segunda-feira, dezembro 19, 2011

[Poesia] O Aspecto sombrio da vida.




A mulher que fala ao celular
É sempre muda 
Quando eu olho do trem.

Passa a paisagem, passa o pronome.
Passa a pessoa, passa o mundo.
Que se eu não me der conta,
Não verei é nada.

Quem falou que ouvido escuta
Mentiu.
O que escuta é o coração.
Quem será que há de me negar.
Sem pensar no quanto fala
A miséria de um olhar.

A voz mais fina
No alto da ascensão 
Perante ao silêncio da gritaria
É a que nos rompe a escuta..

A voz também passa.
Passa o olhar
O que mais passa é o coração.
Já não é mais o cabelo da menina.
Cabelos negros, castanhos.
Passaram num navio rumo ao mar.

Eu também passo
Passei e passarei.                                            
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, dezembro 11, 2011

O Professor Obsoleto.




Brecht cometeu um grave erro ao retratar o analfabeto político como a pior coisa que existe na sociedade. Esqueceu ele, que para existência destes, é preciso antes uma série de professores obsoletos. Obsoletos, ultrapassados, frustrados, pouco importa. É na aula destes, que são dados os verdadeiros cursos de analfabetismo político. E então o ignorante se educa e se forma. Tudo isto, sempre permeado por práticas ultrapassadas, que não mais condizem com a sociedade atual. É somente em virtude disso que a influência da mídia desregrada é possível. Assim como é nos ambientes em que exercem seus espetáculos de enquadramento que nascem as diferentes formas de violência escolar, as crianças hiperativas medicadas, os jovens acríticos e alienados, os políticos corruptos e os profissionais mal-formados, que em algum momento, receberão um diploma lhes dando autorização para prejudicar a vida de alguém. Professores obsoletos estão em todos os níveis da educação, para identificar um basta observar o seu nível de frustração com o ensino e a descrença acrítica em relação aos seus alunos. Pobre de uma sociedade que justamente por ter sido educada por profissionais tão honrosos, não consegue compreender que por continuar com eles, é impossível alcançar um panorama social e humanístico mais harmonioso e evoluído...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, dezembro 04, 2011

O Conto Inacabado III (O lado purpúreo da vida de João.)




Parte 1.

Parte 2.





João se espreguiçava diante do ócio de domingo. Assim como o sol, que bocejava, já sem tanta voz. Pensava em Rosa. Pensava no que queria de Rosa. E chegava sempre a mesma conclusão, a ânsia era apenas por um mísero abraço. Nada melhor para começar a pensar em outras coisas, dizia para si mesmo. 
A representação platônica dos óculos negros e retangulares permanecia recôndita na sua mente. Que faria ele, se nem conquistava o início de todo resto. Não se julgava merecedor de tanta noite. Era aquilo, justamente aquilo. Nada mais do que aquilo, que tornava aquele dançar dos braços por entre o corpo, algo especial. Os humanos dão mais valor ao que não tem, era a conclusão que ele poderia chegar, mas não haveria, pois existem coisas que não podem ser ditas, nem descobertas. A maioria delas. Se não o mundo perde a graça. Os abraços também, e  todas as outras milhares de coisas, dos milhares de mundos humanos. 
Aquele gracejo dos braços brancos e macios seria semelhante a tantos outros, mas quando o ser quer fazer do nada, canto de passarinho, não há nada a fazer. Nós, os outros, temos mais é que deixar os desejosos mergulhar neste ato tão supremo! Poesia nunca é pouco para a vida. Especialmente nestes tempos sombrios. Onde todo o resto das coisas, parece desejar retornar a certa condição animalesca e destituída de tudo de mais belo que pode existir: o colorido intrépido das sensações intensas, infinitas e sempre mortais. Mais vale um cemitério de paixões e amores, do que um enorme campo brando, onde o mato se entranha por cima do coração, e mostra a impossibilidade de um dia ter estado entregue ao próprio vislumbre do algo maior. É o medo, e não o arrancar angustiado da desilusão, o maior de todos os inimigos do nascimento dos amores. Há diferenças profundas entre relacionar-se com alma e com o corpo. Havia uma sutil antítese na desvalorização da vivência de João. Era algo risível.
Que haveria de imaginar, a dama de honra platônica, se soubesse dos desejos incessantes escondidos. Talvez se espantasse, ignorasse, mas dificilmente se sentiria conquistada, assim pensava. Se fosse diferente, estaríamos já falando em outro plano. Quem sabe resolvesse dar abraços e até mais coisas. Talvez tudo se convertesse em carne, sexo e orgasmos. Mas, não. Aquilo era outra coisa. Era apenas o passear deslumbrado de um personagem envolto por uma espécie de delírio.  Psicótico, se fôssemos utilizar as classificações atuais desta sociedade tão pouco coesa e que mal consegue se definir, apesar de dar nome a tudo que está para além de si.
Poderia existir algo de diferente, se para Rosa o amor e a sinceridade preenchessem o buraco que se abre no ato de  vir ao mundo. Mas nada se sabia sobre isso. Ainda. Ou talvez nunca se chegasse a este ponto da incoerência do existir. João poderia simplesmente acordar cansado, se levantar achar tudo sem graça e nunca mais voltar a sentir. Ou poderia ser atiçado por outros lados. Havia ainda a possibilidade do enquadramento da Rosa como criatura imortal. Que haveria de acontecer? Restava esperar que os dias pronunciassem o final daquela história, se viria em forma de grito, berros, como música ou sussurro, sobre isso nem a mais sábia das criaturas arriscaria um palpite.Há coisas que estão para além do conhecimento.
(...)


domingo, novembro 27, 2011

Poema Gélido.




Estas coisas gélidas
Que nos são típicas
São duras como pedra.
E desvanecem-se apenas
Quando o martelo vai em cima.

Ora, pois!
Não creio nas coisas tortas
Dos saberes apropriados
Quando a palidez
É metamorfose da frieza.

(Domínio do espírito

Agracia-se com plumas...)

Que faço eu, então.
Sou poeta!
Não há o que resta
Se não versificar
No domínio do gracioso.

Pois, embora o mundo
Seja vasto como uma
Copa de árvore em dia de sol
O tempo é formiguinha frágil.

Que tudo pegue fogo!
Olha o fósforo ali
Pode acender uma vela!
E abraçar uma alma
O essencial é assim.
Vem do espírito puro e nu
Passeia em direção ao outro
E encontra abrigo.

Embora nada seja infinito
Precisamos apenas
Da coisa simples
Que nos faz dar um sorriso.

 Ora, pois!
Se pluma não derreter gelo
Resigno-me a condição
Quem passeia pelo
Delírio sinestésico
Não faz da fantasia,
Algo factual...

Será então,
Que há um chamariz
Mais profundo
Do que um poema
Quando vem ao mundo?
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, novembro 18, 2011

A literatura e a histeria.


Freud não sabia, mas é a literatura a personificação perfeita da histeria. Posso descrever o quão incômoda, ao mesmo tempo em que sedutora, é a sua presença. Posso transformar em palavras, o quanto esta indivídua me aparece nos horários mais impróprios. Tudo seria insuficiente, e mais ainda, se eu não começasse relatando o quanto a literatura é feminina, e como por ela me dou todo. Não há em mim paixão mais longilínea, amor mais platônico, intenso, sujo e inalcançável.  Quem mais haveria de me aparecer, nos porões lotados, com reclamações incessantes – e me obrigaria a dar um jeito de atendê-la. Ou faria metamorfose da tão sonhada ida ao sono, em horas a fio na presença dela. Quem mais teria idas e vindas tão profundas e inconstantes nos dias de solidão. Quando eu a procuro, nunca encontro. Se ela me encontra, ameaço não dar atenção, ela escandaliza, grita e ameaça sua ida para o nunca mais. Mas ela sempre volta. Volta no tempo do impossível, se dá por inteiro, me toma e some. Eis o motivo de eu amar, a sua eterna impossibilidade. Não domino o seu teatro sobre o corpo vivo das coisas estáticas, reais e irreais. Dela eu sou.  Para ela eu garanto a eterna fidelidade, embora jamais isso vá alcançar o auge fundamental da posse. E talvez este seja o grande motivo de paixão tão insana: ela jamais será minha, embora sempre vá ser a minha melhor amante...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, novembro 13, 2011

Músicas que falam por mim - Monique Kessous (Levo a minha vida assim.)


