terça-feira, dezembro 03, 2013

[Poesia] O Vento e o Tempo.


A simplória brisa na praia,
Às quatro da tarde de um domingo,
Venta um singelo deslocar dos sentidos....
Dos lábios e dos risos.

Mas a brisa está distante.
Dentro da longa parcela dos paralelos,
Dos dias sobre os dias, sobre os dias,
Sobre as noites, sobre as tardes,
Sobre as horas, sobre os minutos,
Sobre os segundos e sobre o nada.

Se não tem vento, não tem mudança.
Tem encerramento e (re) começo.
É a sala de espera da vida que se interpõe,
Entre a troca do número dos anos,
Entre os dias das significâncias elementares.

E o sentir, como fica? Paralisa-se.
Aguarda, recolhe-se. Silencia-se.
Em três minutos de pura racionalidade,
Desfaz-se como um circo em chamas.
Mas, se se resguardada, volta no olhar,
Que erotiza os corpos e as almas.

Mas a brisa está distante.
E o tempo está seguindo.
A causalidade é assustadora.
E encanta. É o roteiro do real,
Que até admite atrizes, atores,
E belas encenações,
E as vejo bastante...
Ainda que não as aplauda,
E o que jamais se repete.
São as repetições.

Estou espantado! O que posso concluir?
Viver é apenas a ótica misteriosa
Daquilo que vem do ver
E vai por cima do vi.
Se vi e vi, vivi.
Ou apenas vi?
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, outubro 27, 2013

[Poesia] Estrofes em tempo de falar sobre o tempo.


[Poesia] Estrofes em tempo de falar sobre o tempo.
-
E faltam-me até os segundos
Para os versos passíveis de traduzir
Os pequenos elementos do cotidiano
Na solidez da beleza que 
Não se faz numa palavra só,
Mas num conjunto de versos passíveis
Até mesmo de existir para o eterno.  

Se já não tenho tempo, apenas observo.
Que eterna mesmo é a vida em três belos passos.
Dados com tanta maestria, que são seguidos de um tombo.
Que no ato da queda vira os olhos para o outro lado
E torna passível uma visão que antes não existia:
É como se perdêssemos as cores,
Quando optamos por “óculos escuros”.

Se já não tenho tempo, apenas observo,
Essa gente chegando e partindo,
É como se a gente tivesse feito da vida,
Uma grande estação de trem às quatro da tarde,
De alguma data muito importante...
Mas se não estamos numa estação de trem às quatro da tarde,
De alguma data muito importante...
É que a própria vida é isso,
Sem uma palavra a mais, nem a menos.

Se já não tenho tempo, o tempo sou eu mesmo.
Acometido pelas músicas desgastadas e retorcidas,
Que mais parecem velhas roupas
Jogadas ao fundo do armário,
Ou papéis amarelados no fundo
Da gaveta cheia de poeira.
E se sou o próprio tempo
É porque ele entra por dentro de mim,
Atravessa-me de uma forma inevitável,
Desfazendo e rindo.
Zombando da minha ansiedade.
Dos meus desejos pulsantes,
Enquanto passa tranquilamente,
Como se tudo não passasse de uma tarde,
No banco de uma praça cercada de árvores...

E se esse tempo que me atravessa,
Já sou eu ao mesmo tempo em que está distante
Quando faz de mim seu eterno refém,
Questiono-me, o que nessa vida de temporalidades,
É mesmo importante diante das efemeridades?
É tão somente a ausência da contemplação do vazio,
Que nos atira lentamente aos passeios inevitáveis...
Rumo ao que eu poderia, numa visão muito otimista,
Classificar de  “momentos elementares” da vida,
Ou grandes momentos. Mas, assim não chamo.
Não há garantia, há apenas contemplação, desejo.
Algo vindo e coisa sempre sendo vivida,
E, então, caro companheiro de breves
Ou até mesmo de longas caminhadas,
O que é mesmo de mais belo
Que poderíamos ter nesta vida?
(Antônio Alberto P. de Almeida)



quinta-feira, outubro 10, 2013

[Poesia] As Quatro Faces do Desejo.


