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Mostrando postagens de 2013

Abortos: O bolo

Na cozinha quente e perfumada pelo bolo no forno, dois namorados aguardavam. Olívia checou a massa, ainda crua, enquanto André discursava sobre coisas que não eram ouvidas. Era a primeira vez em muito tempo que passavam uma tarde a sós. Os 40 minutos previstos para o cozimento se estenderam para uma hora, forno imprestável! O menino não calava a boca e o maldito bolo que não ficava pronto nunca, Olívia pôs o fogo na temperatura máxima. Dez minutos depois, o casal encarava dois carvõezinhos em pratos de porcelana. Ele comeu tudo e ainda pediu mais. Ela se negou a concordar com aquele absurdo, mandou-o embora. Faz um mês que ninguém cozinha nada, mas o cheiro de queimado continua impregnado nos azulejos da cozinha. -- Da série "Abortos", leia também: Primeiro amor Eternidade 72 horas A um passante Festividades Curto e grosso Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Abortos: Primeiro amor

Para G. Quem disse que amor de criança é leviano? Só muda a proporção. Se em uma semana a meninada pode trocar de número de sapato, imagine o significado de um bimestre! Dá até para completar álbum de figurinhas, ou seja, é uma vida inteira. Desde que começou a gostar de Anabel, Matheus agia da forma mais sensata: sendo um canalha. Na queimada, jogava a bola com força na cabeça da garota, isso quando não a xingava de nomes feios que ele nem sabia o que significavam. As provocações duraram nove semanas, até a véspera das férias, quando o menino encontrou uma carta cor de rosa em sua mochila. Mal terminou de ler, saiu pelo pátio gritando: “Ela me ama! Ela me ama!”. Então vieram as férias, e eles perderam o contato, pois isso foi naqueles tempos em que telefone e computador não eram brinquedos de criança. Reencontram-se só no ano seguinte, início da quinta série, mas não tinham nada para dizer um ao outro. E assim aprenderam que o melhor era gostar em silêncio, para o sentimento não ...

Abortos: Eternidade

Osvaldo e Luana namoravam há nove anos. Mas não pensem que adiavam o casamento para aproveitar infinitamente a vida de solteiro! Ninguém sequer esperava que os dois subissem no altar tão cedo, afinal, tinham apenas 23 anos. Conheceram-se no jardim de infância e desde sempre formaram uma boa dupla, engraçados e desprendidos, topavam todos os convites. Diziam as boas e as más línguas que eles haviam descoberto o Santo Graal dos relacionamentos. Quando alguém perguntava o segredo, eles contavam que só faziam o que tinham vontade e, de alguma forma, isso funcionava. Numa daquelas tardes sem muito assunto, o casal começou a fazer contas, meio na brincadeira: “já passamos quase metade da nossa vida juntos”, “poderíamos ter tido um filho que, a essa altura, saberia escrever”, “ou oito filhos”, “ano que vem completa uma década de namoro, dez anos, você pode imaginar?”. O fato soou terrível. Poucos dias depois, eles terminaram. A pior parte foi inventar uma justificativa para dar aos amigos i...

"Menino de cor"

Testemunhei nesta semana uma demonstração de racismo inusitada: numa banca de concurso para professor na minha universidade. Assim que eu soube que o processo seletivo era aberto ao público, quis acompanhar as provas didáticas. Infelizmente, das três aulas a que assisti, apenas uma tinha o padrão de qualidade que eu esperava de um docente de Ensino Superior, as outras duas nem medianas chegavam a ser. Numa dessas, o candidato tentava compensar a falta de conteúdo com carisma, contava pequenas anedotas numa linguagem simples, o que resultava num ritmo até que interessante. Mas não é que, de repente, o fulano diz “menino de cor” para se referir a um personagem do conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan? E um agravante: a caracterização colorida (preciso tirar um sarro, para não cair num lamento fastioso) do menino carregava o propósito de apontar a condição inferior desse. “Menino de cor”, repito, não é pouca bobagem. Eu tinha escutado direito? Era possível alguém dizer isso na...

Abortos: 72 horas

Nunca provoque uma mulher que começou a fazer regime recentemente. Os três primeiros dias são os mais críticos, pois o corpo e a alma da neófita em alimentação sub-2000 kcal, enfraquecidos de fome, são facilmente possuídos pela abstinência. A viciada, privada de açúcar e gordura, pode transformar qualquer frustração em motivo para torrar todo o salário na confeitaria mais próxima. E, quando a euforia passar e a dita-cuja contabilizar as calorias ingeridas, aí, meu filho, você vai pagar por cada grãozinho de açúcar dos 19 sonhos que ela devorou – cinco de creme; três de doce de leite; sete de goiabada; quatro de chocolate. Juan não levou a advertência a sério, chegou 42 minutos atrasado ao encontro, tarde demais para a última sessão daquele filme francês que Carol queria tanto ver. Esta, com a boca lambuzada de uma mistura de leite condensado, chantilly, calda de caramelo, granulados coloridos e fiozinhos de algodão doce, anunciou que estava tudo terminado entre eles. Três meses depois,...

Abortos: A um passante

Para R. Certa vez, os olhos do poeta pousaram sobre uma bela mulher na rua. Após poucos segundos de contemplação, ela passou, deixando-o desolado pelo amor que jamais se concretizaria. Paixões assim súbitas acontecem o tempo todo. Vou contar um desses casos e dou minha palavra de que é verídico, portanto, ouçam e aprendam. Henrique voltava do trabalho, quando encontrou seu objeto de adoração não exatamente numa passante, mas num usuário do transporte público, tal qual ele próprio. Trocou olhares com o desconhecido bonitão, mesmo sabendo que o flerte só duraria até um dos dois chegar ao destino final. Passou a primeira parada, a segunda, a terceira, o coração cavalgava, ele deveria descer no ponto seguinte. Quando se aproximou da porta, o outro lhe estendeu a mão num cumprimento silencioso. Assim que desceu do ônibus, Henrique notou o pedacinho de papel colado na palma: Samuel [telefone]. Para retribuir a abordagem ousada, discou o número assim que chegou em casa. Diante de um “alô! ...

Abortos: Festividades

Diogo e Marcelina se conheceram no dia da padroeira da cidade, numa feirinha gastronômica. Na mesa de plástico, dividindo o molho de pimenta, falaram de pierogis, da avozinha já falecida, do amor. A moça morava ali pertinho, pediram a sobremesa para viagem. Nesse dia, nasceu uma tradição: em toda data festiva, eles se refestelavam de pratos típicos e sexo caseiro. Páscoa, Dia do Trabalho, Corpus Christi, São João, Independência do Brasil ou de qualquer outro país que conviesse – oportunidade sempre havia. Nos dias regulares, a vida seguia, tantas coisas mais para pensar, mal se falavam. Esse sistema funcionava, difícil era explicar para os outros. Os amigos de Má quiseram saber onde isso ia dar, achavam que Diogo estava se aproveitando dela. Crítica feita, dúvida plantada. No Réveillon passado, ocasionalmente como sempre, encontraram-se os dois sob o céu explosivo. Ele abriu o sorriso, e ela a boca para xingar. Em vez de beijo, houve tapa à meia noite. Neste ano, eles acompanham o desf...

Abortos: Curto e grosso

O ódio era tamanho que deu em casamento, oportunidade perfeita para se infernizarem dia e noite, sete dias na semana. Passada a instabilidade dos anos iniciais, o rancor seguia por verdes mares, não fosse uma nuvem: Mayra aprendeu com um pastor as maravilhas do perdão. Levíssima, ela se tornou amável até com José Lucas, que achou a mudança da mulher ridícula, chatíssima, irritante. Na primeira briga em que ela se recusou a gritar de volta, ele a esbofeteou até arrancar um dente. Ou foram dois, não lembro ao certo. ** Da série "Abortos", leia também: Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Diário de uma mestranda [3]

Salva a versão final da dissertação, sinto que mereço um pequeno luxo. Acabo a noite sozinha em casa, ouvindo "Estou triste" e tomando um vinho de sete reais. Talvez eu fosse mais rica antes de ser (quase) mestre. Penso em tudo que sacrifiquei para obter este pequeno mérito. Valeu a pena? Fuck yeah! (Qual é o objetivo em dizer "não" para a única coisa que possuo, a vida presente? Se pensasse que não valia a pena, melhor era meter um tiro na cabeça. Mas cá estou ridente, tagarela e levemente cínica.)

Abortos: Cegueira

Foi Marta que reparou em Carmem primeiro. Esta, distraída, só flagrou sua admiradora dois meses depois e, apesar do atraso, gostou do que viu. As duas frequentavam o mesmo bar, falavam com as mesmas pessoas e agora sabiam da existência uma da outra, mas nunca acontecia de cruzarem os olhares. Passaram semanas naquele blefe de vesgos, nenhum avanço. Um dia, o álcool tomou a iniciativa por elas. Beijo macio e cheiroso às escuras. Houve até mãos dadas, só se esqueceram de combinar como seria às claras. E a manhã chegou certeira e calada. Acenaram-se de longe, nada mais. Dia após dia, o cumprimento era sempre o mesmo, simpático, frio, uns tantos quilômetros entre elas. À distância, o campo de visão abrangia outras pessoas, gente demais, ninguém importante – mas como iam saber isso? Achaques, teorias, desistiram de entender. Três semanas depois, se toparam no boteco de sempre, cada qual levava um candidato a namorado pela mão. Constrangidas, desviaram o olhar e fingiram que não se conheciam...

Abortos: Volta

Neuza esperou até o táxi virar a esquina e se arrastou para dentro de casa, com a solenidade que a vizinhança esperava dela. Assim que fechou a porta, correu ligar o rádio e dançou ao som de Juliano e Jandaia. Em 32 anos de casamento, era a primeira vez que tinha a casa toda só para ela, motivo mais do que suficiente para comemorar. Férias das faxinas diárias, dos almoços completos, das trocas semanais de lençol – homem sua demais! Deitou no sofá, ligou a TV, riu ao pensar que, às 18h45, ninguém reclamaria da geladeira mal abastecida. No segundo dia, repetiu à risca sua nova rotina. Com três décadas de cansaço acumulado, tinha todo o direito! Sem perceber, pegou a mania de vagar pelos cômodos da casa e começou a encarar a TV antes como um consolo do que uma opção. Apesar disso, tomava sua dose diária de tédio e falta de sentido. Mudanças arriscam pioras, e ela preferia o mal conhecido. Depois de 41 dias, quando Nestor voltou, ela se sentiu salva. Para não parecer dependente, soltou um ...

Abortos: Aparição

Tristão, cansado de ser um sacana fodido eternamente de ressaca, rendeu-se à sociedade. Parou de faltar nas aulas, aderiu aos banhos diários, arrumou um estágio. Para o pacote ficar completo, só lhe faltava uma namorada de boa família. Mas isso já estava encaminhado: há tempos observava Lílian, tão rosada que parecia feita de uma substância impermeável à sujeira. Ela gostou do jeitinho vagabundo dele por baixo da crosta de bom moço, entenderam-se. Ao cabo daquela primeira semana de romance, ele confessaria aos colegas de bar que estava perdido, condenado a agir certo. Resistiu aos maus instintos o quanto pode, mas, um mês depois, quando a moça lhe disse “eu te amo”, ele surtou. Sumiu por seis dias, voltou todo estropiado, nunca mais procurou Lily, que agora estava mais pra amarela do que pra rosa. E haja tática de guerrilha para evitá-la, pois essa daí agora passava quatro horas todo dia, divididas rigorosamente em dois turnos, sentada na porta do prédio dele. Eles até se toparam algum...

Abortos: Amor livre

Um mês saindo juntos, a coisa se encaminhava para um namoro. Bebeto pensou em aproveitar a data para fazer o pedido formal a Antônio. Na manhã do grande dia, ele não se aguentou e contou suas intenções para metade dos colegas de escritório, virou um happening na hora do cafezinho, quem não gosta de um segredo coletivo? O incentivo foi unânime, jovens e bonitos daquele jeito tinham mais é que oficializar a relação, um desperdício que não pudessem também gerar filhos! No dia seguinte, o pessoal clamava pelo relato completo. Bebeto, então, revelou todos os detalhes da noite passada: como quem não quer nada, ele começou perguntando se os dois estavam saindo só um com o outro. Para a surpresa dele e de todo o escritório, a resposta foi “não”, completada por um “estamos de boa” – seja lá o que isso signifique. O jovem apaixonado se achou ridiculamente ingênuo por ter cogitado um namoro, nem chegou a fazer o pedido e, para não ficar para trás, começou a sair com outras pessoas. Isso magoou An...

