28 maio 2012
essa ânsia
Eu não entendo o porquê. Sei que existe uma ânsia dentro de mim em querer tudo e muito mais de uma só vez. Quero tudo pra hoje - na verdade, pra ontem, mas, tenho consciência da impossibilidade de caráter, hum, técnico. Quero o mundo, quero todas as possibilidades. Quero. Quero. Quero ter tempo pra tudo, quero ter tempo pra nada. Quero me ocupar de tanta coisa que não dê tempo de me ocupar.
Esse desespero desenfreado me acompanha desde cedo. Se possível, teria feito o jardim de infância de manhã, o ensino fundamental à tarde, o médio à noite e a graduação a distância. A pós, essa eu deixaria pra adolescência pra vida não ficar tediosa.
Aconselham-me a ter calma, que a vida se delicia aos poucos. Mas a única coisa que 'aprecio' devagar são os legumes. E não porque quero, mas porque são tão desinteressantes que as poucas vezes que me forço a degluti-los parecem durar anos. Coisa boa a gente come rápido, pra comer mais. De uma vez. Pra não fugir, pro mundo não acabar e restar metade do pote de Häagen Dazs. Insolência comparável apenas àquela do paraíso. A vida é emergente, o mundo é urgente.
Sei que essa ânsia não se explica, se anseia. Até pra redigir esse texto bate aquela apreensão. Quero chegar logo nos ditames finais, como será a última frase? Palavras se perdem, vão atropelando umas as outras, coitadas, tão machucadas. E eu não sei. Só sou. Talvez seja alguma espécie de inconsciente sinalizando a brevidade da vida, da minha.
26 maio 2012
esperava, escutava.
não havia ninguém. suas palavras dissipavam-se. como se dissipa um foguete. as chispas, depois de haverem riscado a sua trajetória na noite, somem-se no seio dela, a escuridão retumba, escorre sobre o perfil das casas e das torres; os flancos ermos das colinas suavizam-se, desaparecem. mas, embora hajam desaparecido casas e colinas, a noite está cheia delas; sem cor, sem janelas, existem mais maciçamente, expressando o que a franca luz do dia não pode transmitir - a turbação e suspensão das coisas aglomeradas na terra; confundidas na treva; privadas do alívio que traz a aurora, quando, molhando as paredes de branco e gris, tocando cada janela, alçando a bruma dos campos, descobrindo as vacas vermelhas que pastam tranquilamente, tudo é mais uma vez revelado aos olhos;
[...]
o soco girou-se, abateu-se; ela caía, caía. pois ele tinha ido, pensou - tinha ido matar-se, como ameaçara - arrojar-se debaixo de um caminhão! mas não; ali estava ele; ainda sentado sozinho no banco, com o seu sobretudo puído, as pernas cruzadas, os olhos fixos, falando alto.
Os homens não devem cortar as árvores. há um Deus. (anotava tais revelações nas costas de envelopes). mudar o mundo. ninguém mata por ódio. torná-lo conhecido (tomou nota). esperava. escutava. [...]
trecho de Mrs. Dalloway (Virginia Woolf)
[...]
o soco girou-se, abateu-se; ela caía, caía. pois ele tinha ido, pensou - tinha ido matar-se, como ameaçara - arrojar-se debaixo de um caminhão! mas não; ali estava ele; ainda sentado sozinho no banco, com o seu sobretudo puído, as pernas cruzadas, os olhos fixos, falando alto.
Os homens não devem cortar as árvores. há um Deus. (anotava tais revelações nas costas de envelopes). mudar o mundo. ninguém mata por ódio. torná-lo conhecido (tomou nota). esperava. escutava. [...]
trecho de Mrs. Dalloway (Virginia Woolf)
21 maio 2012
tão jovens
eu nunca fui de muitos. eu nunca quis pertencê-los. eu nunca quis que me quisessem. fácil perceber pela minha pouca (ou nula) capacidade (ou vontade de) me ajustar às convenções sociais. foda-se.
eu já fui jovem. já fiz muitas promessas. já aprendi a não mais fazê-las: suplantam nossos desejos. descobri que momentos não podem ser eternizados. ou se eternizam por si só ou nunca o serão. vêm a priori.
dos muitos que passaram, poucos ficaram. e não necessariamente os bons, mas os verdadeiros. amizade não subsiste sem isso.
contrariando um dos princípios que a própria vida me legou, eu venho registrar uma de minhas exceções, que tive certeza de sua imanência num momento singelo. estávamos no show de uma de nossas bandas favoritas, aquelas que cada verso toca o coração e carrega a alma de significado, memórias, saudosismo. numa homenagem a outra banda importante, tocaram uma canção especial, que fala que já estamos distante de tudo e temos o nosso próprio tempo.
"somos tão jovens, tão jovens...", eufórico, cantando, lembrando do muito que já vivemos, no ensino médio e na faculdade, olhei para trás, procurando-a. sorridente, ela correspondeu à canção e compartilhamos aquele momento mágico. éramos tão jovens quando nos tornamos amigos e ainda somos jovens, apesar de já estarmos distante de tudo, de todos. nesses poucos segundos eternizados que duram minutos, tive a certeza de que daqui a alguns anos, ainda na companhia dela, iremos visitar o passado e entoar, nostálgicos, estes versos. eu ri e meus olhos brilharam, porque percebi que ela eu vou levar pra sempre. ninguém me tira. nem eu mesmo.
Não temos mais o tempo que passou, mas temos muito tempo. Temos todo o tempo do mundo...
eu já fui jovem. já fiz muitas promessas. já aprendi a não mais fazê-las: suplantam nossos desejos. descobri que momentos não podem ser eternizados. ou se eternizam por si só ou nunca o serão. vêm a priori.
dos muitos que passaram, poucos ficaram. e não necessariamente os bons, mas os verdadeiros. amizade não subsiste sem isso.
contrariando um dos princípios que a própria vida me legou, eu venho registrar uma de minhas exceções, que tive certeza de sua imanência num momento singelo. estávamos no show de uma de nossas bandas favoritas, aquelas que cada verso toca o coração e carrega a alma de significado, memórias, saudosismo. numa homenagem a outra banda importante, tocaram uma canção especial, que fala que já estamos distante de tudo e temos o nosso próprio tempo.
"somos tão jovens, tão jovens...", eufórico, cantando, lembrando do muito que já vivemos, no ensino médio e na faculdade, olhei para trás, procurando-a. sorridente, ela correspondeu à canção e compartilhamos aquele momento mágico. éramos tão jovens quando nos tornamos amigos e ainda somos jovens, apesar de já estarmos distante de tudo, de todos. nesses poucos segundos eternizados que duram minutos, tive a certeza de que daqui a alguns anos, ainda na companhia dela, iremos visitar o passado e entoar, nostálgicos, estes versos. eu ri e meus olhos brilharam, porque percebi que ela eu vou levar pra sempre. ninguém me tira. nem eu mesmo.Não temos mais o tempo que passou, mas temos muito tempo. Temos todo o tempo do mundo...
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