terça-feira, julho 17, 2012

[O Conto Inacabado VI] A Mulher misteriosa de vestido branco.




João repousava no tédio da tarde de domingo. Ardia solitário, no mesmo café aonde sempre ia, quando necessitava refletir sobre a vida. As coisas não iam bem, pensava. Era hora de ajustar os pontos. De rever projetos. De abandonar algumas coisas, de ir atrás de outras. A figura de Rosa havia ficado no passado. Talvez ele repousasse no instante onde a vida precisa ser posta na mesa, para ser revista. 
A luz do sol caminhava com voracidade, diante das palhas das palmeiras e do mar. Aquela sensação lhe era confortante, diante do eterno péssimo atendimento do local. O café demorava, no mínimo, uma hora para chegar. Mas não tinha pressa. Já havia perdido o controle várias vezes na vida, por querer correr demais. Já tinha visto almas, que lhe eram muito queridas, morrerem por isso. Preferia o conforto da lentidão, ao perigo dos excessos. Não que isso oferecesse segurança, conhecia as intempéries instáveis da vida. Mas aprendeu a gostar de tecer os caminhos dessa forma. E era assim que se sentiu naquele momento, como um tecelão livre, caminhando em passos curtos, enquanto todos os outros corriam vorazmente. 
Enquanto aguardava o chocolate gelado, deparou-se com uma imagem que lhe parecia familiar. Algo o retirou do seu círculo tedioso das previsões. Era a moça de vestido branco. A mesma que havia ficado eternizada na sua memória, tantos anos antes. Desta vez, ao contrário do que ocorrera no primeiro encontro, ela estava sozinha. A sua alma parecia nua. A única coisa que lhe fazia companhia era um pequeno livro. Esforçou-se para ver qual era. Tratava-se de um romance de Sartre. 
João passeou pelas fantasias da idealização. Imaginou se não se tratava de uma filósofa, ou quem sabe uma artista prestes a encenar uma apresentação. Ou quem sabe uma mera estudante. Talvez fosse algo que nada tivesse haver com as suas especulações. O que o restava era acreditar que ela se supunha condenada à liberdade. Como um pássaro inalcançável, cujo único prazer da vida é voar. 
Em um determinado momento, notou que a face da misteriosa moça, encontrava-se carregada de tristeza. Pensava ser indelicado aproximar-se e questioná-la sobre qualquer coisa. Ela aparentava estar muito fechada em si. Parecia estar no momento exato, onde não se quer mais saber sobre o mundo. A solução que havia encontrado para não deixar mais este encontro passar em branco havia sido entregar um pequeno bilhete escrito no guardanapo, onde questionava, com delicadeza, sobre o livro e a tristeza. Imediatamente pediu uma caneta ao garçom, escreveu algumas frases e entregou-lhe. 
Ao receber o bilhete inesperado, assustou-se e um sorriso imediatamente apareceu na sua face. Sorriso este, que imediatamente foi devolvido para dentro da alma. Parou por cerca de 5 minutos, sem lhe dizer nada, quando começou a chorar. Imediatamente levantou-se e se retirou do café. João tentou ir atrás, mas ela correu e entrou no seu carro velho. Sequer pagou a conta. 
O susto deu lugar à curiosidade. O mistério sobre aquela pobre jovem aumentou. Quem seria ela? Porque teve aquela reação? Não havia gostado do bilhete? O que repercutia na sua subjetividade? Eram questões que agora indagavam João. O garçom que observou a cena, disse que ela costumava ir àquele lugar, mas não com frequência.  Ele partiu dali, com a memória da tarde inesperada e sem carregar nenhuma certeza sobre aquilo tudo. Como se tudo aquilo, se revelasse frágil e guardando os sentidos por detrás das cortinas, como é a própria vida.  
(...)
Quando retornou ao café, dois meses depois, soube que a moça havia retornado àquele local, nos cinco dias seguintes, em busca dele. Nos dois domingos que se passaram, também. Depois, nunca mais apareceu. Mas, para sua surpresa, algo havia sido deixado para ele. Era o livro. O livro de Sartre que ela abraçava. Se ele imaginou que havia visto algum mistério, naquele momento começou a descobrir que estava apenas na sinopse. 
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida)