sábado, junho 30, 2012

[Conto] Os pés de Florbela que voaram no palco.


Quando Florbela tinha doze anos, ela queria ser artista. Não fosse o fato de todas as meninas de doze anos quererem ser atriz, ela parecia ser algo além. Florbela zombava da mãe, enquanto passeava com a pasta de dente diante do espelho. A mãe achava Florbela muito infantil para a idade, já deveria pensar no vestibular, imaginava. Florbela passeava livremente no círculo da imaginação. Enquanto, o pai mergulhava no mundo infinito dos cálculos.  Florbela descobriu as palavras. E fez circos de papel, nos livros de cálculo do pai. O pai, enfurecido, não entendia o que ela escrevia. Florbela rasurou os documentos referentes aos pacientes da mãe. Que ficou louca. Florbela, cresceu, descobriu o teatro e comandou a trupe da escola A mãe passou a achar  tudo aquilo admirável. Florbela satirizava os professores, com o giz no quadro. E frequentava a sala da coordenação. Florbela enganava a família, com as piadas. E todos achavam graça. Florbela fazia os amigos morrerem de rir, de tão sem graça que ela os deixava. Florbela cresceu e zombou de todos que acreditavam ser apenas uma traquinagem, a sua forma de ser. A mãe desejava ver outra médica na família. O pai sonhava que a filha realizasse seu desejo frustrado de fazer Direito. E o que Florbela fez da vida? Fugiu com o circo e nunca mais voltou para contar o final da história. A alma dela nasceu livre por demais, para pertencer às convenções sociais.  Depois, sobre Florbela, muito se falou e pouco se soube. Florbela deixou a estranha lição, de que supor a alma do artista, como uma realidade fundada na limitação, pode ser uma fantasia. E uma fantasia que voa mais do que a própria alma que almeja o mundo. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)
(Foto: A Bailarina - Edgar Degas.)

sexta-feira, junho 29, 2012

[Prosa] A Escuta e a sinceridade.



Às vezes precisamos de alguém que nos escute de forma verdadeira e encontramos uma falta imensa ao nosso redor. Encontrar quem saiba falar é fácil. Encontra alguém que finge que escuta também. Mas escutar, escutar mesmo, para além do próprio ego, das próprias amarras existenciais, é uma habilidade que poucos têm.  Saber escutar é mais do que interpretar as palavras. É saber ouvir o que o coração do outro expressa.  É uma forma de acolhimento que uma pessoa pode fornecer a outra, como se fosse um convite à própria vida. Só ao escutar o outro, podemos fazer florescer uma afetividade verdadeira. Talvez por isso as relações sejam tão efêmeras. As pessoas supõe algo sobre as outras, sem escutá-las e, depois, se dizem frustradas ou decepcionadas. Quando não, há a conveniência e o utilitarismo. Talvez esta ausência, seja fruto da efemeridade do mundo. Ou talvez seja apenas a consequência de uma sociedade que por parecer tão hostil, faz aquela parte que é verdadeira da alma se esconder nos seu respectivo casulo da máscara social. Ou talvez simplesmente seja mais fácil viver assim. O gosto pela verdade torna-se amargo, diante da falta de sinceridade. E talvez caiba menos sinceridade no mundo, do que imagino que seja o ideal...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, junho 28, 2012

[Conto] A Tragédia da Educação em 2038.




2038
Marcos encontrava-se no auge dos seus 18 anos, época da decisão de qual carreira seguir. Isto não era um problema, desde pequeno havia decidido cursar engenharia, como os pais. Entretanto, pairava na cabeça do pobre jovem, a dúvida sobre qual universidade optaria. Numa discussão sobre isso, sua mãe, muito prestativa, indicou-lhe:
-Filho, faça UFBA.
-UFBA, mãe? Isso não presta.
Seu pai rapidamente interviu.
-É, mulher. Você está há, no mínimo, 20 anos atrás! O tempo da UFBA se foi...
A pobre mãe, assustada, indagou:
-Como assim?? Eu não fiquei sabendo disso?
-É que ninguém do nosso círculo, nem da nossa família, fez universidade mais, após a nossa saída. Mas meus amigos, que são professores universitários, comentam sobre isso comigo. 
O filho, assustado, questionou.
-A UFBA já foi boa? 
O pai, nostálgico.
-Sim, era a melhor universidade daqui!
-E o que aconteceu com ela?
-Foi sucateada. Os governos filho, os governos...
-O que os governos fizeram?
-Eles tentaram expandir a universidade para ganhar votos. Criou-se um programa só para isso, no Brasil todo. Só que não estavam preocupados com a qualidade. E a qualidade foi caindo, caindo, caindo. 
-E ninguém fez nada?
-Sempre havia um grupo de estudantes e professores gritando, fazendo greve. Mas a maioria não estava nem aí. Queria mais era se formar, ir para o mercado de trabalho logo. Aí não juntava gente em quantidade suficiente para fazer pressão no governo.  Eu mesmo confesso a você, que não ia para nada. 
Imediatamente o pai complementou:
-Ah, bons tempos aqueles. Aposto que você não terá uma formação tão boa quanto a que eu tive.
O filho se resignou diante da nostalgia do pai. Sentiu inveja daqueles tempos, que pareciam prósperos. 
Em outra oportunidade, finalmente se discutiu em qual universidade o filho estudaria.
(...)
- Acho que você deve cursar a Universidade Paulo Freire, disse o pai.
-Mas pai, ela é em inglês! E metades das aulas são semipresenciais.
-Nós não temos muitas opções filho. Tem a University American Paralela. Ela é Americana também, mas fica do outro lado da avenida, eu acho que não tem muita diferença entre uma e outra.
-Pai, porque vocês deixaram as Universidades Públicas serem sucateadas? Você falou com tanto orgulho dela! E eu não vejo ninguém falando dessa forma, na atualidade. 
-Tínhamos outros interesses na época. E além do mais, me lembro bem na greve que foi crucial para a definição dos rumos da educação, o DCE fraudou a lista! 
-Como assim? O que é DCE?
-DCE era uma entidade representativa estudantil. Eles fizeram uma assembleia com 1200 pessoas, mas disseram que tinha 2000! E a gente não aceitou a greve. Hoje eu vejo que aquilo era muito mais do que eu imaginava, mas naquele momento, pedir a lista ao DCE, era mais importante! 
-Ahh. Será que tem isso na UniPaulo ou na UniParalela? Quem sabe eu posso começar a lutar para melhorar as coisas!
-Não sei filho.
-Está decidido, vou tentar as duas. Depois eu vejo qual cursar.
Marcos era um bom aluno. E as universidades tinham vagas sobrando. Eram três mil por curso. Poucos podiam pagar, mas havia muitas bolsas públicas. A expansão universitária tão pregada pelo governo nas duas primeiras décadas virou retrocesso universitário na década seguinte. Os professores antigos se aposentaram. E diante das condições calamitosas de trabalho e dos péssimos salários, professores mal preparados começaram a ocupar os postos de trabalho. As vagas das universidades públicas passaram a ficar com os menos favorecidos, em virtude da qualidade ruim. Apenas os que não conseguiam as bolsas governamentais  ou não tinham dinheiro, optavam pela mesma.
 Marcos passou nas duas universidades. E optou pela UniPaulo, por uma questão de comodidade. Ela ficava no início da avenida. A outra ficava no final.
Os relatos do que Marcos encontrava, chocava seus pais. As épocas eram distintas. A universidade era distinta. A crise havia vencido a educação da época do pai de Marcos. Os tempos eram outros. Talvez se o pai de Marcos tivesse escutado seu avô, quando falava do sucateamento das escolas públicas, a coisa fosse diferente. Mas ele era individualista demais para se preocupar com essas coisas.
-Pai, hoje eu fui procurar saber do DCE. Se tem lá.
-Tem, filhão?
-Não, o coordenador me disse que é proibido falar de política dentro da universidade. Que se eu fizer isso vou expulso. E eles têm um acordo com a UniParalela, eu também não poderei me matricular lá, caso isso ocorra. Ele ainda me disse que cerca de 20 a 30 alunos passam por esse processo todo ano. Que é bom eu tomar cuidado, se não serei obrigado a fazer UFBA. 
-Nossa! Como as coisas mudaram.
Em outro momento.
-Hoje eu não irei para a faculdade.
-Por quê? Ontem você também não foi. O que está acontecendo?
-Terça, quarta e quinta, a aula é virtual. 
-Aula virtual? Como é isso?
-Aula virtual... a gente faz um exercício e manda para o professor, para ele corrigir.
-E o que você aprende com isso?
-Pai,  não aprendo nada. Mas tenho que fazer para conquistar meu diploma. Eu acho inclusive que era pra eu ter ido pra Universidade da Paralela. Meus amigos me disseram que a aula virtual lá é só duas vezes por semana. 
-Pai, sexta eu também não terei aula essa semana.
-Sexta também?! Porque filho?
-É a inauguração do metrô da Paralela. 
-Ah, é mesmo. 
-Vai ter festa.
(...)
-Como são seus professores, filho?
-Eles não têm contato conosco. Dão a aula e saem. Eu acho que a universidade que os orienta a serem assim. Outro dia eu fui falar com um professor no corredor e ele disse que só poderia falar comigo na aula. 
-No meu tempo não era assim não. A gente não achava bom, mas era muito melhor!
-Como era?
-Tinha todo tipo de Professor. Arrogante, mal-educado, esnobe, mal preparado, etc. Mas sempre tinha um ou outro que ajudava a gente a crescer. Que se importava com a nossa formação!
(...)
E eis que o pai, depois de dezenas de relatos do que a educação havia se tornado, vira para a esposa, depois de um dia cansado de trabalho.
-É, amor. Eu estou preocupado com o curso que o Marcos está fazendo. Era melhor a gente ter lutado pela educação 25 anos atrás...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, junho 25, 2012

