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Mostrando postagens de julho, 2021

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 33)

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Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 33. Planta (3)

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 32)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 32. Planta (2) Havia duas semanas que a planta não recebia água. Seu dono teria viajado? Do outro lado da sala, o orégano, a salsinha e o alecrim estavam nas últimas, sequinhos, estirados na terra esturricada. É verdade que todos tinham sido mal-acostumados pelas borrifadas diárias de água mineral, plantas de prédio. Nunca aprenderam que a chuva não caía sempre, sobretudo naquele ano de 2014 em São Paulo. Apenas o manjericão resistia um pouco mais dignamente, valendo-se de seus caules espessos. Era uma planta com um plano: fugiria do vaso.

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 31)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 31. Planta (1) Ela chegou ao apartamento toda enrolada num plástico escuro, mas já causando o maior escarcéu, soltando uns tantos torrões de terra preta no tapete. Media cerca de quinze centímetros, sem contar as raízes, uma mudinha ordinária que não prometia nada, ainda mais com aquela folhagem rala, murcha e toda furadinha devido à gula das lagartas. Para compensar a desvantagem inicial, ganhou um vaso enorme, um lugar sob o bom sol da manhã e todas as atenções de seu dono. Chamava-se manjericão na horta amadora, Ocimun basilicum na floricultura, e basílico ali pela freguesia dos Jardins, que aprecia exclusividade e distinção. Qualquer um com um pouco mais de conhecimento empírico de plantio reconheceria esse vegetal egoísta, que assassinaria sem dó qualque...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 30)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 30. Inara (3) — Doutora, eu agradeço demais o seu interesse pelo meu caso. Vou te dizer que aquilo foi um circo, ninguém investigou os fatos como manda a lei. Eu logo vi que só queriam arrumar um culpado qualquer pra encerrar o caso o quanto antes, e sobrou pra mim. O interrogatório foi assim. Ele: Nome? Eu: Inara Tavares. Ele: Idade? Eu: 28 anos. Ele: Profissão? Eu: Enfermeira. Ele: Estado civil? Eu: Divorciada. Ele: Qual era sua relação com o falecido Luan Onório Limenha? Eu: A gente saiu durante um tempo, e eu fiquei grávida do meu menor, o Luccas. A gente nem sabia ainda da gravidez quando o Luan sumiu. Desapareceu sem dar nenhuma explicação. Um ano depois reapareceu, disse que tinha voltado por mim e pelo bebê, mas daí já era tarde. Eu já est...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 29)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 29. Inara (2) Desde os treze anos, Inara gostava de especular sobre os prazeres da maternidade. Jurava para seus bebês imaginários que seria tudo aquilo que ninguém tinha sido para ela. Aos quinze, apareceu a oportunidade de provar que ela falava a sério. Na época, namorava Edilson, que não era adepto dos preservativos modernos e confiava além da conta em métodos como a oração e o chá de arruda para limpar os líquidos nocivos à saúde e ao planejamento familiar. Que merda, e agora, Naná? Agora a gente cria ela. Como você sabe que é menina? A tia Arê viu pra mim numa simpatia que não falha. Por mim essa criança não nasce, você sabe que não tenho dinheiro pra nada. Não fala assim que é pecado, Ed, é a nossa filha! Eu não quero, minha ela não é. Nesse dia, Inara ...