quinta-feira, agosto 30, 2012

[O Conto Inacabado XI] A Larga Rua do Desejo - A Segunda Passagem de Sophia.




O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI

(...)
“Nem lhe perguntei o seu nome, como se chama?”
“Sophia e o seu?”
“Meu nome é Manoel.”
E, então, um longo silêncio se instaurou. Sophia gostava de mistérios e idealizou um, no ser que estava defronte. Pelo lado, de Manoel houve apenas o julgamento  do quanto o vestido de Sophia era brega. Trocaram olhares, mas poucas palavras foram ditas entre o prédio e a delegacia. Sentiu-se desconfortável, mas instigada. Da parte dele, havia mais uma tentativa de restaurar-se do susto, do que qualquer outra coisa. 
O tempo na delegacia foi curto, rapidamente voltaram para a festa. Manoel agradeceu a Sophia e deu-lhe um beijo na mão, o que havia a encantado. Após isto, ela indagou sua amiga sobre quem era aquele homem. Sua amiga respondeu que ele era casado, mas que a sua esposa estava no exterior, fazendo mestrado. Disse-lhe também, que ele havia sido seu colega de trabalho, e que eles tinham sido amigos por um tempo, mas que haviam se afastado um pouco, depois que ela mudou de emprego, o que não a impediu de convidá-lo para o seu aniversário. 
“Nunca havia me falado dele!”
“Sophia, largue de besteira. Você só se mete em complicação. O homem é casado e ama muito a esposa”
“Isso nunca foi obstáculo para mim.”
O prosseguir da festa, deu-se como o desenrolar do existir, dentro de um tabuleiro de xadrez. Enquanto Gabriela aparentava preocupação, Sophia apenas bailava, e consumia as doses de vodka. Aos poucos, adentrava numa liberdade ascendente, que parecia não ter mais fim. Manoel tentava manter o semblante sério, e afastar-se dos olhares, cada vez mais intensos, que lhe eram dirigidos. 
(...)
“O que você faz da vida, Manoel?” 
“Sou advogado.”
“Detesto esse povo de Direito. Só pensam em dinheiro.”  
“Eu também.”
“Você também pensa?”
“Não, eu também detesto, sou diferente.”
“É o que todos dizem.”
De repente, ouve-se ao fundo, um grito
“Sophiaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Minha filha! Venha cá agora!”
“Minha amiga é chata. Aguarda aí.”
Gabriela dirigiu-se à Sophia, com um semblante sério e com um tom de voz alto.
“Eu não já lhe disse para você parar com isso? E pare de beber, já passou da conta!”
“Deixa de ser chata. Até parece que é você que tem interesse nele.”
E os minutos avançaram por cima das horas, ao passo que Gabriela percebeu que já não poderia controlar a amiga. Temeu o pior. Logo, pegou Manoel pelo braço, levou-lhe ao quarto e disse-lhe:
“Você já deve ter notado né? Espero que você não me decepcione mais uma vez!”
“Relaxe aí.” 
“Isso é sério. Eu nunca falei de você, nem para ela, nem para ninguém. Não é hora para isso. Por favor.”
“Qual foi, gabi?” Você chifra seu namorado e a culpa é minha? Fica tranquila.”
Gabriela abriu a porta e saiu irritada. Não era este o aniversário que havia planejado. O fato é que ela namorava o melhor amigo de Sophia. Eles jamais souberam das suas investidas infiéis. Nem eles, nem ninguém. Saber disso representaria uma ruptura violenta entre as duas. Sabia bem do que ela era capaz, para defender aqueles para os quais devotava amor. Era a única coisa para a qual era fiel no mundo. E talvez assim fosse com Gabriela, com Manoel, e com todas as outras pessoas. Onde não há amor, não há investimento, não há fidelidade. Fidelidade esta, que não pressupõe o controle impossível do desejo, mas o afago da verdade, diante da obscuridade da mentira. E por isso havia tanta dança naquela época, era muita disposição, para pouco amor. Os contratos voavam nos lugares inusitados, enquanto o semblante de seriedade mantinha-se intacto durante o voar das serpentinas da sociedade.
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, agosto 27, 2012

[O Conto Inacabado X] A Larga Rua do Desejo - A Primeira Passagem de Sophia.