Abortos: Bad reputation

Quando uma fêmea passava por Alex, os olhos se arregalavam, as narinas farejavam, as unhas se atiçavam. Típico lobo mau. Antes de terminar o chocomilk matinal, ele já havia escaneado todo o pátio do colégio e selecionado as potenciais vítimas do dia. Desta vez, arriscaria um golpe mais ousado: infiltrar-se na roda das Lovely Lambs, as cinco bad girls do último ano. Elas ostentavam make-up completo às 7h15, fumavam e só saíam com homens mais velhos. No recreio, a abordagem do calouro foi fina, bem bolada: “Alguém afim de fumar um depois da aula?”. Ele entrou para o grupo imediatamente. Naquela semana, dormiu cada noite na casa de uma delas, moças insaciáveis. Na sexta-feira, elas morreram de rir ao constatar que ele ainda vestia a roupa de segunda. Passados sábado e domingo, Alex naturalmente quis recomeçar o rodízio. Elas, por sua vez, gozaram da ingenuidade dele: figurinha repetida não enche o álbum, filho. Ele saiu com o rabo entre as pernas. O que lhe sobrava em desejo, faltava em e...

Abortos: Maiores de idade

Qual é o oposto de pedófilo? Janaína era essa palavra que falta ao nosso vocabulário. Ela dizia coisas como “adoro uma barba grisalha”, “olha que charme esse suéter bege”, “ai, que sexy a tossinha seca dele, tão subversiva”. Bom, fetiche é fetiche. Aos 25, casou-se com Mário, que estava no auge de seus 68. Bem que a mãe alertou, mas a moça foi teimosa, e ninguém se espantou quando ela comunicou estar arrependida da união apressada, exceto pelo motivo: Jana viu no baile do Carinhoso uns oitentões bem pimpões – por que diabos quis sossegar tão cedo? O marido, ciente do preço de sua sorte, comparecia todos os dias com flores e carícias, amante à moda antiga. Quanto mais ele agradava, mais ela se irritava. Se quisesse um homem tão ativo, tinha escolhido um rapaz da idade dela. Mário respondia que, se quisesse uma esposa tão ranzinza, tinha continuado com a ex-mulher. Ele logo encontrou consolo nos braços de Mara, 77, assídua frequentadora do Carinhoso que esperava por essa chance há pelo m...

Abortos: A terceira

Georgette dizia que nunca teria filhos. Arruinava o corpo, favorecia que o marido olhasse para as sirigaitas. Ela chegou aos 35 anos em boa forma, o que não impediu Robson de traí-la às vésperas dos dez anos de casamento. Pior foi o amadorismo dele, com camisinhas esquecidas no carro, SMS comprometedores de um tal de Nicolas, que na verdade era Nicole, e tudo o mais. A separação foi imediata, só não foi mais rápida que a saudade que se seguiu. Georgette logo cedeu aos convites do ex-marido para aquele restaurante romântico, um motelzinho quatro estrelas e, quando percebeu, estavam namorando. Se aquela situação já não parecia bastante juvenil, piorou quando constataram a gravidez acidental. Robson se sentiu aliviado com a notícia: ser namorado, amante e Dom Juan aos 49 anos dá um trabalhão, ele enfim poderia voltar a ser apenas o marido. A futura mamãe, por sua vez, entrou num estado de choque que só foi piorando. Sempre haveria alguém entre o casal. Se não fosse a amante era a criança....

Abortos: Dai as mãos

Tônia se sentia abençoada. Vivia um daqueles raríssimos primeiros encontros sem medo ou mentira – imaculado. Noite quente, conversa farta, as sardinhas dele no nariz, uma vontade de amor incondicional despertada pelo filme do Wes Anderson. Agora caminhavam pelo calçadão vazio, o barulho da bicicleta levada de lado lembrava o do projetor. A menina desempenhava seu papel confiante, relaxou até demais, cedeu ao diabo, agarrou a mão do amigo. Corta! Oh, horror, o que eu fiz, meu Deus? Ela soltou no susto, quis morrer para não ter que explicar. Desculpa, desculpa, sei que é muito cedo, não somos namorados. Tiago ainda riu, disse que dar as mãos não era pecado, mas a infratora assumiu a culpa irredutível, exilou-se em si mesma. O jeitinho bobinho dela o fez sorrir. Se ela não tivesse arrancado os próprios olhos, talvez tivesse notado. Ele quis ampará-la, mais de uma vez procurou a mão dela, que sempre fugia, não precisava da piedade de ninguém. No fim, nem a lua onipresente no céu pôde trans...

