Postagens

Mostrando postagens de 2015

Por uma alimentação melhor

Na infância, minha dieta se constituía de leite com Quick Morango e mais uma colherada de açúcar, gelatina do Bocão coberta de leite condensado, Tang, sopa instantânea Knorr, Choco Krisps. E essa era a parte nutritiva, conforme anunciavam os rótulos de que nunca duvidávamos: “fonte de vitaminas e sais minerais”. Depois ainda vinham os salgadinhos e as sobremesas, ingeridas pelo simples prazer gustativo: Cheetos, sorvete Kibon, bolacha Bono, bombons Nestlé. Os refrigerantes foram os únicos que não conseguiram enganar minha mãe e, felizmente, não entravam em casa. Mais tarde, já adulta e influenciada pelo crescimento do discurso pró-alimentação saudável, substituí essas coisas por Chocolate em pó Dois Frades, pudim de aveia Quaker, suco de soja Ades, chá gelado Lipton, barra de cereais Nutry, bolo integral Nutrella, granola Kellogs. Achava que assim havia revolucionado minha alimentação, que me tornaria mais saudável. Eu havia sido uma criança meio adoentada, sempre a primeira vítima d...

Uma ideia para a educação

Outro dia me ocorreu que é preciso ter coragem para fazer mudanças radicais no sistema de ensino, coragem que ninguém teve até agora. Por enquanto, ficamos em timidezes como aumentar o repasse nacional de verbas (e, logo depois, cortar), implantar um currículo parcialmente unificado (ainda em discussão), incentivar professores a se afastarem para especializações, sendo que, quando voltam para a sala de aula, reencontram as mesmas condições de trabalho e precisam se readaptar a elas. Não é isso que vai criar uma pátria educadora. Na verdade, essas pequenas mudanças são apenas um alívio de consciência para os gestores de educação – para não os acusarmos de não terem tentado. Sequer chegam a tocar no problema maior: nosso sistema de ensino básico, e até o técnico e o superior em muitos casos, é uma linha de produção. Às 7h15, uma dose de binômio de Newton; às 8h05, um toque de fenóis; às 8h55, uma amostra dos milhares de tipos de concordância verbal de sujeitos compostos; às 9h45, atual...

Para que servem os professores de português?

Examinando um site de concursos públicos, constatei que a demanda por professores de ramos técnicos e científicos é muito superior às vagas de língua portuguesa, justo essas que eu procuro. Após desistir do jornalismo, devido ao encolhimento da mídia impressa e ao meu desinteresse por comunicação empresarial, encarei uma segunda faculdade (Letras) e, às vésperas de me formar, levo esse baque de novo. Ora, eu tinha raciocinado quatro anos atrás, enquanto o ensino básico fosse obrigatório e o português integrasse o currículo, professores seriam sempre necessários! Parece que não. O principal motivo, pelo menos aqui no Paraná, é a bancarrota do Estado. Embora o déficit no quadro de docentes já tenha sido denunciado, inclusive um dos motivos para a greve histórica deste ano, não há previsão de novos concursos. Sabe-se lá Deus como os colégios estaduais estão lidando com essa situação. Alunos me relataram caso de professor de geografia dando aula de filosofia, então, já dá para ter uma ...

Os Arnolfini

Imagem
Mulher vestida de azul e lenço branco,  Não fossem manto de veludo verde,  Metais no punho e no pescoço, rendas,  Na Renascença, a virgem Mãe seria – Adolescente com tão dura sina. Toma-lhe a mão o homem que compra tudo. Noiva amorosa a se entregar inteira A tal sujeito, Carniceiro-Mor.  E o troco dele? Nem sorriso volta.  Rico não sofre culpa: pilha ouros,  Assina acordos, tranca em cofre todos.  Cada estação, o homem só veste luto. N’águas vermelhas, ela nasce Vênus. Promessas velhas renovadas sempre – Todo o poder e a glória, a prole e o nome. Nem assim fica satisfeito, o rico Não ri. Até afeto poupa o rídico. Salve esta bela união: bens conjuntos. Graça da casa, o cachorrinho dela,  Atrevidinho vem, amor da moça.  Mete-se à frente de qualquer humano,  Hierarquia interespécie ignora. “Nojo me dá tanto xodó, senhora”. Nada suporta um homem tão casmurro.  A dama brilha no pincel do intruso,...