O Conto Inacabado VII <- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI

Ao atravessar a rua, notou que estava atrasada para o aniversário da sua melhor amiga. Encontrava-se tão afundada em si, que certamente teria esquecido do evento, se não fosse de alguém com tanta importância para a sua vida. Acelerou os passos e avançou pelas ruas da Graça, quando tombou e deslizou sobre a calçada. Para a sua sorte, caiu numa posição que lhe deu conforto. As pessoas que passavam, pareciam estar com pressa, não lhe ofereceram uma mão necessária para que ela levantasse. Aquele acontecimento lhe serviu de reflexão, sabia que a vida acontecia daquela forma. Correr demais, é tombar. E o mundo não para diante das quedas, nem mesmo diante das mais justificadas tristezas profundas. Ao mesmo tempo, sentiu saudade daquele homem, do qual fugiu. Havia sido ele que lhe descortinou a mais sutil das tristezas. Aquele olhar era raro e esta imagem vinha em si o tempo todo. Temia que aquela oportunidade tivesse sido única. E, tal como um quadro em um museu, aquela imagem ficaria eternizada da forma mais positiva, se ela não soubesse separar o humano, do irreal. Mas ela não sabia. E ela não conseguia. E por não conseguir, pensava. E por pensar, não parava de se martirizar. 
Logo alcançou a Avenida Euclides da Cunha, onde ficava sua casa. Entrou, pegou a roupa no armário, e procurou se arrumar rapidamente, para prosseguir o seu caminho de ser no mundo. Sabia que a sua amiga se chatearia, se chegasse atrasada demais.  Mas, antes de sair, pegou o seu banquinho e fez mais uma inscrição na parede.
“23/06
Hoje, somente hoje, abro uma exceção. Tombei, tombei meu coração. Meu coração envelhecido, que tomba todos os dias! 
Sophia.”
Notou que o seu vestido branco havia ficado levemente sujo. Isso a agoniava. Enquanto a assinatura com o seu próprio nome caminhava, para passar despercebida, correu de forma espalhafatosa, para pegar logo outro vestido, desta vez, um preto e branco, e seguiu. Detestava sair sem o seu vestido branco, para acontecimentos que julgava importante. Avançou pela casa, entrou na garagem, ligou seu novo palio e navegou pelas ruas da cidade. Navegar, literalmente. A cidade estava completamente alagada, em virtude das fortes chuvas. Mas, por causa da bela noite em aberto, que iluminava o céu da cidade, não teve dificuldades para alcançar o prédio da sua amiga, que repousava em uma rua da Pituba. 
O porteiro já a conhecia, o que lhe deu o direito de passar direto pelo portão. Não sabia, mas este fato, havia lhe livrado de um assalto. Os 13 segundos que levaria para se identificar, teriam lhe custado o carro e talvez a felicidade da noite.  Passado o perigo oculto, estacionou o seu carro na garagem, entrou no elevador, e posteriormente empurrou a porta do apartamento, que estava entreaberta. Viu a sala de estar vazia.  E entrou. Sentiu alívio, sua amiga não a condenaria pelo atraso. Logo, ouviu um grito.
“SOPHIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!”
Era sua amiga, sempre espalhafatosa.
“Cadê seu vestido branco?”
“sujou, amiga!”
“a noite foi boa ontem!"
“Sujou, estava sujo já.” – disse. 
“Brincadeira.”
"Você nem deixou eu lhe dar os parabéns, te amo!" 
Enquanto os convidados entravam, e Gabriela gritava de alegria, Sophia aguardava as suas outras amigas, sentada, pensando na vida. De repente, entrou um rapaz alto, moreno, ofegante, e assustado.
“Gabriela, acabei de ser assaltado, levaram meu carro.”
“Manoel, meu pai do céu! Tá tudo certo com você? Onde foi isso?!” 
“Estava estacionando o carro aqui, apareceram dois homens armados. Felizmente ainda estou vivo.”
“Santa mãe de deus. Creio em deus pai. Senta aí, que eu vou pegar água pra você.”
“Essa cidade está um caos.” – Disse uma das presentes na festa. 
“Tudo é culpa daquele bananão do Prefeito.”  – Disse outra. 
"Mas Pelegrino vem aí, vai mudar tudo. Ele é do time de Lula." - Ironizou outra. 
“Ainda bem que o carro estava no seguro. O porteiro já ligou para a polícia, preciso ir à delegacia, agora, registrar o B.O. Alguém pode chamar um táxi para mim? Por favor.”
“Deixe que eu te levo.” – Disse Sophia, com o  seu eterno tom de voz ameno, e com um sorriso que ameaçava denunciar que havia se encantado com o jeito daquele homem.
“Que moça gentil, não precisa se incomodar, eu posso ir de táxi!”
“Deixa de besteira, homem. Vamos logo”. – Disse-lhe, enquanto caminhava em direção à porta.
Quando Gabriela voltou, já não havia mais Manoel, nem Sophia. O copo d’água, pelo menos serviu para acalmar uma das suas amigas, que tinha ataques de pânico, e havia tomado um susto com a situação. 
(....)

