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sábado, 7 de fevereiro de 2009

O desprezo pelo património

A falta de cultura histórica é um traço dominante da relação dos portugueses com o seu património. Foi José Mattoso quem, com mais veemência, chamou a atenção para esse facto, lembrando que, por exemplo, textos fundamentais da história da língua e literatura nacionais só estão disponíveis porque outros países os preservaram.
Cuidamos mal do nosso património. Somos capazes de manifestar entusiasmo perante um centro histórico cuidado, sobretudo se o descobrirmos fora de portas, mas convivemos bem no dia a dia com o descuido e a agressão impune ao da cidade que habitamos. Temos sempre desculpa para ignorar as exigências do legado patrimonial que recebemos: ou, em nome da modernidade, argumentamos que é tempo de fazer o novo (como se novo e antigo fossem incompatíveis), ou invocamos o lado supostamente mais dispendioso da recuperação face à obra nova (sem que tenhamos efectivamente equacionado todos os prós e contras), ou nos desculpamos com a falta de conhecimento técnico ou de materiais adequados à reabilitação (sem cuidarmos sequer de procurar ajuda em tal matéria).
Perdemos o sentido e o gosto da reutilização. Julgamos que é mais económico abandonar o velho e usado e procurar nova localização para o equipamento moderno. Para trás deixamos edifícios e equipamentos construídos com esforço e saber, testemunhos dignos de uma sociedade que não se compadecia com o desperdício. O deslumbramento do novo faz tábua rasa da continuidade cultural e reduz a história a um depósito de antiguidades.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Património Bordalos

O Ministro da Cultura entregou ao Museu do Azulejo a condução do processo aberto na sequência de carta enviada pela associação "Património Histórico-Grupo de Estudos" - que pediu a intervenção do Ministério na salvaguarda do acervo patrimonial remanescente das antigas fábricas de Faianças das Caldas da Rainha e Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda.
Três breves comentários a este propósito:
1º - A carta da associação PH foi enviada a 29 de Dezembro. O respeito pela iniciativa de uma entidade como o PH deveria ter feito ponderar o deputado António Galamba sobre a oportunidade da sua intervenção de 20 de Janeiro. Se uma entidade respeitável e competente entendera, sem qualquer publicidade, desencadear medidas para salvaguarda patrimonial, a sobreposição partidária é desnecessária e desajustada.
2º - A carta da associação PH, aliás redigida após consultas alargadas a diversas personalidades da área dos museus, foi correctamente endereçada e concordante com a legislação em vigor.
3º - Registe-se, por fim, que foi o Museu do Azulejo o escolhido para tratar deste assunto. De facto, o Museu de Cerâmica não tomou em devido tempo, como evidentemente lhe competia e era sua elementar obrigação, a iniciativa de organizar o dossiê de classificação do valioso património histórico dos Bordalos. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Património e inovação na cidade

Resumo do projecto que expus na Convenção Autárquica do Partido Socialista das Caldas da Rainha, efectuada no dia 7.
O projecto desenha e fundamenta uma proposta de valorização do património cultural e da economia criativa de dois concelhos – Caldas da Rainha e Óbidos – através de intervenções articuladas no território, sob a égide de um programa de inovação urbanística. Este programa enquadra-se na reflexão e experiência multidisciplinares designada por “cidades criativas”. Representa uma "abordagem integrada de base territorial", para usar a expressão do Secretário de Estado das Cidades, Professor João Ferrão, que abriu a Convenção.
Parte da observação dos efeitos das políticas urbanas e territoriais prosseguidas nas Caldas da Rainha e em Óbidos nas últimas décadas. Discute-as, propondo uma reorientação dos seus pressupostos e finalidades. Baseia-se na identificação das principais instituições públicas e privadas que operam no espaço considerado. O envolvimento dessas instituições nos projectos que serão enunciados é uma condição inultrapassável. Pretende-se que, ao garantir a efectivação desses projectos, a sua actividade ganhe novos atributos e consistência.
O destinatário principal deste exercício é o cidadão, nas suas várias pertenças e qualificações: enquanto cidadão residente e enquanto cidadão visitante; enquanto produtor e consumidor, enquanto governado e governante, enquanto indivíduo e integrante de grupos sociais, profissionais, culturais.
O resultado terá a forma de um programa de trabalho, abarcando diversos projectos urbanos. Recorre porém apenas aos instrumentos de observação, interpretação e desenho disponíveis pelas Ciências Sociais, nomeadamente os utilizados pelas disciplinas históricas, sociológicas e antropológicas e implicadas nos estudos de património, nos estudos territoriais e urbanos. Não foram pois aqui convocados os saberes específicos do Urbanismo e Arquitectura. Neste sentido, trata-se de um estudo preliminar, indicando os objectivos gerais e específicos e contendo a respectiva fundamentação. Funciona como o caderno de encargos para os trabalhos de uma equipa composta por especialistas de diversas áreas que, por hipótese, as duas Câmaras Municipais, das Caldas da Rainha e Óbidos, em parceria com outras instituições, como a Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, pretendessem encarregar da elaboração do projecto final.

