terça-feira, agosto 25, 2015

[Poesia] Escrevo sobre as incoerências da escrita.

Escrevo sobre as incoerências da escrita.

Ou

Considerações sobre o fato de não haver escritos.

Minhas palavras, na atualidade
Uma parte a serviço da ciência.
As outras, sobre o amor, são ditas reservadamente.

Penso sobre isto,

As palavras sobre a ciência são guardadas,
Muito bem ensaiadas. Vistas por uns e criticadas.
Levam meses ou anos numa incubadora...
Procurando a sua melhor expressão,
A sua exatidão com os ditos dos outros.
Não devem ser muito ousadas.
Para ousar é preciso muitas palavras.
E olha lá quem sai do conforto para tal...

As palavras de amor são espontâneas.
Elas encontram o seu respaldo num sorriso.
Tem fluidez e leveza.
Reverberam no imediatamente.
São urgentes. Debutam e já são.

Quem serei eu...
Entre as palavras de amor e as palavras da ciência.
A escrever poesia?
A falta agora é bem menor.
Resta sorrir e viver...
Entre as minhas palavras,
Muito mais do que dizê-las ao mundo..
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, julho 23, 2015

[Prosa] A Vida e o Trem.

[Prosa] A Vida e o Trem.
-
A vida é bem semelhante a um trem seguindo numa neblina turva em trilhos desconhecidos. Em face a isto, este prosseguir é permeado pelo imponderável. Se lanço meu olhar para trás vejo apenas mapas que foram descortinados. Chega a ser paradoxal, pois são caminhos para os quais eu não posso mais voltar. É a cartografia do que jamais acontecerá de novo, ainda que seja isto que me guia no ir adiante.  Meus olhos lançados sobre o futuro não vêem nada, além de projeções, fantasias e o que está-para-vir ainda meio deformado. As paradas nas estações tem sempre durações variáveis. Muita coisa é deixada e, ainda assim, as minhas costas sentem o peso de tudo aquilo que carrego. Há também o que embarca comigo vindo do desconhecido e me traz motivos para sorrir, leveza para a alma. Reconheço nestas paradas as estações-chaves da vida. E, ao fim disso tudo, estas fazem ressoar em mim sinais de alegria recobertos pelo véu da serenidade...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, julho 07, 2015

[Poesia] Mapeamento Subjetivo.












[Poesia] Mapeamento Subjetivo.

I

(Refletindo...)

Se trafego pelo beco (da cidade) em tropeços,
Diante de ruas, objetos e tralhas.
Passeio por d'onde há estórias.
Contos trofegos d'uma vida.

II

(Caminhando...)

Paf.

Olha ali! Já não é mais a rua.
Vejo um corpo desabitado.
D'alguém que está bem longe.
Fruto do infortúnio acidente do (des)encontro.
Entre estas pessoas que se cruzam aqui.
Deslumbradas ou apressadas.
Há o outrora e a ausência. [Presente.

Paf, paf.

Inscrito no nome daquela avenida.
Está um conto de três páginas.
Retorcido por alguns rabiscos.
Entrecruzados por capítulos... descontínuos.
São tantas coisas inesperadas!
Que se fazem no acaso e contam depois
Sobre o espanto da surpresa.

Paf, paf, paf.

E ali vejo uma fachada. Seria um letreiro.
É a letra do olhar que se perdeu no tempo.
E persiste na memória, de um beijo.
Ou d'um um dia que se fez em vários,
Que se fez em meses, que se fez em anos.
Ou que se faz nas costas da memória.

Paf, paf, paf, paf.

O sabor da infância é mais que um sorvete.
É o corpo marcado pela sensação imóvel.
Que se registrou na superfície da alma.
Daquilo que se acomodou e permanece.
Carregado na lembrança subjetiva
Do aperto que se dá por dentro.

Paf, paf, paf, paf, paf.

Há olhares que me espantam!
Pois percebo que os lugares...
Não são só eles.
E neles habitam corpos [ausentes ou não.
Que vão e vem, vão e vem.
É a estação, o cruzamento.
Dos aero-portos e dos retratos.
Vai e vem... vai e vem.