[Poesia] A miséria que arromba a porta.




Quando sete policiais
Encurvam dois bandidos no chão
Eles não estão agindo contra 
A desigualdade social.
Da qual também são vítimas.


Eles estão sustentado o papel
De repressores do desejo
Que saiu da curva
Ao patinar na frustração
Dos horrores do mundo.


Há aqueles que não podem entrar
Onde sempre foram convidados a estar.


O trágico é o anúncio.


A perversidade dos homens
Faz deles, seres esquecidos de que 
A boca que lambe o vidro
Por vezes tenta o arrebentar.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, junho 12, 2012

Minha poesia e meu aforismo preferidos sobre amor.


 
(Fonte da Imagem.)

A Princesa e o Plebeu.

Tornei-me encantando ao ver em vida a Imperatriz
dos meus sonhos; sonho em lamber o doce mel
do néctar da sua voz; em desvairar eternamente
pelas suas curvas graciosas, dotadas do mais

insano perfume de rosas. Num olhar, fez do meu
coração, meretriz; deixou-me na encruzilhada dos
devaneios; embebedou-me com as suas curtas e
pouco casuais presenças; me fez desvairar nas

crises de abstinência, da sua eterna ausência.
Seria auspicioso crêr nos sonhos; sou um mágico
utopista, querendo transformar o nada em amor;
e a mais bela das margaridas do jardim em Afrodite.

Jamais viveria outros crespúculos tão infinitamente
belos; não pretenderia outras manhãs, tampouco
Rainhas. E as minhas luas seriam todas despojadas
pelos granjeios da perdição dos seus lábios vermelhos.

E pararia para rir dos seus primeiros véus rasgados;
das eternas noites de amor; dos dias de tédio jamais
vistos; do voar das abelhas; dos infinitos sussuros
da natureza e do enfadonho barulho das latas.

Rabiscaria palavras na volúpia das suas curvas.
Traduziria as nossas existências em uma eterna
apresentação circense; pobre é o meu coração
que escolheu a ti, a mais laboriosa das princesas.

