09 dezembro 2012

peregrino

lembro de cenas quando era criança, lembro de sentimentos, lembro de ideias, lembro de atitudes, lembro de sonhos; vejo um eu perdido e distante.

ouço contos de (des)aventuras daquela época: não me reconheço. onde foi que me perdi? quando me esqueci?

não sei quem me deu estas raízes. não as quero, nunca as quis. remonto o passado, vislumbro o peregrino ainda a vagar; me perco em miragens.

10 junho 2012

exorcismo

hoje decidi exorcizar todos os fantasmas do passado. resolvi me despir de todas as peças velhas. não quero mais remendos, não quero mais assombrações.

pena que dura tão pouco.
  

05 junho 2012

a ciência


A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!

Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!

A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.

[...]

Fernando Pessoa

 

28 maio 2012

essa ânsia


Eu não entendo o porquê. Sei que existe uma ânsia dentro de mim em querer tudo e muito mais de uma só vez. Quero tudo pra hoje - na verdade, pra ontem, mas,  tenho consciência da impossibilidade de caráter, hum, técnico. Quero o mundo, quero todas as possibilidades. Quero. Quero. Quero ter tempo pra tudo, quero ter tempo pra nada. Quero me ocupar de tanta coisa que não dê tempo de me ocupar.

Esse desespero desenfreado me acompanha desde cedo. Se possível, teria feito o jardim de infância de manhã, o ensino fundamental à tarde, o médio à noite e a graduação a distância. A pós, essa eu deixaria pra adolescência pra vida não ficar tediosa.

Aconselham-me a ter calma, que a vida se delicia aos poucos. Mas a única coisa que 'aprecio' devagar são os legumes. E não porque quero, mas porque são tão desinteressantes que as poucas vezes que me forço a degluti-los parecem durar anos. Coisa boa a gente come rápido, pra comer mais. De uma vez. Pra não fugir, pro mundo não acabar e restar metade do pote de Häagen Dazs. Insolência comparável apenas àquela do paraíso. A vida é emergente, o mundo é urgente.

Sei que essa ânsia não se explica, se anseia. Até pra redigir esse texto bate aquela apreensão. Quero chegar logo nos ditames finais, como será a última frase? Palavras se perdem, vão atropelando umas as outras, coitadas, tão machucadas. E eu não sei. Só sou. Talvez seja alguma espécie de inconsciente sinalizando a brevidade da vida, da minha.


26 maio 2012

esperava, escutava.

não havia ninguém. suas palavras dissipavam-se. como se dissipa um foguete. as chispas, depois de haverem riscado a sua trajetória na noite, somem-se no seio dela, a escuridão retumba, escorre sobre o perfil das casas e das torres; os flancos ermos das colinas suavizam-se, desaparecem. mas, embora hajam desaparecido casas e colinas, a noite está cheia delas; sem cor, sem janelas, existem mais maciçamente, expressando o que a franca luz do dia não pode transmitir - a turbação e suspensão das coisas aglomeradas na terra; confundidas na treva; privadas do alívio que traz a aurora, quando, molhando as paredes de branco e gris, tocando cada janela, alçando a bruma dos campos, descobrindo as vacas vermelhas que pastam tranquilamente, tudo é mais uma vez revelado aos olhos;

[...]

o soco girou-se, abateu-se; ela caía, caía. pois ele tinha ido, pensou - tinha ido matar-se, como ameaçara - arrojar-se debaixo de um caminhão! mas não; ali estava ele; ainda sentado sozinho no banco, com o seu sobretudo puído, as pernas cruzadas, os olhos fixos, falando alto. 

Os homens não devem cortar as árvores. há um Deus. (anotava tais revelações nas costas de envelopes). mudar o mundo. ninguém mata por ódio. torná-lo conhecido (tomou nota). esperava. escutava. [...]


trecho de Mrs. Dalloway (Virginia Woolf)

21 maio 2012

tão jovens

eu nunca fui de muitos. eu nunca quis pertencê-los. eu nunca quis que me quisessem. fácil perceber pela minha pouca (ou nula) capacidade (ou vontade de) me ajustar às convenções sociais. foda-se.

eu já fui jovem. já fiz muitas promessas. já aprendi a não mais fazê-las: suplantam nossos desejos. descobri que momentos não podem ser eternizados. ou se eternizam por si só ou nunca o serão. vêm a priori.
 

dos muitos que passaram, poucos ficaram. e não necessariamente os bons, mas os verdadeiros. amizade não subsiste sem isso. 
 

contrariando um dos princípios que a própria vida me legou, eu venho registrar uma de minhas exceções, que tive certeza de sua imanência num momento singelo. estávamos no show de uma de nossas bandas favoritas, aquelas que cada verso toca o coração e carrega a alma de significado, memórias, saudosismo. numa homenagem a outra banda importante, tocaram uma canção especial, que fala que já estamos distante de tudo e temos o nosso próprio tempo. 
 

"somos tão jovens, tão jovens...", eufórico, cantando, lembrando do muito que já vivemos, no ensino médio e na faculdade, olhei para trás, procurando-a. sorridente, ela correspondeu à canção e compartilhamos aquele momento mágico. éramos tão jovens quando nos tornamos amigos e ainda somos jovens, apesar de já estarmos distante de tudo, de todos. nesses poucos segundos eternizados que duram minutos, tive a certeza de que daqui a alguns anos, ainda na companhia dela, iremos visitar o passado e entoar, nostálgicos, estes versos. eu ri e meus olhos brilharam, porque percebi que ela eu vou levar pra sempre. ninguém me tira. nem eu mesmo.


Não temos mais o tempo que passou, mas temos muito tempo. Temos todo o tempo do mundo...


12 abril 2012

estou cansado.

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

Álvaro de Campos

 

09 março 2012

enquanto o sono não vem



todo dia é assim, enquanto o sono não vem, teço diálogos retóricos com o travesseiro, confidente fiel. enquanto finge acolher os pensamentos mais íntimos, cutuca as feridas ainda não cicatrizadas. versos, estrofes e poemas dão vazão à dor exprimida. e a simplicidade e profundeza das palavras ali rascunhadas atenuam a confusão de ideias, pensamentos e sentimentos. a serenidade vem trazendo a paz e, com ela, chega o sono. é uma pena que o abrir dos olhos na manhã seguinte não deixará resquícios dos pensamentos de outrora. isso aqui ficaria bem melhor.

22 fevereiro 2012

Oscar 2012

Definitivamente, a 84ª edição do Oscar é a premiação da nostalgia, da melancolia, do saudosismo. Os dois filmes mais disputados (O ARTISTA e A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, respectivamente com 10 e 11 indicações) são nada mais que uma maravilhosa homenagem ao cinema pioneiro, clássico, mudo e em preto e branco. Enquanto o primeiro (O Artista) adentra no universo memorado fazendo uso da linguagem e técnicas da época (por exemplo, a fotografia no formato standard (1.33:1) e com os frames acelerados), o segundo o venera a partir da linguagem cinematográfica contemporânea, de ponta, fazendo uso de uma das melhores adequações do 3D já vista nas telonas (com muita profundidade e sobreposição de planos, sem precisar jogar nada na cara do espectador).

Impossível a qualquer cinéfilo mais dedicado não se emocionar com as estórias e a nostalgia iminente, naquele conhecido saudosismo do que não se viveu. Afinal, quem nunca quis ter o privilégio de assistir a uma película em p&b e muda no cinema? Ou quem nunca imaginou como seriam os sets de gravação das obras de Méliès? Pois são presentes assim que O Artista e Hugo Cabret nos proporcionam. Merecem, de fato, todo o reconhecimento que estão recebendo. E não são apenas os dois grandes favoritos da noite do dia 26 de fevereiro de 2012 que exalam certo grau de nostalgia e melancolia.

Para ler o post na íntegra, clique aqui.  
  
  

19 fevereiro 2012

do 8 ou 80


pra mim é 8 ou 80 e eu gosto disso. talvez por causa dessa minha pseudo-claustrofobia; estar nas extremidades me dá o conforto da iminência do abismo. qualquer coisa é só pular, sabe? estar no meio é mediano, que é medíocre, que é enfadonho. prefiro o limiar da perda, do absurdo, seja pelo incêndio ou pela nevasca. o problema é quando se estagna em um dos polos. é preciso movimento, é preciso dosagem, é preciso o de mais e o de menos. quem dera fosse fácil, quisera eu saber atenuar o peso, a distância e a dor entre o 8 e o 80. e nessa dicotomia vivo buscando a sonhada serenidade, que é o meio termo, que incorre em um paradoxo. quimera contradição paradigmática.


11 janeiro 2012

dostoiévski

Perambulou sem rumo. O sol já se punha. Uma tristeza especial se apoderara dele nos últimos tempos. Não tinha nada de especialmente agudo ou azedo, mas emanava dele algo de constante, de eterno; fazia pressentir anos sem refúgio, dessa dor fria, mortal; fazia pressentir toda uma eternidade num espaço de um archin. Essa sensação costumava afligi-lo com mais força ao cair da tarde.

dostoiévski. crime e castigo.