quarta-feira, dezembro 24, 2008

Setps solicita aumento de tarifa de ônibus

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps) encaminhou ofício para a prefeitura solicitando reajuste de 22,5% da tarifa de ônibus. Com isso, as passagens passariam de R$ 2 para R$ 2,45.

O secretário municipal de Transportes e Infra-Estrutura, Almir Melo Jr, considerou fora da realidade a reivindicação, mas declarou que analisará as planilhas das empresas de ônibus para definir o índice de reajuste, que será anunciado nos próximos dias.

A última majoração das tarifas foi autorizada em 19 de janeiro de 2007. Na ocasião, houve aplicação do índice de 17,65% (o preço subiu de R$ 1,70 para R$ 2). Se este percentual for concedido, as passagens custarão R$ 2,35.

De acordo com o secretário, a questão deve ser conduzida como política pública e não apenas de forma pontual. Por isso, está se buscando o barateamento da tarifa de todas as maneiras, como a redução do excesso de gratuidades e a negociação para a diminuição do ICMS incidente sobre o óleo diesel com a Secretaria da Fazenda estadual.

Reação do usuários – Ao tomar conhecimento do ofício encaminhado pela prefeitura, A TARDE percorreu pontos de ônibus da capital para saber a opinião dos usuários. A vendedora de planos de saúde Silvana Araújo, 29 anos, considera um absurdo o provável aumento. “É muito ruim ter que pagar mais por um transporte sem qualidade, que está sempre lotado. Pego ônibus quatro vezes por dia e é sempre a mesma coisa. Um serviço péssimo”, reclama.

Para o office-boy Jailson Barreto, 34 anos pela precariedade do transporte de massa oferecido em Salvador, seria um desrespeito aumentar a passagem. “Pego uns seis coletivos por dia. O que a gente vê são carros muito ruins mesmo trafegando por aí. Os coletivos andam lotados e o serviço não melhoria. Ainda por cima essa obra do metrô, que já tem vários anos e não sai”, disse.

Outra passageira que vê com muita contrariedade o possível aumento da tarifa de ônibus é a secretária Solange Souza, 27 anos. “Moro em São Thomé de Paripe e trabalho perto do Iguatemi. Depois ainda vou para a faculdade. Tenho que tomar cinco ônibus por dia. O pior é que os coletivos estão sempre lotados. É muito difícil a vida de quem anda de transporte em Salvador. Não tem conforto nenhum. É uma situação que a gente tem de conviver, porque nada muda”, queixa-se a secretária.

Fonte: http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=1037014

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Aprenderam a fazer esse tipo de coisa nas férias.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Indagações acerca da natureza humana.