quarta-feira, agosto 22, 2012

[O Conto Inacabado IX] O Segredo da Parede Branca.



O Conto Inacabado VI
A jovem mulher caminhava em passos lentos, tão lentos, que não percebeu a aproximação da chuva. Nem o tocar do vento. A sua alma estava revolta. Estava cheia de dúvidas. O encontrar com a água, foi uma espécie de gozo.  Sentia um prazer imenso quando o seu vestido colava-se ao corpo. A chuva também era para ela, o encontro com as memórias. Lembrava-se bem de quando ia passar as férias na casa do avô, tantos anos antes. E mais tarde, dos beijos, das lamentações, de todos os cenários que um dia foram ilustrados pela água que cai do céu. Mas, o prazer, naquele dia, não foi tanto, já se encontrava próxima a sua velha casa. Onde entrou, após felicitar-se como uma pequena criança que vê na chuva, o encontro com parte da própria história.  
Após bater a porta, retirou as suas sapatilhas e correu até a sala de banho. Seus passos, em choque com o tablado de madeira, destoavam do silêncio atordoante de forma cínica. Após alcançar a velha sala de banho feita de mármore, iniciou o mais íntimo dos seus rituais. Desprendeu seus longos e negros cabelos, e retirou o vestido, após isto, retirou a sua calcinha e o seu soutien negros e terminou de despir-se. 
Sentia um  imenso prazer  no que a nudez lhe proporcionava, este era um dos poucos momentos em que se sentia realmente livre. E por se sentir livre, tinha com aquele espaço uma excêntrica relação de intimidade. 
Após ganhar a sensação de liberdade, e mirar-se diante do espelho, pôde dar prosseguimento ao seu ritual. Pegou o lápis que se encontrava em cima da bancada, arrastou o seu banquinho para ao lado da parede, encostou os seus peitos nela, e pôs-se a escrever mais uma das suas confissões.
Hoje faz 1 mês que entreguei uma ligeira parte da minha intimidade a um desconhecido. Afundo-me em interrogações. Será que ele nunca mais voltou àquele café? Será que achou que eu era uma imersa em loucura? Já me sinto cansada, por tudo que passei com aquele vagabundo. Com aquele homem tudo poderia ter sido diferente. Mas não, ele poderia ter sido mais um desses desgraçados, que só quer o meu corpo para se esfregar, em uma, ou em várias noites. Confusa, confusa. Estou confusa. Estou misturando a vagabundice da desilusão, com a esperança de que algo, algum dia, seja diferente. Aquele olhar era tão desigual, mas tão desigual, que eu me senti atravessada, devassada. Tão devassada, que precisei fugir, para não me afundar. 
Atenciosamente, Clarice. - 23/06.’
Clarice não era o seu verdadeiro nome. Gostava de escrever com pseudônimos de grandes escritoras, com as quais se identificava de alguma forma, como forma de dar um ar literário a sua própria história. E para proteger a sua intimidade, caso alguém, algum dia, violasse aquele espaço e lesse suas memórias. 
Após terminar o seu processo de reflexão, adentrou no banho, de onde saiu com a idéia de ir buscar o livro de volta. Pensava no quanto havia se comportado como uma imbecil, em fazer de um mero encontro casual, um rodeio de fantasias. Vestiu seu vestido florido e pôs-se a descansar no sofá da sala, onde reuniu forças para sair de novo, após um dia exaustivo de trabalho. 
Ao sair, viu-se novamente confusa. Mas manteve o semblante de moça séria, e caminhou pela Graça, até alcançar o local do café. Não pretendia, absolutamente nada além de buscar o livro. Atravessou o corredor da velha escola de francês e interpelou o garçom.
“Senhor, você lembra que eu deixei um livro aqui? Eu quero ele de volta.”
“Lembro sim, senhora. Mas ele já foi entregue ao homem que a senhora pediu.”
“Já?”
“Sim”
“Faz muito tempo?”
“Faz sim, senhora.”
Caminhou até a cadeira, e sentiu-se absolutamente triste. 
Outro vagabundo, o que eu dei a ele era importante de mim, mas eles nunca entendem. – Disse para si mesma. 
Ainda assim, pôs-se a engolir as lágrimas, que postas para dentro encharcaram a sua alma. O mar que se chocava com as pedras, representava a metáfora ideal que muito superava o raso da chuva que encontrava o chão. Os trovões que se iniciaram, terminaram de compor o cenário. Cenário este, onde ficou ilhada. E ilhada, era exatamente como se sentia. Via em si, uma ilha no meio do mar. Uma ilha onde aportavam e partiam os barcos. Uma ilha, em meio a tantas outras, mas que escondia enterrada no seu  centro, uma caixa de mistérios. Mistérios estes, que ela esperava que alguém, algum dia, soubesse decifrar.
E, tão logo a chuva cessou, pegou os seus próprios passos e aproximou-se do final de mais um dia confuso...
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, agosto 15, 2012

