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domingo, 28 de outubro de 2012

Kafka e Crumb




Semana passada, assisti o documentário Crumb (1994, 120 min., direção de Terry Zwigoff). Coincidentemente, por esses acaso, foi parar em minhas mãos dias depois o livro em quadrinhos Kafka de Crumb. Acho que veio bem a calhar essa ordem dada pelo cosmos...

Conheci Crumb pelas muitas referências ao mítico “Fritz, the cat”, o gato fofinho, porém subversivo, drogadão e obsceno à cara do estereótipo que costumamos ter dos anos 1960. Lembro ainda do álbum Cheap Trills da banda Big Brother & The Holding Company (que, além do que pouco sei era banda  em que cantava Janis Joplin, antes da carreira solo).

Blues é uma coletânea de quadrinhos muito bacana que fala da relação do autor não só com este ritmo especificamente, mas com a própria música de modo geral, como: suas andanças como colecionador de raridades do blues em pequenas cidadezinhas do sul estadunidense e suas experiências com a banda - que tocava em eventos como casamentos, formaturas e coisas do gênera (aqui no Brasil, a expressão máxima são as tiazinhas em fim de noite dançando freneticamente a canção do Cupido ou então se banhando ao brilho da lua).




Essas poucas referências já criam a ideia de um Crumb, que no mínimo seria uma figura muito singular. Mas, Robert Crumb é gente muito mais excêntrica do que esse lero-lero que mandei até aqui. Muito do documentário é focado em sua família, destacando-se os dois irmãos, os quais fazem Crumb parecer poço de águas tranquilas. O mais velho, com uma espécie de fobia social, ao ponto de não sair do quarto há décadas e o outro irmão, uma espécie de mestre iogue fanático, que se deita em cama de pregos e tem hábito de engolir um cordão e puxá-lo novamente para "limpar" suas entranhas. Rejeitados na escola, costumavam estar juntos sempre. Foi com seus irmãos "estranhos" que muito do talento de R. Crumb com os quadrinhos começou aflorar. Chegaram a editar quadrinhos artesanais conjuntamente.

 Crumb gostava de desenhar pessoas de modo bem característico. Tinha medo, rejeição e raiva do feminino, apesar de deseja-las. Mas é relevante notar que suas mulheres são no mais das vezes figuras poderosas, com formas que, por sua vez, costumam jogar pra escanteio a padronização da beleza feminina. A despeito das críticas, em relação a isso, acho que Crumb em sua sinceridade e maluquice, mais estava a par de descortinar preconceitos latentes na sociedade, do que propriamente de ser um misógino, como dizem, ou algo do tipo. Num quadrinho, que integra “Blues”, de uma página que ele faz corar de vergonha qualquer militante libertário que no fundo, no fundo se revela machista. Faz refletir um pouco sobre nossa hipocrisia, e a necessidade de construirmos outras maneiras de agir, mais sensíveis à alteridade e, consequentemente, do modo mais pleno no respeito ao outro.

Kafka era também homem de fobias. Cheio de receios quanto a mulheres, só se permitiu amar duas vezes (ou para ser mais certeiro, uma vez e meia). No mais, as esquivava através de proposições de namoro à distância, quase restritos a cartas, e tinha costume se depreciar, se dizer indigno da vida e da felicidade. 

Era judeu. Isso no início do século XX, num país dividido entre checos e alemães, mas com ambas as partes antissemitas. Pra piorar não se reconhecia judeu, checo ou alemão. E, nesse sem fim de contradições, queria largar tudo e ir pra Palestina, que então judeus começavam a migrar, ao passo que negava seu próprio judaísmo.

Como Crumb, era oprimido pelo pai, um comerciante, que achava que o filho seria uma desgraça. Kafka chegou a escrever um livro que seria sua Carta ao Pai, no qual lhe dizia por que era tão difícil a relação. Contudo, temeroso que era do pai, não a entregou pessoalmente. Deu-a para mãe, que logo lhe devolveu. Kafka não parecia ser homem de forças...