O estranho

Dentro de uma galeria comercial, dessas que cortam prédios ligando duas avenidas, descobri uma pequena lanchonete. Deve ser suja – não era. Então deve ser cara – também não era. Fiquei. Pedi pão-de-queijo e laranjada e me acomodei numa mesa de canto, de frente para a porta. O movimento das pessoas atravessando a galeria era incontabilizável. Eu fisgava nesse rio humano flashes de rostos sérios, carrinhos de bebês puídos, sacolas plásticas usadas para fins não-comerciais. A gente é tanta e tão diversa. Não pode haver universalidade nas pessoas; talvez só haja nessa ternura que sinto indistintamente por todas. Embora estivesse deserta quando entrei, a lanchonete foi se enchendo enquanto eu esperava meu lanche. Vi, de rabo de olho, um moço de barba completamente fechada, mas de olhos ainda infantis, sem um pingo de cinismo. Noutra mesa, um senhor de cabeça perfeitamente redonda, tão grande e desajeitado com seu terno maior ainda. Todos, conforme tinham seus pedidos atendidos, sentavam...

Corpo corpo corpo corpo corpo corpo corpo porco porco porco

Imagem
Testando, testando. asdfg asdfg asdfg. Tem alguém na linha? Oi! Hoje vou fazer um post mais pessoal (o que não é muito a regra deste blog, e nem pretendo que seja, mas o assunto exige uma honestidade completa), então puxa uma cadeira, chega aqui pertinho e finge que minha vida te interessa. Vai que, no fim das contas, algo da minha experiência tem a ver com a coisa que tá te grilando no momento. Por exemplo, você já digitou no Google “dieta sem sofrimento”, “exercícios para afinar cintura”, “dicas para emagrecer rápido” ou similares? Meu histórico virtual denuncia tudo isso. Os amigos se irritam quando conto para eles, mandam eu largar de ser besta e olhar no espelho, porque eu sou magra. Sim, sou magra, mas a custo de autocontrole alimentar e exercícios, não aquele tipo naturalmente magra que come de tudo (odeio as modelos que dizem isso em entrevistas, não pode ser verdade!). E, como mulher comum, vivo o drama diário de, se der uma descuidada, a calça já aperta. Daí corro para o...

Lugar de

Imagem
Esses dias, visitando meus pais, tive minha cota anual de TV Globo. Fiquei impressionada ao perceber que as demandas dos movimentos sociais não estão restritas às universidades, mas também chegaram à maior veiculadora de cultura de massa. As novelas agora têm personagens gordas, negras e gays em posições protagonistas, não só nos núcleos cômicos. Elogiável a decisão de finalmente parar de esconder essa grande parcela da população. Por outro lado, nós bem sabemos que não será a Globo que implantará uma revolução real, ela só está reproduzindo um pedacinho das mudanças promovidas a altos preços lá fora por agentes sociais. Além disso, acho importante frisar, ainda são poucos esses personagens, seguindo mais ou menos um modelo de cotas para atingir o politicamente correto, e não para representar a proporção real dessas pessoas na sociedade brasileira. Duas mulheres negras bem-sucedidas (uma advogada, outra psicóloga) numa mesma novela já é um recorde! Acho que isso é em I (coração) P...

