoa e se espalha. Contagia. Infecciona.

Chega sem avisar. Com malas, se aloja em sótãos e porões, antes inabitados. Toma de conta. Faz da poeira um adorno. Confere brilho, cor, magia. Miragens, distorções, fantasia. Deixa o dia verde. A noite, ensolarada.

Aproxima-te de quem mal conheces. Faz de segundos, horas. Quem sabe dias, meses - agoniantes ou tempestivos. Traz morbidez à mente e deleite ao corpo. Cria entrelinhas, paradoxos.

O encanto possui personalidade própria e um estereótipo tentadoramente ilusório. É um otário, é um otário, há quem diga. Ah, o encanto. Uma idiossincrasia tão inerente à raça humana. Um sonho traumático de se acordar. Não queira nem pensar.

04 fevereiro 2011

Devaneios

Sentamo-nos naquele sótão, ermo, empoeirado, escondidos atrás daqueles sacos de batatas - como era seu costume. Sua personalidade, seus gostos, sua ironia refinada e seu espírito perspicaz me pareciam tão familiar, denotavam uma proximidade - fugaz, por essência. Tudo aquilo que havia investigado imprimiam características daquela alma solitária, daqueles olhos cujo brilho intenso cativavam e fustigavam minh'alma. Ansiava por (re)ver aquele sorriso que abria-lhe covas na bochecha. Havia tanto a conversar, tanto a questionar, tanto a conhecer, sonhos a convergir, planos a estabelecer, risos e olhares a partilhar. Não deu tempo... a brisa tocou-me. O vento forte agitava a cortina branca, o ceú estava carregado. Choveu. Os pingos d'água resvalaram em minha cama - eu acordei, mas não quis me levantar. Dei-me conta do abismo que nos separa. Tão próximos e distantes. Tão distantes e próximos. 67 anos, algumas décadas, algumas fronteiras. Ou poucos quilômetros. Ou alguns bytes. Ou algumas horas. Ou, ou, ou. Não podia voltar ao sonho, então voltei a ler-te, Anne.

Análise, de Fernando Pessoa

Tão abstrata é a idéia do teu ser

Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.