sábado, 25 de outubro de 2008

E/ou. E, em vez de ou.


Comunicações e debate sobre património e urbanismo no Refeitório dos Frades em Alcobaça. Pedro Ribeiro, engenheiro civil da equipa de João Appleton, membro da associação Património Histórico, explica, com exemplos extraídos da sua experiência (edifícios pombalinos em Lisboa, Abadia de Alcobaça, Estúdio Carlos Relvas na Golegã) o que reabilitar, como reabilitar e porquê reabilitar. A sua exposição põe em evidência vantagens comparativas que permitem equacionar a reabilitação urbana como uma opção económica, amiga do ambiente e qualificadora da cidade.
O arquitecto Gonçalo Byrne aponta a situação em que se encontra a generalidade dos centros históricos: em perda, abandonados, decadentes. Mas adverte: os problemas podem gerar hipóteses de regeneração urbana. A pior atitude é nada fazer. Se nada se fizer, no final teremos apenas ruinas. A reabilitação do património evita  a ruina e revitaliza a envolvente urbana.
Peço-lhe que nos faça um balanço das políticas urbanas para os centros históricos das últimas décadas. É crítico da descontinuidade das políticas que aponta como principal responsável pelo respectivo insucesso. As decisões que temos de tomar são de curto prazo umas, de médio e longo prazo outras. E aponta duas direcções: as políticas urbanas têm de fazer do cidadão o centro de todas as coisas e têm de deixar ser tão disjuntivas ("ao ou ou, prefiro o e").

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

"Recordar"

- Porque sou assim louco? - o velho sentou-se e começou a comer devagar, tirando uma ervilha de cada vez do prato que lhe tinha sido de novo colocado na frente. - Sim, eu sou louco. Como começou esta minha loucura? Aqui há muito anos, pus-me a observar as ruínas do mundo, as ditaduras, os estados e as nações depedaçados, e disse comigo: que posso eu fazer? Eu, um homem velho e fraco? Reconstruir toda esta devastação? Iso sim! Mas uma noite em que me encontrava meio a dormir, senti tocar dentro da cabeça um velho disco de gramofone. Duas irmãs chamadas Duncan costumavam cantar, quando eu era pequeno, uma canção chamada "Recordar". "Nada mais posso fazer do que recordar, querido. Por isso, recorda tu também!" Cantei essa canção e deixou de ser uma canção para se transfomar numa norma de vida. Que tinha eu para oferecer a um mundo que estava a esquecer tudo? A minha memória! De que podia isto servir-lhe? Fornecendo-lhe um termo de comparação, mostrando aos jovens como tudo era dantes, fazendo-os apreender tudo o que tínhamos perdido. Descobri que quanto mais recordava, mais conseguia recordar! Consoante as pessoas junto de quem me encontrava, lembrava-me de flores artificiais, telefones de marcador automático, frigoríficos, pífaros (o senhor já alguma vez tocou pífaro?), dedais, molas de bicicleta (refiro-me a molas para prender as calças dos ciclistas). Não é estranho tudo isto? Coberturas de sofás... Sabe o que é? Um dia um homem perguntou-me se eu me lembrava como era o tablier de um Cadillac. Eu lembrava-me e descrevi-lho com todos os pormenores. Ele ouviu e começaram a escorrer-lhe grossas lágrimas pela cara abaixo. Lágrimas de tristeza ou de alegria? Não sei dizer. Só sei recordar. Não conheço a literatura. Não, nunca tive cabeça para peças de teatro ou para poemas; passam-me de ideia, morrem. O que eu sou é um monte de restos de uma civilização que desapareceu num abismo.
Ray Bradbury, O Abismo de Chicago. Lisboa, Livros do Brasil, 1963 [1ª edição, em 1949]
Capa de Lima de Freitas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Fortaleza de Peniche: serenidade e rigor