"... Levo a minha vida assim
Não olho só pra quem quiser saber de mim
Me movo para longe de quem não vê nada além de si..."


segunda-feira, novembro 07, 2011

[Poesia] A morada da noite de inverno.



A noite de inverno solitária
É irmã dos dias de saudade
Ambas guardam em si
Uma ânsia de nunca partir
Até a ponta de instante
Jamais demarcado
Por dentro da meia-noite
Ou no afago da manhãzinha.
Onde tudo some
E não volta nunca mais.
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

sábado, novembro 05, 2011

Indicação de filme - De Vrais Mensonges (Uma Doce Mentira)




De Pierre Salvadori. FRA,10. 1:45. 10 anos. Com Audrey Tautou e Nathalie Baye. Numa manhã de primavera, Émilie recebe uma carta de amor anônima. Sua primeira reação é jogá-la no lixo. Mas ela vislumbra uma forma de salvar sua mãe, uma mulher triste e isolada desde a separação do marido, enviando a carta para ela. Do mesmo diretor de Amar... Não Tem Preço e com a mesma atriz de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. 4ª semana.


(O filme é verdadeiramente lindo. Surpreendente. O roteiro é muito bem construído nos pormenores. Além do que, nos remete ao outro filme da Audrey Tatou, a personagem guarda muitas semelhanças. E não atoa que  é nomeada de "Émilie" Diria que é uma verdadeira continuação-descontínua.)

terça-feira, novembro 01, 2011

O Conto Inacabado Parte 2. João & Rosa.


(Conto Inacabado Parte 1 - A 1ª não vem necessariamente antes da 2ª.)


(...)


João & Rosa.


"... Quem inventou o amor? me explica por favor... - Antes das Seis (Legião Urbana)"


Há paixões que nascem em virtude da própria impossibilidade de um dia virem a alcançar um estado de comunhão. Quando João observava-a de longe, não sabia, mas este era este fato banal que lhe conferia sensações ao coração. 
Sentia um furor intrépido por aquela pele alva, feito a neve, sempre envolta pelo casaco cinza, fosse dia de tempestade ou clarão. Aqueles passos, como em outros tantos clichês, lhe remetiam a outro lugar. Os braços magros angelicais, as mãos ao longe pareciam de algodão. Mas o que lhe conferiu a ebulição sinestésica, aquela que vai além do desejo carnal, havia sido a armação retangular negra que lhe escondia um par de olhos. As mulheres não sabem, mas eis um segredo fundamental da existência masculina, os homens não se apaixonam pelas coxas, peitos ou bundas, mas pelo detalhe diferente por vezes insignificante e enigmático. Que se percam se debatendo, jamais saberão de fato o primordial simplório, o desejo é o desejo, a paixão é a paixão. Paixão tem desejo, desejo por si mesmo não.
Desde que os olhos de João passaram a devorar os da Rosa - sim, este era o seu nome. Pode compreender, então, que devorar significa aglutinar-se, agarrar a alma. Possuir o que se imagina ser uma morada especial. Quem mais poderia conferir aquilo com tanta veemência, se não uma Rosa Alva destituída de defeitos e tão bela, que não parecia humana. Que imaginava João que encontraria naquela alma, se pudesse desvendá-la. Que fazia João, caminhando com o sentimento ardente e cristalizado de uma imagem estática, destituída de qualquer sentido dentro da própria realidade. Ele, ele nada fazia sobre nada, apenas vivia. Por vezes o sopro da vida é o que basta, embora desejasse incessantemente arrancar aquele casaco e tudo que havia por debaixo dele, então a própria alma estaria pronta para ser rasgada e devorada até o ponto em que não restasse mais energia para a eclosão de novos orgasmos.
A impossibilidade daquele encontro nascia no fato de que as Rosas estão sempre de costas para o mundo. Dançando com os olhos devorados para acima e avante. João, João era parte de um ninguém. Um invisível que se frustrava nas tentativas de passear pela frente de quem jamais poderia lhe lançar olhos. Pobre mortal, nunca havia sido visto, nem via o vislumbre desta possibilidade no instante presente, tampouco num futuro distante.
Embora isto possa parecer uma ironia, era o fato do impossível que deixava a branca flor no status da eterna inviolável. João não sabia, mas a paixão opera com dois planos fundamentais, um é quando a fantasia mora nos pensamentos, onde nada há de destituir a perfeição imaginativa da coisa mundana. O outro, o outro bem, é quando a fantasia passeia na realidade, e opera um eterno conflito milenar entre os seres mundanos. Refiro-me a simplicidade insignificante de que nada passa de uma mera construção de uma imagem que nasce num passe de mágica do acaso, e cujo resultado é uma frutífera ilusão, dona de uma intensidade insana, cheia de promiscuidade, que nunca sabemos para onde vai nos levar...