As Quatro Faces do Desejo.

O desejo que não marca horário,
Toma-nos em um dia ensolarado
Onde as quatro da tarde nada dizia
Além de um velho silêncio, 
Ou em uma noite improvável,
Onde entre tantas vozes,
Ao fundo nada mais se ouvia,
Do que meros roncos celestiais. 

Se há sopro de desejo
Sigo em direção ao mundo,
Posso apenas querer fugir,
Mas, ao final, apenas sigo
Lentamente, sem destino.

II

O desejo é o espelho da natureza,
Humana, real.
É como uma folha de uma árvore,
Frágil, insustentável. 
É a dança dos ventos,
É o aparente desengano, 
E o jamais percebido...
É o tão mais que estar. 

E o desejo é o ápice
Do que é demasiadamente humano, 
É o impasse elementar do dividido,
É a espécie do inaudito,
E o simplório do viver,
É o mero incognoscível,
É o nascimento da humanidade,
É aquilo que somos. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

segunda-feira, setembro 23, 2013

[Poesia] A Noite de Chuva.



A Noite de Chuva.

Numa noite dentre tantas outras,
Deparo-me com o limiar de trovões
Atravessando a minha janela,
E com os ruídos do barulho da água
Que encosta de forma violenta
No chão - e ameaça fazer o mundo desabar.

E enquanto o céu grita violentamente...
A minha alma envolta
Pela mais terna serenidade.
Cala a voz do mundo. E traz
O silêncio de volta para 
O meu entorno.

Tanta calmaria...
Questiono-me se o silêncio,
Não é como a solidão,
Que não se subjetiva diante
De alguma flor posta na frente,
Mas diante do nada sem razão
Do estar sendo de cada um.

Encosto-me no ventar das ideias,
Enquanto o céu se cala bruscamente.
Sinto que uma pequena parte da vida,
Fez-se diante dos meus olhos,
Em ato da natureza.

E é nesse dito do não-dito.
Que os segundos se fazem minutos,
Horas, dias, anos, décadas.
E a vida vai dizendo e desdizendo,
No equilíbrio do presente,
Diante do infinito do passado.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, agosto 02, 2013

[Poesia] A Janela do Tempo.



A Janela do Tempo.

A janela suja pelo tempo,
Guarda atrás de si a imagem
Embaçada de uma velha senhora,
Que balança as cortinas
No seu ritual matinal diário...
E o barulho dos carros,
Recorda-me que estou numa cidade,
Apesar do silêncio da minha alma...
Olho o espelho da vidraça do prédio
Que está logo ali em frente
E me enxergo, por um instante,
No silêncio do dia solitário,
E dentro do que nomeou o mundo.

Os ponteiros do relógio seguem.
A velha máquina de aço há de partir,
E eu haverei de ter que partir...
Não há mais tempo para poesia.

Dirijo-me à velha mala estendida ao chão,
Aloco objetos e mais objetos que hei de carregar
Sobre as minhas costas na longa viagem
De algumas horas. Sinto o peso que recai...
Recai sobre a montanha de papéis velhos,
Que carrego apenas por precisar seguir.

Tão logo termina há silêncio, encontro, silêncio.  
E os retratos transportados para a metáfora da alma, 
Que demonstram a beleza da banalidade da vida.
Tiro um pouco da poeira. Recolho a lembrança,
Noto o fundamental do sentido da vida dos homens.

Levanto-me e observo novamente a razão da janela,
O disparate entre o que há nos prédios e nas ruas,
A razão elementar que não há de mudar são as nuvens.
Não diria o mesmo sobre as árvores no meio da pista.

O momento de partida de interpõe,
No tempo que não há mais para a poesia.
Dou três passos para frente, fecho a porta.
Se há peso de papéis velhos, esqueço-me.
Hei de sentir apenas o que levo comigo
Lá em algum lugar perto do fundo da alma,
É a razão fundamental da afeição de um homem,
Que partiu para descortinar o mundo.