C.

amar sempre independente da maré e dos males plantados colhidos comidos cuspidos na cara amar sem esperar o mérito a ocasião a recompensa o príncipe amar já sem amargar amar no ódio não por causa dele mas apesar dele amar o outro em nós mais do que nós no outro amar sem possuir amar os sem posses amar por si amar em silêncio amar concretamente na poesia no asfalto na asia ao mar, sem medo!

Más línguas

CÁ FA j' est È O fer E CI DO CAN AL HA or DI n' AR IO TRA I DOR RIDI cul O MAL and RIM VÊ NA L' pu er IL IR RISO RI o sac ANA par AS I TA MAL ici O  SO RÉ PÉ  L'  en TE IN SIGN IF I CANTE SA la FRA RIO PÁ   TI FÉ à PROVE IT AD or IN jus TO s' AFÃ DÓ ME DIO CRÊ OPOR tun ist a

Na Bocasa

Como se diz boca em alemão? Acho que é Mund, só não tenho certeza do artigo, eu chutaria der. Isso! Der Mund, so... Ich möchte alle am Mund küssen. Engraçado, eu tava pensando agorinha mesmo nisso: dieser Platz ist ein Mund. Ein Rauchermund, para ser mais precisa. Was sagst du? Rauchermund, boca de fumo em alemão. Não, o que eu falei antes foi am Mund küssen. Aaah, você quis dizer boca-boca. Rolam por aí umas histórias de que eu falo alemão quando estou bêbada. Não sei, sempre que esse fenômeno acontece, eu estou bêbada demais para prestar atenção. Mas, naquela noite, pude observar a estranha magia suceder com minhas amigas, e, sim!: bêbados têm o dom de se expressar em alemão!, mas comigo nada. O máximo que consegui foi uma dúvida pelo resto da noite sobre o maldito gênero. Nada para se estranhar – eu tava sóbria. Aliás, eu era a única pessoa sóbria naquela boca de fumo. Boca desastrida, ai, se alguém ouve! É falta de consideração chamar a casa de alguém de boca de fumo, não é? Ti...

Procura-se tradutor de caetanês, contratação imediata!

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Quando certos cantores vêm para a nossa cidade (ou nosso país, se for um estrangeiro), é hora de desfalcar a poupança e ir, sem importar quanto custa ou se o artista em questão está em uma fase medíocre. E, infelizmente, esse é o caso de Caetano Veloso com seu “Abraçaço”. Ingresso comprado, adquiri o álbum para me preparar para o show. Minha primeira impressão foi de algo estranhíssimo, mas não no sentido positivo de esquisito como “Araçá azul”. A capa do disco já dá uma amostra disso, todas as mãos deveriam ser acolhedoras, mas elas são sinistras, assim como o olhar do próprio Caetano. Não posso traçar muitas comparações com a carreira do Caetano, porque eu só comecei a escutá-lo há menos de um ano e não domino o assunto. Só sei que meus álbuns favoritos são “Transa”, “Qualquer coisa” e “Caetano e Chico juntos e ao vivo” – ou seja, as coisas da época da tropicália. O “Cê” (2006), primeira obra da parceria com a banda Cê, que se encerra neste “Abraçaço”, até que é bacana em alguns...

De volta

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Estive lá fora. Há muito para ver e sentir e fazer. Mas nada que se compare àquilo que a literatura já me dava. A vida dentro dela é mais intensa e perfeita. A gente enxerga certas coisas com mais nitidez quando toma distância. Estou a cada dia mais convicta de que o belo só desponta em meio ao feio. Mesmo um rei em seu palácio de marfim, servido pelas escravas mais lindas e degustando os pratos mais deliciosos, pode considerar, em algum momento, que não possui sequer o necessário. É preciso sair, para poder voltar prenhe de sentidos e, um dia, querer sair de novo. (Sob a égide de “Cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino, um livro que só cresce quanto mais me distancio daquela primeira e frustrada leitura.)