domingo, outubro 30, 2011

Músicas que falam por mim. - L'Avventura Legião Urbana.

(Algumas vezes somos agraciados com músicas, ou poemas, que falam por nós. E dispensa que escrevamos a respeito de determinado tema. Por isso, inauguro a sessão "Músicas que falam por mim." E, apesar de não ser um evento tão comum assim, postarei-as quando acreditar que elas tem algo a dizer do que eu estou sentindo no momento.)

"... Quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre é coisa muito séria..."


segunda-feira, outubro 24, 2011

O encontro inesperado.




O encontro inesperado.

Prosa dedicada ao vento.

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.” (Caio Fernando Abreu.)

Aquelas pequenas palavras do encontro momentâneo inesperado ficaram marcadas em mim. Talvez nunca mais vá ver aquela pessoa. Talvez o mundo zombasse da minha própria sensibilidade, pois a linguagem que falo não é a mesma que as coisas comuns desta sociedade – por alguma razão a sua lógica, não é a mesma que a minha. Falo de poesia, não da insensibilidade pueril das coisas tortas que se fazem de vivas, mas mais parece que estão mortas.
Questionei-me muito porque aquilo havia sido especial para mim. Quis me julgar, me culpar, racionalizar, apagar, me envergonhei e entendi. Entendi que se tratava de uma linha de vida casuística, mas que guardava todo um propósito para aquele momento. Entendi que algumas vezes me forço a aceitar convenções sociais, mesmo que não me dê conta disso. Mas eu não sou um instrumento de uso delas. Já paguei altos preços por esta opção, não é hoje que pretendo mudar de idéia e acredito que amanhã também não pretenderei o fazer.
Talvez ninguém entenda o sentido primordial do que escrevo. Talvez alguém entenda se eu explicar e eu nunca execute isto. Talvez eu ria disso no futuro. A única certeza que eu tenho, é que há todo um encadeamento lógico escondido por debaixo das minhas palavras.  No fundo eu queria que todos pudessem decifrar cada gotícula de sentido espremida entre as letras, em branco. Elas, então, teriam acesso ao ato poético em vida. Que vale muito mais do que qualquer coisa que escreva, pois dispensa palavras. É como uma cena que o silêncio vai desenhando, promove sensações e acena a direção dos verbos. Penso agora em o que são as palavras, se não artistas do palco da cena da vida. Artistas que vão do nu completo a totalidade da vestimenta. E que atuam pelo prazer de atuar, para uma pequena plateia de ávidos em compreender os sentidos enigmáticos da sua existência.  
Foi um pequeno encontro, que talvez não tenha tido nenhuma significação especial para a outra pessoa. Que provavelmente nem se lembra disso mais. E que considero que seja altamente improvável que leia esta prosa. E se por ventura ler, nunca vai entender. E ainda que chegasse a cogitar, acharia que é bobagem, não acreditaria. Claro que sei que escrevo isso em virtude do meu profundo desejo inconsciente, de que a pessoa lesse, entendesse e compreendesse que um encontro aparentemente insignificante, foi especial para mim. Mas também não me importa neste momento. Em mim restaram boas sensações e alguns poemas. E a crença de que a vida é algo que gira em torno, das nossas sensações, que  pertencem exclusivamente a nós, assim como a admiração que temos. Assim a ela segue. E segue sempre insaciável, dando respaldo ao palco para que as minhas palavras subam e possam contar algo do meu íntimo indecifrável para aqueles que buscam ler o que transformei em metáforas.
(Antônio Alberto P. De Almeida.) 

sexta-feira, outubro 21, 2011

O Conto Inacabado.