(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, julho 17, 2013

[Poesia] Ode à Arte de Fazer Drama.

Ode à arte de fazer drama.
-
O corpo que sustenta
A trama da arte de um drama.
Esconde em si diversas facetas.

Se a trama da arte dramática.
É recebida com extrema seriedade
É condenada, então, a um profundo...
Profundo rio de incompreensão.
D’onde o enunciado vai.
E não é trazido de volta.
É como a prisão do discurso.
A palavra “presa” que não se solta.
Lida ao afasto da multiplicidade.

Se a trama da arte dramática
É recebida com o descaso
É condenada, então, a outro profundo.
Profundo rio de incompreensão.
Agora com o vento soprando no oposto.
Não tem pé, nem tem rosto.
O enunciado vai e volta.
A palavra “livre” que não chega.
Não é lida. Não se afasta.

E quando a arte dramática é lida.
Ela não é lida – é vivida – é mesmo arte pura.
Que nas entrelinhas de avenidas se inscreve.
Que nas palavras ditas em edifícios se escreve.
São os atos feitos em um teatro rodopiante.
É a poesia que tem a sutileza de um escândalo.
E que guarda sua meia culpa - sua razão condenatória.
Quando se observa nos espelhos dos cenários do cotidiano.
(Espelhos de propagandas publicitárias, de salas, carros, corredores...)
Onde a trama da arte dramática
Protagoniza para si mesma.
Uma faceta dos seus sujeitos
Tão demasiadamentes humanos.

(Antonio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, julho 15, 2013

[Poesia] Poesia da fantasia cansada.



Poesia da fantasia cansada.
-
Quando passeio pelo mundo.
Deparo-me com uma velha imagem cheia de poeira.
De ti - de ti que dança - e em mim repousa.
Corro atrás do nada e avisto um velho trilho.
Sem trem. Encontro um velho pedaço de giz.
E decido fazer de ti coisa partida, partida.
Delimito com um traço uma espécie de ontem que
Entre tantos outros ontens, sorrisos e trilhos.
Havia tu -de ti resta apenas a figura da fantasia cansada.
Do outro lado há de haver o hoje d'onde desenho.
Onde tu ainda vive na imagem de ti que dança.
Isto tudo há de findar por volta da meia noite.
Sigo adiante sendo atirado pelo tempo - pé após pé.
E o amanhã que há de ser leve como uma brisa.
Não carregará mais tu para mim.
Apenas metade dessa hiância de vazio silencioso.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

segunda-feira, julho 01, 2013

[Poesia] Não fosse a reescrita, isso não seria uma poesia.



Não fosse a reescrita, isso não seria uma poesia.

Breves entre-linhas transcritas
De parcas imagens para capítulos
Em forma de versos em aforismos.

I

A vida não acontece como numa poesia. 
Talvez uma apenas imite a outra.

Se tenho três linhas riscadas.
O acontecido jamais sairá do "aconteceu".
Mas se tenho três linhas risíveis.
O riso é parte d'um desejo elementar.  

Se tenho dois trechos borrados.
Não me basta dar mais uma palavra, calo-me.
Mas se o transcrito é profundo.
Guarda em si o âmago do sentido.

Há o espaço de escrita que não cabe tanto.
Que transborda. Mas o transbordo
Não é o canto supremo da felicidade.
É também silêncio. Um silêncio da alma.
Que muito diz ou não tem mais nada a dizer.

E também há aforismos incompletos.
Coisa oca que não mais voltará.
O oco é a parte onde a poesia faz eco.
Não fosse assim não haveria impulso

II

A vida não acontece como numa poesia.
Há muitas coisas entre uma e outra. 

Olha o ponto de ônibus cheio às seis da tarde. 
E o trânsito sofrido que por ele há de seguir.

Olha o jornal e as tragédias diárias
A corrupção, a violência e a manipulação.
Parece que não há coisa boa no mundo.

