Pedro Bial diz, naquele famoso vídeo poético-filosófico, que se pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria: "usem filtro solar". Se eu também pudesse, daria apenas uma dica - mas para estes tempos mesmo, se possível para ontem: "leiam O Diário de Anne Frank". O primeiro conselho tem base científica. O meu, apenas subjetiva. Vem da leitura chocante e envolvente deste que é um dos livros mais intimistas e apaixonantes que tive a oportunidade de devanear.Anne M. Frank acaba de completar 13 anos (junho de 1942) quando ganha um diário que, em breve, se tornará sua melhor amiga - apelidada carinhosamente de Kitty. Nessas páginas, a pequena notável narra muitas de suas vivências, sentimentos, medos, alegrias, sonhos, desabafos e revelações, delineando traços de sua personalidade e caráter e remontando aos leitores a sociedade da época. Um mês após ganhar o presente, Anne e sua família são obrigados a se refugiar em um sótão aos fundos do prédio onde Otto Frank, seu pai, trabalha. O lugar fica conhecido como Anexo Secreto.
Anne vive nesse confinamento até agosto de 1944, com seu pai, sua mãe Edith, sua irmã mais velha, Margot, com a família van Daan (Hermann, Petronella e o filho Peter) e com o dentista amigo da família Frank, Albert Dussel. Sagaz, Anne narra bem muitos dos conflitos pertinentes ao confinamento no Anexo Secreto - uma espécie de Big Brother, mas sem o prêmio milionário. Aliás, o prêmio, neste caso, é muito mais valioso: suas próprias vidas.
Apaixonada por escrita e por história, Anne não apenas divaga parte de sua subjetividade, como disserta incríveis registros sobre o contexto sócio-político-econômico de um dos períodos mais trágicos da história - a Segunda Guerra Mundial e a terrível perseguição nazista. O relato secreto dessa judia refugiada em Amsterdã retrata com veemência as atrocidades cometidas pelos nazistas Europa a fora e ganha importância histórica, tornando-se símbolo da luta contra a opressão e a barbárie.
Seguir a vida dessa garota perspicaz, inteligente e de personalidade forte é cativante. Seu pensamento nos mostra como estava à frente de seu tempo. Sem delongas e tabus, aborda temas como feminismo e a inserção da mulher na sociedade, religião, sexualidade, entre outros, com uma propriedade impressionante para sua tenra idade. Expõe, sem medo, seus sentimentos - como a aversão que adquire por sua mãe e, por vezes, sua irmã. Anne demonstra ser forte, durona, independente, racional, engraçada, quando, interiormente, é frágil, sentimental, pens
ativa, com tendência à depressão. Como Anne mesmo se define, ela é um 'feixe de contradições'. "Uma contradição imposta de fora e uma contradição imposta de dentro", explica.Ao longo das páginas, percebemos o amadurecimento de Anne - que termina o diário com 15 anos completos. Suas indagações e reflexões denotam a mudaça de conceitos, admitidos por ela, inclusive. Descobertas e até uma paixão inesperada conferem o caráter romancista da obra verídica. Não há como não se emocionar ao término da história e nem se sentir parte da vida de Anne Frank. A sensação de fechar o livro após as 349 páginas, tendo os olhos estagnados momentaneamente na última folha em branco, é como pôr fim à voz daquela que há dias tem sido uma amiga confidente e que nunca mais ressoará, a não ser o eco de tudo o que já foi dito. O final, infelizmente, é um final - ainda que desde a primeira página torçamos para que haja uma surpresa boa, digna e justa, como a nobre alma de Anne M. Frank.