domingo, dezembro 16, 2012

[Poesia] O Estado do Mundo.


O Estado do Mundo.
-
Encontro o chão no asfalto 
Que se dissolve
Na razoabilidade de ser 
Uma planta de raízes aéreas 
E asas largas.
Que alça voo no contraditório
No não-dito pelo dito.
No esquecido do mundo
Em que o maldito
É o mal-dito
Em que o imundo
É um i no mundo.
Em que o mudo
Não é o "não mudo."
Mas a muda é a que
Não muda. Quem voa
Não tem os pés na terra.
Tampouco há terra neste
Grande circo de malabares
Reunidos na sala do mal-estar
Onde o que estrela é o temível 
Tapete branco que guarda 
As verdades escondidas da vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, novembro 25, 2012

[O Conto Inacabado XIV] O Sorvete no Porto da Barra. II



O Conto Inacabado  XIII (O Sorvete no Porto da Barra. I)
O Conto Inacabado XII (A Larga Rua do Desejo - A Terceira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado XI (A Segunda Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI

Acometida pelo desejo de tomar o sorvete de flocos, decidiu atravessar a Barra para realizá-lo. Convidou Marcus para lhe fazer companhia. Marcus era um velho amigo de Sophia, a conhecia desde os tempos do colégio ocupava o cargo único, sempre devotado àqueles que compõem a amizade como uma velha sinfonia de música clássica. Ele a viu nas diferentes fases da existência e a compreendia como nenhum outro ser, nem o seu analista conhecia tão bem os segredos da sua alma. Marcus era casado, tinha uma filha de dois, cuja madrinha era a companhia daquela tarde e o nome foi posto em homenagem à mesma. Era Professor de Direito, pintava quadros, gostava do pôr-do-sol e de admirar a beleza das alunas. De vez em quando pulava a cerca, sua esposa nem sonhava com isso, Sophia sempre soube de tudo, e apesar de ter a mulher do amigo como amiga de longa data, nunca nem cogitou contar nada. Algumas fidelidades vão por cima de outras, outras só existem nas inscrições discursivas que vão sendo construídas ao longo do percalço supremo do caminho dos homens. 
Ao passo que o tempo passava, Sophia decidiu se antecipar ao amigo e dirigir-se ao Porto da Barra antes do horário marcado. Sabia que ali havia um sebo e desejou olhar os títulos, para ver se não havia nada interessante para adquirir. Tão logo atravessou a Graça, desceu a Ladeira da Barra e alcançou a região secular, encontrou dificuldades pra estacionar.
“dez reais moça...”
“DEZ REAIS?”
“Dez reais ou não estaciona.”
Como queria evitar confusão, para não atingir-lhe a serenidade da alma, decidiu pagar o preço estabelecido. Durante o percurso até o sebo, imaginou como a rua estava se tornando um lugar incólume, onde daqui a um dia vão cobrar pedágio para o tráfego de pessoas, imaginava.
Tão logo atravessou a praça e adentrou no sebo, sentiu-se em casa. Gostava do cheiro de livro velho. Das páginas amarelas, por vezes rasgadas. Dos títulos antigos. Fantasiava sobre a origem deles. Adentrou na sessão de literatura e encontrou-se com um velho conhecido seu, o livro “A Náusea” de Sartre, o mesmo que havia deixado no café da Aliança Francesa meses antes.  Achou curioso, começou a folhear e entrou em choque, o livro estava todo escrito. Escrito com a sua letra. Era o mesmo livro que havia presenteado o homem misterioso meses antes. Viu-se envolta por um misto de confusão, angústia e tristeza. Não bastasse não ter decifrado o enigma, ainda pôs meu livro a venda – falou sozinha.  Decidiu, então readquiri-lo, para se livrar da tamanha desonra de ter uma carta de amor sua exposta na estante de um sebo.  Antes de pagar, dirigiu-se ao vendedor.
“Qual o preço desse livro?”
“Um real, está todo riscado.”
“Um real?! Você tem noção da importância disso pra mim?”
“Me desculpe senhora, não entendi.” 
“Peço desculpas. Você se lembra de quem deixou isso aqui?”
“Esse livro... lembro sim. A gente encontrou junto com uma mochila e outros livros aqui na frente. Era uma tarde de domingo, uns pivetes estavam correndo e jogaram uma mochila aqui. A gente chamou o policial pra entregar, ele disse que ninguém ia buscar essa porcaria  e a gente decidiu guardar. Como o livro está todo anotado, ninguém quer comprar, daí a gente baixo..”
Sophia jogou a moeda, saiu do sebo, sentou-se sobre a mesa, olhou fixa para o horizonte, derramou uma gota de lágrima e mergulhou na própria incoerência da razão sem fundamento da vida. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, novembro 22, 2012

[O Conto Inacabado XII] O Sorvete no Porto da Barra. I


O Conto Inacabado XII A Larga Rua do Desejo - A Terceira Passagem de Sophia.
O Conto Inacabado XI (A Segunda Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI


(...)