III

(Descanso...)

Eis as fotos vivas no meio do urbano.
A memória é o verdadeiro olhar do afeto.
É a alma cantando no que os outros não verão.
O mapa da cidade é da ordem da singularidade.
Só se vê, aqui, aquilo que vem do íntimo.
E a intimidade é da ordem do construir.... sobre o sensível de toda uma vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)


sábado, julho 04, 2015

[Poesia] Sobre Responsabilidades e Correspondências.

Sobre Responsabilidades e Correspondências.
-
Estive pensando no significado do termo “correspondência.”
Se nos tempos de outrora era o envio de cartas.
D'onde dois eram responsáveis por um dizer
Que ia e vinha diante da própria lentidão do tempo.
Nestas épocas que me acompanham
Questiono-me o que pode ser..
Um ato de co-responder.

Já é um baita de um clichê dizer
Que o mundo é narcisista em demasia.
Que podemos fazer... se o espelho
Tantas vezes é mesmo maior.
Co-responder, então, não é.
Aqui, emerge em meio ao cinza urbano
O  responder a si mesmo, aos seus anseios.
Mesmo em face de outro e dos outros.

Inda há muita velocidade. Perdeu-se a espera.
Tantas vidas que buscam ser grandiosas...
E que perdem os elementos fundamentais,
Do gesto de um sensível de aproximar-se.
A correspondência é sempre as duas mãos de
Tecelões. No vazio do tempo que necessita aguardar.

Se somos amantes de correspondências...
E lamentamos pela perda para o imediato.
D'onde a responsabilidade e o desejo se esvaem.
Não há motivo para mergulharmos na alma resignada.
Haverão outros por aí pensando contra a vida apressada.

E que se reinvente a correspondência, não mais
Como nos tempos de outrora, em cartas.
Quem sabe em dois olhares que aguardam.
Em simples gestos que descortinam alma e pedem.
Não mais em encontros diante de si mesmo
E sim em descobertas sobre aquele que vem.

Descobrir.... corresponder-se... responsabilizar-se.
Não hemos de nos iludirmos. Hão de ser poucos.
Hão de ainda haver  palavras no silêncio.
D'onde reconstrói-se... o longo caminho de uma carta...
No gesto decidido entre duas almas.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, junho 01, 2015

[Poesia] Os Antagonismos da Vida

Os Antagonismos da Vida.

[Por fora.

Na minha boca resta uma voz muda,
Daquilo que não lhe digo,
O silêncio contido que reverbera,
No meio da gritaria da cidade
Que hora nenhuma cessa... nos corpos das avenidas.


[Por dentro.

No meu coração há uma leve canção,
Que é aquilo que não lhe digo,
E se desenha no cintilar da sua ausência,
Eis a inscrição d'um desejo voraz.
Que hora nenhuma cessa... em mim.

[A linha entre o por fora e o por dentro.

Entre a minha voz muda e as avenidas,
Há o vivenciar dos antagonismos,
Eis a voracidade do desejo,
Diante da impossibilidade de dizer.
D'onde se inscreve a palavra desencontrada,
Que hora nenhuma cessa... na desarmonia deste viver.
(Antônio Alberto P. de Almeida)


quarta-feira, maio 13, 2015

[Poesia] Civilizaçãosemespaço

Civilizaçãosemespaço.

I

Dois minutos para entramos no amanhã.
Três horas no trânsito.
Vinte minutos para o trabalho.
Observo o ser-em-carros [lentos] e velozes,
Dando passos ligeiros apressados.

Em três dias termina o prazo,
Em meia hora perco o horário.
Observo o ser-em-angústia,
Buscando a sobrevivência [ou a glória]
Em ocupações tenazes.

Em duas horas o relógio apita,
Em cinco meses alcanço as férias.
Daqui a uma década a vida há de mudar.
Observo o ser-em-caráter-cíclico.
Em prédios d'onde a luz é artifício.

Quinze minutos para uma conversa,
Mais dois minutos para a partida.
É tanta coisa nessa vida!
Passam os pensamentos,
Não se observa nem os desejos.
Os olhares passam despercebidos.
(Será que algum deles haveria de lhe tocar?)

II

A correria está rente à sinestesia
Da troca constante que emerge no dia-dia
É tanta coisa que passa sem ser vista
Ô Seres humanos! Tão próximos e tão distantes.

Observo a desrazão no ato d'uma vida,
Sem olhares, sem amores e sem afeto.
Se inventaram o líquido do instantâneo.
Vale mesmo esta assunção do vazio?
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, maio 10, 2015

[Poesia] O Desejo e a Linguagem

O Desejo e a Linguagem.
-
O que emerge da singularidade é o desejo.
Em meio às estórias contadas pelo mundo,
Nas memórias retorcidas e inscritas no fundo,
Do canto da alma d'onde o gesto simples não alcança.

A singularidade faz do desejar,
Ato que se assemelha a um véu,
Em busca d'um corpo d'onde repouse.
Se encontras... torna-se intenso.
Vê-se na fantasia, um belo encontro.

Entre um desejo e outro desejo,
Há o mal-dito da linguagem...
Aquilo que vai, se metamorfoseia...
O que volta é contornado pela fantasia.

Os corpos se cruzam bastante.
A desejo é metaforizado pelo olhar.

Os olhares vão em direções opostas.
Ou se bastam na singularidade da cena.
Ou um olhar vê outro olhar que vê outro olhar...
Cada desejo é dono de um véu singular,
O encontrar-se é o velho debutante do acaso.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, maio 02, 2015

[Poesia] Civilização?

Civilização?
-
A modernidade guarda poucas palavras,
Rente ao excesso de formalidade.
Um bom dia medido contém  olhares comedidos. [Todos estão com pressa.
Somos muito bons em mediocrizar a vida.
Ao transformar tudo numa amarga rotina.
E o exagero do afeto que escapa à ordem,
Costuma ser um dizer sobre o amor.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, abril 28, 2015

[Poesia] Notas Sobre o Querer. Ou Poemas que Seguem Dispersos Pelos Anos. Ou o Mais Íntimo dos Poemas.

Notas Sobre o Querer.
Ou Poemas que Seguem Dispersos Pelos Anos.
Ou o Mais Íntimo dos Poemas.
-
Onde há alma que faz pulsar a vida,
Observo vários vestígios do querer,
Uma parte vai mesmo na linguagem,
outra parte é recoberta pelo silêncio.

E o querer guarda por detrás de si,
O mais íntimo dos lados,
Poucos desvendam esta parte.
[Perdeu-se a proximidade das almas.
E outra parte é mais que despercebida,
[Por vezes até por nós mesmos.

E a palavra que acompanha o querer?
O que é capaz de dizer?
Faz essência no desejo ou na vontade?
O véu que recobre o seu sentido.
É um profundo mistério enigmático.

Sobre o meu desejo que nunca lhe contei,
Pouco teria a dizer,
Se não além disso... trata-se de um desejo.
E o que mais precisaria dizer?
Não teria nada de mais sincero [e profundo.

Basta o verbo desejo.
Trata-se de um contraponto à modernidade.
Quando digo "eu desejo..."
O sentido é querer desvendar o íntimo,
Desvelar sobre o desconhecido.

E no momento seguinte.... é o desejo recoberto...
Que ao se impor, não precisa mais do dito.
O silêncio, então, é o véu que basta.
No encontro de um olhar com outro olhar.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, abril 23, 2015

[Poesia] O Dia Seguinte.

O Dia Seguinte.
-
Andei ligeiro pelas vielas,
Guiado pela dose de beleza
Que via em seus olhos.
Como numa cena feita por um ilusionista,
As miragens se revezavam no meu horizonte.
Eram seus truques e suas danças.
Te via jogando palavras ao vento
E mergulhando no desmentido.
Quando desenhava nas paredes
A tua própria  contradição.

Ameacei desistir de ti para sempre.
Você insistiu e implorou.
E continuou com seus velhos truques,
Que se desmanchavam
Na falsa sedução narcísica.