O dia em que resolvi parar de ter aquelas conversas profundas sobre o sentido da vida e comecei a vivê-la

Um dia produtivo, daquele tipo que adoro. Eu voltava para casa de bicicleta, satisfeita e cansada. O problema foi o horário: ainda eram sete horas da noite. Vislumbrei a cena. Eu abriria a porta, seria recebida por aquele silêncio denso, não teria ninguém para quem ligar, nenhum bicho para alimentar, só restaria o computador e o trabalho pendente. Se encarasse mais uma dose de obrigação, arruinaria aquela quinta-feira, que já estava na medida certa, e iria dormir com a sensação de mais outro dia repetido, igual ao anterior e ao anterior e ao anterior. Enrolei-me no caminho de volta, esperando uma solução mágica. Foi então que encontrei rostos conhecidos. Gente de quem nem gosto muito, mas era uma oportunidade de conversar. Fiquei superexcitada, me atropelei, falei mais do que devia. Quando me dei conta, revelava àquelas pessoas de quem nem gosto muito o quanto eu vinha me sentindo solitária. E isso já faz uns quatro anos, mas elas supuseram que era uma condição que se arrastava de ap...

Anna Karenina e a claustrofobia

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Toda sala de cinema é um pouco claustrofóbica. Ar parado, poltronas e piso infestados de ácaro, escuridão densa, estranhos sentados perto demais (e às vezes cutucando suas costas), barulho de mastigação, sussurros, o chato que faz shhhhh para impor ordem até no momento de lazer... Mas aí o filme começa, e uma janela de luz se abre bem à sua frente. Você se esquece do ambiente sufocante, desprende-se do seu ego mesquinho e viaja livremente. Bom, se você estiver assistindo a “Anna Karenina”, de Joe Wright, não é bem isso que acontece. Primeira cena, um palco de teatro. A cortina se abre e se inicia um giro frenético através de múltiplos cenários. Muitas portas, cortinas, cordas, escadas. Dezenas de personagens povoam esses ambientes móveis, preocupados com os próprios assuntos pessoais, indiferentes à coreografia que rege a todos, um compasso tão falso! Já viram algum filme do Peter Greenaway (sugiro “O bebê santo de Macon” para quem tiver estômago)? O jogo é bem parecido, fiquei ...

Como se dar bem

Faz o seguinte. Pega uma mina insegura e dá bola pra ela, assim de leve. Quase toda gostosa se odeia, se acha feia-chata, tá louca por um pouco de tapa na cara dum cachorrão que nem você. É fato. Aproveita, cara. É o que todas elas querem. Até as que não parecem são umas vadias loucas. Daí você faz aquela função, passa o fim de semana junto, fala dos assuntos dela, olha no olho, dá um pouco do mel pra ela provar. Tá me acompanhando, né, nem preciso dizer mais nada. É isso aí. Faz ela acreditar que você tá abrindo mão do seu precioso tempo livre por ela. Não tem erro. Só não esquece de deixar bem claro que você gosta dela apesar de ela ser a merda que é. Vai semeando, dizendo que o mundo inteiro lá fora não presta, que só você se salva, que ela tem sorte de tá perto, que nem você entende o que tá acontecendo, mas que você é verdadeiro demais pra ir contra, vai indo de boa, só você sabe o que é a vida, o que fazer com ela. Ensina ela quem manda, quem é a pessoa interessante da relação e ...

Diário de uma mestranda [2]

Às vezes quando eu abro o documento de Word da minha dissertação, vejo que tem algumas páginas a mais do que eu me lembrava. É raro, mas acontece. Desconfio de que, quando eu estou longe do computador, um duende faz o trabalho por mim. Dilema 1: isso é plágio? Quando eu leio as novas inserções, percebo que elas não têm pé nem cabeça. Apesar disso, nunca apago. Vou lapidando até aquilo fazer algum sentido. Nem sempre consigo. Dilema 2: devo contar ao meu orientador sobre o duende quando ele meter o pau no que escrevi?

