quinta-feira, dezembro 11, 2014

[Prosa] Este é um escrito sobre o amor.

Este é um escrito sobre o amor. 
I
Procurei por semanas um escrito que pudesse contemplar o meu sentir, não encontrei. Lembrei, então, que, diante desse incômodo, poderia simplesmente escrever um. Este escrito nasce de um sentir que passou por um desencontro com as palavras alheias, não que a sensação seja absolutamente singular, mas talvez ela queira dizer as coisas de outra forma, ou deseje desdizer a forma como as coisas são ditas. Ela simplesmente não está sendo escutada. Em verdade, ela está cansado de repetições superficiais e dramáticas.

II
O tema é justamente esse: os desencontros. Eu poderia, diante disso, falar sobre isso numa perspectiva melodramática como muitos dos textos que li, mas não, não me contempla. O que é um desencontro? É um encontro que não se faz de acontecido.
O “encontro que não se faz de acontecido”, pode ocorrer por uma simples ausência de lançar as retinas para o entorno.  Olhar é escutar com a alma e abri-la para que adentre pelos poros da pele a palavra que diz algo sobre o outro e também sobre si mesmo. Temos mesmo muita pressa na contemporaneidade diante dos milhões de compromissos para cumprir e suspeito que muitos “encontros que não se fazem” têm este motivo como causa.
Também há fatalidades para os “encontros que não se fazem de acontecidos.” Como, por exemplo, timings diferentes, momentos diferentes de vida. A vida desdiz e desdenha, ironiza quando deixa a beleza do que poderia acontecer se esvair diante de um impasse que gera uma impossibilidade em decorrência de um instante temporal desencontrado. 
Há também aqueles que querem, por uma série de outras razões, que os encontros não se façam de acontecidos. 
E, diante disso, poderíamos criar rios de lamento e se inundar pensando nas fantasias e nas promessas jamais concretizadas, mas correríamos o risco de nos aprisionarmos na fluidez do incerto. Melhor mesmo é sempre seguir adiante e aguardar soprares mais serenos da vida. 
III
O que faz de do encontro um acontecido? 
O encontro para se fazer de acontecido demanda a coragem de ceder e se expressar sobre a sincronia de um olhar que se cruza desinibido no instante exato em que os velhos ponteiros do relógio demarcam um mesmo horário. 
Não espere que a vida faça do encontro algo acontecido. A vida não realiza, ela apenas, de forma acidental, proporciona as oportunidades para que nós mesmos possamos torna-las reais.  
E não vale a pena ceder para (des)encontros vazios entre olhares que jamais puderam realizar um encontro acontecido. 
Termino com uma frase de Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida.”.
Ps: dedico este texto a todos os encontros que não fizeram de acontecidos e a todos que ainda hão de acontecer. 
(Antônio Alberto P. de Almeida) 



segunda-feira, dezembro 01, 2014

[Poesia] Sobre o afeto.

Sobre o afeto.

I

As coisas que carregam em si
As mais torpes doses de desrazão
São semelhantes à natureza do afeto,
Que se faz como a hiância de um silêncio.
E que ao questionar-se
Diante do transcorrer dos dias,
O que é da ordem da efemeridade
E o que pode se tornar eterno?
Não obtém respostas.

II

A ordem dos afetos,
Debuta no entrecruzar dos corpos
E do tocar entre as almas.
Quando indagada,
A poesia não responde.
Apenas descreve.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, novembro 26, 2014

[Poesia] Final de semestre.

Final de semestre.
-
Cansei dos termos científicos,
Da leitura das dissertações inacabáveis,
E de trabalhos em grupo
Que não operam coletivamente.

Cansei de fazer da palavra,
Palavra de referência exata.
Da profundidade conceitual,
Que entra numa rede infinita...

Minha alma quer férias,
Eu desejo mais poesia.

(Ah... a poesia...
Quanto tempo eu não lhe via!
Dou boas-vindas ao seu retorno!)

II

Poesia...

Dizer que voa livre,
E que é capaz de traduzir
O encostar do vento,
De um final de tarde despropositado,
Em coisa de natureza profunda.

E que pela essência de liberdade,
Metamorfoseia, a partir do reflexo,
Que há no espelho entre a alma e o mundo,
Aas banalidades mais puras,
Em manuscritos.

Os manuscritos da poesia,
Não contém a verdade da vida,
Nem as respostas da existência,
São apenas pequenos depoimentos,
Inscritos na efemeridade do tempo.

É na efemeridade do tempo,
Que somos capazes de querer,
De cantar sobre um gesto.
De dar três passos em meio ao nada.
E, sobretudo, de sonhar.

Quero a leveza da palavra da poesia,
Que muito diz cambaleando no silêncio.
O que escapa é o banal do sensitivo.
Como uma cena que se faz entre dois olhares.
Enganam-se aqueles que “pensam” que o
Manuscrito da poesia faz-se com palavras,
Se é poeta quando se impregna a alma,
Com uma visão e com sensações.
O “escrito” é apenas um pequeno
E o mais desimportante dos detalhes.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, novembro 01, 2014

[Poesia] Bem-Vindo Novembro.

Novembro, bem-vindo.

Em novembro o clarão do sol
Não impregna a pele como em janeiro,
Junto com o cheiro do mar,
Das praias lotadas
D'onde partimos em busca da natureza,
Diante da vida que levamos entre
Prédios e ilusões artificiais.

Em novembro ninguém dança,
Como no carnaval de fevereiro.

E novembro também não é como março,
Que foi eternizado nas palavras de Tom Jobim,
"São as águas de março que fecham o verão"
Junto com as promessas de vida no seu coração.

Novembro não é o outono
De abril e de maio.
Nem o São João de junho.
Tampouco o inverno de julho.

Novembro também não é agosto,
Que nos enche de temor,
Diante da sua tradição desgostosa,
D'um momento aonde a vida traz rimas toscas,
E insonsas para os nossos dias.

E novembro não é setembro,
D'onde nascem as flores reais
Junto com debutar da primavera.
Que renova as nossas
Esperanças simbólicas,
Em forma de transições diurnas.

Novembro não faz as crianças
Sorrirem como em outubro.

Novembro é novembro.

Novembro não é dezembro,
Não sedia o encontro de
Reconciliação consumista das
Festas natalinas,
Tampouco os fogos de artifício
Do enorme evento de mudança
De calendário - e de afetos.

II

Em Novembro,

Nunca sabemos o que será,
É mesmo o mês das
Narrativas singulares.
Diante do vazio de
Grandes acontecimentos.

O seu debutar traz o ar da brisa
De renovação que ressoa
Em nossos rostos e almas
Na manhã que anuncia a sua chegada.

Novembro é a novidade,
Do cântico silencioso,
Da leveza da vida,
Diante da sinestesia,
Dos embrulhos e da esperança,
De que dias melhores hão de vir.

Bem-vindo novembro.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, outubro 24, 2014

[Poesia] Ar-fictício

Ar-fictício.

“Fogos de Artifício...”.

Luzes colorem o céu,
Durante vários minutos,
No adormecer de um ano
E no debutar de outro.

São os artifícios que criamos,
Para trazer um ar de mudança,
Para a nossa pequenina vida cotidiana.

II

“Artifício...”

A fantasia é um artifício,
Em um mundo artificial.

Quem são aqueles,
Que estão por detrás dos semblantes?
Aquilo que está no âmago,
Não se assemelha ao que aparece.

Quem se afeta verdadeiramente,
Em um mundo de tantos interesses,
Aonde o olhar nas noites chuvosas,
Não são os mesmos dos dias de sol?

O leve ar de passageiro da vida,
Não é bem semelhante
A efemeridade do cotidiano.

III

“Artificial...”

Nesta época aonde se compra bastante
Não se consume apenas produtos,
Mas também pessoas e ideias,
Aquilo que outrora partiu do ócio...
Hoje se busca nos atacados
De objetos falsificados.

É mesmo um mundo imerso,
Pelos espetáculos pirotécnicos,
E por lâmpadas coloridas.
Aonde pequenos retângulos,
Contam sobre o viver.

E a velha sabedoria sobre a vida,
Onde fica neste mundo ligeiro,
Aonde o pensar... É algo artificial.
O que toca verdadeiramente uma alma,
É o silêncio recôndito de um olhar,
De uma bela palavra resguardada,
De três passos dado por nada...

IV

“Ar..tífici[o/al].”

Tocar uma alma,
Ou consumir a vida...
Opta-se e tudo segue...
Entre o espetáculo
Dos fogos de artifício,
E a leveza que cerca,
Um canto de um pássaro,
Numa manhã seguinte.
(Antonio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, outubro 15, 2014

[Narrativas Sobre Um Desejo] Duas desrazões - O Tempo e o Desejo.

Duas desrazões - O Tempo e o Desejo.

I

Nesta cidade sinto que
Semanas passam em segundos
E não mais que de repente,
Parece que na verdade,
Tudo já se passou há um ano.
(São as desrazões do tempo.)

II

E o desejo que eu desejei,
Soa levemente insatisfeito.
Passou... mais rápido,
Do que esta primavera.
Diria que foi uma bela promessa,
De flores que sucumbiram,
Antes que viessem ao mundo.
(São as desrazões do desejo.)


O tempo do desejo,
Não é o desejo de tempo.
Eis uma criatura emergente,
Que passa tão de repente,
Que já não saberia dizer,
Se diante do mundo,
Ainda anseio por você.
(São as desrazões da vida.)
(Antonio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, outubro 10, 2014

[Poesia] Sobre a Decepção.

Sobre a Decepção. 
-
Decepcionar-se é um ato
Profundo de excomunhão,
Aonde reverbera um silêncio interior.
Diante de algo que entra em desacordo.

Não há como negar a tristeza,
Mas também há a beleza,
Daquilo que pode nascer,
A partir do que se desmanchou.

Eis a vida vivida em plenitude.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, outubro 08, 2014

[Narrativa Sobre Um Desejo] O Desejo é Uma Tarde.



E outra sobre o Desejo. 
-
O Desejo é Uma Tarde.
-
I
A luz que adentra levemente pela janela no fim da tarde lembra-me do meu desejo e de como a vida passa rapidamente. Um dia, uma semana, um mês, de repente é um ano, dois, três. Tudo isso, tal como essa tarde que logo passará e dará lugar a noite, traz um ar de efemeridade aos afetos e as sensações. Lanço olhos ao passado e observo as poesias que se eternizaram ao longo do tempo, escritos feitos em função das mais diversas histórias e circunstâncias. Hoje eles são como retratos empoeirados guardados numa velha gaveta. Palavras também são lembranças, se não visuais, de sensações.  
Retiro os meus olhos das gavetas entreabertas e lanço-os para o que me ocorre nos dias atuais. Observo o último mês e vejo o quanto dissertei sobre o desejo. Sobre um desejo em particular, absolutamente particular. Quando eu escrevo sobre o desejo, não escrevo nem para alguém, nem sobre alguém, apesar do desejo sempre estar em relação, ele não pertence ao outro, mas a mim. E continuo a vagar sobre o cotidiano. Penso em como o desejo é transitório, comporta as mais diversas ambivalências e, de forma alguma, é eterno ou indestrutível.  Ele é mesmo persistente, arredio em relação às nossas próprias vontades, mas também é rebelde, encontra outras vias, outros caminhos em relação às possibilidades da vida, não por nossa vontade, mas por sua vontade própria. Por fim, penso que é o desejo do desejo que determina o seu verdadeiro destino.
II
O desejo é irmão da tarde ensolarada,
Cujos raios adentram vibrantes pela janela.
E nos fazem sorrir por nada,
Ao lembrar quão bela é a vida.
Mas tão logo a tarde passa,
Quem ordena as direções é a noite,
A lua pode estar bela,
As estrelas inspiradoras,
Mas não há mais nenhuma garantia,
Sobre o qual será o destino do desejo,
Quando retornar à tarde ensolarada,
Ao findar das horas noturnas,
E depois da longa manhã que a antecipa...
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

segunda-feira, outubro 06, 2014

[Narrativas Sobre um Desejo] Pequeno Escrito Sobre o Desejo.

E Outra sobre o Desejo. 
-
Reflexões Pós-Aula de Psicanálise.

O desejo não pode ser apenas uma marca mnêmica. Parece ser algo mais. Penso se não se trata de uma marca na alma. Pensando no desejo... ele parece partir de um leve rabisco feito por um outro de forma despropositada e acidental. Um rabisco que, no início a gente não sente, nem vê, nem percebe. Um rabisco que aos poucos vai insistindo em continuar, em ser inapagável. O rabisco que é desejo não some na primeira semana, nem na segunda... permanece no sol e na chuva, no silêncio e na gritaria.  E, de repente, eles se multiplicam. A alma fica impregnada por vários deles dispostos aleatoriamente E o tempo passa... e o que não se apaga, vai ganhando contorno, uma forma definida ali, outra aqui, e, então, algo parece se estabelecer , se definir. E diante de tanta arte, o que mais eu tenho a dizer? Que a vida parece uma criança travessa quando vem com essa mania de nos querer encher de quadros na alma.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

sábado, outubro 04, 2014

[Prosa] Da Natureza do Desejo.



Da Natureza do Desejo.
-
O desejo, por vezes, soa como algo tão tão ridículo... faz mesmo parte da sua natureza ter uma certa dose de desrazão. De desrazão e de impossibilidade de completude. Temos um absoluto desconhecimento acerca das suas origens. Como consequência este ser pode parecer estranhíssimo a nós mesmos, mas apenas até certo ponto, pois ele é um estranho intimamente particular. Estranho que amedronta, do qual nós queremos fugir, que gera angústia e também incerteza, pois o desejo, por mais sólido que seja, é filho da efemeridade e das intempéries do tempo, tudo isso se torna mais hiperbolizado quando falamos daqueles cuja natureza depende eminentemente de um casamento profundo com o desejo do outro para se realizar. Não existe “o desejo”, nem “um desejo”, mas os desejos que convivem em conflito ou não.  Os desejos podem ser contraditórios, dependem da própria sustentação do ser diante da vida, de bastante força e também de uma dose razoável de coragem. Alguns ofertam uma longa e difícil caminhada para a sua realização, basta olharmos, num grau máximo, a história dos feitos dos grandes homens da humanidade. No fundo, no fundo, o que eu acho mesmo é que se nós pudéssemos dá-los vida própria e eles pudessem falar, zombariam bastante de nós, não uma zombaria negativa ou irônica, mas uma que se cessaria com a seguinte frase “Sou o seu impulso rumo a alguma coisa. Não lhe dou certezas, como a vida, mas quando estou em ti, na minha forma mais essencial, sou você mesmo, as suas lembranças, histórias, a sua singularidade. Sei que em certos momentos precisarei ser adiado, ou ainda parecerei mesmo inatingível, mas escute: escute-me, viva-me ou cale-se diante da sua própria existência. Não desista de mim para não desistir de você, ”
(Antonio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, outubro 02, 2014

[Poesia] Uma Nota Sobre a Vida.



Uma Nota Sobre a Vida.

-

I

(...)

Eu disse - é ridículo.

(Antes eu pensei na falta de senso, de lógica, de pertinência e tudo mais que pudesse dizer que ali não havia uma ligação mais concreta com a realidade. E tudo se resumia nessa palavra: ridículo.

Era como no poema de Fernando Pessoa

Mas em pleno século XXI, não há espaço mais para essas coisas ridículas. Nem para aquele velho escrito que assim soa também, além de meio distante, ainda que guarde uma lição  de sabedoria e um sentido maior, mas, reitero, de outro século.

Não há espaço para poesias fantasiosas. O tempo unge mesmo. Tempo é dinheiro, dinheiro é tempo. Vivemos voando em um mercado quantitativo em todos os sentidos [sem sentidos.] Não temos tempo para coisas ridículas. Somos os seres do século da realidade concreta.

Sinto-me nostálgico em relação ao passado

Daquele tempo onde eu tanto acreditava...)

(...)

II

(...)

E insisti repetindo para mim,

Que aquilo era muito, muito ridículo.

E também para o mundo,

Mas todos estavam com passos ligeiros.

Com hora marcada. Havia muita pressa.

(Somos o século da realidade concreta)

Não havia ninguém capaz de silenciar de si,

Para escutar o sentido maior da minha palavra,

Lá próximo do âmago da alma,

Onde eu resguardava a sua mais bela verdade.

Escutei-me. Era mesmo bastante ridículo.

Mas que ela, a vida, também é ridícula.

E que ridículo mesmo é não vivê-la.

Em toda a sua banalidade,

Em todas as suas dimensões pueris [ou não.]

E o que haveria de fazer mais, eu, pobre homem,

Naquele pequeno instante de efemeridade,

Do que aceitar aquilo em plenitude,

E vivenciar profundamente esse ridículo

Não como algo absolutamente dispensável,

Ou ainda como algo terrível e vexatório?

E após tanta repetição,

Bastou-me uma pequena dose de silêncio,

Para que algo mudasse

E transcorre por dentro

Com mais fluidez e mais leveza.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

segunda-feira, setembro 29, 2014

[Prosa] A Face do Afeto no Desejo.



A Face do Afeto no Desejo.
-
Suspeito que o verdadeiro prenúncio de que há desejo é o saliente e salutar tocar do afeto. O debutar do afeto é, em suma, aquilo que tira algo da sua posição de desimportante e desloca para certo espaço primordial. Um primordial que muitas vezes pode ser visto, é verdade, como algo meio desimportante em termos gerais. Mas quem irá dizer que há algo mais nobre na vida dos seres humanos do que os afetos e os desejos? As questões mais profundas não são baseadas meramente em cálculos, nem organogramas, nem são capazes de serem medidas através de lógicas estritamente racionais. Trata-se de algo que está para, além disso, algo que é tocado pela poesia e pela palavra. Algo do singular, de cada um. E o que é essa singularidade? Se não “um eu” e também “um outro”, que tem uma história, construída em contextos diversos, vividas de formas diferentes, que guarda no âmago um mundo muitíssimo próprio que jamais será completamente desvendado, ainda que isso não seja motivo para não termos o ímpeto (próprio) da vontade de saber, de entrar em contato, de navegar por águas desconhecidas, e, então, a partir disso, assistir o nascer o afeto e do afeto, o debutar do desejo. E, assim seguimos, sendo entre mundo desconhecidos, sendo afetados uns pelos outros. Suspeito que seja daí  que nasçam as poesias, que é aí o verdadeiro lugar da literatura. E, muito mais do que apenas falar das palavras escritas (não que isso seja pouca coisa) é também neste ponto que, entre os silêncios recônditos e a primazia dos olhares, que a existência começa a acontecer. E, então, surgem mais palavras, não mais escritas e às vezes estritamente simbólicas que vão formando as cenas, aonde, com afetos e desejos, a vida vai acontecendo nesta bagunça meio improvisada, com todo o seu velho ar astuto de imprevisibilidade. 
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quinta-feira, setembro 25, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] Sobre O Ato De Escrever.

