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Mostrando postagens de 2020

Mãe

Ontem uma amiga deu à luz seu primeiro filho. Quando ela me descreveu o parto, que, precedido de uma gestação dolorosa, ainda teve complicações, pensei: essa mulher atingiu o nível existencial dos semideuses. A coragem para suportar a dor e dizer “sim” ao seu desejo até o final é impressionante. Nas histórias míticas, os heróis – quase sempre pertencentes a uma linhagem divina, por isso são semideuses – iam para as guerras para acumular feitos notáveis e, assim, provar sua honra. O que muitas vezes esquecemos é que, não importa a bravura e o desapego deles, ou quantas pessoas tenham “salvado” com suas armas, eles só conseguem matar, jamais gerar vida nova. Inclusive, já disseram (não lembro a fonte, desculpem) que o homem prolifera ideias para suprimir sua incapacidade de criar com o corpo. Esta conversa poderia descambar para os clichês de Dia das Mães: aquela que dá a vida, a que se sacrifica, a encarnação do amor incondicional... Mas aí mora outro perigo. Pela generalização, ignoram...

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite...

Até dar uma choradinha? Acho que sim, faz parte. Não há dias em que chorar seja impossível ou proibido, certo? Sábado à noite é especialmente bom para chorar, me parece até mais honesto, sem medo de ser infeliz. Então lá vai. Encontrei esta bela homenagem às vítimas de COVID-19, chamada genialmente de "inumeráveis":  https://inumeraveis.com.br/ . Nestes tempos de quarentena, tenho "aproveitado" o isolamento para adiantar a tese. Quando meu companheiro, que também está escrevendo a dele, me contou que havia dedicado o presente capítulo às vítimas de COVID-19, pensei: a gente pode fazer isso? Se não pode, tem que fazer mesmo assim! Tentamos tirar um pouco a cabeça dessa bagunça que tá o mundo para conseguir escrever, mas não podemos ignorar que esse é o mundo em que nossas pesquisas estão se desenvolvendo. Absurdo seria agir como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra. Então eu o copiei. Como eu estava refletindo sobre a pessoalidade da morte para Heide...

#liberteofuturo

Apesar de meu grande interesse pela esfera pública -- eu era aquela adolescente que lia o caderno de política do jornal antes dos demais e me metia na conversa de adultos para corrigi-los, depois virei jornalista, participei do movimento estudantil... --, faz uns anos que me desiludi de me engajar na política. O motivo é muito simples: quando alguém adere a um coletivo, é tragado por ele. Passa a vestir como se fossem seus os méritos do movimento e não precisa assumir a responsabilidade pelas falhas dele. As engrenagens da massificação e da trituração de individualidades que os governos autoritários de direita e esquerda exemplificam tão bem... É por esse motivo que Simone Weil é contra partidos políticos (recomendo fortemente a leitura do ensaio " Pela supressão dos partidos políticos "), além do fato de que essas organizações, a médio e longo prazo, acabam abandonando suas ideologias iniciais pelo projeto exclusivo de manutenção do poder. Todo partido é um PFL (Partido para...

Para não dizer que não falei de Covid-19

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Já que estou totalmente dedicada à tese, sigo colando textos alheios -- virei uma "copiadora", no dizer de Estamira. O de hoje é do Elias Canetti, um pequeno ensaio do livro "Massa e Poder" que pareceu bem pertinente para pensar a atual pandemia. As epidemias (Elias Canetti) A melhor descrição da peste é a que nos deu Tucídides, que a viveu na própria pele e se curou. Em sua concisão e exatidão, tal descrição contém todos os traços essenciais dessa doença, sendo, pois, aconselhável reproduzir aqui o que ela informa de mais importante. Os homens morriam feito os mosquitos. Os corpos dos moribundos eram todos empilhados. Viam-se criaturas semimortas a cambalear pelas ruas ou, em sua ânsia por água, apinharem-se em torno das fontes. Os templos nos quais se abrigavam estavam repletos dos cadáveres das pessoas que haviam morrido ali.  Em muitas casas, as pessoas foram de tal forma subjugadas pelo peso de seus mortos que deixaram de lamentá-los.  As cerimônias...

