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Mostrando postagens de junho, 2012

Sobre a positividade

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Nos últimos dias fui perseguida pelo sim. Primeiro ao terminar de ler “Ulysses”, de James Joyce, depois ao reler “A hora da estrela”, de Clarice Lispector. Ambas as narrativas encerram com “sim”. Um desfecho mais convencional talvez passasse despercebido; esse não. Para ratificar o padrão, ainda encontrei essa palavra num texto sobre as virtudes de Maria: ela disse sim ao projeto de Deus – “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1:38). Positividade, é disso que estamos falando. Já assistiram àquele filme “Sim, senhor”, com Jim Carrey? Recomendo fortemente. Sou suspeita, porque amo os trabalhos do comediante de todas as fases, desde trash até cult, mas esse em especial é interessante por trazer uma moral da história totalmente aplicável. Resume-se a este clichê autoajudístico: “quando você diz sim à vida, a vida diz sim a você”. O protagonista resolve topar tudo que surge pela sua frente, gerando situações hilárias (não direi quais, assistam!), enrascadas, mas também o levando a...

Noturno

Ouvir Frank Sinatra é um poço sem fundo. A gente fica amando o amor. Sorte do primeiro que passar pela frente.

Sobre a criação da arte

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Façamos uma analogia bem simples para compreender um processo complicado. A cachaça vem da cana. Sem cana não há cachaça, já que esta depende daquela para existir. Mas não se pode dizer que uma coisa seja igual à outra. Há um processo que transforma uma noutra. Os elementos básicos da cachaça já estavam na cana, mas a forma bruta é irrecuperável a partir do produto, isto é, a cachaça não pode voltar a ser cana. O que é esse processo que faz uma coisa ser outra sem se acrescentarem novos elementos? No caso da cachaça, chama-se fermentação e destilação. No caso da arte, criação. A realidade fornece experiências que chegam a nós pelos sentidos ou por relatos alheios. O artista trabalha esse caldo e o transforma em arte. Podem-se recuperar alguns traços da realidade na obra de arte, mas não totalmente, porque o caminho inverso é impossível de ser trilhado. Agora uma falha nesta analogia. A cachaça nos embriaga por algumas horas, depois vem a ressaca e tudo volta ao normal. A arte também...

Sobre a bondade

Quando criança, eu achava que havia pessoas boas e pessoas más, ou melhor, totalmente boas e totalmente más. Eu era boa, claro. Os pais, os familiares e os professores, também. Os meninos bagunceiros eram maus, assim como as patricinhas e os bandidos que apareciam na TV. Era essa a lógica do meu sistema. A partir da adolescência e até bem pouco tempo atrás, mudei minha classificação de bondade. Acreditava então que todos eram essencialmente bons. Se às vezes agiam com maldade, era porque não haviam aprendido a fazer o correto. Faltava o know-how. Tão logo convivessem com exemplos adequados, perceberiam o erro e se consertariam. Digo isso por mim mesma. Tantas vezes fui grossa e egoísta, até que conheci amigas extremamente gentis como a G. e a A. e tentava imitá-las. Progredi um pouco. Acho, talvez, quem sabe. A essa regra, criei ainda uma exceção – os dias em que a preguiça tenta e a gente vai pelo caminho mais fácil: xinga, explora, esnoba. Depois sofremos sozinhos, porque somos bons ...

Sobre o romantismo

Eu me recuso a ter facebook, porque é fácil demais. Você não precisa ter empatia nem ser bom de papo para saber tudo sobre todos. Você usa o inbox, manda mensagens para várias pessoas, e aquela que responder será a sua amada. Cadê a meritocracia? Qualquer bostinha com tempo livre para fuçar no perfil da galera pode passar por um cara sensível. Ter a coragem de perguntar olhando no olho, escrever cartas à mão, amar mesmo sem esperanças de ser amado de volta, esse que é o grande segredo. Eu me recuso a namorar cara rico, porque é fácil demais. Se ele quer te ver, só pega o carro na garagem e vai. Se é uma data importante, ele passa no shopping e compra um bibelô caro que qualquer mulher amaria. Ele paga tudo, dá tudo, faz tudo, e isso nem coça no bolso, porque ele não se esforçou para conseguir aquelas coisas. O que é demais para as pessoas em geral, para ele é corriqueiro. Pegar o último ônibus da noite, dar uma música de presente, economizar para o cinema do fim de semana, esse que é...