Olha a hipocrisia e o assalto diário
Nas almas humanas. A falta de sensatez.
A ganância sem culpa ou vergonha.

Olha a urbanidade caótica.
Amontoados humanos. Muitos humanos.
Setas trocadas. Direções e transgressões. 
Somos tantos e tão poucos para os outros.

III

A vida não acontece como numa poesia. 
Talvez uma apenas limite a outra.

Transcorre poesia, transcorre livremente. 
Parte do fundo da alma e se faz.
Sendo impulso desmedido ou longo exercício. 
Pouco importa a quem te quer. 

Transcorre vida, transcorre livremente.
Parte do teu vento, não solicita, faz. 
Sendo razão ou desrazão - pouco me importa.
Alguns te temem, eu te tenho em mim. 

Poucos percebem o encontro do vento com a alma. 
Não é limite. 
É uma espécie de desrazão do impulso. 
É a falta de limite por si mesma
É como beleza vazia, sentido ou essência. 

IV  

Entre a poesia e a vida há tanto 
Que não cabe mais a mim descrever 
A sua vã e aparente complexa relação.
Deixo isso a quem queira te racionalizar
Com os tantos conceitos da existência. 

Nada deixará de ser como é...

Nem eu deixarei de sentir.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, junho 24, 2013

[Poesia] Avenida Paulista.


A vida escreve sua poesia em silêncio.
Em contornos breves
Reine o pesado ou o leve.
Se lembro da sua estadia efêmera
Que esvaiu a serena estabilidade. 
E muito me dizia, sem nada dizer.
Quando no transpassar lento das horas 
Das muitas palavras. Nada havia.
Nem verbo, nem possibilidade. 

A vida escreve o encontro em silêncio. 
Como naquele domingo ocioso
Onde o relógio delineava o ócio das três da tarde. 
E o céu cinza, que nada prometia, apenas chovia.
E qual o destino possível para um homem urbano? 
A vida escreve encontros de tantas formas... 
E numa esquina improvável – atravessada por prédios velhos.
Escreveu-me a profundidade do seu olhar
Visto na beleza e na vitalidade da sua alma.
E na palavra que delineou a ida ao mais além. 

E a vida escreve o final e o esquecimento
Se não foi às três da tarde de um domingo ocioso
Talvez tenha sido às nove da noite de uma sexta-feira estranha
Ou tudo começou em um sábado. Talvez em uma terça qualquer
Quando o meu olhar em mim não passou para ti
E o seu olhar para mim, não existiu
Parece que se afogou em si mesma, escondeu-se
Talvez nunca tenha ocorrido, ilusão possível
E o estranhamento não cantou, berrou.
Não tardou, ocorreu um breve aceno de adeus.
Num acordo tácito de silêncios sem significantes. 

E a vida na vida não escreve nada
Só acontece em cima da sua desrazão 
Você caminhou em passos breves
Por uma das direções
Eu segui correndo pelo lado oposto
A distância era o primado do sentir

E a vida na vida que não escreve nada
É passível de escrever os seus verbos sem razão

E a vida que é a vida...
Inscreveu algo numa quinta-feira qualquer,
Quando seguia caminhando pela larga avenida,
Onde mais de cem mil pessoas gritavam por melhorias 
E você, que há meses já não via, tampouco ouvia.
Pôs-se a aparecer do lado oposto ao meu.
Entre sorrisos amargos, cumprimentamo-nos. 
E pusemos os nossos pés para seguir o delineado 
Foi assim que a vida escreveu nela mesma
E também que a rua escreveu por cima da vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

sábado, junho 15, 2013

[Poesia] O Drama Desimportante.


Sinto um profundo desalento.
Com a surpresa trazida. Numa
Noite de final de semana
Que não seguiria mais que
Um roteiro da rotina não
Fosse você, sempre você.
Até o vento encena risos
E o ruído da água que cai
Apenas aumenta o escárnio
É quando eu, humano, deparo-me 
Com a minha própria insignificância 
Diante da sua também insignificante
Existência pueril e efêmera. 
(Antonio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

terça-feira, junho 11, 2013

[Poesia] A Tempestade no final da tarde.