[O Conto Inacabado VIII] O Café e a Ladeira da Barra.



O Conto Inacabado VI
Após ser acometido pela surpresa da vida, João perdeu os desejos que o levaram àquele espaço. O de contemplar o existir, e o da fome. Ao sair da escola que sediava o café, fez um rápido reconhecimento da obra literária. A mesma se intitulava A Náusea . Nunca havia lido, mas desde que aquela moça havia sido vista portando-a, teve curiosidades acerca dela.  Caminhou e sentou-se na pracinha. Ao folhear o manuscrito, notou que estava cheio de anotações. Os olhos brilharam, até alcançar a contra-capa, onde havia um pequeno texto escrito de hidrocor vermelho. 

‘Decifre-me. Se o tamanho do seu desejo, for tanto quanto o meu prazer pelos mistérios, terá sucesso. Não gosto das facilidades, nem das canalhices do mundo moderno. De início, te digo que o título do livro indica o meu gosto pela liberdade e o meu sentir existencial. Saiba também, que para eu estar te dando isto, mesmo sabendo um largo nada sobre ti, é em face da admiração pela sua atitude em ter me notado. Parece-me que a sua alma é composta da fuga pelo predestino do mundo. Predestino, que talvez eu mesma não tenha conseguido escapar
Aguardo-te um dia, quem sabe, para verificar verdadeiramente quem você é
Atenciosamente, Y.’ 