Conheci, certa vez, um empresário paulista que se dizia socialista. Segundo ele, o socialismo era uma bela idéia, porém impossível de ser concretizada. Dizia ele que "o homem tem uma natureza que não permite que ele seja justo. Igualdade e fraternidade são apenas ideais. O homem é ambicioso e compete com os outros para ver quem vai sobreviver. Por isso sempre haverá guerras e maldades. Foi a natureza que nos fez assim. Está em nossos genes."
É interessante verificar que muitas pessoas, e não apenas o empresário paulista, pensem que homem já nasce feito. Esse, talvez, seja um dos maiores empecilhos para que o próprio homem acredite que pode mudar a sociedade, já que qualquer sociedade, necessariamente, será injusta, com os homens lutando entre si para ocupar os melhores espaços.
A história da humanidade talvez possa nos indicar o caminho para entendermos quem somos e se é impossível mudarmos nosso modo de ser. Vamos a alguns exemplos.
O MENINO SELVAGEM DE AVEYRON
Em setembro de 1799 um menino, de cerca de 12 anos de idade, foi encontrado perto da floresta de Aveyron, sul da frança. Estava sozinho, sem roupa, andava de quatro e não falava uma palavra. Aparentemente fora abandonado pelos pais e cresceu sozinho na floresta. O menino, a quem lhe deram o nome de Victor, foi levado para paris, onde ficou aos cuidados do médico Jean-Marc-Gaspar Itard. Durante 5 anos o Dr.Itard dedicou-se a ensinar Victor a falar, a ler, a se comportar como um ser humano, mas seus esforços foram em vão. Pouco progresso foi conseguido durante esse tempo. Victor nunca falou e aprendeu a ler somente uma palavra (leite). Não era mais o menino selvagem de quando fora encontrado mas, também, não se tornou humano.
O ENIGMA DE KASPAR HAUSER
Kaspar Hauser apareceu para a sociedade em 1828, numa praça do centro de Nuremberg. Tinha cerca de 16 anos de idade e falava de modo confuso; suas palavras eram pouco inteligíveis. Sua vida passada era um mistério, porém tudo indica que ele vivera preso em um celeiro desde havia nascido. Teve pouco contato (ou talvez nenhum) com outros homens. Da mesma forma que Victor, Kaspar foi educado por seu tutor e, ao contrário de Victor, aprendeu a ler e escrever, pelo menos num certo nível em que era possível a comunicação com outras pessoas. Seu raciocínio, contudo, não foi muito adiante. Continuava a ser a mesma criança do dia em que fora encontrado. Sua visão não enxergava em perspectiva e também não conseguia apreender conceitos abstratos, como Deus e religião, apesar dos esforços de padres e educadores. Morreu 5 anos depois, assassinado, e seu passado misterioso nunca foi desvelado.
AS MENINAS-LOBO DA ÍNDIA
Em 1920, o reverendo Singh encontrou, em uma caverna, duas crianças que viviam entre lobos. Suas idades presumíveis eram de 2 e 8 anos. Deram-lhes os nomes de Amala e Kamala, respectivamente. Após encontrá-las, o rev. Singh levou-as para o orfanato que mantinha na cidade de Midnapore. Foi lá que ele iniciou o penoso processo de socialização das duas meninas-lobo. Elas não falavam, não sorriam, andavam de quatro, uivavam para a lua e sua visão era melhor à noite do que de dia. Amala, a mais jovem, morreu um ano após ser encontrada. Kamala viveu por mais oito anos sem, contudo, aprender a falar, ler, usar o banheiro ou a ter qualquer comportamento que pudesse ser considerado próprio de seres humanos. A única emoção que demonstrou em todos esses anos foi algumas lágrimas que caíram de seus olhos, no dia em que Amala morreu.
O que esses exemplos (e muitos outros que poderiam ser citados) têm em comum é que eles retratam pessoas que foram privadas de contato humano durante sua infância. Sem contato humano não conseguimos nos tornar seres humanos de fato: a aparência pode ser humana, mas o comportamento é de outra espécie. O homem, portanto, só pode ser homem se viver em sociedade. Por outro lado, o tipo de sociedade em que vivemos vai determinar, de modo geral, o tipo de pessoas que seremos. Uma sociedade de ladrões vai gerar mais ladrões; uma sociedade voltada para o lucro e competição gera indivíduos ambiciosos e egoístas; uma sociedade injusta gera indivíduos sem caráter; uma sociedade baseada na justiça e cooperação gera indivíduos bons e felizes.
Não temos a possibilidade de optar entre viver ou não em sociedade, mas, pelo menos, podemos escolher qual o tipo de sociedade em que desejamos viver.
Fonte: http://www.geocities.com/jaimex54/Natureza.html

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Marx?!

O filho de um empresário modesto do ramo de calçados, resolveu-lhe tirar da sua sensação de monotonia do sábado pela manhã,com uma questão um tanto fora do convencional:
-Papai, quem é Max?
O pai, que estava tomando café na hora, se engasgou. Depois de sucessivas tosses, disse-lhe:
-O QUÊ?! Karl Marx?! Quais lugares você andou frequentando?
Rapidamente, a empregada que estava na área de serviço, inteferiu:
-O único lugar que ele tem ido é na casa do vizinho, senhor.
-Eu sabia, eu sabia. Aquela casa cheia de comunistas é uma má-influência para o meu filho. Mas, eu vou lá tirar satisfação com aqueles infelizes!
Vinte minutos depois, o pai se dirigiu a casa do vizinho e tocou a campainha. Depois de um longo tempo de espera a porta se abriu:
-Bom dia..
-Olhe aqui seu marxista vagabundo, pare de ensinar coisas erradas ao meu filho. Ele me veio questionar quem era Marx, culpa sua!
Sereno e tranqüilo, ele respondeu:
-Ele deve ter questionado-lhe quem é Max. É o novo porteiro. Estava fazendo um serviço aqui em casa ontem de noite...
(Antônio Alberto P de Almeida.)

quarta-feira, dezembro 17, 2008

João e Mariana

João era João
João tinha nome de gente
João era um cara legal
João era simplesmente João.

Mariana também era Mariana
Mariana também tinha nome de gente.
Mariana era meio chata
Bem... Mariana não era simplesmente Mariana.

João conheceu Mariana
João quis Mariana
João desejou incessantemente Mariana
Mariana não quis João
Mariana achou João meio sem graça
Mariana mandou João para o inferno

João se frustou e Mariana riu
João se afogou no mar do amor
João conheceu o inferno de Mariana
E na vida de Mariana nada mudou
Mariana viveu e viveu
E tantas outras vezes, fingiu que amou.
(Antônio Alberto P de Almeida.)