Tão logo terminou o banho, Sophia foi até a padaria da esquina, onde comprou três pães. Gostava da independência que comprar o próprio pão lhe proporcionava.  Já haviam  se passado 3 anos, desde que havia saído da casa dos pais. Este também era o tempo que havia  conquistado o seu primeiro emprego. A jovem mulher trabalhava como gerente de uma unidade de saúde no subúrbio.
Após o café deitou-se no sofá e pôs-se a pensar na vida. Fez um passeio pelas diferentes épocas da sua existência. Começou pela infância. Lembrou-se  de quando, enganada pelo namorado mais velho, perdeu virgindade, e a inocência. Da precocidade que isso havia lhe proporcionado na época, 12 anos antes. Lembrou-se dos namorados. Das ressacas. E lembrou-se do quanto gostava de tomar sorvete de flocos, na companhia de um grande amor. Coisa que ela não fazia há alguns anos. Tão logo chegou ao presente, deparou-se com um imenso vazio. O estado de tédio, e o olhar para dentro de si a fizeram adentrar numa sonolência cada vez maior.
Assim que adormeceu foi remetida a um sonho. Neste, encontrava-se numa sorveteria, na companhia de João, Manoel e Gabriela, e uma quinta pessoa, uma mulher de cabelos ruivos, que não conseguiu identificar. Pedia, aos prantos, para João a defender da traição, de Gabriela, que tentava se justificar em vão. Manoel ficava olhando e rindo daquela confusão. João, assustado, dizia-lhe que agora era tarde demais. Acordou confusa. Pediria ajuda ao seu analista, que estava viajando, para interpretá-lo. O fato de não ter encontrado os nexos tornou-a perturbada. Algo não se relacionava bem. E sabia que, quando algo não bate, é preciso encontrar o sentido perdido como forma de abrir os caminhos imundos que se perdem nas curvas que não são retilíneas.
Levantou-se angustiada. Primeiro, que não se lembrava de nenhuma mulher ruiva, que fizesse parte do seu círculo de convivência. Depois, ficou sem entender toda aquela confusão. Sentiu-se culpada, imaginou que isto havia ocorrido, em decorrência de ter desobedecido à Gabriela. Aos poucos a mente apagou os principais detalhes e no mais tardar não sobraria mais que a lembrança de um sonho estranho. 
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

quarta-feira, novembro 21, 2012

[Poesia] Narciso no século XXI.



Após uma longa noite em repouso
Onde, no interminável sono da morte,
Descansava no fundo do rio
Os Deuses assopraram Narciso
Enviando-lhe o dom supremo da existência. 

Tão logo se deu conta de que vivia,
Narciso viu-se envolto por um lago preto
Como nada via, pensou que haviam
Furado seus olhos e se desesperou
- Foram os Deuses cruéis! Malditos!

Não demorou e alcançou a margem
Narciso saiu da escuridão 
E deparou-se com a luz.
A luz, uma bandeira verde e amarela,
Milhares de prédios e centenas de carros.

Assustado com a parafernália
Caminhou entre ruas cinzas 
E se jogou entre as avenidas
Onde escutou músicas estranhas 
- "Sai daí seu vagabundo."
- "Quer morrer imbecil."
- "Vai se fuder caralho."
Que nada se assemelhavam aos cantos
Que outrora ouvia dos pássaros e das ninfas.

Narciso caminhou durante horas
Pelos bastiões da vila de pedra
E viu-se envolto pela própria miséria
Não atraiu olhares, nem conversas.
Afogou-se no vazio da solidão
Quando a noite se impôs triunfante.

A escuridão era em demasia fria
Encontrou um beco.
Onde alimentou-se do lixo, 
Pregou os olhos e repousou.
Acordou quando o sol nasceu 
E caminhou mais e mais
Voltava a dormir quando ele se punha.
E, por mais que tentasse
Não mais atraia olhares.

Assim se repetiu a sua triste rotina
Durante a sua parca nova vida de 7 dias.
Quando, ao fim de uma semana, 
Insatisfeito por não lhe enxergarem,
Decidiu retornar ao fundo do lago negro.

Não se afogou na própria imagem
Mas diante de um espelho escuro
Enquanto os Deuses no céu 
Riam em profundo deleite
-Pobre Narciso jamais saberá 
Que não é mais único.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, novembro 13, 2012

[Poesia] A velha senhora autoritária da educação.




“A gente estava aqui. A família com os amigos reunidos, tomando chimarrão. Quando eu vi, uma pedra caiu ali no chão, na grama. Daqui a pouco, outra em cima do carro. Quando a gente olhou, estava a avó no chão, caída, já com sangue na cabeça e ninguém sabia para que lado corria”, conta Joyce da Rocha, amiga da família de Isadora.
A pedra feriu a cabeça de dona Rosa Maria Leal, que sofre de uma doença degenerativa. Ela é avó da estudante Isadora Faber. A menina de 13 anos ficou conhecida em todo o Brasil depois de criar o "Diário de Classe", uma página na internet em que mostra os problemas e cobra melhorias na escola pública onde estuda, em Florianópolis.
Professores e funcionários já registraram boletins na polícia por calúnia e difamação. “Uma coisa que deveria ter sido resolvida no bom senso, mas não foi. E agora tomou essa dimensão policial e que terá que ser apurada, já que houve registro de ocorrência e encaminhada ao fórum”, apontou o delegado Leonardo da Silva.