Estranhou aquela atitude, que tanto fugia aos escopos dos padrões. Tentou encontrar o nexo, que não estava diante dos seus olhos. Imaginou se não se tratava de um deboche. De um escárnio. Ou até mesmo de uma manifestação de loucura. Não encontrou os sentidos que lhe poderiam dar um norte. E achou tudo estranho. Pensou em jogar fora aquilo, para se livrar do fardo que o desafio poderia lhe proporcionar. Do medo da decepção. Era como se estivesse a jogar-se em um caminho que não sabia se tinha fim, ou se seria possível chegar a ele. Passou algum tempo olhando o mar que havia no horizonte e decidiu partir para o retorno ao lar. 
Pôs o livro na mochila que carregava, levantou-se e caminhou na Ladeira da Barra. Já era cerca de 5 da tarde. O sol ameaçava se pôr, enquanto ele devaneava dentro do mistério no qual ameaçava se afundar. De repente, foi abordado por dois pivetes. Pivetes, estes, que não tinham escapado ao destino das amarras sociais do mundo.
“Passa tudo, passa tudo. Se não eu te furo todo.”
“hein?”
“PASSA TUDO!”
Ao notar que estava sendo vítima de um assalto, retirou a carteira, o celular e entregou. 
“O saco!”
“Hein?”
“O saco caralho!”
“Só tem livr..”
Imediatamente tomou um soco na barriga, quando um dos pivetes arrancou-lhe a mochila das costas. Ambos saíram correndo. Tornou-se perplexo por alguns minutos.  Sabia que havia uma guarnição da polícia no início da ladeira, mas agora tudo parecia demasiado distante. Imediatamente chorou. Não pelos bens materiais, ou em virtude da violência a qual tinha sido vítima, mas sentiu que o que foi roubado, era a esperança de um encontro que ele havia desejado por tanto tempo. Roubaram-lhe a dignidade do sonhar. E roubaram-lhe também, a ilusão que lhe acometia em face da realidade. A ilusão da segurança. E agora, o que faria? Continuou a chorar e caminhar. De repente, foi abordado por uma senhora, que lhe percebeu o pranto do rosto. 
“Meu filho, está tudo bem com você?”
“Fui roubado.”
“Não perca as esperanças, meu filho. Para cada homem mal, existe um bom.”
“O que te roubaram?”
“Roubaram-me um amor.”
“Não existe nada mais normal no mundo do que isso, meu filho. A vida traz e leva os amores. Você há de encontrar outro. Sabe, nos meus 76 anos de vida, já vi me roubarem vários amores. E sempre aparecia um novo, que renovava a minha esperança. Siga em frente, meu filho. Agora eu tenho que ir, pois meu namorado está me esperando na sorveteria.”
Enquanto soluçava, e tentava agradecer a senhora, viu a sua esperança no ser humano se renovar. Não teve tempo de pôr em palavras, a importância daquele encontro. Sentiu-o como algo que havia sido enviado para que não perdesse a esperança. Como uma prova que a vida dá, que acreditar ainda vale a pena, apesar dos altos e baixos da existência.  
A vitalidade daquela senhora de alma jovem devolveu-lhe a força e o fez caminhar até a tal da guarnição da polícia. Aquelas palavras lhe dissiparam o peso maior que o mundo que havia sido colocado sobre as suas costas.  Entendeu, então, na essência, o que a jovem misteriosa havia lhe falado. Sentiu-se, então, ligado a ela de uma forma especial, como se fosse possível se conectar ao sentimento que havia lido minutos antes.
“Boa tarde. preciso registrar um B.O, acabei de ser assaltado.” - Disse, ao deparar-se com a dupla de policiais. 
“Outro? Já atendemos no mínimo uns dez como você aqui, só hoje.” – Debochou o policial, em tom arrogante. 
“O que roubaram?” Perguntou o outro policial.
“Roubaram-me uma carteira, um celular, uma mochila e um livro.”
“Quantos reais tinha na carteira? Foi saidinha bancária?”
“Tinha R$ 10. Não, me roubaram no meio da ladeira, perto da igreja.”
“O que tinha de importante nisso tudo?”
“Um livro.”
“Você acha que a gente perde tempo? Só nessa região aqui 5 carros foram roubados. Isso só hoje. Fora os usuários de crack . Temos mais o que fazer. Brincar de recuperar carteira e celular. E ainda vem falar de merdinha de livro, se toca muleque.”
“Me desculpe, mas os senhores são pagos para isso.”
“Deixe de ser otário. Temos mais o que fazer. Vá embora.”
E foi. Deitou-se na banalização da existência. Andou lentamente, descrente de tudo que havia lhe acontecido. Sentiu-se como se, primeiro, tivessem-lhe roubado o encontro e agora a voz. Mas no infinito insondável entre os dois silêncios, houve um grito de esperança. Engoliu a própria decepção e pôs-se continuar. Era muita coisa para um dia só, pensava. Pensou também em como tudo caminhou entre os extremos do certo e do errado. Mas a vida era assim, era o que lhe marcava como um ser livre, a imprevisibilidade dos dias. E aceitou. Aquilo não era o fim, pois o quadro estava incompleto. Com um grande borrão de tinta. Mas a arte abstrata era a parte mais completa do mundo, pois era a única que carregava várias faces dentro de um mesmo existir. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)