Seria um servo da sua vaga tristeza; e se só o
amor não saciasse, eu não prometeria os céus;
lhe daria o mais belo dos carrosseís que fizesse
jus a grandeza da sua eterna opulência clássica

Sou um bobo da corte aprisionado nos labirintos
do mais cínico de todos feitiços do reino: o amor.
Desgraçado! Sempre cometendo obscenidades
torpes; levando almas a vislumbrar sensações

que elas jamais chegarão a provar. Gargalha de toda
a minha desgraça a bruxa cínica e sádica que me
torra em feitiços por ti; e no mesmo caldeirão vedou
seus olhos para uma eterna valsa com outra paixão.
(Antônio Alberto P de Almeida.)





Aforismo Poético XLIII - Do meu coração para o seu.


O amor é a casinha na qual a gente ganha refúgio dentro do coração de alguém...
(Antônio Alberto P de Almeida.)

quinta-feira, junho 07, 2012

[Prosa] A inominável prosa para ninguém.

                                          (Edgar Degas- As Bailarinas.) 
Detesto a objetividade, que me faria perfeitamente compreensível. Por isso dificulto, dificulto tanto, que nem eu mesmo sei como me expressar. Dificulto, porque me custaria caro, ser compreendido. Ao mesmo tempo, que paradoxalmente, sempre tenho a esperança, que alguém entenda e decifre. O que nunca acontece, pelo menos não que eu saiba. É assim que começa a arrumação das minhas palavras, motivadas pela confusão ocasionada pelas lembranças das diferentes épocas, para onde fui atirado na tarde insonsa de feriado. Que, faria eu, um pobre e insignificante humano, diante do tamanho do passado?  E da insignificância do presente? Sinto-me como Fernando Pessoa. Os outros são campões em tudo. Quais motivos eles teriam, então, para perder tempo com o passado? Todos vivem no presente, com suas vidas pujantes de Semi-Deuses. Apesar disso, tenho consciência de que as coisas não são assim. Mas as nossas sensações pertencem a nós, a nossa história de vida. E o resto do mundo, nada tem haver com isso. A velocidade das coisas impede quem tenta alcança-lo, de encontrar o real sentido da afeição da vida. Resta então, sempre a nós, os que correm rápido, na direção contrária,  decidir o caminho e o destino da afetividade. Por ora, não saberia o que fazer, se não  recorrer a literatura. A literatura é a minha prostituta de segredos, favorita. E a utilizo, porque ao utilizá-la, me liberto. Escapo da minha resignação afetiva. E me acabo, diante, da sua magnífica existência, que, se guia pelos meus desejos, e me oferece a possibilidade de continuar, sem dar nada em troca, muito menos um final claro...
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

segunda-feira, junho 04, 2012

O Conto Inacabado V - O desespero de João.



Ele ainda pensava nela. Era este fato que lhe angustiava, quando acordava assustado às seis da manhã do domingo, após mais um pesadelo com a sua imagem. Apesar de todo o desespero, ele sabia a razão pela qual passava por esta tragédia. O resto do mundo, era em demasia entediante. E isso desconstruía o avanço do seu coração, em qualquer direção. Não havia, afetivamente, nenhum motivo claro. Embora sobrassem putas na sua vida, isso não lhe bastava. Queria algo mais. Restava então, juntar as migalhas que haviam sobrado do passado. Migalhas secas e insonsas. Migalhas estas, que retiravam as suas mãos do estado de vazio. E lhe forneciam algo que ia além da paupérrima imagem da memória. Era como se aquela volta, desse a ele um novo sentido, uma nova direção. Ainda que soubesse que aquela direção, era mais velha que o mundo, e ia pelo lado contrário do qual verdadeiramente deveria pensar em seguir. E ele não seguia, parava. E por ter que parar, também não seguia em frente... 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, junho 01, 2012

[Prosa] O peso do mundo e a poesia.

(...) Há um momento em que se sente o cansaço do ser que carrega mais que o mundo, e ainda versa para vida. Como se aquilo fosse, por um instante, algo demasiadamente ausente de sentido.E, então, eclode o desejo do contrário, de que a vida passe a recitar, dentro das suas constantes escritas por dentro do tempo, poesias sobre seus horizontes...