A escrita começa a nascer quando, em um instante, não nos sentimos contemplados pelos poemas e escritos alheios. Diria que se trata, em verdade, de uma espécie de incompreensão silenciosa do mundo com o nosso eu mais profundo. E não havendo compreensão, aos poucos vamos nos enchendo e por estarmos cheios, em um momento chegamos a transbordar. Do transbordo surgem palavras e mais palavras. Palavras jogadas. Palavras esparramadas no leito da vida, que ao juntarmos, em um lento e cuidadoso processo, fazem debutar as nossas próprias expressões, escritos e poemas.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, setembro 24, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] Há Dias Que São Fundamentais.


Há Dias Que São Fundamentais.
-
Hoje repousava em mim uma sensação serena, quando fui acometido pela idéia de que há dias que são fundamentais.  De início, não bem sei como descrever ou traduzir esta sensação sorrateira que me acometeu de repente e me trouxe ao limbo da escrita. Não é mesmo uma questão de acreditar que os dias fundamentais são os dias inesquecíveis, pode até ser que coincidentemente eles sejam, mas não é o essencial. O que eu tento demonstrar é que os dias fundamentais são aqueles que mudam, muitas vezes em silêncio, o rumo dos acontecimentos. Os dias fundamentais são aqueles em que as decisões, de uma forma geral, são tomadas no âmago da alma. Nos dias fundamentais o desejo é posto a frente, as velhas idéias são abandonadas, mudamos nossas posições, fazemos frente a algo ou decidimos ceder não por fraqueza, mas porque aquilo já não nos contempla mais. Os dias fundamentais são, em geral, solitários, as grandes decisões pessoais não abarcam intervenções externas. Somos nós e nós mesmos. É mesmo um momento de profundo monólogo existencial. E nestes momentos crescemos, amadurecemos, nos tornamos mais plenos em relação às nossas próprias existências, escolhas e ao mundo que nos cerca. São nos dias fundamentais que entendemos, essencialmente, que por mais que estejamos cercados de gente –e há mesmo gente por todos os lados- somos os grandes responsáveis por nós mesmos e os verdadeiros autores das nossas histórias de vida. 
(Antônio Alberto P. de Almeida.) 

sábado, setembro 20, 2014

[Poesia] A Moderna Insistente.



A Moderna Insistente.
-
Vida Moderna, ansiosa jovem,
Que não suporta mesmo
A emoção da espera.
Ela corre na avenida,
Lança olhos para o lado,
Vê homens engravatados
Cardiopatas, filhos do nervosismo do mercado,
Do outro lado observa o homem comum
Rangendo os dentes na fila do supermercado,
E mais adianta a moça na fila do trânsito,
Temendo a bronca pelo atraso.
As comunicações são instantâneas,
As visualizações são simultâneas,
As imagens também são instantâneas,
E há mais visualizações simultâneas,
A comida também é instantânea,
E nesse mar de dados
A Vida Moderna forja o amor,
Que dança enquanto se balança,
Ao som da efemeridade fluida.
A Vida Moderna forja o desejo,
Que chora enquanto goza,
No silêncio das noites barulhentas.
E  a vida moderna vive a angústia.
Angústia que não mente.
E denuncia para a jovem ansiosa,
Que na vida em si mesma,
Ela não é mais que o avesso
Da natureza do imediato.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
Fonte da foto.

sábado, setembro 13, 2014

[Poesia] O Ser da Engenhoca Urbana.



O Ser da Engenhoca Urbana.

O homem buscou inventar,
E inventou a tal da engenhoca urbana,
A engenhoca urbana riu e ironizou,
E reinventou o homem.
Fosse ele tão potente,
Não seria hoje um pobre submisso,
Diante da sua parca criação.

São centenas de milhares
De blocos de concreto,
Com tamanhos distintos,
Em meio ao cinema da vida cotidiana,
Que também não tem linearidade.

Viver neste mundo,
É sempre buscar espaço
Em meio ao império da riqueza.

Olho a tal da engenhoca..
Ela me olha, ri, me ignora.
É sempre esse mesmo olhar
Meio sarcástico, meio soberbo.
De quem diz que é apenas dona de si,
De mais ninguém.

Recapitulo a história,
Deste ser velho e moderno.

Aqui muitos estiveram ávidos
Em conquistar e dominar,
Dominar outros homens que ergueram
As colunas de aço e concreto,
E também as intempéries da natureza,
Que hoje seca as reservas de água.

E eis que observo..
E constato que tudo permanece
Mais ou menos igual,
Menos o homem
Que foi reinventado
Pela sua própria criação.

Olho para os outros olhares,
Cada um em uma direção.
Buscando a solução,
Para tudo aquilo que foi
Reinventado pela
Engenhoca urbana
Inventada pelo homens.

E questiono enquanto observo,
O que importa mesmo neste
Largo passo dado no nada?
Se não o abstrato de um
Dia que acorda mais ensolarado
Faz as cores vibrarem,
E lança um motivo desimportante,
Para darmos mais sorrisos.
E o próprio gesto da moça,
Que abre o caminho do amor.
O que importa mesmo é o banal,
Que ilustra as histórias,
Dos ditos grandes
E dos pequenos homens.

E ao fundo de tudo aquilo
Que é meio desimportante,
De todo esse cenário vivo,
D'onde acontecem os desenlaces,
Está mesmo a engenhoca urbana.

Repito que ela reinventou o homem,
Após ser inventada por ele,
Mas eis a maior das tragédias,
Acreditamos mais nela,
Com todas as suas contradições,
Do que na vivacidade que a vida,
Guarda em si mesma.
Do que na beleza dos olhares,
Trocados por nós mesmos,
Do que no que diz a profundidade
E a força das nossas existências.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, setembro 10, 2014

Eu Gosto De Quem Sorri Frente ao Desejo.


Eu gosto de quem sorri frente ao desejo. 
-
Se constato que não há mesmo eternidade diante desse vai-e-vem da vida,  que valor tem o próprio tempo se a pessoa não sorri frente ao desejo? 