                    
A educação é uma velha
Senhora autoritária
Que dribla a liberdade
Quando vozeia sobre autoridade
E impõe o adestramento 
No apagar do movimento.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, novembro 08, 2012

[Poesia] A Noite.


Eu só sinto saudades de mim
Quando me procuro e não me acho
Quando o vento arrebenta o pântano
E o homem já não se põe a ser tão grande
Quanto a parte partida do seu eu
Que se reverbera no seu rosto mal-posto
Na sua vida mesquinha e ordinária
E não passa de uma efemeridade sombria
Toda envolta pelo relento da luz branca e vazia.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, novembro 04, 2012

[Poesia] A Nostalgia.



Se retornar ao passado pudesse
Exaltaria a beleza de almas bonitas
A cada fez que o sol nascesse e se pusesse.
Logo, o triunfo daquilo que é efêmero e rasteiro
Não seria mais o bastante para que gente
Se esquecesse ou se perdesse
De quem é e do que tem em si.

É como se a pequena vastidão
Da límpida beleza da alma profunda
Se descafelasse neste reino tão parco
Onde impera o abundante e o vulgar.

Nos quadros impressionistas da minha alma
Há mais do que Monet e Van Gogh.
Há nostalgias profundas
Que guardo
Daquilo que outrora foi trazido
Na forma de sinestesia do canto da vida
E hoje já não avisto nos horizontes
Há em mim uma parte que se lembra
Daqueles que um dia foram
E hoje não existem mais.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

terça-feira, outubro 30, 2012

[Conto] A Eleição de 2042.

 

E  chega ao fim a eleição para prefeito de 2042 em Salvador. Depois de prometer a extensão do metrô até “Cazajeiras”, ACM V acaba de vencer a eleição para prefeito. Ele derrotou o candidato Peregrino Neto, tal fato impôs a décima segunda derrota seguida à família.  “Eles votaram contra o povo. Lula vive e está conosco. Somos o verdadeiro time do povão.” Disse o candidato na coletiva após a confirmação da vitória do seu adversário. A campanha foi marcada por atos de violência entre as militâncias-torcidas. De um lado, os azuis, que são representados pela sua decenária facção, o Democratas Futebol Clube, conhecido como o baluarte da nobreza baiana. Do outro os vermelhos, que são representados pelo “TFC”, Trabalhador Futebol Clube, cujo o slogan é: “O time do povão.” Apesar de ter entre seus dirigentes moradores de bairros nobres, renegados pela direção do DFC, comentam as más línguas. 
A provocação neste momento é intensa. A força nacional de segurança foi convocada para guardar o patrimônio dos dois clubes, que esteve sob ameaça nas redes sociais. Militantes-torcedores azuis ameaçaram defender com unhas e dentes o “ACMÃO”, Estádio Municipal Antônio Carlos Magalhães, que foi inaugurado, no bairro da Graça, na gestão do neto do ilustre líder. Do outro lado, temos o “Dilmão”, Estádio Nacional das “Cazajeiras” Dilma Roussef, inaugurado na gestão do governador do referido partido, em resposta à construção do estádio municipal. Aliás, além da inauguração do centro esportivo, o nome do bairro foi mudado, como forma de homenagear uma fala da referida presidente anos antes. 
Militantes-torcedores dos dois partidos-clubes trocaram ofensas e ameaças. Como exemplo transcrevemos o trecho a seguir: ”Vitória do Democratas FC só se comemora na Barra, na Graça e na Pituba. Vamo quebrar tudo. ” Em resposta eles responderam: “Não tem torcedor do Time dos Trabalhadores nem em Cazajeiras! Fracassados. ”
A população, ausente de envolvimento, ignora o conflito. Bando de besta, futebol e política não se discute, disse Joana à reportagem.  Graças a minha gestão, hoje ACM V está no poder, relatou o ex-prefeito da capital, João Henrique, gestor entre 2005 e 2013 - embora não haja muita gente que se lembre disso. Outra cidadã entrevistada, que não quis se identificar, disse que não vota há mais de 40 anos, “Os candidatos são sempre os mesmos” – relatou ao se justificar. . 
A Federação Baiana de Futebol teme pela segurança do próximo clássico, marcado para a semana que vem. Neste momento se estuda adiá-lo, ou até mesmo cancelá-lo, para o bem da cidade. O TRE, ao contrário, disse que a eleição transcorreu em clima de normalidade, salvo alguns conflitos entre militantes-torcedores perto das seções eleitorais.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 
Créditos na elaboração da idéia para Rafael Lima.

segunda-feira, outubro 29, 2012

[Poesia] Quando a política passa, vem a poesia.



Quando a política passa
Vejo a poesia enfim
A rua é torta e rasa
O mar maior que o fim

Os projetos, as promessas
As disputas, a ideologia
Nada disso cabe a escrita
Se são palavras que saem por aí
Vazias de verdade e beleza
Cheias de baboseiras e demagogias. 

A oratória se esvai
O candidato também
E o trio elétrico lá se vai
Cai(rá) todo mundo dentro da história.
A poesia não. 
Ela é sempre velha e nova.
Se reinventa a cada sentido 
Dado ao novo lido.
E é por isso que ela não passa.
Sempre volta.
Pra cantar pra história.
Que ela sempre se renova. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, outubro 25, 2012

[Prosa] Os espíritos e o mundo.


E quando o tédio da normalidade repetitiva lhe impõe a sensação circular de que toda gente já foi conhecida? Que por mais que pareçam novos, são sempre os mesmos rostos? Que faço eu, nessa época tão estranha, onde a esteira monetária padronizou o mundo? São questionamentos que só me fazem voar. E cavalgam comigo no ar, para longe dessa ordem desordenada. Pois, apenas na desordem ordenada, encontrarei de novo corpos singulares, que guardam por dentro si almas tão belas, mas tão belas, que não cabem na mesquinhez desse mundo dos desejos efêmeros, onde os voos rasos rumo ao além do tudo, de tão desordeiros, não são mais, do que simplesmente raros.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, outubro 23, 2012

Aforismo Poético Nº 53 Entre os ditames invisíveis.

Existir é estar destinado a nunca escapar do estarrecido, que eclode diante da cena jamais antes imaginada. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, outubro 17, 2012

segunda-feira, setembro 10, 2012

[Prosa] A Nostalgia de Setembro


Deixar alguém partir pode proporcionar uma das sensações mais dolorosas que existem. No fundo desejamos sempre a manutenção do instante da beleza suprema, ainda que isso faça parte do impossível. Adoraríamos fotografar estes momentos para mantê-los estáticos, mesmo diante da constância do movimento da existência. Mas o que sobra, em retrato, é a lembrança. A lembrança que fica exposta na estante da mente. Aquela passível de guardar a sensação do antes da chegada do trem da partida. Aquela que por vezes, nos deixa na companhia da ausência. Que em alguns momentos, pode nos condenar a uma profunda lamentação em virtude dação que promoveu o desfazer. Em outros pode nos deixar a compreensão de que pouco, ou nada, podemos fazer diante das constantes mutações do destino. Para alguns, isso pode ser um meio de paralisar a vida, em virtude do meter-se na busca insofrida da repetição dos ciclos. Para outros é um impulso para a ida na direção contrária, em face do desejo do desfrutar do desconhecido. O que apenas supomos saber, não sabemos. E sabemos de alguma forma disso. Logo, resta-nos sempre a sábia lição, de que todos vão seguindo, e que alguns, por vezes, cruzam nossos caminhos. E nada pode retirar o valor destes encontros. Dos encontros com aqueles, que vão nos nutrir  de lembranças. E talvez por isso alguns necessitem partir, para que haja espaço de acolhimento, para quem vem desejoso do  alimentar-se de afago. Do trocar de profundidades. E para quem sabe, um dia, possamos encontrar alguém, que ocupe o espaço impossível, onde não há mais a necessidade do esvaziamento que provém da partida . 
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

domingo, setembro 09, 2012

[Texto Final] 5º Estágio de Vivências no SUS.


Entrei neste estágio, sem um objetivo definido. Entrei muito mais pelo que diziam que ele era, do que por interesse próprio no tema do mesmo.  Saúde pública nunca foi meu foco. Sempre tive outros objetivos acadêmicos, que a meu ver, não se ligavam ao referido tema. Hoje, depois de dez dias, eu sinto uma angústia profunda. Sinto uma angústia, porque vejo que muita coisa na minha visão de mundo mudou.  Hoje, neste momento, eu percebo o tanto de futilidade que existe ao meu redor. Tanta coisa mesquinha, tanta gente afundada na sua própria vida, sem a capacidade de ver tudo que a cerca. Sem a capacidade de olhar o outro com sensibilidade. Sinto angústia, porque não posso humanizar o tratamento dado a alguém que é chamado de doido, pela própria profissional que o deveria atender com respeito. Sinto angústia, porque sei que tem colegas que estão sendo mal-formados, ao ponto de existir aqueles que se submetem a trabalhar por R$ 700, R$ 800, em ambientes completamente inapropriados. Que sequer tem isolamento acústico. Sinto angústia, porque existem outros que arriscam a sua própria vida, e são sabotados pelo próprio estado. Sinto angústia, porque sei mais da realidade que me cerca, agora na prática, do que na teoria. E sei que a minha vontade, por ora, não é suficiente para alterá-la. Isso acontece, pois há um mundo de desejos efêmeros reinando. Sempre me incomodei com o individualismo. Mas agora, no momento em que eu escrevo isso, o incômodo é muito maior. É maior, porque entendo mais da realidade social, do que antes. E eu me pergunto, como um profissional de psicologia, estendendo pra saúde, vai se formar sem isso? Muitos vão. E como será que eles poderão ajudar  alguém sem saber dessas coisas, eu não sei. Mas sei que isso vai acontecer.  E eu me sinto na obrigação, enquanto indivíduo que teve os olhos abertos para a realidade de uma forma mais profunda, de tentar mudar isso de alguma forma. Saio daqui, com mais dúvidas, do que certezas. E com certezas desconstruídas. Mas, pelo menos deixo de me sentir frustrado em um ponto. Sempre quis acreditar e fazer parte de um projeto de impacto social. Tentei vários, que ficavam só no discurso. De gente que falava que fazia, e só fazia falar, porque nem sabia o que fazer. Esse projeto não é assim. Vejo que ele causa um verdadeiro impacto nas pessoas. Abraço essa idéia, e espero puder contribuir e construir de outras formas, quando tiver oportunidade. 
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

terça-feira, setembro 04, 2012

[O Conto Inacabado XII] A Larga Rua do Desejo - A Terceira Passagem de Sophia.