Diário de uma mestranda [1]

Hoje tive um ótimo insight para a dissertação enquanto cagava. Talvez o Lactopurga seja a solução para os meus problemas acadêmicos. Uma dúvida: devo mencioná-lo na dedicatória?

Um poema de Paulo Leminski

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[sem título] um passarinho volta pra árvore que não mais existe meu pensamento voa até você só pra ficar triste LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia . São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 70

Sobre o amor

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"O amor é uma grande estranheza: aí estão dois, cada um deles uma estrela diferente, e ninguém pode saber jamais sobre o outro. E de repente não há mais distância nem tempo, e eles se precipitam um sobre o outro, de modo que não sabem mais nada de si nem nada um do outro, e também não precisam saber mais nada. Isso é amor." BROCH, Hermann. Esch ou a anarquia / 1903 . São Paulo, Benvirá, 2011. p. 176. Esse livro não trata muito do amor, a passagem citada é um pequeno desvio do tom geral da obra, que trata da decadência de valores. Broch é altamente irônico diante das relações interpessoais modernas (tudo entra numa grande contabilidade, ganhos e sacrifícios). Esta é uma obra prima que pouca gente leu, recomendo!

Abusar

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Entre as muitas vantagens do modo de vida moderno, está poder se sentar ao lado de um estranho no ônibus sem temer que ele vá te agredir repentinamente. A casca da civilidade garante que disfarcemos nossas emoções em locais públicos e, assim, não joguemos merda no ventilador quando estivermos putos. Você pode odiar seu vizinho, mas o “bom dia” é uma promessa de que vão dividir em paz o espaço que habitam. Agora, o que acontece com certas pessoas que até conseguem seguir essas regras básicas de convivência, mas não as levam para a vida pessoal? Por que depois de ganhar intimidade suficiente há quem vire um pequeno demônio, respondendo torto, xingando e abusando de quem ama? Que lógica existe em tratar bem os desconhecidos e martirizar os amigos e familiares? Desconfio de que alguns indivíduos se importam mais em aparentar para a sociedade bondade do que em realmente ser bons. Só não sei se isso dá conta de explicar o abuso moral que muitos praticam contra os entes queridos. Me...

Sobre o pecado

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Parafraseando Santo Agostinho em "A verdadeira religião". Todas as coisas são boas, porque foram criadas por Deus. Existem, porém, bens maiores e bens menores. Os maiores são os espirituais, que nos aproximam da Verdade, da eternidade, enfim, de nosso Criador. Os menores são os bens materiais, tudo aquilo que experimentamos pelos sentidos e que estão à mercê do tempo. Estes são verdadeiros, porque provêm da Verdade, mas não devem ser confundidos com a própria Verdade. Os bens menores se transformam, se deterioram, acabam. Tudo isso nos causa pesar. O pecado não é inerente a essas coisas, porque, como já dissemos, elas são boas. O pecado ocorre quando baseamos nossa vida nos bens menores. Quem escolhe aquilo que está fadado a sumir está escolhendo o sofrimento, isto é, o pecado. O pecado não foi criado por Deus, que é essencialmente bom. O pecado é a consequência de se usar mal o livre arbítrio. Deus nos fez livres por desejar que os servíssemos livremente. Além do m...

Roteiro para um filme de zumbis

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No meio de uma floresta, fim de tarde. Um homem corre, atrás dele há uma horda de zumbis. A câmera em primeira pessoa em relação ao humano. Respiração ofegante, ele está próximo ao portão de um forte. Até que ele tropeça, cai e testemunha as dentadas em seu corpo. Grito ecoante, pássaros voam. A câmera sobe do corpo sendo estraçalhado e segue em direção ao tal forte. Panorâmica. Vemos o local todo tomado por zumbis. Corpos humanos pela metade. É aí que descobrimos que o filme não se trata de humanos resistindo a zumbis, mas do fim da espécie humana e a luta que isso implicará entre as criaturas. Aparece o título na tela em letras cor de sangue: “Zumbis canibais”. Noite, chove. Zumbis se rastejam por todos os lados, lentamente, sufocando, não há mais carne humana. Famintos, se entregam ao solo esperando pela segunda morte. Um raio ilumina o céu. Um zumbi se levanta da lama e começa a escalar uma torre. No meio da subida, um raio o atinge, ele cai. Tela preta. Manhã. Um pássaro...

