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Mostrando postagens de 2019

Extra! Extra! Bolsonaro veio para trazer paz aos povos

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Não é piada. Depois deste ano extenuante, buscando um sentido para a coisa toda, cheguei à conclusão de que Jair Bolsonaro é o maior mestre zen de todos os tempos. Precisávamos desesperadamente dele para despertar. Não bastava um liberal ou um banqueiro qualquer, tinha que ser o sujeito mais tosco já nascido nesta terra para nos libertar da cegueira em que nos encontrávamos acerca dos problemas de nosso país. O caminho para a iluminação não é fácil. Primeiro ficamos reativos, apegados aos pequenos prazeres. Ficamos presos num papo assim: "Ei, lembra a bonança de 2010? PIB padrão chinês, todo mundo comprando carro e tomando iogurte grego feito água, viagens de avião se democratizando, as universidades distribuindo bolsas de pesquisa e extensão, o Brasil emprestando ao FMI em vez de pegar emprestado, nosso maior problema era decidir onde aplicar a bolada do pré-sal... Bons tempos... O problema veio depois. Foi a recessão mundial. Não, foi a corrupção do PT. Não, foi o golpismo ...

Regras de boa vizinhança

Resumo: um post com um quê de autoajuda, além uma indiretinha para o meu vizinho de cima e para todos que se instalaram em andares elevados como se estivessem acima da carne seca, o que também pode ser lido como metáfora social. Quem mora no andar de cima não pode se esquecer dos que estão abaixo. Com efeito, essa pessoa que pode pagar um aluguel mais caro para morar no alto tem a obrigação moral de ser a mais altruísta de todas, pois tudo o que ela fizer interferirá na vida dos demais. Os mimos que ela crê merecer, já que pagou por eles, têm um preço altíssimo na vida dos que não puderam ou não quiseram ter essas coisas. Cada desfile de salto alto para empinar o bumbum em frente ao espelho, cada móvel arrastado para melhorar o feng shui, cada aspirador ligado em madrugada de insônia, cada bolinha arremessada para seu pet, cada birra de criança à meia noite porque essa passou o dia todo ingerindo açúcar em doses cavalares e nunca ouviu um "não" na vida, cada grito com o par...

Janelas provisórias

Eu tenho duas janelas, enormes, pelas quais o sol da manhã inunda meu quarto-cozinha, o que a gente diferenciada gosta de chamar de "loft", mas, para bom entendedor, ainda é uma "quitinete". Esse foi o principal motivo para eu ter me mudado para cá. A vista anterior, um muro e uma gaiola com uma calopsita berrando, quando penso nela, nas raras vezes em que faço isso, parece irreal, como um pesadelo que se dissolveu no momento em que abri os olhos, despertada por este sol farto que me toca todas as manhãs. Quando abro a janela, espero pelo tropel de um cão só. É Pólux que vem me saudar, esperançosa de que eu a convide para o café da manhã. Ultimamente o pão tem sido pouco, mas ela sempre vem. Não importa a hora, ela se levanta e vem, olhando para cima e lambendo seu focinho castanho. Se não tenho comida em casa, lanço-lhe beijos, mesmo sabendo que ela preferiria um bolo. Seu favorito é o de mexerica, mas ela aceita qualquer oferta e volta a dormir. Esta é uma jan...

Para que investir em humanidades e artes?

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Grande dia! Hoje havia papel e sabonete no banheiro da biblioteca da UF**. É raríssimo haver os dois, ainda mais no masculino. Tenho usado o masculino, porque o feminino está interditado desde o começo do semestre, sem previsão de conserto. Saindo de lá, pude voltar toda minha atenção para a leitura de Richard Rorty, já que não precisaria gastar energia mental pensando nos germes que eu carregava após uma ida ao banheiro sem os utensílios básicos de higiene. Hoje não! Com as retaliações, quero dizer, as contingências no Ensino Superior, muitos universitários têm ido a público para demonstrar a importância de suas pesquisas para a sociedade. Eu, como doutoranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e bolsista da Capes, me sinto na obrigação de fazer o mesmo. Só temo não conseguir fazer isto tão rápido, angariar simpatias já à primeira vista. Tenham paciência para ler este texto e talvez, até o fim dele, quem sabe... Durante a minha pesquisa, não uso jaleco, nem bisturi, ...

MCK - Te odeio 2016

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Descobri esse rapper angolano maravilhoso, o MC Kappa. Dois mil e crise e dois mil e escassez continuam rolando. Quando vai acabar, meu Deus? Letra: TE ODEIO, 2016 Refrão: Quero regressar pra dois mil e Katrogi (2014) Dois mil e crise (2015) foi horrível O que será de dois mil e escassez (2016)? 1 verso 2015 foi um ano pra esquecer Osso duro de roer Arca sem Noé, cortes no OGE Quadra sem Moet, Tugas tiraram o pé, cenas falidas bué... O novo ano não trará nada de novo Além de desespero e mais tristeza pra esse povo Orçamento revisado, ano de exercício Subiram os combustíveis logo no início Divisas na dibinza, o dólar só dispara Água está mais cara Comida está mais cara Energia está mais cara A propina está mais cara A linha está mais cara Farinha está mais cara O preço inflama a cara, tara TPA 1 e 2, só mascará... Tudo subiu, salário nem já Meus manos estão na Kuzú, liberdade já! Domiciliária nah... Liberdade Já! São multas, são taxas, impostos e alfând...

Domingo de Ramos

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É preciso explicar que eu não suporto multidões e passei a vida toda criando estratégias para sobreviver às situações em que não pudesse evitá-las. A missa dominical é uma dessas ocasiões. Costumo chegar uns dez minutos antes para garantir um bom lugar, o que, no meu caso, significa sentar perto do corredor e da porta. Assim eu tenho a sensação de que, se as pessoas saírem do controle, conseguirei escapar correndo, mas não pode ser tão ao fundo a ponto de eu ver toda aquela gente diante de mim. É uma operação que exige certo cálculo. Então vocês podem imaginar minha reação quando, estando eu tão bem acomodada, uma ministra anunciou que a missa começaria do lado de fora e que entraríamos todos juntos em procissão. A igreja não é muito grande, quem chega atrasado sempre fica em pé. Saí bufando, mas fui. Recomecei os cálculos. O ponto de encontro ficava na calçada a uns 100 metros da igreja, procurei ficar mais ao fundo e próxima ao meio fio, para que eu pudesse escapar pela rua se n...

Ouves o grito dos mortos?

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Marielle virou símbolo. Não por ser uma exceção, mas porque conferiu um rosto para esses tantos brasileiros cuja aniquilação foi tão completa que quase duvidamos de que existiram. Marielle nos obriga a lidar com o fato de que muita gente neste país morre simplesmente por desejar justiça social. E mais: lembra que essa violência atinge todos nós. Há quanto tempo não vivemos amedrontados e impotentes, sem ousar esperar algo melhor do futuro? Até a esperança parece ter sido sequestrada. O Brasil é um dos países que mais matam ativistas dos direitos humanos e arrisco palpitar que seja também um dos que mais apagam sua memória. Quando se proíbe que certos temas sejam debatidos nas instituições de ensino, quando se dissemina a desinformação, quando se chama de “mimimi” toda narrativa de opressão, constrói-se uma máquina de apagamento da memória. O estado é o principal interessado em fazer esquecer, porque é o principal responsável pela violência. Seja apertando o gatilho, seja incentiva...