10 novembro 2014

da caixa.

tentava fugir. adiar. já não aguentava olhar aquela caixa. ali. incólume. impune. uma parafernália que não sabia manusear. não tinha as chaves, muito menos o manual. via-se obrigado a conviver. a aceitar. por mais que fugisse, seguia-o como um fantasma. daqueles que incomodam. se materializam. cutucam. assustam.

queria abri-la à força, arrancar-lhe tudo o que latejava. pensou em jogá-la fora. mas seria desumano ingressar nesse jogo que se pretende humano. não admitia adotar qualquer meio. não justifica. não aqui. não ali. só queria não tê-la. afinal, quem a colocara ali. d'onde veio, pr'onde vai. caixinha maldita que não se esvai. sequer a tivesse cativado. essa dor não teria se instalado. jogar fora não queria, destruí-la não podia. restava-lhe fazer compressas. acalmar os pulsos.
a-dor-mecer.

06 novembro 2014

certa.fazer.a.coisa.

tanto ficar quanto ir embora pareciam, em diferentes momentos, a coisa certa a fazer. deu nó. tilte. reseta, por favor?

05 novembro 2014

do muito dito.

nasci não-dito
preocupado em ser entrelinha
nunca fui lido
quando o fui, interpretaram-me errado
vai ver é culpa dessas linhas tortas, sempre disformes
nesse emaranhado de ausências e silêncios, de pouco informe.

resolvi ser dito
ipsis litteris
escrito por extenso, vírgula por vírgula, ponto por ponto
perdi-me de mim mesmo
quando vi já era pauta, linha, parágrafo e muito travessão
- atravessado
é assim que sinto
já não mais distingo palavra de sentimento
agora só lamento. e que tormento.

27 outubro 2014

no escuro.

queria que o mundo o lesse. faltava-lhe coragem. sonhava. cogitava. apagava. aquele botão laranja o assustava. é como expor aos outros as suas células. vê-los bebendo-as o deixava em pânico. era pedir demais. sentia-se inchado, precisava expeli-las. mas era too much. queria gritar. queria que todos ouvissem, mas ninguém o visse. pode gritar no escuro?

sem norte

não tenho medo da morte. temo ficar assim, sem norte. arrastando conteúdo num corpo disforme. quem mandou brigar com a sorte. mas um dia, quem sabe, ela volte.

08 agosto 2014

do terror

É, o temor dessa maldita intuição se firmou. Assim como no filme, veio de solavanco. E eu que só brincava com a semelhança, hoje assisto, sinto e vivo cada cena. E se ainda tinha dúvida, o próprio medo se materializou em um misto de realidade sonhada nos labirintos do inconsciente. Arrepiou. Chegou perto.  Puxou o pé.  Sufocou a voz. Lembrou-me como os gêneros transitam entre si. Com que facilidade e rapidez.  De (des)romance a terror. Num piscar de olhos. Num olhar penetrante.

31 julho 2014

ainda.

se foi. virou história. lembrança, memória. onde havia objetos, cenas. no lustre dos móveis, a nossa imagem. o perfume exala no ar. seu cheiro ainda está em mim.

25 julho 2014

da terra

Esfinge de açúcar - Salvador Dali
oh, terra sem lei. de invasores e invadidos. de destruidores e desiludidos. de paisagens e muitas miragens. quem poderá te perscrutar? este solo de solidão nos condena a vagar. sem bússola, sem mapa, sem luz. a contar apenas com boatos. ecos perdidos na imensidão do caos. estrelas que pintam um oásis de enigmas. estrangeiro nenhum nunca viu. só eles.

22 julho 2014

das utopias


 

utopias são boas companhias... para a imaginação
quando adentram a realidade, são intensas, pouco tenras, disformes
no começo se mostram sãos
mas quando chega a intersecção, logo se vê que não há coração

E não há nem o que reclamar
sua matéria não é daqui
seu composto se desfaz ali
é tudo simplesmente fantasia, vai dizer que não sabia?
devaneios da ilusão
oh, pobre poesia

são verão em meio ao inverno
e quando você se acostuma com o bronze
viram árvores com suas sombras frias e gélidas
vão logo se tornar estação em outro coração

utopias não foram feitas para serem vividas, mas sonhadas
a não ser que se prefira o desengano ao encantamento
se pudesse, permanecia com aquele suspiro profundo e silencioso
que ela acabou por matar
restou só a desilusão e umas pitadas de decepção