O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI
(...)
“Nem lhe perguntei o seu nome, como se chama?”
“Sophia e o seu?”
“Meu nome é Manoel.”
E, então, um longo silêncio se instaurou. Sophia gostava de mistérios e idealizou um, no ser que estava defronte. Pelo lado, de Manoel houve apenas o julgamento do quanto o vestido de Sophia era brega. Trocaram olhares, mas poucas palavras foram ditas entre o prédio e a delegacia. Sentiu-se desconfortável, mas instigada. Da parte dele, havia mais uma tentativa de restaurar-se do susto, do que qualquer outra coisa.
O tempo na delegacia foi curto, rapidamente voltaram para a festa. Manoel agradeceu a Sophia e deu-lhe um beijo na mão, o que havia a encantado. Após isto, ela indagou sua amiga sobre quem era aquele homem. Sua amiga respondeu que ele era casado, mas que a sua esposa estava no exterior, fazendo mestrado. Disse-lhe também, que ele havia sido seu colega de trabalho, e que eles tinham sido amigos por um tempo, mas que haviam se afastado um pouco, depois que ela mudou de emprego, o que não a impediu de convidá-lo para o seu aniversário.
“Nunca havia me falado dele!”
“Sophia, largue de besteira. Você só se mete em complicação. O homem é casado e ama muito a esposa”
“Isso nunca foi obstáculo para mim.”
O prosseguir da festa, deu-se como o desenrolar do existir, dentro de um tabuleiro de xadrez. Enquanto Gabriela aparentava preocupação, Sophia apenas bailava, e consumia as doses de vodka. Aos poucos, adentrava numa liberdade ascendente, que parecia não ter mais fim. Manoel tentava manter o semblante sério, e afastar-se dos olhares, cada vez mais intensos, que lhe eram dirigidos.
(...)
“O que você faz da vida, Manoel?”
“Sou advogado.”
“Detesto esse povo de Direito. Só pensam em dinheiro.”
“Eu também.”
“Você também pensa?”
“Não, eu também detesto, sou diferente.”
“É o que todos dizem.”
De repente, ouve-se ao fundo, um grito
“Sophiaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Minha filha! Venha cá agora!”
“Minha amiga é chata. Aguarda aí.”
Gabriela dirigiu-se à Sophia, com um semblante sério e com um tom de voz alto.
“Eu não já lhe disse para você parar com isso? E pare de beber, já passou da conta!”
“Deixa de ser chata. Até parece que é você que tem interesse nele.”
E os minutos avançaram por cima das horas, ao passo que Gabriela percebeu que já não poderia controlar a amiga. Temeu o pior. Logo, pegou Manoel pelo braço, levou-lhe ao quarto e disse-lhe:
“Você já deve ter notado né? Espero que você não me decepcione mais uma vez!”
“Relaxe aí.”
“Isso é sério. Eu nunca falei de você, nem para ela, nem para ninguém. Não é hora para isso. Por favor.”
“Qual foi, gabi?” Você chifra seu namorado e a culpa é minha? Fica tranquila.”
Gabriela abriu a porta e saiu irritada. Não era este o aniversário que havia planejado. O fato é que ela namorava o melhor amigo de Sophia. Eles jamais souberam das suas investidas infiéis. Nem eles, nem ninguém. Saber disso representaria uma ruptura violenta entre as duas. Sabia bem do que ela era capaz, para defender aqueles para os quais devotava amor. Era a única coisa para a qual era fiel no mundo. E talvez assim fosse com Gabriela, com Manoel, e com todas as outras pessoas. Onde não há amor, não há investimento, não há fidelidade. Fidelidade esta, que não pressupõe o controle impossível do desejo, mas o afago da verdade, diante da obscuridade da mentira. E por isso havia tanta dança naquela época, era muita disposição, para pouco amor. Os contratos voavam nos lugares inusitados, enquanto o semblante de seriedade mantinha-se intacto durante o voar das serpentinas da sociedade.
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida)