Eu não gosto de quem passa por cima dos outros, não é isso. Não gosto do narcisismo desenfreado, nem da irresponsabilidade diante do mundo. Isso não é sorrir frente ao desejo, é zombar da existência alheia. 

Eu gosto de quem sorri frente ao desejo, pois não há nada mais pleno no mundo, do que se conciliar com os próprios impulsos e empuxos. Que vale uma vida cedida diante das possibilidades de caminhos que se esvaíram?

Eu não gosto de quem desiste de si, dos seus desejos. 

Eu gosto de quem sorri e de quem deseja. Desejos nem sempre desembocam em sorrisos. Nem sorrimos apenas pelo que desejamos, mas não há mesmo coisa mais bela no mundo do que um sorriso, e do que um desejo.

Gosto também de quem sorri frente ao encontro dos desejos. E diante do encontro dos sorrisos. 

Eu não gosto dos antagonismos narcísicos, dos mal-acabados e dos mal-entendidos. 

E de que vale eu escrever e descrever que gosto de quem sorri frente ao desejo, de quem sorri e de quem deseja? 

Traduzo: gosto mesmo é daqueles que vivem plenamente. 

Ante as tristezas, os desejos.

E ante as impossibilidades, os sorrisos. 

(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, setembro 03, 2014

[Poesia] Um Poema Entre Nós.


Um Poema Entre Nós.

I

O tempo é mudo.

Os ponteiros são mesmo arcaicos,
E analógicos diante dos dígitos,
Tal como esse poema, eu sei.
Que faço eu? Se por ser das letras,
Sinto-me mais próximo do antiquado
Quando ponho em palavras,
Não em imagens?

II

Os meus mais fortuitos olhares,
Observam-lhe bastante,
Seja sorrindo ou em angústia,
Sem a esperança de que algum dia,
Cesse essa distância,
Dona desta impossibilidade
E deste poema.

Se lhe observo ao longe,
É mesmo uma trágica circunstância,
Diria ser uma espécie de encontro ao acaso
Jamais concretizado
Imposta pelos destinos,
Não pelo (meu) desejo.

E devo mesmo lhe dizer,
Que não lhe observo somente,
Enquanto observo a ti,
Meus olhos estão sobre o mundo,
Que por vezes soa vazio,
Destituído de identidade,
De ser para além da imagem.
Do “semblante da vida moderna”.
E mesmo no mundo,
Meus olhares não cessam
De estarem sobre ti.

E devo mesmo repetir,
Que não lhe observo somente,
Enquanto observo a ti,
Meus olhos estão sobre o mundo,
Ele não me escapa,
Em toda sua dinâmica estressante
Em todas as suas figuras,
Em seus mosaicos desconexos
De cenas vividas,
Ele não me escapa...
Mas você sim.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, agosto 23, 2014

[Prosa] Sobre a Passagem do Tempo.

Sobre a Passagem do Tempo. 
-
Era uma noite de clima ameno, o que para aquela cidade no meio da serra representava um clima muito mais quente do que nos luares antecedentes.  Havia o ócio e o cansaço. Pus-me, levado pelo acaso, a revirar papéis antigos em busca do desimportante. Neste ato espúrio, estive sendo movido apenas pela curiosidade de fazer comparações entre aquilo que passou e aquilo que acontecia nos instantes do presente. 
Primeiro, encontrei fotos de rostos, levemente modificados pela ação do imponderável,  que representam afetos que permanecem no âmbito da troca entreolhares, mesmo após anos de  descaminhos, mudanças. Sorri, pois percebi, com mais profundidade, o quanto o registro das máquinas digitais do presente representavam mais do que apenas momentos do presente. Em paralelo a estas, vi aqueles que se perderam pelo tempo  em decorrência  de atos banais e o poder que o mal-entendido tem de destruir, ou ao menos pôr em silêncio,  aquilo que é da ordem da beleza do encontro. E  também vi aquilo que aparentava em existir, mas em verdade, era apenas atuação e conveniência e hoje, não representa nada, nem saudade. 
Depois, deparei-me com o tempo e as suas abstrações.  Pude ver o quanto evolui, o quanto errei e acertei, sonhos e desejos que se foram, pude perceber a marca da passagem dos dias no rosto e também na alma. Sobretudo na alma. Pois carregamos o tempo nas costas e dele, levamos aquilo que fica na memória e o que fomos capazes de aprender com as decisões que tomamos, com as coisas que vivemos e com os encontros e desencontros pelos quais passamos.
Lembrei-me da frase da música de Vinicius de Moraes: “A Vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. 
E no final,
Ao deixar de olhar para o passado e vislumbrar o futuro, acabei chegando a conclusão de que apesar de estar em busca de respostas, apenas pude me deparar com mais perguntas, não mais sobre o que passou, mas sobre o vislumbre do que estar por vir. 
(Antônio Alberto P. de Almeida) 


domingo, julho 27, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] Sobre a Saudade.


No obscuro e profundo mundo dos afetos há mais desrazões e razões do que as nossas próprias palavras conseguem expressar. Se nos momentos de silêncio, deste mundo barulhento, posso escutar minha alma sou tomado por um sentimento de saudade. Por alguém que não necessito. Percebo no quanto isso expressa algo a mais. Noto o quanto é simples e banal sentir falta daqueles que suprem as necessidades, no narcisismo primordial inerente a isto. Já a saudade, a saudade não. A saudade é distinta. A saudade diz algo a mais. A saudade, aqui, não é um mero sentir a falta, é um afeto que que carrego por aqueles que marcaram a minha alma nos caminhos que traço por este mundo.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, junho 30, 2014

[Poesia] Mar-dito.


Mar dito. 

-


Existe o mar.

E o dito.


Em si o dito,

São os vocábulos,

Vagueando entre os corpos 

E as feridas 

Das almas dos homens.


Já o mar por si, 

São águas e mais águas,

Escondendo levemente 

A superfície

Das profundezas. 



O mar dito

São as estórias das memórias 

De grandes epopéias,

Dos versos e do lento

Movimento das ondas

Em direção a Rebentação. 



O dito do mar,

É a infinitude,

Das águas sobre elas mesmas, 

Muito além do encontro da água

Com a areia da praia.


E o que os homens 

Sabem sobre o mar,

Diz mais sobre as suas velas,

Atiradas sobre a imensidão, 

Do que sobre o mar em si. 