terça-feira, dezembro 16, 2008

As políticas

Numa movimentada loja de departamentos em época de natal, um dialógo se iniciou após a queda de uma árvore na rua que ficava em frente a loja:
-Essa cidade está um caos. Buracos, assaltos, árvores mal cuidadas. Estamos vivendo no inferno. Antigamente as coisas não eram assim.
-É o descaso desses governantes corruptos, por isso essas coisas estão acontecendo...
-Concordo. Aquele último prefeito, comunista , nunca deveria ter sido eleito. Tenho saudades do tempo da revolução, tempos limpos, de prosperidade.
-Que revolução?
-A de 64.
Assustado com o que ouviu, o jovem categoricamente retrucou:
-Revolução o quê? Aquilo foi uma ditadura. Prefeito, comunista? Ele é um neoliberal!
-Sim, meu filho. Naquela época as pessoas podiam sair na rua. A polícia era combativa e a vida era melhor. Mas se você prefere chamar de ditadura..
O jovem se aborreceu:
-O senhor sabe quantas pessoas morreram e foram torturadas? Quantas famílias tiveram sequer a chance de enterrar seus filhos? E ainda chama aquilo de "revolução"?
-Eram comunistas sujos, terroristas. Essa tal de Dilma Russef mesmo, assaltou um banco e quer virar presidente. Olhe o tamanho da anarquia em que vivemos!
-Eles lutavam pela nossa liberdade, por isso tinham que usar esses meios.
-Isso é o que eles diziam, na verdade eles lutavam pra instaurar um governo totalitário e escravizar a população para servir aos próprios interesses.
-Governo totalitário era esse que você está defendendo!
O velho se irritou:
-Naquela época você nem era nascido! Pare de tentar falar sobre coisas que você não viu. A culpa são desses historiadores marxistas que deturpam tudo!
-Pois eu me recus..
No momento em que o discussão ia esquentando, uma senhora falastrona que fazia compras na loja, interrompeu a conversa:
-Eu adoro esses assunto. Eu tava no interior uai, fazendo campanha pro prefeito de lá. Mas eu já gosto dessas coisa.
-Em que interi..
Extremamente afobada, ela interrompeu de novo:
-Mas eu odeio esses negoço de político. Eu gosto é da algazarra moço. Da folia que é a política.
(Antônio Alberto P de Almeida)

segunda-feira, dezembro 08, 2008

domingo, novembro 30, 2008

Professor Relativista X Aluno Atento

Em uma das inúmeras salas de aula do CEUB, entrou, apressadamente e com ar de quem traz uma grande novidade, o professor (chamemo-lo de) Silvério.
Sentou-se em sua prestigiosa cadeira (não muito diferente das nossas) e começou sua aula. No meio das leis e normas, dos princípios e lacunas (que permeiam a carreira jurídica), lançou a criativa e inovadora frase que durante muito tempo ele esperava a ocasião propícia de expor: “A verdade não existe, ela é relativa”.

Seus olhos refletiam aquela sabedoria própria aos grandes mestres. Nem Aristóteles, no auge de seus conhecimentos filosóficos teria pronunciado sentença mais justa e erudita! Era verdadeiramente um homem que se fazia respeitar por sua capacidade intelectual...
Entretanto, um de seus alunos se levanta e toma a palavra:

- Permita-me discordar, professor? Seu pensamento é contraditório!
O professor, surpreso de que alguém duvidasse de seus talentos filosóficos, retrucou:
- Errado? Ora, você não percebe que tudo é relativo? O que é verdadeiro para mim não precisa ser verdadeiro para você. Cada um tem a sua verdade! Por exemplo: houve épocas em que se pensava que o Sol girava em torno da Terra. Para aqueles homens, a verdade era essa! Se a verdade não mudasse, até hoje nós estaríamos com o mesmo pensamento. O que prova que não existe uma verdade absoluta, imutável, fixa e estagnada. Ela varia de acordo com a História e a Geografia!
Enquanto falava, seus modos demonstravam o gosto da discussão que imaginava vencida. Afinal, os argumentos pareciam bem difíceis de serem respondidos.

- Mas, professor, o Sol girava em torno da Terra naquela época? O fato de alguém pensar diferente da realidade não altera a realidade! A verdade não mudou, apenas foi descoberta posteriormente. E, depois, sua frase é contraditória em si mesma!
O aluno, então, foi até o quadro e escreveu: “A Verdade é Relativa” e perguntou com tranqüilidade:

- Professor, essa frase: “A Verdade é Relativa”, é verdadeira ou falsa?

O professor não teve saída. Se respondesse que era verdadeira, reconheceria ele que a verdade existe. Se respondesse que era falsa, reconheceria que é falso seu argumento e que, portanto, a verdade existe.

Não se deixando dobrar, retomou a sua aula e continuou falando das lacunas do Direito. Ao que parece, esse tema ele não achava relativo...

(Autor anônimo.)

terça-feira, novembro 11, 2008

Fragmentos de uma história de amor.