Como me tornei elitista

A partir da polêmica que meu artigo “Antiantielitismo” provocou recentemente ( leiam o texto original aqui ), gostaria de, neste post, pôr mais lenha na fogueira. Quanto às acusações de ser elitista e dos comentários de ódio em geral que recebi, prefiro não responder, porque: a) aceito e até espero que discordem da minha opinião, dado que é só uma opinião e não a verdade absoluta; b) escrevi aquele artigo já com o propósito deliberado de provocar polêmica e estou ciente de que, se eu não mexesse com cachorro grande, ninguém se incomodaria e não estaríamos discutindo esse tema que eu julgo tão importante; c) discursos de ódio costumam se calcar em preconceitos, e quem os pratica não está disposto a escutar argumentos alheios, então não vou gastar meu tempo falando ao vento; d) as ofensas só ofendem quando a gente ama demais o próprio ego; e) se eu tiver que explicar o que quis dizer com o meu texto, isso significa que ele foi um fracasso do ponto de vista da comunicação e é melhor ...

Poemas publicados na coletânea da Flupp 2014

Ano passado participei de um evento muito interessante chamado Flupp Brasil. Sinceramente, ando bem cansada dessas palestras em que você ouve sempre os mesmos debates e reencontra as figurinhas blasées de sempre, mas fui atraída pela oportunidade de no final ter um trabalho publicado em livro. Outro aspecto curioso era ter que cortar a cidade todo dia de ônibus, levava duas horas nos períodos de rush, para chegar à Vila Verde. Naqueles dois dias vivenciei a periferia da minha cidade e tive a prova cabal de que a desigualdade social está intimamente ligada à desigualdade racial. Curitiba é uma cidade caucasiana? Vá para a periferia e você vai descobrir em que condições vivem os milhares de negros curitibanos. Nesta semana recebi as edições a que os autores selecionados têm direito: dez exemplares. Bom, dado o cenário de publicação de escritores neófitos, já estou bem feliz de não ter tido que pagar para ter um trabalho meu impresso. O que mais lamento é que a circulação seja tão ...

Branco

Estou naquela fase em que escrever não faz sentido. Daí pensei que seria um ótimo tema para desenvolver aqui, já que nunca registro nada sobre isso por motivo óbvio: não quero escrever, dã. Muitos escritores trataram desse assunto, sobretudo em crônicas. Não é a novidade, portanto, que o torna atraente, é o desafio de insistir na escrita quando ela me parece odiosa. Primeiro porque não sai nada que preste, as frases parecem previsíveis e mal elaboradas. Segundo porque o afastamento da escrita geralmente coincide com um período de muito fôlego para leitura, e acho um desperdício não aproveitar para ler uma média de 200 páginas por dia. Mas cá estou, não lendo e escrevendo frases ruins. Às vezes penso: por que escrever se há milhares de livros excelentes já escritos e que eu sequer terei tempo de lê-los mesmo que me esforce muito? Por que não me dedicar exclusivamente à missão sisífica de ler as grandes obras? Por que gastar tantas horas – sou do tipo que reescreve mais do que escreve ...

A praga dos romances fragmentários

Imagem
Estou lendo, bem aos poucos, Graça infinita , de David Foster Wallace, recentemente lançado pela Companhia das Letras com tradução de Caetano Galindo. Explico esse “bem aos poucos”. O livro se compõe de diversos núcleos que, embora estejam todos interligados (conferir diagrama acima), se apresentam de forma bastante fragmentada, tanto no tempo quanto no enredo, ou melhor, nos enredos. Existe um eixo temático comum, que é a caracterização da sociedade contemporânea (a importância do entretenimento, o consumo de drogas, a solidão etc.), permeando os vários núcleos, mas essas são tantas tramas e narradas sob tantas perspectivas que, por vezes, a gente se cansa e pergunta em que momento aquilo tudo vai caminhar para um ponto comum. Por experiência própria com romances contemporâneos fragmentários, o mais provável é que não chegue a um ponto comum. É aquela coisa de a estrutura literária se assemelhar mais ao caos da vida do que aos modelos ficcionais convencionados. Isso, no caso ...