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Mostrando postagens de junho, 2021

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 28)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 28. Inara (1) A primeira vez em que Inara apareceu na TV foi uma choradeira só, antes, durante e depois. A avó a levou a um desses programas de auditório em que o povo lava a roupa suja ao vivo e a cores, uma fase triste da mídia brasileira que teve seu pico ali pelo fim dos anos 1990 e que, esperamos, deve se extinguir a qualquer momento, assim que o bom senso se tornar lucrativo. O tema daquele dia era “Você que fez, você que crie”. O “você”, no caso de Inara, seria mais correto no plural, porque se referia ao pai e à da mãe da menina, que sumiram no mundo e deixaram o pepino para a avó. O pepino era Inara, que, há de se admitir, não era de todo ruim, criança obediente e tudo o mais. O problema era isso de ela precisar comer, vestir e calçar, que demandava ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 27)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 27. A inominada (3) Bizarra aquela japinha de cabelo igual ao do Sonic, pensou Leandro, mas quando percebeu que ela não era a arruaceira que supusera à primeira vista, até que ficou com vontade de conhecê-la melhor. Fizeram à moda americana, já que ela era fã de Mom I became a Spider, Trends, Text to Nicky e seriados afins. No primeiro encontro, foram ver um filme do Studio Gigi no cinema. Parece que houve milhares de beijinhos durante os créditos finais, só pararam quando a luz acendeu e eles se perceberam os últimos sobreviventes na sala. No segundo encontro, assistiram a uma peça experimental inspirada em pinturas do Goya. Ele ficou um pouco cabreiro com as bruxas, mas fingiu que segurou firme a mão dela por puro romantismo. No fim do mês, já tinham experi...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 26)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 26. A inominada (2) Foram muitas conversas tarde da noite entre o pai e a mãe. A garota, que só pegava umas palavras soltas através da parede comum aos quartos, pressentia que algo estava para acontecer. O anúncio se realizou, por fim, muito solene à hora do jantar: — Inominada, seu pai e eu decidimos que está na hora de você estudar numa escola melhor. Daqui a um ano você vai prestar vestibular e queremos que tenha todas as chances de seguir uma boa carreira. Amanhã vamos pra São Paulo fazer a sua matrícula no cursinho Alpha Centrum e procurar um pensionato de moças pra você morar. Que final de semana memorável aquele que passaram na capital! Matrícula feita, contrato com o pensionato assinado, toda a família, que no caso eram só os três mesmo, retornava par...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 25)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 25. A inominada (1) Aquela cujo nome nunca mais pronunciaremos nasceu e cresceu num sítio no interior de São Paulo. Foi dona de cachorros, gatos, coelhos, pássaros, vacas, cavalos, um burrico, uma fazenda de formigas, duas casas na árvore e ainda achava que era pouco. Seus dias mais felizes eram aqueles em que ela e a mãe passeavam no shopping da cidade grande enquanto o pai ia resolver a venda da colheita. Voltavam com o porta-malas repleto de sacolas e, quando as filhas do caseiro vinham fazer mexerico, a garota respondia que tinha comprado tudo em Melão, uma cidade onde nevava o ano inteiro. As outras ficavam de queixo caído. Havia uma escola rural perto do sítio, mas a inominada nunca estudou lá. De segunda a sexta, uma condução vinha buscá-la na porteira...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 24)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 24. Lúcia (3) Tirei um fim de semana pra visitar a Lúcia no Rio de Janeiro. Seu apartamento, aquilo sim, é casa de gente adulta, um desperdício que seja tão pouco usado. Ela é engenheira petrolífera, passa mais tempo na plataforma do que no duplex com vista para o mar. Disse ter ouvido uns boatos estranhos na empresa e que, por via das dúvidas, estava acionando uns contatos no exterior, em caso de. Pensei que esse tipo de insegurança não existisse no setor público, eu lhe disse. Todos pensam isso, mas o que é seguro nesta vida?, ela respondeu. Lúcia teve a paciência de fazer o tour completo comigo, já que era minha primeira vez na cidade. Frequentamos todos os cenários das músicas da Bossa Nova, não tão maravilhosos quanto nas músicas. Apesar disso, fi...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 23)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 23. Lúcia (2) Lúcia nunca nos contou que ela e o irmão tinham sido criados pelos tios. Tampouco desconfiávamos, porque ela os chamava de pai e mãe, e havia a semelhança física. Quem deixou escapar foi a imã-coordenadora-pedagógica numa conversa de corredor. Gostaria de esclarecer que não me interesso tanto assim pela vida alheia, só comecei a prestar atenção quando ouvi o nome de minha amiga. Entenda, a vida foi muito dura com a Lúcia Koeda, órfã, coitadinha, justificava a religiosa. Outra revelação daquela bisbilhotice involuntária foi o incômodo de certo professor com o jeito da minha amiga. Reclamava com a pedagoga que, veja bem, era difícil explicar, a aluna fazia tudo o que ele pedia, mal abria a boca, só tirava notas máximas, mas ela tinha aquele...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 22)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 22. Lúcia (1) Lucinha era uma boneca, os adultos diziam. Os cabelos pretos, divididos precisamente ao meio e amarrados com fitas vermelhas (pra prevenir quebrante), caíam caudalosos, amazônicos demais para a pequena sansei. Os pezitos, embalados em meias brancas rendadas e sapatinhos igualmente alvos, balançavam sob a carteira. Escrevia no caderno com capricho, revezando as cores das canetas cintilantes que ia tirando do estojo, uma por vez, e guardando logo que concluía o uso. Naquele fim de manhã, lá pela hora quando o estômago já reclama almoço, a diretora entrou na sala do Pré-III, seríssima, e todos se puseram a pensar nas travessuras recentes que talvez tivessem sido flagradas – a descarga não apertada, a caricatura a giz na calçada, as flores do...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 21)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 21. Lila (3) (Carta sobre um túmulo) Querido filho, Hoje chorei muito quando pensei que não vou poder ir no seu casamento. Ia ser lindo ver você entrando na igreja... Mas você se foi. Pouco depois o patrão velho também, como sempre fiquei pra trás. Graças a Deus, o Samuel está bom, pelo menos isso. Ele foi morar nos estrangeiros, onde pedreiro ganha mais do que um doutor do Brasil. Agora dizem que nem tanto, mas ele tá lá junto com a esposa guardando dinheiro pra fazer a casinha deles aqui perto dos seus, se Deus permitir e Ele á de querer. Eu não fui com eles só porque não tenho mais idade pra aprender outro idioma, mas eles queriam muito, eu até pensei, mas depois mudei de ideia. Deus sempre me deu força pra cuidar de todo mundo, a novidade é isso de...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 20)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 20. Lila (2) O iPhone foi um presente do filho mais velho, Samuel, um reconhecimento do sacrifício que ela fez pra pagar os 52 boletos da faculdade dele – curiosamente o ano letivo tinha oito meses de aulas, mas lhe cobravam treze mensalidades. Formado em Administração, o rapaz acaba de ser contratado por uma multinacional do ramo alimentício e já aproveitou para marcar a data do casamento. Bem diferente do irmão, Sérgio, que mal para em casa. A mãe descobriu que este tá mexendo com drogas. Torce pra que seja usuário e não traficante, na esperança de que o vício mate menos que a polícia. Ai, meu Deus, cuida desse menino, porque ela já não sabe mais o que fazer. Samuel e a noiva propuseram que Lila saísse da casa do doutor José Reynaldo e fosse morar co...