O Conto Inacabado VI
(...)
A madrugada avançava, enquanto Manoel mantinha-se ao lado de alguns amigos, sob o olhar vigiador de Gabriela. Sophia bailava, se descabelava, se acabava. Fato, inclusive, que deixou algumas amigas preocupadas, ela nunca havia chegado àquele estado. Numa determinada hora da noite, a vida anunciou ao mundo o final do baile. As pessoas começaram a partir. Sophia se sentia profundamente feliz, havia conseguido se libertar, ainda que momentaneamente, de tudo que lhe afligia, mas queria voltar logo para a casa. Sua amiga ofereceu-lhe o quarto, mas Manoel, que não havia bebido nada, logo se prontificou:
“Eu posso levar a moça em casa. Deixo o carro dela lá. Depois pego um táxi. Onde ela mora?”
“Manoel não. Ela dorme aqui.”
“Deixa ele me levar em casa! Preciso voltar pra casa.”
As duas ameaçaram iniciar uma discussão, quando Gabriela, por saber quem era a amiga, decidiu ceder à vontade da mesma, mas não sem antes puxar Manoel e alertá-lo
“Rapaz se comporte. Pelo amor que você tem ao Cristo bendito.”
“Gabi, eu sou um homem sério.”
“Rum, sério é o que você não é. Mas confio em você pra essas coisas! Só pra essas!”
Após o final do diálogo, pegou o papel que estava sobre a mesa, anotou o endereço, entregou a chave do carro da amiga - que havia, inclusive, escondido, para evitar que ela saísse em estado de embriaguez, como tentou fazer em outras ocasiões.
Após permitir a partida dos dois, Gabriela mergulhou em um profundo sentimento de melancolia, proporcionado pelo arrependimento, e que posteriormente viria a rechear a sua noite de insônia. Sentiu que não havia feito a coisa certa, mas tentou abrandar a culpa. Pensou que Sophia jamais havia dado para um cara, sem ter um certo grau de conhecimento razoável sobre ele. Pensou também que Manoel não a trairia daquela forma, nem se aproveitaria de uma moça naquele estado. Ainda assim, temia a possibilidade do pior. E isso lhe era profundamente angustiante.
O trajeto no carro ocorreu em um silêncio inquietante, tão logo chegou à porta de casa, Sophia desprendeu o cinto de segurança, e ao invés de sair, levantou o vestido, pôs uma perna no outro banco, passou a mão sobre o corpo do homem, parando sobre a sua calça, e disse-lhe:
“Entra comigo. Estou com medo de dormir sozinha.”
Manoel pensou em resistir à provocação, mas as pernas da moça o seduziram profundamente. Imaginou como Gabi se sentiria, e como o desenrolar daquela história poderia terminar mal. Mas o emergir do desejo triunfou sobre a racionalidade decadente.
Tão logo entrou na casa, Manoel sentiu a intensidade de Sophia. Não demorou muito para os sons se resumirem em gemidos, e os corpos ameaçarem se fundir, numa estranha sinfonia que revela a mais pura concretização dos desejos profundos dos seres humanos.
Após a concretização do ato sexual, Sophia dormiu, dormiu tão profundamente, que não haveria de enxergar a manhã seguinte. Manoel, ao contrário, levantou, para ir embora. Adentrou na sala de banho, imaginando ser o toilete. E assustou-se com os escritos na parede, dedicou os 30 minutos seguintes a sua leitura. E, confuso, ficou sem entender, a dezenas de escritos com o nome de Clarice. Um com o nome de Sophia. Mas, ainda assim, resolveu deixar um recado para a moça. Pegou o lápis que estava sob a mesa e efetuou um manuscrito. Sentiu-se, também, curioso. O que o fez deixar o número, para que ela pudesse ligar, caso desejasse. Tão logo terminou, partiu. Partiu com a certeza de que havia traído Gabriela com profundidade, mas imaginando ter feito a coisa certa, a estranheza provocada por aqueles escritos o fizeram ter, no mínimo, curiosidade, para saber quem ela aquela jovem para além do estar bêbada e do sexo.
Na manhã seguinte, Sophia acordou nua. Com dor de cabeça. Na sua mente, pairavam imagens desconectadas da noite anterior. Notou que o homem já não se encontrava mais ao seu lado, mas não teve tempo de racionalizar sobre isso. Levantou-se, observou o vestido no meio da sala, junto com a calcinha e o soutien, foi até a sala de banho, e olhou-se no espelho.
“Estou acabada. Fiz merda.”
Notou, então, que na parede havia algo que não tinha sido escrito por ela.
“Quer dizer que o seu coração tomba? Justo o coração de uma moça tão gentil. Ligue-me, adorarei lhe encontrar de novo. O meu telefone está na bancada. Manoel - 24/06”
“Desgraçado, violou minha intimidade.” – Falou, antes de notar que havia escrito com o seu próprio nome no dia anterior. Logo após, percebeu que o papel encontrava-se em cima da bancada, mas preferiu se jogar na água fria, como forma de abrandar a ressaca, e iniciar a organização das ideias, para dar os seus próximos passos no mundo.
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida)