17/09/2011
Aquele era um dia estranho na
cidade. O frio era intenso, sacudia as portas, mas a chuva insistia em não
cair. Aquele era um dia estranho pra ele, que em particular, gostava da fuga da
rotina que estes lhe proporcionavam. Detestava o ar quente da sua cidade,
gostava de quando a temperatura baixava, e lhe remetia a sensação de estar em
outro lugar. Outra cidade, com outras pessoas, outra cultura, outros
pensamentos. Mas a cidade ainda era a mesma, com as mesmas pessoas, a mesma
cultura, e os mesmos pensamentos, os quais nunca partilhou com muito gosto.
Aquele seria apenas mais um pedaço de tempo que queria quebrar a constância da rotina, e talvez, pela primeira vez, fizesse isso com tanta veemência. Algo
havia mudado na vida dele. Soava como um final de um ciclo, mas poderia ser
apenas um retrocesso a algum lugar que ele não queria voltar. Ele não sabia
sobre o futuro, ninguém nunca sabe. Não acreditava em cartomantes, em
astrologia, em religião ou coisas similares. Naquele
instante, só restava em ti as próprias sensações. E elas eram estranhas, apesar
de entrar em contraste com o mar revolto que a força da ventania proporcionava.
Era uma sensação de calma intensa, em nada lembrava as dificuldades dos dias
anteriores. Era sim, um dia estranho. Tão estranho, que passou diante da mulher
espantada, que estava sendo assaltada, e não sentiu medo. Nada parecia ser
capaz de desconstruir a sua paz interior. Se era o frio que lhe proporcionava esta
sensação não sabia. Sobre nada sabia, além do seu próprio presente. Andou,
andou, e parou no ponto de ônibus, em busca de respostas. Percebeu que no vidro
em frente a ti, refletia uma propaganda que estava atrás de ti, que
provavelmente nunca repararia. Ele estava dentro da propaganda do banco. Era
assim que se sentia naquela sociedade, como um produto. Sua vida em nada
lembrava o filme de arte romântico, que acabará de assistir - embora sua alma
estivesse em plena sintonia com a poesia das cenas, ela não era passível de ser
alcançada mais. Seu espírito não estava em sintonia com os valores daquela
sociedade, que representavam perfeitamente a idéia de estar dentro do anúncio
de um banco. Era o reflexo, era uma montagem, mas era também a realidade. Há
uma máxima do senso comum, que diz que espelhos não mentem, é verdade. Nada
disso parecia ser alegre ou triste, eram apenas mais alguns fato banais da
vida. No fundo a vida é toda composta de banalidades. Mas, se por ventura fosse
triste, nem a tristeza poderia ser expressa naquele lugar mais. Grande parte
vivia da aparência forçada da própria felicidade. E assim, a vida continuava
certamente o frio passaria logo para dar lugar ao sol escaldante, que
detestava, e a rotina voltaria, enfim, levando os dias estranhos embora. Que
graça, teria então? Mais valiam os dias estranhos, do que a rotina enfadonha,
que em nada proporcionava momentos artísticos. Era assim que pensava. Não
existe pensamento certo ou errado. Mas existem pensamentos aprisionados e
livres. A arte é a expressão do pensamento livre. E assim funcionava para ele, aquele momento, como a chance de viver algo que nunca fora vivido até ali, e
que certamente nunca mais seria vivido daquela forma. E a chuva passaria, é
verdade. Mas ainda havia a noite, a lua, as estrelas. Aquela seria uma noite
longa. Mas a sensação era de plenitude. Noites longas nem sempre são feitas de
lágrimas ou insônia. Há os que estão aptos a contemplá-la. E, então, surgiria
o dia. E a noite de novo. E o dia. E os dias passariam. E ele chegaria em algum
lugar novo, não sabia aonde. Mas tinha a certeza que iria chegar. Era apenas o
começo. Começos são chatos. Sejam em livros, novelas, jornais. Começos são
sempre começos. E aquilo era o significado principal, apenas um dia
estranho que representava um começo. Só, somente. Haveriam outros começos, já tinham havido outros começos. E talvez o vento estivesse ali, para levar tudo aquilo
que o passado representou embora, para longe. E a chuva chegaria, para varrer
as sensações imundas, para lavar a alma. Era só o começo da noite de um dia
estranho, no relógio apontava 19:27. As expectativas sobre aquele dia não eram
lá grandiosas. E não precisavam ser mais, tudo que haveria de acontecer, já
havia acontecido, e terminava com o ponto final de um texto, em paralelo aos
três pontos de continuação da vida. E, enfim, era a hora de seguir em frente,
só. Isso sempre basta. Tudo é simples, as pessoas que gostam de complicar. É
verdade, que a vida não teria graça sem as fantasias, mas enfim, era o momento de
se chegar ao fim, e aquele era um final de algo que definitivamente não acabava
ali.
(Antônio Alberto P. de Almeida)