E o que o mar diz sobre os homens,

É que ele são sempre pequeninas

Criaturas mudas diante dos vastos

Espelhos d'água das noites estrelares, 

Que desvelam em si mesmas, 

O tamanho do mundo.


É o homem mardito

Navegando sobre o mundo. 

(Antônio Alberto P. de Almeida)  



domingo, junho 29, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] O Sossego.

O Sossego. 
-
Suspeito que o afeto mais sublime se assemelha, a uma tarde ensolarada qualquer, pelo potencial que esta tem em ser  banal e desimportante. Depois, penso na verdade que há naquele sentimento que eclode por um outro não essencial.  Neste mundo das tantas necessidades e tanto pragmatismo nas relações, penso na profundidade que há naquele afeto sincero, que não  nasce a partir da busca em si, mas do encontro ao acaso, dos abraços, das trocas de olhares, do tece o lã que se dá no  espaço entre as manhãs, as tardes e as noites. 
(Antônio Alberto P. de Almeida.) 

quarta-feira, junho 18, 2014

[Poesia] Entre o silêncio, a música e os barulhos.


Entre o silêncio, a música e os barulhos.
-
Por vezes,
É preciso se desligar das músicas,
Para deixar entrar o barulho das ruas.
É preciso se despir das fantasias,
E se despedir do próprio narcisismo
Para poder escutar a realidade.
(Antônio Alberto. P de Almeida.)

Fonte da foto.

domingo, junho 01, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] Quando um aniversário torna-se muito mais do que uma mera transição de idade.

Quando um aniversário torna-se muito mais do que uma mera transição de idade.

I

Para mim, a metáfora que mais se encaixa para a vida, é de que ela é uma estrada. Algumas vezes estando nela precisamos mudar de rumo, fazer mudanças bruscas, optar por outras paisagens, outros caminhos. Mas, nela também há uma série de desvios, que nos fazem ora ir para um lado, ora ir para outro, estas são as mudanças sutis, aquelas que de forma singela compõe o dia-a-dia. A chuva que nos faz ir mais lentamente, a neblina, o sol quente, os campos de flores, os detalhes despercebidos. E também recebemos companhias, partidas, idas e vindas, não estamos sozinhos. Em alguns momentos, ao acreditar naqueles que nos acompanhava, somos deixados para trás. Em outros precisamos simplesmente realizar despedidas silenciosas e partir de forma mais veloz, em busca de outros rumos, lugares. E, acima de tudo, precisamos aceitar que determinados caminhos devem ser atravessados solitariamente ainda que saibamos que, em algum lugar, de algum ponto de alguma estrada, há aquelas pessoas que por nós foram marcadas e nos marcaram e elas estarão sempre na espera do dia do  reencontro.

II

Atravessei mais um ano de idade.

E agora faço novas travessias,

Pelo mundo e pela vida.

 (Antônio Alberto P. de Almeida) 

domingo, maio 18, 2014

[Poesia] Novas Considerações Sobre o Desejo.


Novas Considerações Sobre o Desejo.
-
O Desejo é sórdido
Vagueia livremente,
Sem moralismos 
Ou compromissos, 
Liberto e teimoso,
Passeia, desobedece.
Ri sarcasticamente
Enquanto faz e desfaz. 
O Desejo guarda em si mesmo,
A própria razão da sua existência.   
E quando contrariado, 
Zomba com ironia das meias-escolhas,
Das meias-vontades,
Do existir mais ou menos.
E quer mesmo por cima,
Em movimentos uníssonos 
Ou desritmados, 
Entre os mais vagos sentimentos,
De amor e ódio. 
O Desejo é uma espécie de baderna. 
Fala, berra, apresenta-se. Impõe-se. 
Quando diz, muito é dito.
Mas também desdiz. Silencia-se. 
Esconde-se ou é escondido?
E mesmo nas frestas da calmaria,
Impele, puxa, impulsiona.
Empurra. Faz-se notado. 
O desejo é o simplório profundo 
É o mistério liberto, 
É o tumulto da ambição humana. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)


quinta-feira, maio 08, 2014

[Poesia] Olhar.


Olhar.
-
Prescrutar olhares
Vai além dos enunciados
E das suas enunciações.

Há mais franqueza nas vistas.

Quem escuta os olhares,
Ouve as palavras da alma.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

segunda-feira, maio 05, 2014

[Poesia] 450 dias em SP.

450 dias em SP.
-
Escapa-me a significação,
No arriscar da definição,
Sobre esta velha
Cidade brasileira.

(Velha e moderna.)

Aceito.

Paro, não tento mais.

Poetas, escritores, músicos.
Vieram antes de mim.

Eis o lugar do tudo e do nada,
Das contradições
E dos antagonismos.

Observo e absorvo
As lições diárias,
Que ela me ensina,
Ao longo dos meus dias,
Nas suas curvas, nas suas esquinas,
No seus caos singelo e belo
Das suas flores,
Em meio ao asfalto.

E o que segue é uma vida,
Com mais sabedoria.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, maio 02, 2014

[Poesia] Sobre paixões, amores, etc.


Sobre paixões, amores, etc.

Sentir é a miséria do humano.
É o em si próprio, desconhecido.
É uma razão sem razão
Que está para além do ego.

Algumas vezes amamos sem amar.
Dizemos estar apaixonados
E não estamos.
Ou negamos.
Parece que sim, mas não é.
E é, sem parecer.
E a efemeridade lança
Mãos e pés,
Sob os cobertores da  vida,
E do tempo.
E o que resta de lição,
É que não se define a desrazão
Na razão de um sentir momentâneo.
E sim na lembrança que restou,
Daquele finado afeto.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, abril 26, 2014

[Poesia] Três.

Três.

Defronte e por dentro,
Há uma mancha acinzentada,
Que circunda as bordas,
No ócio destas horas,
D'onde há poesia.

Penso.

Resguardo as palavras,
Sobre os episódios derradeiros.

Concluo.

Escuto uma velha sabedoria que diz que
Os fundamentos das mudanças devem-se
Aos eventos impactantes e inesperados.
Arrumar permutas eles podem.
Entretanto, suspeito
Que na maioria das vezes,
É justo quando nada acontece,
Que tudo muda.

(A vida é mais imprevisível
Do que parece.)
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, abril 22, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] Defronte a mim o mar.