O Conto Inacabado XI (A Segunda Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI
(...)
A madrugada avançava, enquanto Manoel mantinha-se ao lado de alguns amigos, sob o olhar vigiador de Gabriela. Sophia bailava, se descabelava, se acabava. Fato, inclusive, que deixou algumas amigas preocupadas, ela nunca havia chegado àquele estado. Numa determinada hora da noite, a vida anunciou ao mundo o final do baile. As pessoas começaram a partir. Sophia se sentia profundamente feliz, havia conseguido se libertar, ainda que momentaneamente, de tudo que lhe afligia, mas queria voltar logo para a casa. Sua amiga ofereceu-lhe o quarto, mas Manoel, que não havia bebido nada, logo se prontificou: 
“Eu posso levar a moça em casa. Deixo o carro dela lá. Depois pego um táxi. Onde ela mora?”
“Manoel não. Ela dorme aqui.”
“Deixa ele me levar em casa! Preciso voltar pra casa.”
As duas ameaçaram iniciar uma discussão, quando Gabriela, por saber quem era a amiga, decidiu ceder à vontade da mesma, mas não sem antes puxar Manoel e alertá-lo
“Rapaz se comporte. Pelo amor que você tem ao Cristo bendito.”
“Gabi, eu sou um homem sério.”
“Rum, sério é o que você não é. Mas confio em você pra essas coisas! Só pra essas!”
Após o final do diálogo, pegou o papel que estava sobre a mesa, anotou o endereço, entregou a chave do carro da amiga - que havia, inclusive, escondido, para evitar que ela saísse em estado de embriaguez, como tentou fazer em outras ocasiões.
Após permitir a partida dos dois, Gabriela mergulhou em um profundo sentimento de melancolia, proporcionado pelo arrependimento, e que posteriormente viria a rechear a sua noite de insônia. Sentiu que não havia feito a coisa certa, mas tentou abrandar a culpa. Pensou que Sophia jamais havia dado para um cara, sem ter um certo grau de conhecimento razoável sobre ele. Pensou também que Manoel não a trairia daquela forma, nem se aproveitaria de uma moça naquele estado. Ainda assim, temia a possibilidade do pior. E isso lhe era profundamente angustiante.
O trajeto no carro ocorreu em um silêncio inquietante, tão logo chegou à porta de casa, Sophia desprendeu o cinto de segurança, e ao invés de sair, levantou o vestido, pôs uma perna no outro banco, passou a mão sobre o corpo do homem, parando sobre a sua calça, e disse-lhe:
“Entra comigo. Estou com medo de dormir sozinha.”
Manoel pensou em resistir à provocação, mas as pernas da moça o seduziram profundamente. Imaginou como Gabi se sentiria, e como o desenrolar daquela história poderia terminar mal. Mas o emergir do desejo triunfou sobre a racionalidade decadente.
Tão logo entrou na casa, Manoel sentiu a intensidade de Sophia. Não demorou muito para os sons se resumirem em gemidos, e os corpos ameaçarem se fundir, numa estranha sinfonia que revela a mais pura concretização dos desejos profundos dos seres humanos.
Após a concretização do ato sexual, Sophia dormiu, dormiu tão profundamente, que não haveria de enxergar a manhã seguinte. Manoel, ao contrário, levantou, para ir embora. Adentrou na sala de banho, imaginando ser o toilete. E assustou-se com os escritos na parede, dedicou os 30 minutos seguintes a sua leitura. E, confuso, ficou sem entender, a dezenas de escritos com o nome de Clarice. Um com o nome de Sophia. Mas, ainda assim, resolveu deixar um recado para a moça. Pegou o lápis que estava sob a mesa e efetuou um manuscrito. Sentiu-se, também, curioso. O que o fez deixar o número, para que ela pudesse ligar, caso desejasse. Tão logo terminou, partiu. Partiu com a certeza de que havia traído Gabriela com profundidade, mas imaginando ter feito a coisa certa, a estranheza provocada por aqueles escritos o fizeram ter, no mínimo, curiosidade, para saber quem ela aquela jovem para além do estar bêbada e do sexo. 
Na manhã seguinte, Sophia acordou nua. Com dor de cabeça. Na sua mente, pairavam imagens desconectadas da noite anterior. Notou que o homem já não se encontrava mais ao seu lado, mas não teve tempo de racionalizar sobre isso. Levantou-se, observou o vestido no meio da sala, junto com a calcinha e o soutien,  foi até a sala de banho, e olhou-se no espelho.
“Estou acabada. Fiz merda.”  
Notou, então,  que na parede havia algo que não tinha sido escrito por ela. 
“Quer dizer que o seu coração tomba? Justo o coração de uma moça tão gentil. Ligue-me, adorarei lhe encontrar de novo. O meu telefone está na bancada. Manoel - 24/06”
“Desgraçado, violou minha intimidade.” – Falou, antes de notar que havia escrito com o seu próprio nome no dia anterior. Logo após, percebeu que o papel encontrava-se em cima da bancada, mas preferiu se jogar na água fria, como forma de abrandar a ressaca, e iniciar a organização das ideias, para dar os seus próximos passos no mundo.
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida) 


quinta-feira, agosto 30, 2012

[O Conto Inacabado XI] A Larga Rua do Desejo - A Segunda Passagem de Sophia.




O Conto Inacabado X (A Primeira Passagem de Sophia.)
O Conto Inacabado IX (O Segredo da Parede Branca.)
O Conto Inacabado VIII (O Café a Ladeira da Barra.)
O Conto Inacabado VII (A Mulher Misteriosa de Vestido Branco.)- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI

(...)
“Nem lhe perguntei o seu nome, como se chama?”
“Sophia e o seu?”
“Meu nome é Manoel.”
E, então, um longo silêncio se instaurou. Sophia gostava de mistérios e idealizou um, no ser que estava defronte. Pelo lado, de Manoel houve apenas o julgamento  do quanto o vestido de Sophia era brega. Trocaram olhares, mas poucas palavras foram ditas entre o prédio e a delegacia. Sentiu-se desconfortável, mas instigada. Da parte dele, havia mais uma tentativa de restaurar-se do susto, do que qualquer outra coisa. 
O tempo na delegacia foi curto, rapidamente voltaram para a festa. Manoel agradeceu a Sophia e deu-lhe um beijo na mão, o que havia a encantado. Após isto, ela indagou sua amiga sobre quem era aquele homem. Sua amiga respondeu que ele era casado, mas que a sua esposa estava no exterior, fazendo mestrado. Disse-lhe também, que ele havia sido seu colega de trabalho, e que eles tinham sido amigos por um tempo, mas que haviam se afastado um pouco, depois que ela mudou de emprego, o que não a impediu de convidá-lo para o seu aniversário. 
“Nunca havia me falado dele!”
“Sophia, largue de besteira. Você só se mete em complicação. O homem é casado e ama muito a esposa”
“Isso nunca foi obstáculo para mim.”
O prosseguir da festa, deu-se como o desenrolar do existir, dentro de um tabuleiro de xadrez. Enquanto Gabriela aparentava preocupação, Sophia apenas bailava, e consumia as doses de vodka. Aos poucos, adentrava numa liberdade ascendente, que parecia não ter mais fim. Manoel tentava manter o semblante sério, e afastar-se dos olhares, cada vez mais intensos, que lhe eram dirigidos. 
(...)
“O que você faz da vida, Manoel?” 
“Sou advogado.”
“Detesto esse povo de Direito. Só pensam em dinheiro.”  
“Eu também.”
“Você também pensa?”
“Não, eu também detesto, sou diferente.”
“É o que todos dizem.”
De repente, ouve-se ao fundo, um grito
“Sophiaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Minha filha! Venha cá agora!”
“Minha amiga é chata. Aguarda aí.”
Gabriela dirigiu-se à Sophia, com um semblante sério e com um tom de voz alto.
“Eu não já lhe disse para você parar com isso? E pare de beber, já passou da conta!”
“Deixa de ser chata. Até parece que é você que tem interesse nele.”
E os minutos avançaram por cima das horas, ao passo que Gabriela percebeu que já não poderia controlar a amiga. Temeu o pior. Logo, pegou Manoel pelo braço, levou-lhe ao quarto e disse-lhe:
“Você já deve ter notado né? Espero que você não me decepcione mais uma vez!”
“Relaxe aí.” 
“Isso é sério. Eu nunca falei de você, nem para ela, nem para ninguém. Não é hora para isso. Por favor.”
“Qual foi, gabi?” Você chifra seu namorado e a culpa é minha? Fica tranquila.”
Gabriela abriu a porta e saiu irritada. Não era este o aniversário que havia planejado. O fato é que ela namorava o melhor amigo de Sophia. Eles jamais souberam das suas investidas infiéis. Nem eles, nem ninguém. Saber disso representaria uma ruptura violenta entre as duas. Sabia bem do que ela era capaz, para defender aqueles para os quais devotava amor. Era a única coisa para a qual era fiel no mundo. E talvez assim fosse com Gabriela, com Manoel, e com todas as outras pessoas. Onde não há amor, não há investimento, não há fidelidade. Fidelidade esta, que não pressupõe o controle impossível do desejo, mas o afago da verdade, diante da obscuridade da mentira. E por isso havia tanta dança naquela época, era muita disposição, para pouco amor. Os contratos voavam nos lugares inusitados, enquanto o semblante de seriedade mantinha-se intacto durante o voar das serpentinas da sociedade.
(...)
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, agosto 27, 2012

[O Conto Inacabado X] A Larga Rua do Desejo - A Primeira Passagem de Sophia.