Se esta espécie de histeria de quem acordou tarde para os problemas continua, corremos o risco não só de não sabermos contra quem estamos a gritar, como de nem sequer percebermos o que é que estamos a discutir. Serenidade precisa-se, para podermos ouvir as razões em presença. E respeito pelo rigor, precisa-se também, para podermos defender o que merece defesa e atacar o que consideramos injusto. 
A Direcção do movimento "Não Apaguem a Memória" pediu uma reunião à Câmara de Peniche, que de imediato a realizou, de inteira boa fé. À saída, um dos membros da Comissão, declarou de imediato a sua posição pessoal e condenou a Câmara. Depois, o Movimento veio afirmar em comunicado "a sua firme oposição à construção duma pousada na Fortaleza de Peniche, comprometendo-se publicamente a desenvolver todos os esforços e mobilização cívica para que se impeça a transformação das antigas celas em quartos de um qualquer hotel de luxo". 
Mas quem é que defendeu tal solução? Onde é que este Movimento descobriu essa intenção?
A quem aproveita este tipo de desinformação?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Fortaleza de Peniche: o que o Público não publicou


No dia 3 de Outubro um jornalista do jornal Público dirigiu ao Presidente da Câmara de Peniche 6 perguntas, a propósito das tomadas de posição de elementos do movimento cívico "Não apaguem a Memória" contra a construção de uma Pousada na Fortaleza de Peniche. Na peça que saíu, logo no dia seguinte, nem uma palavra das respostas do Presidente, enviadas no dia 3, foi publicada.

Público:
Quais são os termos do protocolo recentemente assinado com a Enatur?
Presidente da Câmara:
Em bom rigor essa pergunta não deveria ser dirigida à Câmara Municipal, mas antes, ao Turismo de Portugal.
De facto, no passado dia 25 de Setembro, foi celebrado um Aditamento ao Contrato de Cessão de Exploração existente entre o Estado, o Grupo Pestana e a Enatur (não é pois um protocolo) que, prevê a construção de 3 novas pousadas, entre as quais uma na Fortaleza de Peniche.

Público:
Sabemos que o projecto vem já de trás. Pode confirmar se a data da sua primeira apresentação é 1999?, e que partido detinha, nessa altura, a presidência da câmara?
Presidente da Câmara:
O Estado português enunciou a sua intenção de localizar na Fortaleza de Peniche uma Pousada ainda nos anos 80. A 12 de Julho de 2002 foi celebrado um protocolo entre a Direcção Geral do Património (DGP), a Câmara Municipal de Peniche e a ENATUR e em que se previa a cessão precária da Fortaleza à ENATUR. À época a Câmara era presidida pelo Partido Socialista.

Público:
De que modo está salvaguardada, no protocolo com a Enatur, a manutenção do espaço museológico do forte? Que espaço do forte vai ser afectado à pousada?
Presidente da Câmara:
No protocolo referido anteriormente previa-se que a DGP cederia à ENATUR “ as áreas do imóvel, a acordar em Protocolo Adicional, que forem consideradas necessárias e suficientes para a instalação da Pousada, de acordo com o estudo prévio a elaborar pelo projectista”. Previa-se ainda que a ”responsabilidade pela recuperação e utilização das áreas não cedidas, bem como das zonas comuns será devidamente estabelecida no mesmo Protocolo Adicional a assinar pela DGP, ENATUR e a CMP.” Nunca foi assinado qualquer protocolo adicional porque, simplesmente, nunca foi elaborado qualquer projecto. No discurso da sessão de assinatura do aditamento ao contrato, o Dr. Luis Patrão, Presidente do Turismo de Portugal, referiu-se claramente à necessidade de compatibilização dos usos com respeito pela memória fazendo referência à insistência que coloquei neste tema nas reuniões que mantivemos. Fiz, ainda, nessa cerimónia, um convite a todo o Conselho de Administração da ENATUR para uma reunião em Peniche para planearmos todas as fases do projecto. A Câmara tem-se responsabilizado pela manutenção parcial do espaço da Fortaleza e certamente acompanhará a elaboração do projecto por parte da Enatur. Queremos que seja um bom projecto, que valorize aquele grande espaço, de múltiplas e significativas memórias, tanto para Peniche como para o País.
A Câmara tem aliás dado um contributo valiosíssimo e insubstituível para a salvaguarda da Fortaleza. Sem esse contributo, a Fortaleza seria um espaço fechado e em degradação acelerada.