Defronte a mim o mar.
-
Hoje as sensações fluem de forma serena. Sinto-me, como se estivesse em um fim de tarde, ainda que seja noite,  defronte ao mar d’onde escuto levemente a sinfonia do ir e vir das ondas. O dia é claro, há silêncio e plenitude. Como se o momento nunca bastasse, isso me põe então a refletir: mergulho nesta leve sensação, de onde tento tirar palavras. A palavra que eu tiro é crescimento e acho que ela basta. Não penso em outras. Não há outras. Penso em quão doloroso é avançar no entendimento e na aceitação da vida. Ao entendermos e aceitarmos, também fazemos renúncia. Renunciamos, então, àquelas coisas nocivas que insistíamos em carregar conosco. Então, ficamos mais livre, e por estarmos mais livres,  surgem-nos a possibilidade de novos encontros, de novas idéias, e de sermos sujeitos da nossa própria história com mais veemência, de modo que também passamos a ter  uma maior responsabilidade com as nossas próprias escolhas.  Não mais, então, passamos a nos flagelar por aquilo que vem do outro, nem a culparmos a infelicidade dos acontecimentos pelas nossas tempestades. Entender, aceitar, renunciar e optar, é também poder compreender com mais profundidade o dinamismo do viver. E quando passamos a entender com mais profundidade estes processos, em verdade não ganhamos um maior domínio sobre eles, apenas passamos a aceitar a intempérie das dos seus quadros imprevisíveis que se sucedem dia após dia em nossas existências.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, abril 21, 2014

[Poesia] Sobre a Errância do Desejo - Ou Alguns Versos Sobre Uma Errata.


Sobre a Errância do Desejo.
Ou Alguns Versos Sobre Uma Errata.

-

I

Já não era mais as sete ou as oito,
Nem as nove, nem as dez, tampouco as onze.
E sim quinze, dezesseis, vinte e vinte e um.
Números que se sucederam na velha folhinha.
Para dizerem-me vagarosamente,
Que não a havia a suposta ternura
Nem uma defluência de olhares.
Muito menos um corpo inebriante.
Ou algum tipo de  “bela alma”
Dona de “fragrância” alguma.
Opto por poupar as minhas palavras.
Sequer houve fantasia.
Muito menos um desejo,
Apenas mais uma poesia.

II

Há um embaraço a ser desvelado,
Na predileção pelo ofício dos versos.
Inventamos o que não existe.
E existimos naquilo que inventamos.
Acreditamos no que não cremos.
E somos naquilo que acreditamos.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da Foto.

domingo, abril 20, 2014

[Poesia] O despertar do desejo.


O despertar do desejo.

Às três,
Às quatro ou as cinco.
Ponho-me em passos ligeiros.
Os dias são ríspidos.  
Nostalgia? Há.
Da época sinestésica,
O sentir da sinestesia de outrora
Soa seco,
Partido, ressecado.

Entre cinco e seis,
O sol se põe.
Interposta entre a minha alma,
E a alma do mundo,
Está a palidez do escuro.
Os poros cercados pelo gélido.
E o interior levemente ocupado,
Os ponteiros vagam,
Entre estes corpos próximos
E pensares distantes.

Se é sete ou oito,
Perco o senso,
Vagarosamente parti do tempo,
O corpo brusco e fatigado,
Atira-se sobre uma velha poltrona,
Uma sábia velha anciã de tantas idas.
[Sem vindas.

Imediatamente,
Torno-me a já não ser.
E a já não estar.
Adiante a palidez se desfez,
Borrões vibrantes defronte!
E uma terna manhã insonsa.
Metamorfose em mim, prestes.
E a miséria humana, lasciva.
E ti, mera coadjuvante, em frente,
Compondo, mais horas insignificantes,
Inominada era,
Tão Desimportante.
Frágil, relés coadjuvante.

Bastaram simplórios enlaces,
De uma defluência entreolhares,
Para desvelar-se em ternura,
Insolúveis enigmas àquele instante..
E a metamorfose lasciva,
Despertou-se no meu âmago,
Quando nomeou a ti,
Protagonista d’um desejo.
Que parte de mim,
E fantasia sobre o a sua alma,
Dona de uma fragrância
Tão levemente inebriante...
E sobre o seu corpo,
D’onde a delicada aparência,
Incita-me a ir em direção,
Aos seus cálidos lábios.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

quarta-feira, abril 16, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] A Liberdade e o Desejo.

A Liberdade e o Desejo.
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Hoje estive refletindo sobre a sustentação do desejo, algo que para o senso comum tem aparência simplificada, mas que envolve muito mais do que a sua superficialização poderia indicar. Não pretendo esgotar as reflexões acerca da temática, que pode envolver  um aprofundamento muito maior do que o que eu exponho aqui, mas pretendo levantar alguns itens sobre o mesmo. Primeiro, penso em como isso envolve uma determinada responsabilidade que diz respeito a sermos optantes pelas nossas escolhas e a termos posicionamento diante da vida e diante da nossa própria história. Recordo-me, então, de Sartre: "O importante não é aquilo que fizeram de você, mas o que você faz daquilo que fizeram de você." Acho que esse aforismo resume, inicialmente, este ponto. Adentrando neste aforismo, penso em o quanto se posicionar envolve conflitos internos e externos, rupturas, caminhos novos, por vezes tortuosos, mas mais dignos, acredito, apesar dos poréns. Digo dignos, pois bancar nossas escolhas desejantes, é de onde pode partir uma vida gratificante. A partir dela, que escrevemos as nossas linhas próprias e podemos chegar, de fato, no lugar onde queremos. Volto para o existencialismo e cito Sartre novamente: "O Homem está condenado a ser livre", acrescentaria apenas uma frase para completar esta reflexão: "O Homem está condenado a ser livre quando é sujeito do seu próprio desejo."
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, abril 15, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] A Profissão e o Psicólogo.

Há algumas semanas venho pensando em algo que me incomoda. Tenho pensando em como certas pessoas se utilizam das abordagens ou dos campos de trabalho em psicologia de um modo, no mínimo, inadequado. Refiro-me àqueles que se apropriam das teorias e querem criar estilos de vida ou religiões em cima dos mesmos. Podemos sim, ser apaixonados por aquilo que fazemos, precisamos crer, descrer e optar e tudo isso implica em posições políticas, escolhas epistemológicas, etc. Mas, não podemos deixar que a partir disso ocorra uma alienação no nível que eu citei acima. A escolha, profissional, não torna ninguém melhor do que ninguém, nem eticamente, nem enquanto pessoa. Por mais que se acumule saber, por mais que estudemos, crer no saber total será sempre um engano. Parece que algumas vezes esquecem-se de um ponto elementar e básico acerca disso, o saber, em especial na clínica, será sempre aquilo que vem da individualidade e da história do outro e esse sempre é o começo.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, abril 12, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] A Relação e o outro.