A Tempestade. 

E num cintilar de instantes
Eis que surge repentinamente
Uma tempestade que não tarda
Alaga as vias. Espanta os homens
(Retira as almas do urbano.)
Não passa, a luz que passa. 
A tarde se esvai rapidamente
A noite guarda apenas o iluminar dos trovões
Que atravessa-me junto com o barulho
Se não há mais luz, há escuridão
Mas se escuridão é estado da natureza
Aceito, então, a condição imposta pelo 
Perpassar do inesperado da vida

Paro de refletir sobre a chuva
Que também pára - ou ao menos diminui.
Sou remetido ao sentir do existir
No seu mais profundo âmago
Toca-me o surgimento dos acontecimentos
Inesperados, barulhentos e violentos
Somos todos condenados ao acaso
Nadamos em composições inexplicáveis
E se muito somos, somos apenas 
Autores das possibilidades do destino
Assim como o céu é autor das tempestades
E também dos dias de sol.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, junho 08, 2013

[Prosa] O Ócio e a Saudade.



A saudade me atravessa às três da tarde de um dia ocioso. Não racionalizo - só sinto  e descrevo. Sinto, então, uma paisagem onde há um sol que colore vastamente os dias outrora cinza e uma ventania leve que enriquece a alma e a faz voar na própria plenitude do viver. É como um pássaro bem alimentado cujo único motivo do existir torna-se voar, voar e voar.  Mas saudade é incompletude. Sempre penso no que sinto, deixo o frívolo sentir e noto-me como homem da pós-modernidade. Onde estaria representada a saudade nesta pequena prosaica? Estaria por detrás da representação dos dias cinzentos  que resignam o homem e elevam a tristeza para patamares mais altos do coração?  Ou seriam as nuvens, que ao encobrir o sol, levam também a verdade que por mais que seja negada, reside ali no fundo. A verdade seria a luz. A luz é sempre irmã-siamesa da verdade. Ou nada é e tudo é? É a própria paisagem que eleva ao olhar o todo e me faz descrever, descrever e nada dizer? Resigno-me a aceitar que  a saudade é apenas um banco da praça que permanece solitário em dia de chuva, quando as lágrimas do céu escorrem fortemente e adentram a velha armação de madeira e, então, tendem a alcançar o chão como uma espécie de destino final.  E o destino final da saudade é apenas encontrar afago e repouso na velha caixa das memórias mundanas.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, junho 04, 2013

[Poesia] A Anti-Sociedade.



A Anti-Sociedade.
-
Ninguém mais se escandaliza
Nesta sociedade apática e fria
Se não com aquilo que lhe afeta
Ou é passível de lhe afetar.
O seu próprio afeto.
Logo, resigno-me a condição de poeta social.
E decido não mais me referir a qualquer tipo
De nomenclatura que eleve esta sociedade
A ser uma sociedade dos homens 
Decido apenas acrescentar uma palavra no meio.
Meio que uma nota de correção poética 
Mas  que é apenas uma justíssima sobreposição
Então, passo a me referir a esta sociedade 
Como a sociedade dos egos dos homens
E descrevo com lamento o ponto mais promíscuo
De todo o anti-social que permeia o século XXI.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, junho 02, 2013

[Poesia] O Acaso que fez Maria.


O Acaso que fez Maria. 
-
No alto de todas as manhãs
Permaneço sentado no banco
Do outro lado da rua onde 
Tu sempre andas.
Fito os teus olhos verdes  
E aguardo uma palavra doce 
Que jamais há de vir
Você marcha sempre apressada
Toda estabanada - se bate
Deixa cair a bolsa
Que abre e se espalha
Mas no mesmo instante 
Se restaura e volta a pose séria.
E, então, segue - mal olha para os lados
(Talvez observe a rua discretamente)
Disseram-me que seu nome é Maria
Poderia ser Joana ou Sofia
Para mim, nada mais é 
Do que a criatura que esvazia
A minha própria fantasia
E enche-me de sonhos
Em forma de desejos pueris. 