(...) Naquele instante, tudo se assemelhava a uma fotografia velha, daquelas circundas por bordas amareladas. Assim, refletia, funcionava a relação entre a memória e o passado. Alguns registros tornam-se pó, outros distorções disformes que em nada lembram a verdadeira situação. Mas ainda há os que se revelam como verdadeiros pedaços da realidade que persistem em existir. Entendeu, naquele momento, que quem diz que o passado é um cristal que se desfaz para sempre, estava errado. Em alguns momentos o passado permanece presente nos retângulos da memória de forma bem nítida - e mais parece que nunca irá escorrer sobre a ampulheta da vida...
(...)
(João em "O Conto Inacabado.")
(Antônio Alberto P. de Almeida.)
(Tela de Van Gogh.)

quarta-feira, outubro 19, 2011

3 anos de blog.

Universo das Palavras Perdidas 
3 anos.
9100 visitas.
Agradeço a todos.

domingo, outubro 16, 2011

Trecho de A Insustentável Leveza do Ser.




(...)

Mas havia mais uma coisa: um livro aberto em cima da mesa. Nunca ninguém abrira um livro numa mesa daquele café. Para Tereza, o livro era o santo e a senha de uma irmandade secreta. Para enfrentar o mundo grosseiro que a rodeava não tinha, com efeito, senão uma arma: os livros que ia buscar à biblioteca municipal e que eram sobretudo romances; lia‑os aos montes, de Fielding a Thomas Mann. Davam‑lhe uma oportunidade de evasão imaginária, arrancando‑a a uma vida que não lhe oferecia satisfação de espécie nenhuma, mas, enquanto simples objetos, também tinham um sentido. Gostava de andar na rua com livros debaixo do braço. Eram para ela o que a bengala era para os dandies do século passado. Distinguiam‑na dos outros.
(A comparação entre o livro e a bengala elegante do dandy não é totalmente exata. A bengala era o distintivo do dandy, e tornava‑o uma personagem moderna e à última moda. O livro fazia Tereza distinguir‑se das outras raparigas, mas tornava‑a um ser antiquado. Também é certo que era nova demais para perceber o que é que estava fora de moda na sua pessoa. Aos adolescentes que passeavam à sua volta com transistores tonitruantes, achava‑os idiotas. Não percebia que eram modernos.)
Em conclusão: o homem que acabara de chamar por ela era ao mesmo tempo desconhecido e membro de uma irmandade secreta. Falava de um modo delicado e Tereza sentiu a alma a lançar‑se‑lhe para a superfície através de todas as veias, de todos os capilares e de todos os poros para que ele a visse.

(...)

(Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser.)

sexta-feira, outubro 14, 2011

A insustentável leveza da vida.

08/10/11
Refletindo sobre a minha existência, cheguei a conclusão de que se tem uma coisa que tenho aprendido nos últimos tempos, é a ter paciência com os lentos encaixes que vão se dando dia após dia. Ao contrário do modo como o mundo opera, a vida age de forma lenta. Diria que ela é uma artesã de paciência serena, que ignora os gritos, as buzinas, a frivolidade das coisas da atualidade. Aprendi também a não subestimá-la. Há coisas que não farão sentido nem hoje, nem amanhã, mas apenas num dia bem distante que ainda não vislumbro no meu horizonte. Sou um mero artista atuando sobre roteiros imprevisíveis.  Desde que aceitei esta pequena lição serena, deixei que os minutos transcorressem livremente. E não me arrependo. A cada pequeno pedaço de tempo recortado que desliza sobre mim, mergulho na leveza que me traz a certeza de que não tomei a decisão errada...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, outubro 11, 2011

15 anos sem Legião Urbana.

Este documentário foi feito pela MTV, na ocasião do primeiro ano após a morte de Renato Russo.



Tempo Perdido.



Será.



Quando o bater na janela do teu quarto.




Teatro dos Vampiros.



segunda-feira, outubro 10, 2011

Aforismo Poético Nº 50 - Sobre o amor e o tempo.



'... O maior inimigo do amor é o tempo,pois quando este faz os dias avançarem, arrasta consigo as sensações bonitas, as lembranças inesquecíveis e os motivos que servem de pilar para a sua existência...'
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, outubro 08, 2011

Indicação de filme: Esses Amores





Título original: Ces amours-là
França, 2010, Drama.
Direção: Claude Lelouch
Elenco: Audrey Dana, Dominique Pinon, Samuel Labarthe.
Duração: 120 min.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Porque poesia não é visão de mundo.




Muitos consideram que o ato poético de passear pela chuva, é parte de uma visão excessivamente otimista do mundo. Ledo engano, sequer se trata de uma visão de mundo. Quando se fala em poesia, não estamos tratando de ideologia ou de maniqueísmos acerca das coisas da existência. A maioria das chuvas passam despercebidas, na maior parte do tempo os prédios são apenas  prédios e não há tempo para observarmos o pôr-do-sol. Trata-se, então, de uma experiência estética, onde abrimos o nosso corpo ao mundo, para que as pequenas coisas nos atrevessem e nos atinjam com toda a sua plenitude possível. A partir disso, cheios de sensações, transbordamos. E quando transbordamos, nascem os versos, as estrofes, as linhas, os poemas e todos os outros tipo de manuscritos sinestésicos... 
(Não carregamos o fardo que a obrigação de uma visão provocaria, palavra é sempre elemento que já nasce voando...)
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

terça-feira, outubro 04, 2011

Revelações da MPB - Marcelo Jeneci e Monique Kessous





Bom... da Monique Kessous eu não encontrei clips. Então, seguem dois vídeos de gravações mesmo.



sexta-feira, setembro 30, 2011

Aforismo Poético Nº 49 - Quando o sol se esvai...




Por vezes a poesia tem a estranha mania de atravessar meus espaços de tempo ocupados. Como quando atira meus olhos ao alto, me faz sentir o cheiro inesperado do céu avermelhado e me remete a idéia de que as vezes a simplicidade de um restinho de dia, tem mais valor do que dias inteiros...
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

quinta-feira, setembro 29, 2011

Prosa sobre o desejo.


Viver é um passeio intrépido por dentro de espetáculos onde todos se esmagam atrás dos esmeros dos próprios confeites. Nascemos seres livres e somos sempre condenados a descobrir o furor do tempo, que vai tecendo recorte por recorte e dando sentido a geometria da existência. Somos passistas de uma ciranda desconhecida onde mora escondida uma espécie de beleza esquecida. A de que passear neste grande vazio de sentidos não é outra coisa, se não estar submerso no desejo, coisa impulsionadora do ir e vir, e verdadeiro maestro do mistério da imprevisibilidade mundana... 

(Antônio Alberto P. de Almeida.)










Fonte da foto.

terça-feira, setembro 27, 2011

Aforismo Poético N 48 - Sobre o amor.

O amor é algo que pode existir em diversas dimensões entre a fantasia e a realidade...
(Antônio Alberto P. De Almeida)

quinta-feira, setembro 22, 2011

Prosa sobre um dia frio.