(...)
Ele a amava, e acreditava que ela também o amava. Viveram um amor desses cheios de confusões. Numa noite ela executou o abandono premeditado por um longo período. Ele nunca imaginaria que aquilo fosse ocorrer, e quem disse que a vida trabalha com previstos? Restaram duas coisas para ele, a caneta e o papel e o resultado foi um desabafo, que nunca haveria de ser lido:
“Crepúsculos a sois e noites escuras na falta do que és e do que sois sem tu.
Se tu não eras o que eu imaginei, admitirei que errei. Mas se era, porque erras? Num caminho errante se vai e me deixa numa espécie de sol escaldante, esperando a volta que não vai acontecer. Sabe, já passei por muitas chuvas na vida e sinto sem o meu canto, sem o meu resguardo.
Porque despertaste todo esse amor e agora me desesperas? Agora partes e a única coisa que me resta é um mero adeus escrito num papel. Tamanha crueldade deixa-me completamente sufocado, onde tu estás agora?
Sei que tu nunca irás ler as minhas confidências, e eu partirei para uma nova vida, completo erro dedicar a minha existência por tão longo período a ti, criatura maléfica e traidora.”
(...)
Num desses emplacamentos atemporais ela voltou, carregada de arrependimentos e lamentos pessoais. Ela o viu ausente. Tudo parecia estar como ela deixou naquela manhã de tantos anos atrás, um imenso sentimento de frustração consumiu-a enquanto a tempestade terminou de ilustrar o cenário melancólico daquela noite. Ela não aceitou aquilo e quis se dedicar a encontrá-lo novamente, tinha a crença no amor infinito, pleno e atemporal.
Ela dedicou e encontrou. Ele estava sozinho, trabalhando em um novo projeto quando ela chegou. Assustado, a única coisa que disse foi: “eu não te amo mais, não quero explicações, vai-te embora desgraçada”. O sol forte que ardia naquela tarde tornou-se inerte a dor dela. Ela chorou durante muitas noites e dele pra ela restaram duas lembranças, a carta e a dor. Quem nunca pagou pelos erros na vida?
(...)
(Antônio Alberto P de Almeida)

domingo, novembro 09, 2008

Da série "Barack Obama"

“Obama é bonito, jovem e bronzeado”
(Silvio Berlusconi, Primeiro-ministro da Itália.)
Depois de socialista, terrorista, muçulmano e tantos outros, eis que surge um novo e inédito adjetivo. Qual será o próximo?

sexta-feira, novembro 07, 2008

Poesia

Bebo, não bebo,
Estou embriagado poeticamente,
Tudo isso resulta em versos
Do nada sobre o incompleto.
(Antônio Alberto P de Almeida)

domingo, novembro 02, 2008

Fim da meia entrada?

Um projeto em discussão no Senado Federal pode alterar a forma como a carteirinha de estudante é utilizada atualmente para a compra de ingressos pela metade do preço. A proposta também vale para o benefício concedido às pessoas com mais de 60 anos de idade.
ntre outras coisas, o texto estabelece que a meia-entrada não valerá nos cinemas em finais de semana e feriados locais ou nacionais. Para todos os outros eventos, como peças teatrais e shows, a meia-entrada não valerá de quinta-feira a sábado, se o projeto for aprovado.
O projeto também tenta coibir a emissão de carteiras de estudante falsificadas, criando um documento único, padronizado, de validade nacional: a Carteira de Identificação Estudantil. Cria ainda um Conselho Nacional de Fiscalização, Controle e Regulamentação da meia-entrada e da identidade estudantil.
(...)
Autor do projeto original, o senador Azeredo também diz que a expectativa é que os preços caiam. "O que se espera é que haja uma redução do preço dos ingressos; essa é informação dos produtores", afirma. Sobre a limitação dos dias de validade da meia-entrada, ele tem posição contrária. "O ideal era que pudesse valer para todos os dias, mas esse foi o acordo. O mais importante, sem dúvida, vai ser a padronização da carteira em todo o Brasil", destaca.
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Fonte: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/10/31/ult5772u1301.jhtm
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Não foi ele que criou um projeto de lei para controlar a internet?

sexta-feira, outubro 31, 2008

Poética (Manuel Bandeira)

Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare


— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(Manuel Bandeira)

quarta-feira, outubro 29, 2008

Obama, socialista?

O candidato do Partido Republicano à presidência dos EUA, John McCain, acusou o candidato democrata, Barack Obama, de defender políticas «socialistas», mentindo quando diz que irá beneficiar 95% da população com a redução de impostos.
(...)
E eu achando que essa era uma idéia sem nexo que jamais seria reproduzida. Está ai onde nasceu.

domingo, outubro 26, 2008

Diálogos com uma conservadora retrógrada.

Numa bela tarde de eleição, eis que uma conservadora inspirada resolve dialogar comigo acerca da eleição, abaixo está o resultado:
"Eu não voto em Walter Pinheiro porque ele é do PT, e o PT quer implantar o comunismo do Brasil, eles estão se preparando para comprar os bancos estatais, sabe o que é isso? É comunismo. Trabalhar pra deixar tudo para o estado? Estou fora, João Henrique Prefeito."
"Estão tentando implantar o "comunismo" nos Estados Unidos, então?"
"Sim, as idéias socialistas de Barack Obama estão aí, tanto é que ele já perdeu cinco pontos."
(...)
Nem comento.

sábado, outubro 25, 2008

Conto(O Amor é uma Falácia.)