O Conto Inacabado VII <- essa parte da história, começa aqui.
O Conto Inacabado VI

Ao atravessar a rua, notou que estava atrasada para o aniversário da sua melhor amiga. Encontrava-se tão afundada em si, que certamente teria esquecido do evento, se não fosse de alguém com tanta importância para a sua vida. Acelerou os passos e avançou pelas ruas da Graça, quando tombou e deslizou sobre a calçada. Para a sua sorte, caiu numa posição que lhe deu conforto. As pessoas que passavam, pareciam estar com pressa, não lhe ofereceram uma mão necessária para que ela levantasse. Aquele acontecimento lhe serviu de reflexão, sabia que a vida acontecia daquela forma. Correr demais, é tombar. E o mundo não para diante das quedas, nem mesmo diante das mais justificadas tristezas profundas. Ao mesmo tempo, sentiu saudade daquele homem, do qual fugiu. Havia sido ele que lhe descortinou a mais sutil das tristezas. Aquele olhar era raro e esta imagem vinha em si o tempo todo. Temia que aquela oportunidade tivesse sido única. E, tal como um quadro em um museu, aquela imagem ficaria eternizada da forma mais positiva, se ela não soubesse separar o humano, do irreal. Mas ela não sabia. E ela não conseguia. E por não conseguir, pensava. E por pensar, não parava de se martirizar. 
Logo alcançou a Avenida Euclides da Cunha, onde ficava sua casa. Entrou, pegou a roupa no armário, e procurou se arrumar rapidamente, para prosseguir o seu caminho de ser no mundo. Sabia que a sua amiga se chatearia, se chegasse atrasada demais.  Mas, antes de sair, pegou o seu banquinho e fez mais uma inscrição na parede.
“23/06
Hoje, somente hoje, abro uma exceção. Tombei, tombei meu coração. Meu coração envelhecido, que tomba todos os dias! 
Sophia.”
Notou que o seu vestido branco havia ficado levemente sujo. Isso a agoniava. Enquanto a assinatura com o seu próprio nome caminhava, para passar despercebida, correu de forma espalhafatosa, para pegar logo outro vestido, desta vez, um preto e branco, e seguiu. Detestava sair sem o seu vestido branco, para acontecimentos que julgava importante. Avançou pela casa, entrou na garagem, ligou seu novo palio e navegou pelas ruas da cidade. Navegar, literalmente. A cidade estava completamente alagada, em virtude das fortes chuvas. Mas, por causa da bela noite em aberto, que iluminava o céu da cidade, não teve dificuldades para alcançar o prédio da sua amiga, que repousava em uma rua da Pituba. 
O porteiro já a conhecia, o que lhe deu o direito de passar direto pelo portão. Não sabia, mas este fato, havia lhe livrado de um assalto. Os 13 segundos que levaria para se identificar, teriam lhe custado o carro e talvez a felicidade da noite.  Passado o perigo oculto, estacionou o seu carro na garagem, entrou no elevador, e posteriormente empurrou a porta do apartamento, que estava entreaberta. Viu a sala de estar vazia.  E entrou. Sentiu alívio, sua amiga não a condenaria pelo atraso. Logo, ouviu um grito.
“SOPHIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!”
Era sua amiga, sempre espalhafatosa.
“Cadê seu vestido branco?”
“sujou, amiga!”
“a noite foi boa ontem!"
“Sujou, estava sujo já.” – disse. 
“Brincadeira.”
"Você nem deixou eu lhe dar os parabéns, te amo!" 
Enquanto os convidados entravam, e Gabriela gritava de alegria, Sophia aguardava as suas outras amigas, sentada, pensando na vida. De repente, entrou um rapaz alto, moreno, ofegante, e assustado.
“Gabriela, acabei de ser assaltado, levaram meu carro.”
“Manoel, meu pai do céu! Tá tudo certo com você? Onde foi isso?!” 
“Estava estacionando o carro aqui, apareceram dois homens armados. Felizmente ainda estou vivo.”
“Santa mãe de deus. Creio em deus pai. Senta aí, que eu vou pegar água pra você.”
“Essa cidade está um caos.” – Disse uma das presentes na festa. 
“Tudo é culpa daquele bananão do Prefeito.”  – Disse outra. 
"Mas Pelegrino vem aí, vai mudar tudo. Ele é do time de Lula." - Ironizou outra. 
“Ainda bem que o carro estava no seguro. O porteiro já ligou para a polícia, preciso ir à delegacia, agora, registrar o B.O. Alguém pode chamar um táxi para mim? Por favor.”
“Deixe que eu te levo.” – Disse Sophia, com o  seu eterno tom de voz ameno, e com um sorriso que ameaçava denunciar que havia se encantado com o jeito daquele homem.
“Que moça gentil, não precisa se incomodar, eu posso ir de táxi!”
“Deixa de besteira, homem. Vamos logo”. – Disse-lhe, enquanto caminhava em direção à porta.
Quando Gabriela voltou, já não havia mais Manoel, nem Sophia. O copo d’água, pelo menos serviu para acalmar uma das suas amigas, que tinha ataques de pânico, e havia tomado um susto com a situação. 
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quarta-feira, agosto 22, 2012

[O Conto Inacabado IX] O Segredo da Parede Branca.



