segunda-feira, setembro 10, 2012

[Prosa] A Nostalgia de Setembro


Deixar alguém partir pode proporcionar uma das sensações mais dolorosas que existem. No fundo desejamos sempre a manutenção do instante da beleza suprema, ainda que isso faça parte do impossível. Adoraríamos fotografar estes momentos para mantê-los estáticos, mesmo diante da constância do movimento da existência. Mas o que sobra, em retrato, é a lembrança. A lembrança que fica exposta na estante da mente. Aquela passível de guardar a sensação do antes da chegada do trem da partida. Aquela que por vezes, nos deixa na companhia da ausência. Que em alguns momentos, pode nos condenar a uma profunda lamentação em virtude dação que promoveu o desfazer. Em outros pode nos deixar a compreensão de que pouco, ou nada, podemos fazer diante das constantes mutações do destino. Para alguns, isso pode ser um meio de paralisar a vida, em virtude do meter-se na busca insofrida da repetição dos ciclos. Para outros é um impulso para a ida na direção contrária, em face do desejo do desfrutar do desconhecido. O que apenas supomos saber, não sabemos. E sabemos de alguma forma disso. Logo, resta-nos sempre a sábia lição, de que todos vão seguindo, e que alguns, por vezes, cruzam nossos caminhos. E nada pode retirar o valor destes encontros. Dos encontros com aqueles, que vão nos nutrir  de lembranças. E talvez por isso alguns necessitem partir, para que haja espaço de acolhimento, para quem vem desejoso do  alimentar-se de afago. Do trocar de profundidades. E para quem sabe, um dia, possamos encontrar alguém, que ocupe o espaço impossível, onde não há mais a necessidade do esvaziamento que provém da partida . 
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

domingo, setembro 09, 2012

[Texto Final] 5º Estágio de Vivências no SUS.


Entrei neste estágio, sem um objetivo definido. Entrei muito mais pelo que diziam que ele era, do que por interesse próprio no tema do mesmo.  Saúde pública nunca foi meu foco. Sempre tive outros objetivos acadêmicos, que a meu ver, não se ligavam ao referido tema. Hoje, depois de dez dias, eu sinto uma angústia profunda. Sinto uma angústia, porque vejo que muita coisa na minha visão de mundo mudou.  Hoje, neste momento, eu percebo o tanto de futilidade que existe ao meu redor. Tanta coisa mesquinha, tanta gente afundada na sua própria vida, sem a capacidade de ver tudo que a cerca. Sem a capacidade de olhar o outro com sensibilidade. Sinto angústia, porque não posso humanizar o tratamento dado a alguém que é chamado de doido, pela própria profissional que o deveria atender com respeito. Sinto angústia, porque sei que tem colegas que estão sendo mal-formados, ao ponto de existir aqueles que se submetem a trabalhar por R$ 700, R$ 800, em ambientes completamente inapropriados. Que sequer tem isolamento acústico. Sinto angústia, porque existem outros que arriscam a sua própria vida, e são sabotados pelo próprio estado. Sinto angústia, porque sei mais da realidade que me cerca, agora na prática, do que na teoria. E sei que a minha vontade, por ora, não é suficiente para alterá-la. Isso acontece, pois há um mundo de desejos efêmeros reinando. Sempre me incomodei com o individualismo. Mas agora, no momento em que eu escrevo isso, o incômodo é muito maior. É maior, porque entendo mais da realidade social, do que antes. E eu me pergunto, como um profissional de psicologia, estendendo pra saúde, vai se formar sem isso? Muitos vão. E como será que eles poderão ajudar  alguém sem saber dessas coisas, eu não sei. Mas sei que isso vai acontecer.  E eu me sinto na obrigação, enquanto indivíduo que teve os olhos abertos para a realidade de uma forma mais profunda, de tentar mudar isso de alguma forma. Saio daqui, com mais dúvidas, do que certezas. E com certezas desconstruídas. Mas, pelo menos deixo de me sentir frustrado em um ponto. Sempre quis acreditar e fazer parte de um projeto de impacto social. Tentei vários, que ficavam só no discurso. De gente que falava que fazia, e só fazia falar, porque nem sabia o que fazer. Esse projeto não é assim. Vejo que ele causa um verdadeiro impacto nas pessoas. Abraço essa idéia, e espero puder contribuir e construir de outras formas, quando tiver oportunidade. 
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

terça-feira, setembro 04, 2012

[O Conto Inacabado XII] A Larga Rua do Desejo - A Terceira Passagem de Sophia.