17/09/2011
Aquele era um dia estranho na cidade. O frio era intenso, sacudia as portas, mas a chuva insistia em não cair. Aquele era um dia estranho pra ele, que em particular, gostava da fuga da rotina que  estes lhe proporcionavam. Detestava o ar quente da sua cidade, gostava de quando a temperatura baixava, e lhe remetia a sensação de estar em outro lugar. Outra cidade, com outras pessoas, outra cultura, outros pensamentos. Mas a cidade ainda era a mesma, com as mesmas pessoas, a mesma cultura, e os mesmos pensamentos, os quais nunca partilhou com muito gosto. Aquele seria apenas mais um pedaço de tempo que queria quebrar a constância da rotina, e talvez, pela primeira vez, fizesse isso com tanta veemência. Algo havia mudado na vida dele. Soava como um final de um ciclo, mas poderia ser apenas um retrocesso a algum lugar que ele não queria voltar. Ele não sabia sobre o futuro, ninguém nunca sabe. Não acreditava em cartomantes, em astrologia, em religião ou coisas similares. Naquele instante, só restava em ti as próprias sensações. E elas eram estranhas, apesar de entrar em contraste com o mar revolto que a força da ventania proporcionava. Era uma sensação de calma intensa, em nada lembrava as dificuldades dos dias anteriores. Era sim, um dia estranho. Tão estranho, que passou diante da mulher espantada, que estava sendo assaltada, e não sentiu medo. Nada parecia ser capaz de desconstruir a sua paz interior. Se era o frio que lhe proporcionava esta sensação não sabia. Sobre nada sabia, além do seu próprio presente. Andou, andou, e parou no ponto de ônibus, em busca de respostas. Percebeu que no vidro em frente a ti, refletia uma propaganda que estava atrás de ti, que provavelmente nunca repararia. Ele estava dentro da propaganda do banco. Era assim que se sentia naquela sociedade, como um produto. Sua vida em nada lembrava o filme de arte romântico, que acabará de assistir - embora sua alma estivesse em plena sintonia com a poesia das cenas, ela não era passível de ser alcançada mais. Seu espírito não estava em sintonia com os valores daquela sociedade, que representavam perfeitamente a idéia de estar dentro do anúncio de um banco. Era o reflexo, era uma montagem, mas era também a realidade. Há uma máxima do senso comum, que diz que espelhos não mentem, é verdade. Nada disso parecia ser alegre ou triste, eram apenas mais alguns fato banais da vida. No fundo a vida é toda composta de banalidades. Mas, se por ventura fosse triste, nem a tristeza poderia ser expressa naquele lugar mais. Grande parte vivia da aparência forçada da própria felicidade. E assim, a vida continuava certamente o frio passaria logo para dar lugar ao sol escaldante, que detestava, e a rotina voltaria, enfim, levando os dias estranhos embora. Que graça, teria então? Mais valiam os dias estranhos, do que a rotina enfadonha, que em nada proporcionava momentos artísticos. Era assim que pensava. Não existe pensamento certo ou errado. Mas existem pensamentos aprisionados e livres. A arte é a expressão do pensamento livre. E assim funcionava para ele, aquele momento, como a chance de viver algo que nunca fora vivido até ali, e que certamente nunca mais seria vivido daquela forma. E a chuva passaria, é verdade. Mas ainda havia a noite, a lua, as estrelas. Aquela seria uma noite longa. Mas a sensação era de plenitude. Noites longas nem sempre são feitas de lágrimas ou insônia. Há os que estão aptos a contemplá-la. E, então, surgiria o dia. E a noite de novo. E o dia. E os dias passariam. E ele chegaria em algum lugar novo, não sabia aonde. Mas tinha a certeza que iria chegar. Era apenas o começo. Começos são chatos. Sejam em livros, novelas, jornais. Começos são sempre começos. E aquilo era o significado principal, apenas um dia estranho que representava um começo. Só, somente. Haveriam outros começos, já tinham havido outros começos. E talvez o vento estivesse ali, para levar tudo aquilo que o passado representou embora, para longe. E a chuva chegaria, para varrer as sensações imundas, para lavar a alma. Era só o começo da noite de um dia estranho, no relógio apontava 19:27. As expectativas sobre aquele dia não eram lá grandiosas. E não precisavam ser mais, tudo que haveria de acontecer, já havia acontecido, e terminava com o ponto final de um texto, em paralelo aos três pontos de continuação da vida. E, enfim, era a hora de seguir em frente, só. Isso sempre basta. Tudo é simples, as pessoas que gostam de complicar. É verdade, que a vida não teria graça sem as fantasias, mas enfim, era o momento de se chegar ao fim, e aquele era um final de algo que definitivamente não acabava ali.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, setembro 18, 2011

Uma maneira de se cativar uma alma.