Hoje nem me recordo mais de ti,
A possibilidade findou em luto...
Se por um acaso voltares com seus truques.
Ou mesmo arrependimento – será tarde.

A forma que a tarde assume
Quando se avizinha a noite.
É vista no debutar do clarão
Que ressoa no dia seguinte.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, abril 15, 2015

[Poesia] O Tumulto do Desejo

O Tumulto do Desejo.
-
O olhar faz nascer o desejo
No acaso que faz ato no vazio.
É uma espécie de rebelião ao tédio
Ocasionado pelas temporalidades.

Instaura-se um tumulto!
Olha ali o contraste inesperado.
Entre o vivo e o que ser que se viva!
É mais um dos contrassensos do existir.

Não se anuncia o desejo!
Nem se anuncia o desejo!
Resta a enunciação...!
Que eclode no cintilar das vestes
Atiradas pelo ocaso no nosso corpo.

Ignorância a nossa! D'onde ele vem?
O debutar ocorrer a partir de si.
O alimentar-se da sua alteridade....
Parece não querer saber de nós!
Criatura maldita....
(Eis o saber do intimíssimo.
Que sabe sobre nós
Mais do que nós mesmos.)
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, abril 12, 2015

[Poesia] O Virtual e o Real.

O Virtual e o Real.
-
Observo nomes de anos de outrora.
Há séculos que não vejo estes rostos!
E as circunstâncias dos encontros...
Me recordo com dificuldade.

Graças a este mundo digital.
Perdi o direito à arqueologia,
Da minha própria existência.
Hoje está tudo escavado e exposto.
Basta um olhar ao lado.
E três passos com os dedos.

Somos seres super-conectados.
E desconectados da lentidão,
Do mais íntimo dos não-saberes.
E da passagem das estações do ano.

E assim a vida segue.
Na metamorfose das surpresas.
Nem sempre tão velhas,
Como nos tempos de outrora.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, abril 10, 2015

[Poesia] Sobre a Pós-Modernidade.

Sobre a Pós-Modernidade.
-
Em um oceano de liquidez,
Mais vale o próprio ego,
E um ode eterno à liberdade,
Do que o cintilar da lealdade.

Os sujeitos estão em cima de velas,
O desejo voa longe.
Goza-se indo em muitas direções.
(Sem direção)

Os sorrisos são distantes
Os sonhos se esvanecem.
Diante de portos degradados.
Evita-se, assim, a calmaria,
Que mais lembraria o mais terno do mares.

E num oceano de liquidez.
Navegar no mar já não basta,
Acreditarias em pôr-do-sol
Sem lançar olhares ao redor?
O mar traí aqueles
Que só olham o próprio barco.

E a beleza do horizonte se desfaz.
Vai-se em muitas direções.
(Sem direção)
Diante de portos degradados,
Falta o mais verossímil dos amores.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, abril 08, 2015

[Poesia] Lugares III

Reflexões pós-aula de ética.
Ou Lugares III.
-
A palavra escrita,
Promotora da experiência singular,
Está meio-morta.
Agoniza em meio às buzinas,
Ao excesso de concreto.                                        

O repouso que mantém o sopro do existir,
Está nos corpos que vibram,
Para além daquilo que é anti-estético.
Na experiência livre do sentir,
No toque maldito da expressão improvisada,
Que canta nas formas singulares,
E faz frente à produção em massa,
Onde o subjetivar-se se perde
Em meio ao que se supõe ideal.
                                                             
A palavra escrita goza de [e em] liberdade
Por ser silenciosa - soa como um equívoco.
E ao se supor viva
Estabelece-se em frente ao anti-ideal.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, abril 07, 2015

[Poesia] Lugares II

Lugares II.
-
A necessidade
Necescidade
Nessa cidade
É amor por cima,
Da dureza do concreto
Das velhas esquinas.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, março 31, 2015

[Poesia] Lugares

Lugares.
-
A utopia é um sorriso que se imagina,
Às dezesseis horas de uma tarde ensolarada.
Enquanto tempestade sacode a cidade,
Em meio à dança forjada de faces vazias.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, março 16, 2015

[Poesia] Um Poema Intertextual.