O Amor é uma Falácia
De M. Sulman

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto - era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - dezoito anos.

Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Petey, no entanto, não pensava assim.

Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.

- Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.

- Couro preto - balbuciou ele.

- Couro preto? - disse eu, interrompendo a minha corrida.

- Quero uma jaqueta de couro preto - disse.

Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.

- Por que você quer uma jaqueta de couro preto?

- Eu devia ter adivinhado - gritou ele, socando a cabeça - Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar uma jaqueta de couro preto.

- Quer dizer - perguntei incrédulo - que estão mesmo usando jaquetas de couro preto outra vez?

- Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?

- Na biblioteca - respondi, citando um lugar não freqüentado pela pessoas importantes da Universidade.

Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

- Preciso conseguir uma jaqueta de couro preto - disse, exaltado - Preciso mesmo.

- Por que, Pety? Veja a coisa racionalmente. Jaquetas de couro preto são desconfortáveis. Impedem o movimento dos braços. São pesadas, são feias, são ...

- Você não compreende - interrompeu ele com impaciência - é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?

- Não - respondi, sinceramente.

- Pois eu sim - declarou ele - daria tudo para ter uma jaqueta de couro preto. Tudo.

Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.

- Tudo? - perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.

- Tudo - confirmou ele, em tom dramático.

Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar uma jaqueta de couro preto. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um malão, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.

Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.

Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.

Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.

Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho - sem nem sequer umedecer os dedos.

Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.

- Petey - perguntei - você ama Polly Spy?

- Eu acho que ela é interessante - respondeu - mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?

- Você - continuei - tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?

- Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por quê?

- Existe alguém - perguntei - algum outro homem que ela goste de maneira especial?

- Que eu saiba não. Por quê?

Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.

- Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?

- Acho que sim. Aonde você quer chegar?

- Nada, anda - respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.

- Onde é que você vai? - quis saber Petey.

- Passar o fim de semana em casa.

Atirei algumas roupas dentro da mala.

- Escute - disse Petey, apegando-se com força ao meu braço - em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar uma jaqueta de couro preto?

- Posso até fazer mais do que isso - respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.

- Olhe - disse a Petey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.

- Santo Pai - exclamou Petey com reverência. Passou as mãos na jaqueta e depois no rosto.

- Santo Pai - repetiu, umas quinze ou vinte vezes.

- Você gostaria de ficar com ele? - perguntei.

- Sim - gritou ele, apertando a jaqueta contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. - O que quer em troca?

- A sua namorada - disse eu, não desperdiçando palavras.

- Polly? - sussurrou Petey, horrorizado. - Você quer a Polly?

- Isso mesmo.

Ele jogou a jaqueta pra longe.

- Nunca - declarou resoluto.

Dei de ombros.

- Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.

Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Petey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido em dois. Primeiro olhava para a jaqueta com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para a jaqueta. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para a jaqueta com pura lascívia.

- Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly - balbuciou. - Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.

- Isso mesmo - murmurei.

- Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?

- Nada - respondi.

- Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.

- Experimente a jaqueta - disse eu.

Ele obedeceu. A jaqueta ficou bem larga, passando da cintura. Ele parecia um motoqueiro mal vestido da década de cinqüenta.

- Serve perfeitamente - disse, contente.

Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.

- Negócio feito?

Ele engoliu a seco.

- Feito - disse, e apertou a minha mão.

Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.

O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.

- Puxa, que jantar interessante! - disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.

- Puxa, que filme interessante! - disse ela, quando saímos do cinema.

Levei-a para casa.

- Puxa, que noite interessante - disse ela, ao nos despedirmos.

Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Petey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.

Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.

- Polly - disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. - Esta noite vamos até o parque conversar.

- Ah, que interessante! - respondeu ela.

Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.

Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.

- Sobre o que vamos conversar? - perguntou.

- Sobre Lógica.

Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:

- Interessante!

- A Lógica - comecei, limpando a garganta - é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.

- Interessante! - exclamou ela, batendo palmas de alegria.

Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.

- Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.

- Vamos - animou-se ela, piscando os olhos com animação.

- Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.

- Eu estou de acordo - disse Polly, fervorosamente. - Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.

- Polly - disse eu, com ternura - o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?

- Não - confessou ela. - Mas isso é interessante. Quero mais. Quero mais!

- Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa - disse eu e, quando ela parou, continuei:

- Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.

- É mesmo? - espantou-se Polly. - Ninguém?

Contive a minha impaciência.

- É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.

- Você conhece outras falácias? - perguntou ela, animada. - Isto é até melhor do que dançar.

- Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.