Público:
Que indicação tem de que o projecto possa ser assinado pelo arquitecto Siza Vieira?
Presidente da Câmara:
Sabemos apenas que fazia parte do contrato de exploração inicial a entrega ao arquitecto Siza Vieira do projecto da Pousada. A Câmara de então, no espírito de colaboração que mantemos, dispôs-se a mandar elaborar o levantamento digital do edifício, o que foi feito e entregue ao Arquitecto na sequência de deslocação deste à Fortaleza de Peniche.
As Pousadas de Portugal apresentam em regra projectos de grandes arquitectos portugueses. Para Peniche seria uma honra e uma mais-valia ter aqui uma obra assinada por Siza Vieira.

Público:
A associação Caminhos da Memória está a contestar esse projecto. A professora Irene Pimentel escreveu já que a afirmação do Senhor Presidente de que a pousada “será construída num local que é visitado por milhares de pessoas à procura da memória do que ali se passou” parece “uma anedota de mau gosto”. E acrescenta que falta em Portugal fazer um verdadeiro trabalho da memória, mas nunca com fins comerciais, como será agora o caso em Peniche... Como comenta estas críticas?
Presidente da Câmara:
Não conheço nenhuma associação "Caminhos da Memória". Há uma associação “Não Apaguem a Memória” que há dois dias nos pediu uma reunião de esclarecimento sobre este assunto e que já está marcada para a próxima semana. Quanto à autora do texto, aparentemente, o seu desconhecimento vai mais além do projecto. Desconhece a origem e a natureza deste processo.
A Câmara de Peniche tem protocolos de colaboração com diversas instituições, como a URAP, o seu programa municipal de intervenção museológico está contemplado no Plano Estratégico onde há especialistas de património e de história contemporânea. Em suma, não aceitamos lições de preservação de memória. Mas aceitamos todas as colaborações empenhadas e generosas, como decerto será a da ilustre historiadora Irene Pimentel. Se quiser vir colaborar connosco, recebê-la-emos de braços abertos, com a cordialidade e boa educação que nos honra.

Público:
Pode confirmar se o investimento previsto tem um orçamento de 15 milhões de euros. E que calendário prevê para a concretização do projecto?
Presidente da Câmara:
Estas perguntas deverão ser dirigidas directamente à Enatur.