Um poema intertextual.
-
Nos silêncios dialogo com ti,
Diante da sua eterna distância,
Você, cara moça, parece voar pela vida.
Tal como um pássaro arredio e fugaz.

Noto eternos impasses insolúveis,
Versifico sobre ti – atiro palavras ao cintilar do vento.
Com a esperança de que alcancem o teu corpo,
Elas seguem em existência própria pelos céus,
Apenas observo cânticos poéticos ao longe.

Continuo na minha douta ignorância poética,
O desejo seria expressar a melodia das palavras,
Repito – tu  voas! E segue em outros cenários.
(Aqui, a arte não é encenar, e sim poder ser.)

Maldito destino este! De ser um ser que se mete em palavras!
Nos instantes em que olho para ti,
Vejo-me apenas como um  reles poeta.
Desejoso que, ao menos por um instante,
Os meus versos possam ressoar pelos teus poros,
Com o intuito de encantar a sua alma.
Para que a poesia, então, possa se converter
Em um viver.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, março 11, 2015

[Poesia] Um Olhar Adiante.

Um Olhar Adiante.
-
Perde-se muito do tempo,
Em vazios permeados de lamentos,
Mais vale a força do vento,
Do que a eternidade insolente.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, março 09, 2015

[Poesia] Efeito poético no meio da aula sobre Lacan.

Efeito poético no meio da aula sobre Lacan.
-
A palavra que norteia sobre o desejo,
Não é uma plena confissão.
E sim apenas uma metade,
Ou uma meia-verdade.
A outra metade é mal-dita.

A mediação ocorre no silêncio
Ou numa confusão que deriva
Daquilo que não pode ocorrer,
No espaço estritatamente vazio,
Apenas na plenitude dos sentidos.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, março 07, 2015

[Poesia] Sobre palavras, poesias e outras coisas.

Sobre palavras, poesias e outras coisas.
-
Eu mexo com as palavras,
Para falar de você,
Sem que você entenda,
O que eu digo
Quando escrevo.

Não se trata de um mistério,
Nem da opção por um anonimato,
Mas de que há uma falta,
Quando não se entra em contato.

Abra a sua alma,
Para escutar as palavras,
Não somente desta poesia,
Mas do meu coração.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, fevereiro 28, 2015

Sobre o desacontecido.

[Poesia] Sobre o desacontecido.

O relógio marca dezoito horas,
Sinal vermelho, o semáforo fecha.
Onde está o despretensioso?
Perdeu-se com o acelerar do motor,
"Olha o relógio, estou atrasado."
O desacontecido aconteceu,
Na cena em branco do silêncio.
Os olhares não se cruzaram,
Ou simplesmente não se viram.
É tudo muito rápido,
Trabalho, trabalho e trabalho.
O despretensioso estava ali,
Escondido por detrás das almas [se esvaiu...
Foi levado pelas águas
Do rio (de cimento) [e do tempo
Junto ao acaso dos amores,
E a beleza da vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

[Poesia] Sobre Olhares.

Sobre Olhares.
-
Lanço os meus olhos aos teus,
Não vejo apenas olhares,
Enxergo-te por dentro e por fora;
Sinto-me acariciado pela dupla beleza,
D'onde provém afago ao meu coração.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, fevereiro 15, 2015

[Prosa] Pequena Prosa Sobre Fotografias.

Pequena Prosa Sobre Fotografias.
-
As fotografias são gravuras de um instante que, de outro jeito, cairia em vão diante da ação do imponderável do tempo. Apesar de ser uma imagem estática, os sentidos que nós damos são afetivos, de modo que elas se tornam dinâmicas. Estes sentidos estão sujeitos ao movimento da dança que ocorre entre a metamorfose da vida e o repouso da memória. 
As fotografias servem, assim, para mostrar que ‘somos muitos’ para muito pouco tempo. Se observarmos fotos feitas há um ano, por exemplo, podemos observar alguns relacionamentos que se foram, o quanto evoluímos, crescemos e como, aparentemente sem percebemos, algumas coisas mudaram bastante. Notamos que certas coisas eram mais importantes do que imaginávamos e também o contrário. Se observarmos fotos feitas há dez anos, enxergamos os ciclos, lugares, pessoas perdidas pela vida e o quanto não fazíamos ideia de onde estaríamos hoje diante do momento daquele registro. 
A fotografia é uma espécie de biografia viva que não precisa de palavras, pois se faz através do afeto que restou diante daquilo que de um registro momentâneo ficou para posteridade.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, fevereiro 10, 2015

[Poesia] Eu-e-tu. Tu-e-eu.