O Conto Inacabado VI
A jovem mulher caminhava em passos lentos, tão lentos, que não percebeu a aproximação da chuva. Nem o tocar do vento. A sua alma estava revolta. Estava cheia de dúvidas. O encontrar com a água, foi uma espécie de gozo.  Sentia um prazer imenso quando o seu vestido colava-se ao corpo. A chuva também era para ela, o encontro com as memórias. Lembrava-se bem de quando ia passar as férias na casa do avô, tantos anos antes. E mais tarde, dos beijos, das lamentações, de todos os cenários que um dia foram ilustrados pela água que cai do céu. Mas, o prazer, naquele dia, não foi tanto, já se encontrava próxima a sua velha casa. Onde entrou, após felicitar-se como uma pequena criança que vê na chuva, o encontro com parte da própria história.  
Após bater a porta, retirou as suas sapatilhas e correu até a sala de banho. Seus passos, em choque com o tablado de madeira, destoavam do silêncio atordoante de forma cínica. Após alcançar a velha sala de banho feita de mármore, iniciou o mais íntimo dos seus rituais. Desprendeu seus longos e negros cabelos, e retirou o vestido, após isto, retirou a sua calcinha e o seu soutien negros e terminou de despir-se. 
Sentia um  imenso prazer  no que a nudez lhe proporcionava, este era um dos poucos momentos em que se sentia realmente livre. E por se sentir livre, tinha com aquele espaço uma excêntrica relação de intimidade. 
Após ganhar a sensação de liberdade, e mirar-se diante do espelho, pôde dar prosseguimento ao seu ritual. Pegou o lápis que se encontrava em cima da bancada, arrastou o seu banquinho para ao lado da parede, encostou os seus peitos nela, e pôs-se a escrever mais uma das suas confissões.
Hoje faz 1 mês que entreguei uma ligeira parte da minha intimidade a um desconhecido. Afundo-me em interrogações. Será que ele nunca mais voltou àquele café? Será que achou que eu era uma imersa em loucura? Já me sinto cansada, por tudo que passei com aquele vagabundo. Com aquele homem tudo poderia ter sido diferente. Mas não, ele poderia ter sido mais um desses desgraçados, que só quer o meu corpo para se esfregar, em uma, ou em várias noites. Confusa, confusa. Estou confusa. Estou misturando a vagabundice da desilusão, com a esperança de que algo, algum dia, seja diferente. Aquele olhar era tão desigual, mas tão desigual, que eu me senti atravessada, devassada. Tão devassada, que precisei fugir, para não me afundar. 
Atenciosamente, Clarice. - 23/06.’
Clarice não era o seu verdadeiro nome. Gostava de escrever com pseudônimos de grandes escritoras, com as quais se identificava de alguma forma, como forma de dar um ar literário a sua própria história. E para proteger a sua intimidade, caso alguém, algum dia, violasse aquele espaço e lesse suas memórias. 
Após terminar o seu processo de reflexão, adentrou no banho, de onde saiu com a idéia de ir buscar o livro de volta. Pensava no quanto havia se comportado como uma imbecil, em fazer de um mero encontro casual, um rodeio de fantasias. Vestiu seu vestido florido e pôs-se a descansar no sofá da sala, onde reuniu forças para sair de novo, após um dia exaustivo de trabalho. 
Ao sair, viu-se novamente confusa. Mas manteve o semblante de moça séria, e caminhou pela Graça, até alcançar o local do café. Não pretendia, absolutamente nada além de buscar o livro. Atravessou o corredor da velha escola de francês e interpelou o garçom.
“Senhor, você lembra que eu deixei um livro aqui? Eu quero ele de volta.”
“Lembro sim, senhora. Mas ele já foi entregue ao homem que a senhora pediu.”
“Já?”
“Sim”
“Faz muito tempo?”
“Faz sim, senhora.”
Caminhou até a cadeira, e sentiu-se absolutamente triste. 
Outro vagabundo, o que eu dei a ele era importante de mim, mas eles nunca entendem. – Disse para si mesma. 
Ainda assim, pôs-se a engolir as lágrimas, que postas para dentro encharcaram a sua alma. O mar que se chocava com as pedras, representava a metáfora ideal que muito superava o raso da chuva que encontrava o chão. Os trovões que se iniciaram, terminaram de compor o cenário. Cenário este, onde ficou ilhada. E ilhada, era exatamente como se sentia. Via em si, uma ilha no meio do mar. Uma ilha onde aportavam e partiam os barcos. Uma ilha, em meio a tantas outras, mas que escondia enterrada no seu  centro, uma caixa de mistérios. Mistérios estes, que ela esperava que alguém, algum dia, soubesse decifrar.
E, tão logo a chuva cessou, pegou os seus próprios passos e aproximou-se do final de mais um dia confuso...
(Antônio Alberto P. de Almeida)