sábado, 4 de outubro de 2008

Três pontos sobre a Fortaleza de Peniche


Tenho seguido com surpresa a reacção que Irene Pimentel, Diana Andringa e Maria Manuela Cruzeiro desencadearam no seu site Caminhos da Memória contra a projectada instalação de uma Pousada na Fortaleza de Peniche. Tenho por todas elas a maior consideração intelectual, no caso de duas também temperada por estima pessoal e amizade.
Os depoimentos que fizeram no referido site, recorrendo por vezes à crítica fácil e ao argumento deselegante, tentam estabelecer uma linha de fronteira entre os que defendem a memória dos que sofreram a repressão política e os que transigem nessa defesa, cedendo a outros interesses. Irene Pimentel, Diana Andringa e Maria Manuela Cruzeiro não cuidaram de se informar, de analisar a situação da Fortaleza e de eventualmente submeter a contraditório essa análise. Julgaram sumariamente declarações do Presidente da Câmara, que leram em jornais, num tribunal de ética e de espírito cívico de que se apresentam como as únicas detentoras autorizadas, e sentenciaram-no.
Se exigências mínimas de rigor tivessem sido respeitadas, teriam começado por se informar sobre o acontecimento que está na origem da sua sobressaltada tomada de posição. E em vez de projecto, que tomam como tendo sido aprovado, e protocolo, que julgam celebrado com a Câmara, talvez descobrissem que o que foi assinado a 25 de Setembro foi um aditamento a um contrato de exploração anterior, entre o Estado e a Enatur. 
Portanto, ponto um: a construção de uma Pousada na Fortaleza de Peniche há muitos anos que fora decidida por um Governo da Democracia (salvo erro, presidido pelo Eng.º António Guterres) sem que tivesse gerado nenhum clamor “ético” e “cívico”.
O aditamento agora assinado altera porém num aspecto a concessão anterior, permitindo ao grupo privado que entretanto adquiriu 49% do capital da Enatur e assumiu a respectiva gestão, elevar o número previsto de quartos do estabelecimento hoteleiro de Peniche. A Câmara de Peniche dessa altura (2002) acompanhou todo processo. A elaboração do projecto foi entregue ao Arquitecto Siza Vieira, competindo-lhe apresentar uma proposta sobre as áreas que seria necessário ao Estado (proprietário do monumento) ceder para a construção da pousada. Com base no parecer do projectista, seriam posteriormente definidas em protocolo adicional, as áreas cedidas, as áreas não cedidas e as áreas comuns. Nesse protocolo adicional estava prevista a intervenção da Câmara. Aconteceu, no entanto, que o projectista não concluiu o seu trabalho, certamente por desinteresse da Enatur.
Ponto dois: não há nenhum protocolo relativo a este tema em que a Câmara Municipal de Peniche tenha intervindo. As redactoras do site não são muito explícitas quanto ao que defendem para a Fortaleza. Irene Pimentel defende que “devia ser ali erguido um espaço museológico ‘a sério’, actual e com preocupações estéticas, bem como pedagógicas”. Pela minha parte, só me posso congratular com esta indicação. Bem vinda ao clube! Há mais de duas décadas que venho advogando esse objectivo e colaborado com diversos executivos municipais com vista à sua prossecução. Mas confesso que para lá da boa vontade municipal, não encontrei nenhum movimento de ideias nem disponibilidades materiais para empreender essa criação. E seria injusto omitir que o actual executivo camarário tomou o tema em mãos, efectivou contactos e desencadeou um processo aberto de contributos cívicos, científicos e museológicos que lhe permitam dotar-se de um programa museológico. Estou certo que o contributo generoso de Irene Pimentel, Diana Andringa e Maria Manuela Cruzeiro para esse programa será bem acolhido.
Resta discutir se todo o espaço da Fortaleza deve ser musealizado. Aqui certamente divergimos. Mas se as minhas amigas visitarem o local, tomarem em atenção as dimensões da Fortaleza e o seu estado de conservação, ouvirem a população local e tentarem perceber a história secular do monumento e, sobretudo, fizerem contas às fontes de financiamento de um espaço museológico com as características daquele, no mínimo hão-de concordar que o sentido da responsabilidade pública não está distribuído só a um dos lados desta controvérsia.
Em suma, ponto três: há muita matéria para discutir (e trabalhar) se dela eliminarmos preconceitos e ligeireza.

domingo, 28 de setembro de 2008

Peniche, 2 de Fevereiro de 1786

A década de 1780 foi marcada por convulsões políticas no Novo Mundo. A revolução americana, declarada em 1776, consuma a vitória sobre o exército inglês em 1781. A independência dos Estados Unidos da América é reconhecida em 1783. Em 1780, estala no Peru uma revolta contra o domínio espanhol, conduzida pelo chefe inca, José Gabriel Tupac Amaru. O exército colonial põe-lhe termo no ano seguinte, executando o líder e aprisionando o filho.
Em Abril de 1784, parte de Lima, Peru, com destino a Cadiz, o navio espanhol San Pedro de Alcântara. É um navio de guerra, de 64 canhões. 