Eu-e-tu. Tu-e-eu.
-
A nossa mais intima particularidade,
Atua em um movimento constante
De “eu-e-tu”  em   rodopios.

(“eu-e-tu” ... “tu-e-eu” .... “eu-e-tu”)

A alteridade nos consome em combustão,
Se eliminarmos o tu, vemos apenas o eu.
(Ou simplesmente não enxergamos mais...)
São os narcisismos contemporâneos.

A alteridade proporciona mesmo a angústia,
É preciso libertar-se em direção ao desconhecido.
O outro é um vasto oceano de estórias,
Que antecedem a mera aparência singela,
Do instante em que decidimos adentrar.

Aguardemos a simplicidade.
O caminhar de um rio é uma bela metáfora,
A pressa arrebenta as margens,
Mas, em última instância, é preciso transbordar.
Apenas quando permitimos o trans-bordar de nós mesmos,
Podemos estender um olhar,
E tocar no âmago da singularidade da alma do outro.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, fevereiro 08, 2015

[Poesia] Poema Enigmático Sobre o Dizer

Poema Enigmático Sobre o Dizer.
-
Eu sei que você sabe,
E você sabe que eu sei.

A palavra em sua aparência,
É efeito que diz pela metade.
E quem diz, desdiz.
Mas quem diz dez vezes,
Fala demais.

O não-dito é dito,
As oportunidades da vida,
São portas invisíveis no ar,
Quem as vê e atravessa...
São aqueles que sabem escutar.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

[Poesia] Segue-se a vida, seguindo a vida.

Segue-se a vida, seguindo a vida.

Uma vida comporta perdas,
Algumas são esfacelamentos,
Diria que são como mutilações d’alma.
Descem gotas d’água.  Chove.
Saímos encharcados no âmago

Uma vida conforta as perdas,
Algumas são mesmo dolorosas,
Diria que também são aprendizados.
Segue o tempo lentamente.
Busca-se a saída.

Em uma vida com portas, vive-se.
Algumas não dão em lugar nenhum,
Outras nos colocam em círculos.
Cede-se da pressa, anda-se.
Encontra-se a saída,
Alguns passos, mudamos.  (de caminho, de direção)

E ao sairmos, podemos rir,
Não ao negar ou ignorar a intempérie,
Mas na banalidade do dia (seguinte),
Que reverbera na leveza da alegria.

Segue a vida,
Quando seguimos a vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, janeiro 28, 2015

[Poesia] Entre as Vielas da Obsolescência .

The Colosseum by oO-Rein-Oo

Entre as Vielas da Obsolescência .

Há uma abundância de vielas,
Cada uma indica levar para um lado.
Se não se volta atrás no passo dado,
Não há mesmo maneira que exista
Para alguém se desfazer do passado.

Quem enxerga, vê o mundo.
Pelas frestas dos becos...
Parece algo meio embasado,
Mas se sonhamos...
Preenchemos o incerto,
Com as possibilidades de um oceano.

Para cada pegada que se deixa,
Quando se segue em frente,
A superfície abre-se lentamente,
O tempo é um vento de atuação lenta.
Que nos leva se não optarmos...

O mesmo vento que acena para os olhos,
Quando põe as árvores para dançar.
Indica-nos a chegada das tempestades.

E se-guir neste arcabouço de temporalidades,
É ser guia no entrecruzamento das vielas,
Há serenidade no caminho de quem sorri,
Bastante chuva no de quem tem lágrimas.

