2038
Marcos encontrava-se no auge dos seus 18 anos, época da decisão de qual carreira seguir. Isto não era um problema, desde pequeno havia decidido cursar engenharia, como os pais. Entretanto, pairava na cabeça do pobre jovem, a dúvida sobre qual universidade optaria. Numa discussão sobre isso, sua mãe, muito prestativa, indicou-lhe:
-Filho, faça UFBA.
-UFBA, mãe? Isso não presta.
Seu pai rapidamente interviu.
-É, mulher. Você está há, no mínimo, 20 anos atrás! O tempo da UFBA se foi...
A pobre mãe, assustada, indagou:
-Como assim?? Eu não fiquei sabendo disso?
-É que ninguém do nosso círculo, nem da nossa família, fez universidade mais, após a nossa saída. Mas meus amigos, que são professores universitários, comentam sobre isso comigo.
O filho, assustado, questionou.
-A UFBA já foi boa?
O pai, nostálgico.
-Sim, era a melhor universidade daqui!
-E o que aconteceu com ela?
-Foi sucateada. Os governos filho, os governos...
-O que os governos fizeram?
-Eles tentaram expandir a universidade para ganhar votos. Criou-se um programa só para isso, no Brasil todo. Só que não estavam preocupados com a qualidade. E a qualidade foi caindo, caindo, caindo.
-E ninguém fez nada?
-Sempre havia um grupo de estudantes e professores gritando, fazendo greve. Mas a maioria não estava nem aí. Queria mais era se formar, ir para o mercado de trabalho logo. Aí não juntava gente em quantidade suficiente para fazer pressão no governo. Eu mesmo confesso a você, que não ia para nada.
Imediatamente o pai complementou:
-Ah, bons tempos aqueles. Aposto que você não terá uma formação tão boa quanto a que eu tive.
O filho se resignou diante da nostalgia do pai. Sentiu inveja daqueles tempos, que pareciam prósperos.
Em outra oportunidade, finalmente se discutiu em qual universidade o filho estudaria.
(...)
- Acho que você deve cursar a Universidade Paulo Freire, disse o pai.
-Mas pai, ela é em inglês! E metades das aulas são semipresenciais.
-Nós não temos muitas opções filho. Tem a University American Paralela. Ela é Americana também, mas fica do outro lado da avenida, eu acho que não tem muita diferença entre uma e outra.
-Pai, porque vocês deixaram as Universidades Públicas serem sucateadas? Você falou com tanto orgulho dela! E eu não vejo ninguém falando dessa forma, na atualidade.
-Tínhamos outros interesses na época. E além do mais, me lembro bem na greve que foi crucial para a definição dos rumos da educação, o DCE fraudou a lista!
-Como assim? O que é DCE?
-DCE era uma entidade representativa estudantil. Eles fizeram uma assembleia com 1200 pessoas, mas disseram que tinha 2000! E a gente não aceitou a greve. Hoje eu vejo que aquilo era muito mais do que eu imaginava, mas naquele momento, pedir a lista ao DCE, era mais importante!
-Ahh. Será que tem isso na UniPaulo ou na UniParalela? Quem sabe eu posso começar a lutar para melhorar as coisas!
-Não sei filho.
-Está decidido, vou tentar as duas. Depois eu vejo qual cursar.
Marcos era um bom aluno. E as universidades tinham vagas sobrando. Eram três mil por curso. Poucos podiam pagar, mas havia muitas bolsas públicas. A expansão universitária tão pregada pelo governo nas duas primeiras décadas virou retrocesso universitário na década seguinte. Os professores antigos se aposentaram. E diante das condições calamitosas de trabalho e dos péssimos salários, professores mal preparados começaram a ocupar os postos de trabalho. As vagas das universidades públicas passaram a ficar com os menos favorecidos, em virtude da qualidade ruim. Apenas os que não conseguiam as bolsas governamentais ou não tinham dinheiro, optavam pela mesma.
Marcos passou nas duas universidades. E optou pela UniPaulo, por uma questão de comodidade. Ela ficava no início da avenida. A outra ficava no final.
Os relatos do que Marcos encontrava, chocava seus pais. As épocas eram distintas. A universidade era distinta. A crise havia vencido a educação da época do pai de Marcos. Os tempos eram outros. Talvez se o pai de Marcos tivesse escutado seu avô, quando falava do sucateamento das escolas públicas, a coisa fosse diferente. Mas ele era individualista demais para se preocupar com essas coisas.
-Pai, hoje eu fui procurar saber do DCE. Se tem lá.
-Tem, filhão?
-Não, o coordenador me disse que é proibido falar de política dentro da universidade. Que se eu fizer isso vou expulso. E eles têm um acordo com a UniParalela, eu também não poderei me matricular lá, caso isso ocorra. Ele ainda me disse que cerca de 20 a 30 alunos passam por esse processo todo ano. Que é bom eu tomar cuidado, se não serei obrigado a fazer UFBA.
-Nossa! Como as coisas mudaram.
Em outro momento.
-Hoje eu não irei para a faculdade.
-Por quê? Ontem você também não foi. O que está acontecendo?
-Terça, quarta e quinta, a aula é virtual.
-Aula virtual? Como é isso?
-Aula virtual... a gente faz um exercício e manda para o professor, para ele corrigir.
-E o que você aprende com isso?
-Pai, não aprendo nada. Mas tenho que fazer para conquistar meu diploma. Eu acho inclusive que era pra eu ter ido pra Universidade da Paralela. Meus amigos me disseram que a aula virtual lá é só duas vezes por semana.
-Pai, sexta eu também não terei aula essa semana.
-Sexta também?! Porque filho?
-É a inauguração do metrô da Paralela.
-Ah, é mesmo.
-Vai ter festa.
(...)
-Como são seus professores, filho?
-Eles não têm contato conosco. Dão a aula e saem. Eu acho que a universidade que os orienta a serem assim. Outro dia eu fui falar com um professor no corredor e ele disse que só poderia falar comigo na aula.
-No meu tempo não era assim não. A gente não achava bom, mas era muito melhor!
-Como era?
-Tinha todo tipo de Professor. Arrogante, mal-educado, esnobe, mal preparado, etc. Mas sempre tinha um ou outro que ajudava a gente a crescer. Que se importava com a nossa formação!
(...)
E eis que o pai, depois de dezenas de relatos do que a educação havia se tornado, vira para a esposa, depois de um dia cansado de trabalho.
-É, amor. Eu estou preocupado com o curso que o Marcos está fazendo. Era melhor a gente ter lutado pela educação 25 anos atrás...
(Antônio Alberto P. de Almeida)