Vinha carregado com cobre e metais preciosos, produto da mineração do Peru acumulada nos anos anteriores (durante os quais a instabilidade originada pela guerra da independência americanae o embargo britânico impedira o seu normal escoamento para a Europa). Trazia também um conjunto de colecções de artefactos anteriores à presença espanhola, recolhidas por dois cientistas espanhóis em expedições efectuadas a grutas de uma região do Peru. Finalmente, fazia parte da carregamento do San Pedro cerca de duas dezenas de prisioneiros incas, incluindo o filho do chefe executado, Fernando Tupac Amaru.
O navio zarpou com excesso de peso, enfrentando por isso diversos sobressaltos na sua longa viagem. Quando chegou ao Chile, viu-se obrigado a deixar parte da carga e a regressar ao Peru para reparações. No Rio de Janeiro, já no ano seguinte, foi forçado a uma imobilização de 4 meses, de novo para reparações. A 2 de Fevereiro de 1786, aproximou-se da costa de Peniche e foi embater violentamente contra as rochas da Papoa. Com o choque, o casco do fundo partiu-se e o porão separou-se do resto da embarcação. O mar estava calmo. O comandante do navio foi traído provavelmente pela maré muito baixa e as imprecisões da carta de navegação. 128 pessoas, entre as quais a maioria dos prisioneiros incas, encontrou a morte no naufrágio.
O acontecimento teve uma enorme repercussão internacional e uma extraordinário incidência em Peniche. O governo espanhol não se poupou a esforços para recuperar os tesouros depositados no fundo do mar (calcula-se em cerca de 750 toneladas de cobre, prata e ouro) e contratou mergulhadores e enviou para Peniche equipas técnicas e operários. Durante dois anos, Peniche foi estaleiro destes trabalhos morosos e complexos de resgate.
Depois, lentamente, o tempo foi apagando memórias e sinais.

Em 1975, um arqueólogo francês, Jean Yves Blot, iniciou o longo processo de devolução desta história ao conhecimento. Começou pela investigação de arquivo, onde encontrou abundantes referencias, em Espanha e por toda a Europa. Passou depois ao local, onde a pesquisa se revelou mais difícil. Identificou a zona de impacte e a área onde se tinham procedido a inumação de cadáveres. Organizou campanhas arqueológicas em terra e no mar.
Ontem em Peniche, no Edifício Cultural, Jean Yves, que entretanto implicou no fascínio pelo tema a arqueóloga Maria Luisa Pinheiro, apresentou uma Exposição onde se pode seguir o trajecto e os principais resultados deste longo e persistente trabalho. A exposição é acompanhada pela edição de uma obra intitulada Peniche, Encontro entre Dois Continentes: Concerto para mar e Orquestra. San Pedro de Alcântara, 1786.

sábado, 27 de setembro de 2008

A parede vazia e o gorro de pele (II)

O episódio narrado por Kundera na introdução ao conto "Cartas Perdidas" pode ser lido como uma metáfora do património. Não é original este entendimento. Costumo abrir com ele os trabalhos lectivos na cadeira de "Património Cultural".
De facto, o gorro é o elemento de continuidade do passado, o vestígio que sobreviveu à destruição perpetrada neste caso pelos homens (há testemunhos que desaparecem, por acção do tempo ou da natureza). O vestígio chegou até nós, mas não fala por si. Sem a leitura, a crítica de contexto, a descodificação, atribuição de significado, em suma a interpretação, realizadas com recurso à história e às ciências do património, permaneceria mudo e indecifrado.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A parede vazia e o gorro de pele (I)

"Em Fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald subiu à varanda de um palácio barroco de Praga para falar às centenas de milhar de cidadãos aglomerados na praça da Cidade Velha. Foi uma grande viragem na história da Boémia. Um momento fatídico, como acontece uma ou duas vezes por milénio.
Gottwald fazia-se acompanhar pelos camaradas e, ao lado, muito perto, estava Clementis. Nevava, fazia muito frio, e Gottwald vinha de cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou o gorro de pele que trazia e colocou-o na cabeça de Gottwald.
A secção de propaganda fez centenas de milhar de exemplares da fotografia da varanda de onde Gottwald, de gorro de pele e rodeado pelos camaradas, fala ao povo. Nesta varanda começou a história da Boémia comunista. Todas as crianças conheciam a fotografia, porque a tinham visto nos cartazes, nos manuais ou nos museus.
Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. A secção de propaganda fê-lo desaparecer imediatamente da história e, como é evidente, de todas as fotografias. A partir daí, Gottwald está sozinho na varanda. Onde ficava Clementis, há apenas a parede vazia do palácio. De Clementis restou o gorro de pele na cabeça de Gottwald".
Milan Kundera, "As Cartas Perdidas", in O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978 [9ª ed. portuguesa, D. Quixote. 2001]