- A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.

- Eu conheço uma pessoa exatamente assim - exclamou Polly. - Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique...

- Polly - interrompi, com energia - é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.

- Nunca mais farei isso - prometeu ela, constrangida. - Você está bravo comigo?

- Não Polly - suspirei. - Não estou bravo.

- Então conte outra falácia.

- Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.

- Vamos - exclamou ela alegremente.

Franzi a testa, mas continuei.

- Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?

- É claro - respondeu ela imediatamente.

- Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.

- É mesmo - disse ela, pensativa. - Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.

- Mas ele pode fazer tudo - lembrei-lhe.

Ela coçou a cabeça linda e vazia.

- Estou confusa - admitiu.

- É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?

- Conte outra dessas histórias interessantes - disse Polly, entusiasmada.

Consultei o relógio.

- Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.

Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente interessante, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.

Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.

Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:

- Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.

Ela estremeceu de emoção.

- Ouça com atenção - comecei - Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher e aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.

Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.

- Isso é horrível, horrível! - soluçou.

- É horrível - concordei - mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?

Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.

- A seguir - disse, controlando o tom da voz - discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por quê, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

- Pois olhe - disse ela entusiasmada - está e a idéia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.

- Polly - disse eu com impaciência - o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.

- Continuo achando a idéia interessante - disse Polly.

- Santo Cristo! - murmurei, com impaciência.

- A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.

- Essa parece ser boa - foi a reação de Polly.

- Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.

- É mesmo, é mesmo - concordou Polly, sacudindo a cabeça. - Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.

- Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos - disse eu, friamente - gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.

- Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes - disse Polly - Eu quase não vejo ele no cinema.

Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.

- A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.

- Que engraçadinho! - deliciou-se Polly.

- Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: ‘o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser’. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?

Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência - o primeiro que vira - surgiu nos seus olhos.

- Não é justo! - disse ela com indignação - Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar... Polly, estou orgulhoso de você.

- Ora - murmurou ela, ruborizando de prazer.

- Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.

- Vamos lá - disse ela, com um abano distraído da mão.

Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha idéia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.

Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.

Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.

- Polly, disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore - hoje não falaremos de falácias.

- Puxa! - disse ela, desapontada.

- Minha querida - prossegui, favorecendo-a com um sorriso - hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.

- Generalização apressada - exclamou ela, alegremente.

- Perdão - disse eu.

- Generalização apressada - repetiu ela. - Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?

Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.

- Minha querida - disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão - cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.

- Falsa Analogia - disse Polly prontamente - eu não sou um bolo, sou uma pessoa.

Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.

- Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. For favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.

Pronto, pensei; está liquidado o assunto.

- Ad misericordiam - disse Polly.

Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.

- Bem, Polly - disse, forçando um sorriso - não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.

- Aprendi mesmo - respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.

- E quem foi que ensinou a você, Polly?

- Foi você.

- Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.

- Hipótese Contrária ao Fato - disse ela sem pestanejar.

Enxuguei o suor do rosto.

- Polly - insisti, com voz rouca - você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.

- Dicto Simpliciter - brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.

Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.

- Você vai ou não vai me namorar?

- Não vou - respondeu ela.

- Por que não? - exigi.

- Porque hoje à tarde eu prometi a Petey Bellows que eu seria a namorada dele.

Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!

- Aquele rato! - gritei, chutando a grama. - Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.

- Envenenar o poço - disse Polly - E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.

Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.

- Muito bem - disse - você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Petey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Petey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Petey Bellows?

- Posso sim - declarou Polly - Ele tem uma jaqueta de couro preto.



( in Sulman, M. (1973): As calcinhas cor-de-

rosas do Capitão, Porto Alegre: Ed. Globo)

quarta-feira, outubro 22, 2008

Poesia

Eu Humano?

Pobres seres humanos perdidos no meio da selva
Uma droga de uma selva cinza, cheia de lobos famintos, esperando uma presa, um momento, a oportunidade, e o ataque!

A Selva já não tem mais cor, já não tem mais ar, sob o calor da seus gritos no caos, e ao buzinar pede uma solução.
E não tem mais árvores.
Há lama, preta, parda, sujeira.
Tem de tudo, mas não tem árvores.
E eu um ser humano, perdido numa selva..

Outrora, deveria estar com outros humanos.
Mas há mais desumanos.
A selva se foi e junto consigo os humanos
O que houve com os humanos? Pergunta-se o resto fadado à extinção.

O que houve com os humanos?!
..eis a questão
"Penso, logo existo" eles não pensam
Mas ainda que não pensem, e não existam
existem sem pensar, ou pensam que existem
e existem para viver, achando que vivem

O que houve com os humanos? indago-me novamente
Foram alienados, abduzidos, robotizados, lobotizados
ou tiveram a sua respectiva consciência assassinada?
Tudo junto, e ele não cai em vão.
Alienados pela própria ignorância, abduzidos pela própria incompetência
Lobotizados para própria sobrevivência.
Robotizados para agir na selva cinzenta.

