Este é um escrito sobre o amor.
I
Procurei por semanas um escrito que pudesse contemplar o meu sentir, não encontrei. Lembrei, então, que, diante desse incômodo, poderia simplesmente escrever um. Este escrito nasce de um sentir que passou por um desencontro com as palavras alheias, não que a sensação seja absolutamente singular, mas talvez ela queira dizer as coisas de outra forma, ou deseje desdizer a forma como as coisas são ditas. Ela simplesmente não está sendo escutada. Em verdade, ela está cansado de repetições superficiais e dramáticas.
II
O tema é justamente esse: os desencontros. Eu poderia, diante disso, falar sobre isso numa perspectiva melodramática como muitos dos textos que li, mas não, não me contempla. O que é um desencontro? É um encontro que não se faz de acontecido.
O “encontro que não se faz de acontecido”, pode ocorrer por uma simples ausência de lançar as retinas para o entorno. Olhar é escutar com a alma e abri-la para que adentre pelos poros da pele a palavra que diz algo sobre o outro e também sobre si mesmo. Temos mesmo muita pressa na contemporaneidade diante dos milhões de compromissos para cumprir e suspeito que muitos “encontros que não se fazem” têm este motivo como causa.
Também há fatalidades para os “encontros que não se fazem de acontecidos.” Como, por exemplo, timings diferentes, momentos diferentes de vida. A vida desdiz e desdenha, ironiza quando deixa a beleza do que poderia acontecer se esvair diante de um impasse que gera uma impossibilidade em decorrência de um instante temporal desencontrado.
Há também aqueles que querem, por uma série de outras razões, que os encontros não se façam de acontecidos.
E, diante disso, poderíamos criar rios de lamento e se inundar pensando nas fantasias e nas promessas jamais concretizadas, mas correríamos o risco de nos aprisionarmos na fluidez do incerto. Melhor mesmo é sempre seguir adiante e aguardar soprares mais serenos da vida.
III
O que faz de do encontro um acontecido?
O encontro para se fazer de acontecido demanda a coragem de ceder e se expressar sobre a sincronia de um olhar que se cruza desinibido no instante exato em que os velhos ponteiros do relógio demarcam um mesmo horário.
Não espere que a vida faça do encontro algo acontecido. A vida não realiza, ela apenas, de forma acidental, proporciona as oportunidades para que nós mesmos possamos torna-las reais.
E não vale a pena ceder para (des)encontros vazios entre olhares que jamais puderam realizar um encontro acontecido.
Termino com uma frase de Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida.”.
Ps: dedico este texto a todos os encontros que não fizeram de acontecidos e a todos que ainda hão de acontecer.
(Antônio Alberto P. de Almeida)



