Sobre a passagem do tempo

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O post passado me deu a ideia de fazer um ensaio fotográfico sobre a passagem do tempo. Ao focar a deterioração de corpos que um dia foram belos, eu tentei vislumbrar algum tipo de beleza no limiar da morte. A carniça pode ser sublime (para usar uma imagem de Baudelaire)? Eu bem que tentei durante três dias, mas a luz não ajudou desta vez - fotografei à noite, com iluminação artificial. De qualquer forma, o resultado servirá como ilustração para um poema que foi duramente interrogado e torturado durante quase dez horas por três estudantes de Letras. Tiramos o suco viçoso, ficou a carniça. Não a do poema, a nossa. O inimigo - Charles Baudelaire (Trad. Ivan Junqueira) A juventude não foi mais que um temporal, Aqui e ali por sóis ardentes trespassado; As chuvas e os trovões causaram dano tal Que em meu pomar não resta um fruto sazonado. Eis que alcancei o outono de meu pensamento, E agora o ancinho e a pá se fazem necessários Para outra vez compor o solo lamacento, Onde...

O amor, o sorriso e a flor

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Nesta postagem de número 200, vou deixar a verborragia de lado e me render à beleza simples e passageira. Afinal, como escreveu Horácio na ode I,38, "Renuncia a buscar o lugar, onde duram as rosas”. (A foto é de minha autoria, tirada com uma Sony Cybershot 5.1 que, sei lá como, ainda consegue captar essa riqueza de textura.)

Sobre o vegetarianismo

Sempre tive certo preconceito contra vegetarianos. Algo moderado, quase latente, dado que minhas amigas adeptas não são do tipo mala e nunca me chatearam com pregação. A minha cisma vem de acreditar que há um milhão de causas mais nobres de militância: contra as guerras, contra os governos déspotas, contra o capitalismo selvagem, contra a intolerância religiosa, contra o abuso sexual etc. No cardápio de desgraças que a atualidade nos oferece, lutar pelos direitos dos animais me parece algo vago e utópico demais. Domesticamos os animais há milhares de anos com uma finalidade única: para nos servir. Simples assim. Vacas dão leite, couro, chifres, mocotó, carne. Ovelhas, lã e carne. Avestruz, couro, penas, carne. Cães e gatos, companhia, afeto (tendemos a acreditar nisso) e, em alguns países, carne. Sobrevivemos graças a eles. Talvez essa fonte de proteína não seja mais essencial como um dia já foi, mas se ela está aí e é culturalmente aceita, então por que não? Um bife ainda é melhor, do...

Há dias em que é preciso escrever

Há dias em que é preciso escrever. Se eu não o fizer, parece que morro. Depois que encho uma folha inteira e pingo o último ponto, as dores do morrer ainda estão lá. A única – mas essencial – diferença é que as sinto com alegria. Tudo se justifica pela arte: disseram-me, acreditei. Eu produzo arte: digo-lhes, acreditem. A literatura deveria facilitar as experiências ruins. Facilita? Ela multiplica a dor, que se transforma num turbilhão e, sabe-se lá como, anestesia a dor original. A literatura dá nomes diferentes aos demônios conhecidos, cobre os medos com capas bordadas e grita: “que lindo este defunto!”. Nenhuma dor é verdadeira, nada nos diz respeito, por isso, podemos chorar à vontade. Ao lastimar o fim daquele amor de mentirinha, esquecemos o que realmente há para se lamentar: a fugacidade da vida. Vida que nos escapa inclusive quando nos distraímos, encantados, com um livro na mão. Será que nós sobreviveríamos à realidade? Eu já tentei e concluí, há dias, que é preciso escrever. ...

Sobre a humildade

Logo após publicar o post passado, pus-me a pensar o seguinte: esperamos muito das outras pessoas, mas o que lhes oferecemos da nossa parte? Hoje gostaria de agradecer àqueles que me tratam com arrogância, pois me mostram como a soberba é detestável e me fazem desejar ser cada vez menor, mais silenciosa, menos venenosa. Este texto pequeno e simples é meu primeiro passo em busca da humildade.