Sobrevivem da própria ignorância, dos ataques incessantes...
... e da eterna felicidade efêmera, cujo nome é ilusão
São lobos prontos para atacar suas presas, inocentes e indefesas
Atacar, e satisfazer a sua fome com os poucos homens que ainda restam..

E Assim seguem as regras, e vivem sob a sua selva cinza, preta e pálida
Enquanto humanos vão tendo a sua respectiva consciência devorada
Os lobos para mais um dia de ataque
Os humanos para um dia de sobrevivência
E por de trás das cortinas, o mundo vai ensaiando seu fim...
(Antônio Alberto P de Almeida)

terça-feira, outubro 21, 2008

Você pensa?

(...) Pensar é trabalho. Raciocinar é pouco, apenas racionar idéias, contar os passos, evitar falácias, economizar processos. Pensar mesmo, que cansa, é transbordamento, perda do tempo que não temos. Pensar é imaginar e relembrar, transgredir e transcender. Pensar dá trabalho. É virar do avesso o que já estava certo. Pensar é misturar. Bom senso com não-senso, senso prático com senso moral, senso comum com senso estético. Pensar é trabalhão. Emagrece a alma. É sempre hora extra, hora extensa, hora extrema. Pensar é pensar nas horas mortas e nas horas vivas, nas horas vagas e perdidas, em cima da hora, pela hora da morte. (...)
(Gabriel Perissé)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Poesia

Algo indefinido

As cinzas de um dia que nunca acabou.
O concreto do concreto sob o concreto sem nada concreto
As incertezas de um dia em que a lua iluminou o dia e o sol se pôs pela manhã
Constelações de interrogações que pairão para sempre sobre a minha daqueles que tiveram a ilusão de ter vivido o que nunca viveram
E quem canta nessa vida em que todos vivem andando sob uma eterna corda bamba?

Tudo passa, tudo vai, uma grande miragem que nunca passará...
Que o diga aqueles que viram o fim de perto, e viveram o fim de noites que pareciam que nunca iam acabar..
Os loucos que por suas amoralidades incompreendidas conheceram a cor do chão ou da solidão..
Hai de quem queira sobreviver..
Precisa-se fazer malabares para sobreviver entre desgovernados que estão por todos os lados

Nada é mentira, tudo é verdade, uma grande mentira
Eis o retrato do circo em que nós vivemos...
Uma dicotomia do inexistente pairando sobre a existência do vento com o tempo seco
Ai de quem queira fazer diferente..
(Antônio Alberto P de Almeida)

Eleições

Eu tenho que tapar os ouvidos e fechar os olhos para conseguir votar em Pinheiro. Pelo menos ele não tem um projeto divino para a cidade...

domingo, outubro 19, 2008

Crônica(A História de um anônimo)