E o extraordinário é a tragédia dos tolos,
Não há vielas em que se passe sozinho,
Há muitos objetivos bastante nobres,
E olha-se pouco para os lados.

E tolos somos nós que acreditamos,
No extraordinário de um gesto,
Na beleza de uma canção silenciosa,
Nestes tempos de pragmatismo insolente.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

domingo, janeiro 25, 2015

[Poesia] Liberte-se.

Liberte-se.
-
Liberte-se daquilo que em  ti
Não cabe mais.

De amores velhos,
Cuja bagagem enfadonha,
Pesa sobre as mãos,
A arte de empurrar as gavetas,
É também a possibilidade de despojar a alma.

De amizades desfalecidas,
A beleza pode mesmo ter existido.
E o encontro de olhares não se faz mais.
Os olhares passeiam pelo mundo,
E a mudança de direção é uma fatalidade.
O afeto repousa no coração.

De empregos enfadonhos,
Que vale uma vida jogada fora?
Entre tardes desgostosas,
Mais vale mesmo a vida vivida,
Em plenitude.

Não existe “deixar partir”
Nem existe descolamento afetivo,
Existe a responsabilidade sobre a efemeridade.
Não existe também tragédia...
Mas uma singela beleza,
De um desencontro encontrado.

Não existe também liberta-se dos outros,
Apenas libertar-se de si mesmo.
Daquilo que a partir de um outrem,
Foi incorporado a si.
E liberta-se de si mesmo é um ato de coragem,
A coragem que se metamorfoseia
Na possibilidade de se reinventar
[E de reinventar a vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, janeiro 19, 2015

[Poesia] Algumas Palavras e Um Silêncio.

Algumas Palavras e Um Silêncio.
-
O narcisismo é um olhar,
Em forma de espelho,
Que lança a imagem
Refletida de si mesmo
Para o próprio ego.

Não é apenas amesquinhar-se,
Há supostos objetivos nobres,
Verdadeiras fantasias alegóricas.

II

Muito se diz,
Muito se ressente,
Pouco se toca e sente,
Neste planeta de luzes (publicitárias) reluzentes,
D’onde balões buscam espaço,
Em meio ao ar rarefeito,
D’uma vida em demasia industrial,

III

O desmanche se dá em meio
Ao extrapolar dos caracteres,
Cujo o âmago guarda um imenso vazio.
D'onde reina a superfície e o artifício.
O avesso é o preponderar do superficial. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, janeiro 15, 2015

[Poesia] Procuram-se as Palavras!

Procuram-se as Palavras!
I
Há uma escassez de palavras?
Não há uma escassez de palavras,
Como está havendo de água.
II
Os meus dizeres agora soam burocráticos,
Respondem aos fatos concretos,
Estão regulados por uma série de regras,
Andam em filas,
Obedecem a horários e prazos,
Se voarem livremente serão abatidos,
Ou sorrateiramente ignorados.
Agora eles necessitam de revisões,
Do julgamento de acertos e desacertos.
Elas foram por uma via em demasia
De pouca poesia.
Que faço eu se este caminho
Para o qual o intrépido viver
Arremessou-me de forma impiedosa,
É um regulador de metáforas?
III
Não há mais tempo de escrita
Que seja desmedido,
Palavra “dada de graça” é raridade.
Perdeu-se o ocioso que emerge
No prazer de um pequeno gesto,
Que aflora no olhar.
IV
E se escrevo este poema,
Escrevo porque “o instante existe”
E o "instante" burocrático,
Jamais será capaz de tamponar,
A parte da minha alma d’onde
Reside aquela palavra que não
Quer achar uma forma dizer,
Ou de desdizer, ou de articular.
E sim simplesmente atuar
No mais belo dos silêncios,
Aquele que transporta um gesto,
E invade uma alma,
Através da leveza do tocar,
Da intimidade d’um afeto.
V
O mais belo sentido do olhar,
É tornar-se rente
Em momentos diferentes.
Eis uma espécie de cantiga.
A palavra que canta, olha.
(Ela se esconde.)
(Antônio Alberto P. de Almeida)