Dando continuidade as mudanças no blog, inauguro esta nova seção, na qual pretendo expor alguns pensamentos que me surgirem no decorrer dos dias. 
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A Relação e o outro.
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Nesta tarde estive pensando nas relações contemporâneas, em como tudo se faz e se desfaz com uma liquefação tão intensa. Observei e analisei tantos casos em que o outro se declara responsável por si mesmo e que isso, para ele nessa posição, implica numa negação quase que absoluta daquele outro com o qual ele está se relacionando. É mesmo um narcisismo bastante intenso e que há tempos vem me incomodando. Pensei: será que essa é a norma? Será que eu deveria ser assim também? Será que é preciso mudar? Cheguei a conclusão que não, que eu acredito no relacionar-se que não se restringe ao valor que eu posso suportar daquilo que eu faço e que implica um outro, mas em uma determinada responsabilidade que eu adquiro ao efetuar uma relação. Isso não implica, claro, numa ideia de que todas as minhas escolhas dependam das consequências e do outro, mas acima de tudo numa posição ética no relacionar-se de que eu não posso tudo, assim como o outro não pode tudo.  E é assim que se constrói uma relação, na minha concepção. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, abril 06, 2014

Mudança de "Universo das Palavras Perdidas." para "No Galpão das Entrelinhas."

Mudança de "Universo das Palavras Perdidas." para "No Galpão das Entrelinhas." 
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A vida mostra-nos em determinados momentos que determinadas coisas não cabem mais, enquanto outras necessitam e podem se reinventar. Por estar sob influência das vivências em São Paulo e de todas as transformações proporcionadas pelas mesmas ao longo deste tempo, algo em mim se modificou profundamente. Algo que incidiu diretamente sobre a forma como eu enxergo e vivencio o ato de escrever e a poesia. A escrita é mesmo o espelho da vida. Sendo assim, não sentia que ela era contemplada pelo blog da forma como eu a vivencio na atualidade e  decidi reinventá-lo. Muito mais do que uma era modificação, ou de uma mera etapa transição , espero que as palavras possam continuar contemplando pessoas, a partir deste novo recomeço. 

quinta-feira, abril 03, 2014

[Poesia] Olhos.


Olhos.
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Uma velha e notívaga viela 
Ao passo dos sapatos.
Ao avistar dos olhos,
Ao som dos ouvidos.
Três vias silenciosas e 
Duas cheias de latas velhas... 
Seriam estes enquadramentos
De borrões em movimento, 
Das promessas de outrora 
Ou a libertação taciturna disso tudo?

A liberdade é o mito do humano.
Falaram-nos quando aqui chegamos, 
Ao ponto de compreender alguma coisa, 
Que estaríamos condenados a ela,
Como os pássaros estão condenados ao céu. 
Era mentira deste mundo utópico!
É ela que nos condena, 
A estarmos dentro do seu cárcere,
De chão gélido e incerto...
De janelas brandas e incertas,
Da incerteza certa. 

Quem dá passos, ruma.
Quem não dá, também.
O corpo se vai por este 
Pântano de temporalidades  
Em meio a toda essa tralha,
Entre silêncios e latas velhas.
Pr’onde os olhos desejam.
É o velho ver-no-mundo.

E se transitei pelo ver-no-mundo,
Pela utópica liberdade de velhas vielas 
De latas velhas, pântanos e pássaros,
Pelas janelas de paisagens incertas, 
Por todos os sentidos e pela ausência deles, 
Pelos corpos jogados a estes borrões diários, 
Dissertava de uma simplória forma sobre o amor,
Sobre a luz dos olhares d’onde há sentido...
Sobre aquilo que dignifica as temporalidades, 
Seja isto as quatro tarde de uma terça incerta,
Ou dentro das longas madrugadas brandas,
Ou em prantos. Ou em poemas, romances.
Ou em todos os cantos. O amor está em todos os cantos.
Dissertava sobre a banalidade mais terna da vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

domingo, fevereiro 23, 2014

[Poesia] O Encontro com a Poesia


O Encontro com a Poesia.

Lembro-me da alegria quando
Encontrei-me com a poesia
Anos atrás...
Foi na primeira sala do corredor,
Do colégio da infância,
D'onde me presentearam com um 
Livro simples de folhas frágeis, 
Que guardava um velho poema
De uma ilustre poetisa,
Até então por mim desconhecida,
Que se chamava Cecília...

Era isto ou aquilo...
E Arabela abriu a janela
Da poesia - para mim.
Carolina era por demais sábia,
Guardava a sabedoria das palavras,
E o bom dia dado por Maria,
Desdobrava-se na simplicidade de um sorriso, 
Que mal sabia eu,
Muito me diria
Pelo resto da vida.

E observo em distância,
Aquele fatídico dia,
Vejo as crianças bailando
Sobre as poesias!
E os adultos?
Estão perdidos em enfadonhos 
Manuscritos cheios de burocracias.

Chego a uma singela conclusão
Hoje poema vale menos que um pão.
Quem é mesmo que deseja 
Alimentar a própria alma?
É essa a inutilidade da metáfora,
Ela é despropositada, como a vida.

E se aproximo mais o meu olhar?
E me distancio daquele fatídico dia...
Continuo observando aquilo que foi perdido
E vejo a abundância das imagens,
Recheadas de coisas ditas,
Que não mais enunciam,
Apenas anunciam.

Concluo que assim,
Pouco tenho a dizer,
Ponho-me apenas numa busca 
Que muitos diriam ser quixotesca,
D'onde busco lugar de valor para palavras,
Neste desarmônico oceano de figuras.

E nada mais tenho a dizer.
Se a estética imagética 
Das letras pouco oferta, 
Pobre mesmo é a época,
Tão dura e ríspida,
Que perdeu-se da beleza
Elementar do sensível,
E mais vive sem a poesia,
Do que com ela,
No seu cotidiano ligeiro,
Do seu dia-a-dia.
(Antônio Alberto P. de Almeida)