A História de um anônimo

Aos 15 anos tive o primeiro grande desafio da minha vida, me mudar da minha pequena cidade no interior para a capital, a cidade grande.
Logo quando cheguei na cidade grande, fiquei encantado, era tudo tão fantástico e novo para mim, prédios altos, shoppings-centers, outdoors. Parecia que eu estava em outro mundo. Fiquei muito feliz com a mudança, não gostava mesmo do interior, aquilo era muito monótono pra mim. Eu queria mesmo era ser alguém, vencer na vida. Sonhava em ser um grande pesquisador, um Rutheford , e acreditava que realmente conseguiria um dia.
A escola ao contrário da do interior, era grande e bonita, fiquei deslumbrado. As pessoas eram metidas, e não saíam dos seus grupos. Não estava acostumado com isso, tive que me adaptar, apenas um amigo me fez companhia ao longo do ensino médio, ele mudou de cidade logo após o vestibular.
Prestei vestibular apenas na universidade pública, que era uma exigência da minha família para que eu continuasse na cidade grande. Estudei muito e passei com folga, em terceiro lugar, e estava ansioso para o início do meu curso, para mim aquilo era um sonho que iria se realizar.
Logo quando iniciei os meus estudos percebi o descaso, dos professores, dos alunos descompromissados, e dos laboratórios mal-equipados. O Que era sonho, tinha virado pesadelo e meus sonhos se transformaram em desilusões. Naquele dia eu pensei muito... e conclui que estava sozinho no mundo, desiludido, desencaminhado e desenganado.
O Tempo foi passando, completei duas décadas... e em um domingo de tarde decidi ir numa sorveteria. Numa dessas peças que o destino prega, vi uma garota com um livro de física na mão e resolvi questioná-la, começamos a conversar e não paramos mais. Marcamos outros encontros e eu acabei me apaixonando. Quando eu achava que ia ser correspondido, ela me revelou que era lésbica. Mas apesar disso, eu ganhei o que realmente precisava naquele momento da minha vida, uma grande amiga.
Uns dois anos se passaram desde aquele dia na sorveteria, eu continuava apaixonado por ela, e foi quem realmente me apoiou naquele tempo . Mas num dia qualquer, ela disse que teria que mudar de cidade, e que me daria notícias, nunca deu. Caí em depressão profunda, era ela quem eu realmente amava e queria ter ela ao menos por perto.
Me recuperei com a ajuda de alguns conhecidos da universidade e conclui o meu curso de bacharelado em química, e posteriormente o de licenciatura. Estava atirado ao mercado, era a hora de buscar um emprego.
Depois de muitas tentativas, consegui um emprego de professor num pequeno colégio particular. A minha missão era ensinar Ciências para a sexta série. Descobri dois grandes defeitos meus com essa experiência, era muito lerdo e um péssimo orador, ou seja não daria para ser professor. E não deu outra, fui demitido por incompetência. Minha família ameaçava cortar a minha ajuda de custo, e caso isso acontecesse eu teria que voltar para o interior para cuidar de gado.
Desesperado, procurei emprego como vendedor em lojas, apenas para me manter na cidade. Consegui um numa pequena livraria. Ela funcionava em um shopping pequeno, que quase não tinha movimento e tinha apenas eu de empregado. Aproveitava o tempo livro para ler sobre química. Porém, Passei pouco tempo ali, num dia qualquer folheando os classificados encontrei uma oportunidade de trabalho melhor. Consistia em ser auxiliar de supervisor em um laboratório de análises químicas que estava abrindo na cidade.
Liguei, marquei, e fiz a minha entrevista, e depois de alguns dias de muita ansiedade, recebi a notícia de que tinha sido selecionado. O Salário não era lá essas coisas, mas era o meu primeiro emprego na área. O meu sonho de um dia vim a ser um Rutheford, aos poucos voltou.
Praticamente não dormi na noite que antecedeu o meu primeiro dia de trabalho. O Sol estava nascendo quando eu me levantei para tomar o café da manhã. No jornal como sempre, passava as mazelas do dia anterior mas nada naquele dia estragaria a minha felicidade. Arrumei-me e caminhei para o ponto pegar o ônibus, dei "bom dia" para o porteiro que estava de mau humor, "bom dia" para o cobrador que também estava de mau humor. Não conseguia entender como aquelas pessoas conseguiam estar assim, num dia de sol tão belo, e tão feliz, ao menos pra mim.
Ao chegar no laboratório fiquei fascinado ao ver tantos pesquisadores renomados e mais ainda, em ter a oportunidade de trabalhar com eles. Fui logo recepcionado pelo meu chefe, que me orientou aonde e como eu iria trabalhar. Eu já havia ouvido falar nele, e disse que seria um prazer puder trabalhar com ele. Para o meu espanto, ele respondeu de forma amigável e disse que assim que tivesse tempo me convidaria para um bate papo sobre química, me senti lisonjeado com isso.
Apesar de tudo, o meu dia de trabalho foi apático e eu fiquei cabisbaixo, o meu trabalho ao contrário de mim, era algo mecânico. Meu objetivo mesmo era trabalhar com pesquisa, descobrir novas coisas. Naquele momento eu pensei em abandonar tudo e voltar para o interior para cuidar de gados, porém a minha jornada na cidade já havia sido um desastre muito grande para eu desistir, decidi que agora eu iria até o fim.
Peguei o ônibus para voltar para casa no horário de pico, estava lotado. Eu me encontrava praticamente dormindo, quando dois homens fortemente armados entraram e anunciaram um assalto. Eles gritavam muito, estavam extremamente nervosos e deram a ordem para que todos se deitassem no chão . De repente um policial à paisana sacou uma arma, atirou em um dos bandidos, e em seguida iniciou-se um tiroteio. E Quando fui perceber, estava sob uma poça de sangue. Era o meu fim, a minha morte.
Eu não era perfeito, nunca fui. Mas a minha jornada não fez jus a minha história, ela foi um desastre. Mas não digo que tive azar. Fui apenas mais uma vítima dentre milhões. A maioria das pessoas que morreram como eu, são anônimas e morreram anônimas. Digo a maioria por que elas não faziam parte das elites. Sofri com muitas coisas, o descaso com a educação e a universidade, o estado inoperante, o bandido e a polícia. Morri como um anônimo sim, fui apenas mais um número para a estatística e uma nota para o rodapé do jornal. Fui vítima dos que eram vítimas da sociedade, e os grandes culpados nunca foram condenados e nunca serão. Mas o grande sonho da minha vida, era um dia ter sido alguém que fez algo notável pela humanidade, e não cumpri. Vivi em vão.
(Antônio Alberto P de Almeida)

Início..

Publicarei nesse espaço textos e pensamentos, meus ou não, que eu achar que devo divulgar. Começarei com uma crônica que eu mandei para o Palavra Vida(concurso literário do colégio) desse ano.