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Mostrando postagens de abril, 2021

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 10)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 10. As Meninas — Agora chega, Joel! – a Úrsula se impacientava volta e meia comigo. Joel era eu. Um dia ela veio com a ideia de que deveríamos nos chamar por apelidos e me propôs duas opções: Joel ou Migão. Com medo do que o segundo poderia derivar, aderi ao primeiro entusiasticamente. Engraçado que meu apelido continuava sendo um nome, ainda de fonte bíblica, só que mais curto. Eu até cogitei apresentar esse argumento, não fosse o Migão me assombrando. Deixei pra lá. — Tô levantando acampamento, e você vai comigo. As meninas estão doidas pra te conhecer, ninguém vai te tratar mal, não. Além do mais, essa poeira da escada todo dia na cabeça só serviu pra atacar minha rinite. Tô quase comprando ações da Melex. A espelunca tá interditada pela Vigilância ...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 9)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 9. Restart Contagem regressiva pro retorno. Como seria? O que faria? Nem dobrando as sessões semanais de terapia, Leandro conseguiu evitar a ansiedade e, paranoia após paranoia, ia alimentando seu bicho carpinteiro. E se rirem dele? E se ele recair? O pior devem ser os olhares julgadores. Não, não, as perguntas dos outros é que são um inferno. Por onde você andou? O que são esses comprimidos que você toma? É verdade o que dizem... que você ficou louco? Por que você tá tremendo e suando? Que cicatrizes são essas em seus braços? Tem falado com a Inominada? Açúcar ou adoçante? Responderia tudo isso com um sorriso prepotente. Não, com um olhar indiferente. Não, jogaria a bosta no ventilador e daria de dedo na cara de quem se atrevesse. Não, responderia tudo com s...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 8)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 8. A entrevista do século José Reynado deixou uma contribuição significativa para a literatura brasileira quando, na década de 1960, fundou a estética verista. Quem presta concursos vestibulares ou acompanha os suplementos de cultura frequentemente se depara com seu nome. Possui 42 títulos editados, alguns deles tão perturbadores que chegaram a ser banidos de bibliotecas escolares. Pais revoltados queimaram dezenas de volumes d’O cu humano em uma manifestação polêmica em 2004. Até hoje, aos 79 anos, o escritor mantém um ritmo criativo de alta produtividade. Só na última década, lançou cinco trabalhos inéditos e duas coletâneas de narrativas curtas. Além do talento literário, outro motivo para a fama em Porto Alegre, cidade onde reside há mais de 60 ano...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 7)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 7. Como tudo começou No início do primeiro ano, eu passava os intervalos escondido no vão da escada perto da capela. Não me perguntem por que, deveriam é perguntar aos outros como eles conseguiam se sentir tão à vontade naquele turbilhão chamado Ensino Médio. Nos primeiros dias, antes de descobrir o vão, eu matava o tempo na biblioteca. O problema é que ela ficava longe demais da minha sala, acabava que eu não ouvia o sinal pra retornar, distraído que estava com os livros, e chegava atrasado, chamando ainda mais a atenção dos colegas. Nerd ou rebelde, nenhum dos rótulos me interessava. Por ora, o novo abrigo vinha servindo, apesar de um pouco empoeirado. Ele me mantinha oculto todo o recreio e, quando a aula começava, eu me instalava rapidamente na minha cart...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 6)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 6. Satisfações — Eu estou ótimo, nunca estive melhor. Acho que foi uma oportunidade de parar, pensar na vida, tomar algumas decisões. Minha mãe chorou muito, mas acho que entendeu. Não, não tem condições de voltar pra casa, ali é praticamente a matriz da Igreja Planetária. Meus velhos alugaram um loft pra mim, bem bacana, estou morando sozinho agora. Você tem que vir conhecer, fica pertinho do Ibirapuera. Acredita que agora eu corro seis quilômetros todo dia? Sem parar. Quero ver se consigo dar três voltas no lago diretão. Ih, faz tempo que não vejo ninguém, cara. Saí daquele meio, venenoso demais, tava me matando dia a dia. O Jefferson eu ainda vi esses tempos, deu “oi”, mas fingiu que tava com pressa, como se ninguém soubesse que ele passa a tarde toda na b...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 5)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 5. Coleção de frases (rascunho para uma poética dos anos dez) O mundo se tornou mais complexo e variado. As pessoas exigem para si a máxima felicidade. A fonte de juventude eterna é o novo Graal da contemporaneidade. Cresce o número de horas de uso diário de celulares, computadores e outros gadgets. Centenas de amigos postam na rede comentários hilários para fugir do imenso volume de trabalho, depois recuperam o atraso trabalhando em casa, antes de dormir ou assim que acordam. O lucro da indústria de jogos supera o cinematográfico graças ao incremento do público adulto. A maioria das pessoas usa regularmente algum(ns) tipo(s) de droga lícita ou ilícita. O consumismo é o grande deus do ocidente; os shoppings, seus templos; os designers, seus santos milagreiros...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 4)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** PARTE 2: GRITO NO OUVIDO *** 4. A história do mijo   Maringá, 05 de março de 201X.   Sala de espera do aeroporto. Enquanto não chamam para o embarque, registro uma cena familiar ocorrida há poucas horas. Depois de cinco dias hospedado na casa de meus pais e tendo conversado o mínimo com eles, dona Cylvana teve um surto de culpa e quis recuperar o tempo perdido (encara essa concorrente, Proust!). A técnica desenvolvida por minha mãe consiste nas seguintes etapas. Primeiro ela inventa de cozinhar todos os meus pratos favoritos de uma vez só, e eu sou obrigado a fazer das tripas estômago pra caber aquilo tudo. O passo seguinte é ver TV abraçados, hábito que nunca tivemos enquanto morávamos juntos, mas que ela deve ter visto numa dessas novelas em que a...

Elegia da gente viva (parte 1, capítulo 3)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 3. Ideia para um conto totalmente baseado em fatos reais O Leandro foi internado. Quem diria, logo ele, rapaz direito, inteligente, gente boa. Morava com dois colegas de faculdade, foram eles que o encontraram no quarto, três dias metido dentro do guarda-roupa, sem sair nem para comer, beber ou mijar. Ninguém notou de imediato, ele dormia sozinho, gostava de ficar na dele, quieto, além do mais, todo mundo adulto, ocupado com a própria vida. Quando os amigos finalmente estranharam o sumiço, bateram na porta, ninguém respondeu, trancada, ainda bem que alguém lembrou onde tinham enfiado a chave-mestra. Ao abrirem, saiu um bafo de cheiro azedo, só viram as pernas esticadas pra fora do guarda-roupa, foi aquele susto, pensaram que o cara tinha morrido. Tentaram tir...