Boicotar a Amazon

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Talvez vocês já tenham ouvido falar que o patrimônio líquido de Jeff Bezos, o dono da Amazon, está próximo de atingir 1 trilhão de dólares. A pandemia só reforçou o modelo de negócios que essa empresa tinha estabelecido com tanta competência -- grande oferta de produtos, preços atraentes e entrega ágil --, mas vocês não acham assustador uma única pessoa deter uma fatia tão grande do mercado? A Amazon praticamente engoliu o mercado livreiro, basta ver quantas livrarias fecharam as portas nos últimos anos, mesmo as megastores, e começa a fazer o mesmo com o comércio de produtos variados (eletrônicos, papelaria, vestuário, tudo o que se puder imaginar). Quando ela for a única empresa, o que a forçará a manter a variedade de produtos e os preços baixos? Daí a necessidade de o consumidor também fazer as contas a longo prazo. Esses dez reais que você economiza agora custarão quanto no futuro? É por isso que, mesmo tendo me servido tanto das vantagens da Amazon no passado, hoje estou pre...

Um conto de Juliano Garcia Pessanha

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Há algumas semanas comecei a escrever um novo capítulo da tese. Quando estou na fase de escrita, fico totalmente obsessiva e monotemática, daí o post de hoje. É para dizer: estou viva, mas estou escrevendo, então, por ora, pertenço apenas à obra de Juliano Garcia Pessanha, o assunto deste capítulo. Para terem ideia dos estranhos lugares por onde tenho transitado, colo abaixo um pequeno conto do autor que se encontra disponível online no site na n-1 edições . Qualquer semelhança com Kafka não é mera coincidência. Alguma hora eu volto a aportar em terra firme. E por aí, quais são as novidades? Há alguma esperança? Fotos do evento Litercultura , realizado em Curitiba em 2016, quando conheci JGP. Diário de bordo (Juliano Garcia Pessanha) Dia 200. Prossegue a nossa viagem. Perambulei a noite inteira pelo barco e sentei-me na cadeira em frente ao mastro. Em vão, minhas mãos buscaram a memória de alguma fisionomia. Devo ter passado a última manhã estraçalhado por pesadelos, pois...

Estudando filosofia, descobri-me pensando em política

Disse que não ia falar de política, mas a carne é fraca. Estava aqui relendo uns trechos de "Introdução ao pensamento filosófico" (2011), de Karl Jaspers, e encontrei algumas passagens que descrevem tão bem o nosso governo que quis compartilhar com vocês. (As citações estão em em azul para distinguir dos meus comentários, que vêm logo abaixo) "Os homens e suas ideias políticas podem ser avaliados, se conhecermos os nomes dos estadistas a que dedicam admiração." (p. 77) O que dizer de alguém que admira D. Trump e C. A. Ustra? E de seu Ministro da Economia, que trabalhou para Pinochet? "Subsistir pela violência exige a vilania e a mentira: a razão exige a franqueza e o respeito aos compromissos." (p. 77) Se o presidente abandonar a truculência e se abrir para o diálogo baseado na razão, ele vai ter que ser honesto e respeitar as Leis, o que poderia gerar alguns problemas com a Justiça para ele, sua família e muitos de seus aliados... "A verdad...

Finismundo: a última viagem

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(Vou republicar aqui este belíssimo poema de Haroldo de Campos, porque, quando o procurei, me deu um trabalhão para encontrá-lo, e ele não pode cair no esquecimento. Nada a ver com as notícias de política que nos enfiam goela abaixo, é "só" poesia. POESIA!) Finismundo: a última viagem … per voler veder trapassò il segno 1. Último Odisseu multi- ardiloso             — no extremo Avernotenso limite               — re- propõe a viagem.                                                                                Onde de Hércules as vigilantes colunas à onda escarmentam:            vedando mais um passo            — onde pas...

Súmula dos fracassos literários

Aos 9 anos, publiquei uma ficção científica moralista com o título de "Aventuras intergalácticas". Mesmo não sabendo pronunciá-lo direito, insisti no nome. Eu era ambiciosa, só queria o que não tinha, porque eu não tinha mesmo nada. Aos 12, comecei a escrever um livro de fantasia meio gótico chamado “Ilusões e fanatismo”. Aos 16, um de poesia sem título que tinha a ver com o esfacelamento da tradição, em ambos os sentidos: a tradição que oprime o sujeito e a tradição já quase desaparecida. Aos 23, trabalhei por uma ou duas páginas na sátira social “Ser romântico no século XXI”, um olhar irônico sobre o meu primeiro livro de adolescência e as ciladas amorosas que haviam me roubado da literatura nos últimos anos. Aos 25, achei que estava madura o suficiente para escrever um romance intitulado “Elegia da gente viva”. O fato de ser um livro pós-moderno indicava que eu definitivamente não estava. Esse último foi o que consegui levar mais adiante, até hoje não o assumi como...

"Essa vida é mesmo...

... um barco de merda, navegando em um mar de mijo, impulsionado por uma forte vendaval de peidos." (Waly Salomão, "Self-portrait", in: Me segura q'eu vou dar um troço) ** Depois do verso do maravilhoso Waly Sailormoon, fica difícil colocar algum conteúdo mais relevante, mas preciso dar notícias a vocês sobre a minha tentativa de resistir ao consumismo . Obviamente eu fracassei. Fiquei uma semana inteira sem abrir sites aleatórios de compras e aproveitei também o embalo para suspender o hábito de checar o noticiário a cada hora. Isso, em tempos de internet, foi um uma internidade (sorry...), deu tempo de o "presidente" fazer um zilhão de merdas e de passarem uns cinco caras pelo Ministério da Saúde. Ou seja, o ciclo "normal" de acontecimentos do Brasil pós-2016. A diferença é que não gastei meu tempo formando opiniões sobre a atitude de um bando de ignorantes raivosos. Alienação? Só desisti de esperar qualquer bom senso dessa turma. Para...

Desafio contra aquele diabo que roubou minhas horas

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E por falar em capitalismo... Me propus um desafio que vou compartilhar com vocês, traças e formigas que roem os fios deste ambiente virtual -- wireless não chegou aqui ainda --, para que me ajudem a permanecer motivada. Quantas horas de sono vocês já perderam vasculhando sites de compra mesmo sabendo, no fundo, que não precisavam de nada daquilo? Não sei vocês, mas eu fico muito mais do que eu gostaria. Que vício maldito! Antes, ao fazer window shopping, a gente pelo menos andava no calçadão, tomava um sol na cara, sentia o estado de espírito da cidade... O capitalismo nos encurralou neste atual estado vegetativo, em frente à tela comprando coisas que nem vamos usar, porque estamos ocupados comprando novas coisas. Sinto isso principalmente com livros: acabo lendo pouco, porque estou vendo quais novos livros vou comprar. Consumismo nerd ainda é consumismo... E já vinha sendo assim bem antes da quarentena. Então, meu desafio é  não comprar coisas inúteis  online . E,...

Alô! To ligando pra saber como vc está...

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Queridos e quase exclusivos três leitores, vocês ainda estão aí? Pois é, nesses últimos anos o blog perdeu a primazia para outras mídias e eu, como boa adulta, me recuso a me atualizar. Vivo de nostalgias, tipo ler livros (sim, desses impressos), escrever cartas e hoje resolvi retomar também este antiquíssimo, quem diria, hábito de postar em blog. Vivemos muitos momentos juntos, minhas tentativas de ser jornalista, escritora, pesquisadora e professora, permeadas de non-sense da indústria cultural... Sempre foi um mundo louco, mas antes pelo menos havia risada, até que a realidade veio com toda força e levou embora o humor dos dias. Não sei fazer meme, não conheço os youtubers bem-sucedidos, não entendo o que as pessoas ficam tantas horas olhando para a tela do celular. Está tudo muito pesado, por isso achei que deveria voltar a escrever. Não textões, como os que o doutorado me exigem, mas textículos com uma pitada de malemolência . Porque me tornei uma cidadã séria e conscient...