Não há outra maneira de cativar uma alma, se não com a mesma sensibilidade que um jardineiro cultiva a sua flor preferida. Não precisamos de ferramentas mágicas,  podemos apenas utilizar carinho. Em alguns momentos bastará que passemos nos rostos, em outros será necessário que seja no corpo inteiro. O tempo nos ensinará que assim cativamos sorrisos.E quando tivermos a sensação da sinceridade límpida, aquela que nasce do fundo da alma, de nada mais precisaremos... 
(Antônio Alberto P. De Almeida.)

sábado, setembro 17, 2011

Medianeras- - um dos filmes mais bonitos que já vi.



Sinopse: Mariana, Martin e a cidade. Os dois vivem na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro, mas nunca conseguem se encontrar. Eles se cruzam sem saber da existência do outro. Ela sobe as escadas, ele desce as escadas; ela entra no ônibus, ele sai do ônibus. Eles frequentam a mesma videolocadora, sempre com um stand de filmes os separando. Eles sentam na mesma fileira em um cinema, mas a sala é escura. A cidade que os coloca juntos é a mesma que os separa.

quinta-feira, setembro 15, 2011

As pantufas da alma.




Questiono-me como seria concebido um par de pantufas para a alma. Debruço sobre a banalidade da minha própria questão. Reconheço a minha própria ignorância. Sei apenas que a alma é nua e se assemelha a uma ventania. Coisa estranha que caminha entre ser brisa ou tormento. Que  pode ter a serenidade da lua e iluminar o céu, sem ninguém notar. Pode ser o afago prestes a tocar no coração que passa reto, ligeiro, despercebido. Ou pode ser a protagonista da tarde bonita, quando ilustra cenários do amor recém-descoberto. Que dirão os poetas da alma? Que ela é essência, espírito ou apenas poesia? Seria apenas um nó misterioso que se entrelaça com a vida? Ou espécie de sensibilidade... Tão bem escondida dentro do ser? Ou a coisa profunda, espécie de porão do existir? Onde se escondem os segredos mais obscuros? Questionamentos infinitos... Fico apenas com a  idéia de algo que se metamorfoseia constantemente, e que por ter nascido do vento, não lhe cabe um par de pantufas, mas uma dose de sentidos apurados, para que a escuta do invisível não se torne coisa despercebida e inteligível...
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

quarta-feira, setembro 14, 2011

É possível ser pleno?




Nem sempre podemos ser inteiros. Como Cecília Meireles disse certa vez: aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Creio que precisamos apenas aceitar a idéia simples de que as vezes a vida nós cobrará uma mão, um braço, ou até mesmo a nossa alma, e precisaremos doar e nos dar, muitas vezes a troco de nada - e isso jamais destituirá a nossa plenitude. Há uma diferença entre estar pleno e ser inteiro. Ser pleno significa ter o ser e a vida em comunhão com uma conexão sinestésica profunda - embora isso não signifique necessariamente estar feliz. A roda das sensações faz parte da plenitude. Ser inteiro, ao contrário do estar pleno, significa nunca ter arriscado, nunca ter doído, nunca ter se jogado sobre as cercas de arame farpado da existência - significa, em poucas palavras, ter deixado de lado a parte mais interessante da experiência do viver...
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

domingo, setembro 11, 2011

Poemas e crianças.




Poemas e crianças.

Preste atenção nas crianças.
Veja como são sublimes os
Seus passeios sobre as metáforas
Das existências humanas.
Que mundo bonito. Onde nuvem 
Pode ser algodão-doce. Onde as
Folhas das plantas viram objeto
De observação e brincadeira. E
No final todos viram heróis.
Fatos incomuns que evidenciam
Algo sublime - embora esquecido:
É o processo de desenvolver
Que endurece e liquida o ato
Poético da imaginação, para
Muitos e muitos. Alguns 
Resistem, estes viram poetas.
Mas, poeta não é apenas quem
Evidencia a literatura em verso.
Poeta é um ser simples. 
É aquele que enxerga. É um
Ser que faz viver em si, uma
Literatura dentro das coisas da vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)