O Conto Inacabado XI (A Segunda Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI
(...)
A madrugada avançava, enquanto Manoel mantinha-se ao lado de alguns amigos, sob o olhar vigiador de Gabriela. Sophia bailava, se descabelava, se acabava. Fato, inclusive, que deixou algumas amigas preocupadas, ela nunca havia chegado àquele estado. Numa determinada hora da noite, a vida anunciou ao mundo o final do baile. As pessoas começaram a partir. Sophia se sentia profundamente feliz, havia conseguido se libertar, ainda que momentaneamente, de tudo que lhe afligia, mas queria voltar logo para a casa. Sua amiga ofereceu-lhe o quarto, mas Manoel, que não havia bebido nada, logo se prontificou: 
“Eu posso levar a moça em casa. Deixo o carro dela lá. Depois pego um táxi. Onde ela mora?”
“Manoel não. Ela dorme aqui.”
“Deixa ele me levar em casa! Preciso voltar pra casa.”
As duas ameaçaram iniciar uma discussão, quando Gabriela, por saber quem era a amiga, decidiu ceder à vontade da mesma, mas não sem antes puxar Manoel e alertá-lo
“Rapaz se comporte. Pelo amor que você tem ao Cristo bendito.”
“Gabi, eu sou um homem sério.”
“Rum, sério é o que você não é. Mas confio em você pra essas coisas! Só pra essas!”
Após o final do diálogo, pegou o papel que estava sobre a mesa, anotou o endereço, entregou a chave do carro da amiga - que havia, inclusive, escondido, para evitar que ela saísse em estado de embriaguez, como tentou fazer em outras ocasiões.
Após permitir a partida dos dois, Gabriela mergulhou em um profundo sentimento de melancolia, proporcionado pelo arrependimento, e que posteriormente viria a rechear a sua noite de insônia. Sentiu que não havia feito a coisa certa, mas tentou abrandar a culpa. Pensou que Sophia jamais havia dado para um cara, sem ter um certo grau de conhecimento razoável sobre ele. Pensou também que Manoel não a trairia daquela forma, nem se aproveitaria de uma moça naquele estado. Ainda assim, temia a possibilidade do pior. E isso lhe era profundamente angustiante.
O trajeto no carro ocorreu em um silêncio inquietante, tão logo chegou à porta de casa, Sophia desprendeu o cinto de segurança, e ao invés de sair, levantou o vestido, pôs uma perna no outro banco, passou a mão sobre o corpo do homem, parando sobre a sua calça, e disse-lhe:
“Entra comigo. Estou com medo de dormir sozinha.”
Manoel pensou em resistir à provocação, mas as pernas da moça o seduziram profundamente. Imaginou como Gabi se sentiria, e como o desenrolar daquela história poderia terminar mal. Mas o emergir do desejo triunfou sobre a racionalidade decadente.
Tão logo entrou na casa, Manoel sentiu a intensidade de Sophia. Não demorou muito para os sons se resumirem em gemidos, e os corpos ameaçarem se fundir, numa estranha sinfonia que revela a mais pura concretização dos desejos profundos dos seres humanos.
Após a concretização do ato sexual, Sophia dormiu, dormiu tão profundamente, que não haveria de enxergar a manhã seguinte. Manoel, ao contrário, levantou, para ir embora. Adentrou na sala de banho, imaginando ser o toilete. E assustou-se com os escritos na parede, dedicou os 30 minutos seguintes a sua leitura. E, confuso, ficou sem entender, a dezenas de escritos com o nome de Clarice. Um com o nome de Sophia. Mas, ainda assim, resolveu deixar um recado para a moça. Pegou o lápis que estava sob a mesa e efetuou um manuscrito. Sentiu-se, também, curioso. O que o fez deixar o número, para que ela pudesse ligar, caso desejasse. Tão logo terminou, partiu. Partiu com a certeza de que havia traído Gabriela com profundidade, mas imaginando ter feito a coisa certa, a estranheza provocada por aqueles escritos o fizeram ter, no mínimo, curiosidade, para saber quem ela aquela jovem para além do estar bêbada e do sexo. 
Na manhã seguinte, Sophia acordou nua. Com dor de cabeça. Na sua mente, pairavam imagens desconectadas da noite anterior. Notou que o homem já não se encontrava mais ao seu lado, mas não teve tempo de racionalizar sobre isso. Levantou-se, observou o vestido no meio da sala, junto com a calcinha e o soutien,  foi até a sala de banho, e olhou-se no espelho.
“Estou acabada. Fiz merda.”  
Notou, então,  que na parede havia algo que não tinha sido escrito por ela. 
“Quer dizer que o seu coração tomba? Justo o coração de uma moça tão gentil. Ligue-me, adorarei lhe encontrar de novo. O meu telefone está na bancada. Manoel - 24/06”
“Desgraçado, violou minha intimidade.” – Falou, antes de notar que havia escrito com o seu próprio nome no dia anterior. Logo após, percebeu que o papel encontrava-se em cima da bancada, mas preferiu se jogar na água fria, como forma de abrandar a ressaca, e iniciar a organização das ideias, para dar os seus próximos passos no mundo.
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida)