16 janeiro 2015

da anunciação.

eu bem sei que sintomas são esses. e que sinais são aqueles. me sinto um oportunista. que só escreve quando está assim. implodindo. quando a desculpa da alma arrefecida e do bloqueio criativo não convencem mais. é preciso imprimir. dedilhar. orquestrar tudo aquilo que lateja. sufocar para não ser sufocado. daí empurro os atos na vã tentativa de adiar o inevitável. mas isso lá se adia? o ciclo, já anunciado, estende as mãos à outra ponta. é hora de encarar. enfrentar. guardar os brinquedos de quem não quis brincar. e vamos lá - de novo. recolher as roupas do varal, esperar a névoa passar. a parte mais árdua da missão - sem anjo sussurrando no ouvido - é essa da ficha que cai. pro resto, vamos de haikai.

10 novembro 2014

da caixa.

tentava fugir. adiar. já não aguentava olhar aquela caixa. ali. incólume. impune. uma parafernália que não sabia manusear. não tinha as chaves, muito menos o manual. via-se obrigado a conviver. a aceitar. por mais que fugisse, seguia-o como um fantasma. daqueles que incomodam. se materializam. cutucam. assustam.

queria abri-la à força, arrancar-lhe tudo o que latejava. pensou em jogá-la fora. mas seria desumano ingressar nesse jogo que se pretende humano. não admitia adotar qualquer meio. não justifica. não aqui. não ali. só queria não tê-la. afinal, quem a colocara ali. d'onde veio, pr'onde vai. caixinha maldita que não se esvai. sequer a tivesse cativado. essa dor não teria se instalado. jogar fora não queria, destruí-la não podia. restava-lhe fazer compressas. acalmar os pulsos.
a-dor-mecer.

06 novembro 2014

certa.fazer.a.coisa.

tanto ficar quanto ir embora pareciam, em diferentes momentos, a coisa certa a fazer. deu nó. tilte. reseta, por favor?

05 novembro 2014

do muito dito.

nasci não-dito
preocupado em ser entrelinha
nunca fui lido
quando o fui, interpretaram-me errado
vai ver é culpa dessas linhas tortas, sempre disformes
nesse emaranhado de ausências e silêncios, de pouco informe.

resolvi ser dito
ipsis litteris
escrito por extenso, vírgula por vírgula, ponto por ponto
perdi-me de mim mesmo
quando vi já era pauta, linha, parágrafo e muito travessão
- atravessado
é assim que sinto
já não mais distingo palavra de sentimento
agora só lamento. e que tormento.

27 outubro 2014

no escuro.

queria que o mundo o lesse. faltava-lhe coragem. sonhava. cogitava. apagava. aquele botão laranja o assustava. é como expor aos outros as suas células. vê-los bebendo-as o deixava em pânico. era pedir demais. sentia-se inchado, precisava expeli-las. mas era too much. queria gritar. queria que todos ouvissem, mas ninguém o visse. pode gritar no escuro?