Não fosse trágico, é cômico.
Não existe rua, Maria.
Só você existe
O resto é poesia.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, maio 29, 2013

[Poesia] A semelhança entre as roupas velhas e os amores velhos.


Assim como as roupas velhas
São esquecidas nas gavetas
Até que as cores desbotem
Até que o tempo corroa 
Linha por linha do tecido
E não reste mais nada.
Os amores velhos
Também são esquecidos 
Não nas gavetas, mas nos porões
Dos corações. Onde o tempo corrói 
Afeto por afeto tecido
Até o dia em que não resta mais nada,
Se não mais que uma vaga lembrança,
Daquilo que um dia foi coisa vivida...
(Antônio Alberto P. De Almeida)

Imagem: releitura de Van Gogh feita por Ana Luísa Luz.

sexta-feira, maio 24, 2013

[Poesia] O afeto que afeta.


I

Ao ler o mundo dos afetos,
Torno-me profundamente risonho.
Meu riso é o riso tragicômico.
É mais triste, do que feliz.
Pois noto que afeto profundo...
Afeto profundo é coisa rara!
E ofertamo-nos  a poucos
À poucas pessoas
E poucos momentos
Alguns destes encenam risos
Não na tragicomédia
Mas na pura leviandade
De quem se fez tão raso, mas tão raso.
Que nem acredita que isto possa ser
Elemento existente na realidade.

II

Afeto profundo não pesa
Como a palavra que guarda em si
“Profundo”
Profundo soa como um fardo...
Como algo descontrolado.
Mas se mudarmos o ângulo de visão
Para o desejo em vida vivido intensamente
Dure isto um dia ou dez anos.
Torna-se coisa tão leve....!
Pois, afeto profundo, é efêmero.
E assim como a própria vida
Não se sustenta para a eternidade.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

quinta-feira, maio 23, 2013

[Poesia] Considerações sobre o teu silêncio.



Considerações sobre o teu silêncio.

O seu ser em plenitude de silêncio 
Promove em mim alguns ruídos
Com os quais faço nascer este poema
Onde desejo metaforizar sobre o nada. 

Faz-se escrever versos sobre o nada
Nada há também para descrever. 
É como fazer nascer um poema
Que é, ao mesmo tempo,
Algo meio-cheio e meio-vazio
Meio-cheio de tudo,
E meio-vazio de sentido.  

Se já escrevi sobre o nada
E sobre o próprio poema
Resta-me escrever e descrever 
Qualquer coisa que responda
Os meus próprios questionamentos 
Se há razão neste silêncio. 

O silêncio é a retaguarda do sentido
Que traz dentro de si razão 
E metaforiza o não dito
No próprio ocultamento de si
Ou no deslize que o faz existir
Em cima do barulho da vida. 

Se viver é escutar silêncios variados.
Paro, então, de escutar o teu próprio. 
E recordo-me de como é estar em vida. 
Onde já escutei silêncios de desprezo.
Outros onde imperava a distância não desejada. 
Alguns com muitas palavras que nada diziam. 
Outros que gritavam sem ruídos. 
E há também os que estão do outro lado. 
Os que nasceram na própria 
Incompletude do ser humano
Por não haver mais uma palavra 
Que fizesse algum tipo de sentido
Por algum estranhamento
Que leva o mundo a rimar
Caminho com descaminho. 
(O silêncio é sempre um desencontro.)

Termino, então, a minha breve reflexão.
Volto a escutar o teu silêncio
Noto que este está para além de mim.
Logo, o escuto apenas em observação. 
E permito-o que exista em plenitude.
E se o teu silêncio faz ruídos em mim?
A partir deles faço nascer poesia. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)