Em determinada ótica Kafka e Crumb se confundem. Se o primeiro é tido como figura reservada e contida. Crumb, por sua vez, chega a ter sua vida tão publicizada a ponto dessas suas fraquezas, extravagâncias e perversões sexuais serem expostas em documentário que participa ativamente.

Contudo, esses quadrinhos que procuro tratar, não são trabalho solo de um Crumb inspirado, e há muito do roteirista David Zane Marowitz com primoroso texto e trabalho de pesquisa e elaboração. Chega ser uma lição de criatividade de como se construir uma narrativa articulando elementos biográficos com a obra do autor. Sucessivamente, contos e livros como “A Metamorfose”, “O Castelo”, “O Processo” e “A Toca” ganham sentido para uma interessantíssima caracterização do personagem principal que é o próprio Kafka. Ou seja, ao contrário do que se poderia imaginar (e eu quase tinha certeza) não é uma mera compilação de textos transmutados em quadrinhos, como costuma ser no mais do mesmo. Mais que isso, é uma belíssima biografia enriquecida com o traço certeiro e afinada com o universo kafkiano que só alguém com a personalidade insana de Crumb poderia realizar.


Aliás, por falar em kafkiano, termo tão recorrentemente usado quase beirando ao senso comum, é algo discutido pelos autores. O tal “kafkiano” seria mal interpretado pelos “açougueiros da cultura moderna” a ponto de ser tido como “existencialista”, “uma teoria do absurdo”, “o caos”, ou mesmo “a busca incansável de Deus” (como queria o amigo que publicou, post mortem, a parte de sua obra então inédita). Para Crumb e Marowitz, kafkiano, é mais do que isso, mesmo que tenha muito desse ar melancólico e de autocondenação, é dotado de humor e que tem a “intricada ironia judaica que se esconde no corpo e obra de Kafka” (p. 11).

Dentre semelhanças (e diferenças), Kafka e Crumb se associam por serem reversos à normatização. Não se enquadram na imposição de valores, na rigidez dogmática das formas de agir, nem aos seus próprios tempos. O louco Crumb, do documentário, chega a revelar que apesar de ter vivido literalmente a lisergia sessentista, não se adequava muito àquilo e ao contrário das dicas de como poderia se tornar mais atraente e “comer quem desejasse”, não aderiu ao visual hippie em voga. Preferia trajar seu chapéu e ternos “antiquados”.  Kafka era frágil, vegetariano, com mil e uma doenças, cheio de manias. Tudo aquilo que não queria a virilidade daqueles tempos de eugenia racial e culto ao corpo brotando por todos os lados.

Considero a obra de um e outro como questionadoras do mundo e não à toa Kafka, que chegou a ter sua obra censurada pelos estalinistas, renasceu das cinzas por sua constante crítica ao poder e autoritarismo no alvorecer da Primavera em Praga.

Rejeitam, cada um a sua maneira, o absolutismo da realidade (ou a imposição de uma dada forma de realismo), e apesar de epidermicamente aparentarem serem controversos, podem ser lidos como reflexos espelhado. Em tempos que os projetos com perspectivas diferenciadas para o mundo encontram-se abalados, caras como Kafka e Crumb podem nos ajudar a matutar de um jeito diferente...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Duas-Caras .

Lembro-me do dia que ganhei uma revista de quadrinhos que me deixou com bastante medo. Era uma edição de Batman Anual da Editora Abril. Havia três histórias, se não me engaduas-caras_msn1no, e confesso que pela idade (eu tinha uns dez anos) eu não entendi muito bem todas. Principalmente uma que falava sobre o Morcego na Rússia. Àquela época eu não tinha uma ideia do que seria aquela tal URSS que recentemente havia deixado de ser (pelo menos se dizia) um Estado comunista, aliás, é bem capaz que sequer eu soubesse o que era comunismo.

Uma delas, no entanto, havia me deixado profundamente aterrorizado durante muitas de minhas noites. Mais até do que uma capa de uma revista do Fantasma que tinha duas caveiras com diamantes no lugar onde um vivo teria os olhos.

Mas voltando ao que me propus a falar aqui, era aquela uma história que contava a origem de Duas-Caras. Este que figura no rol dos principais inimigos de Batman.

Ao ler aquelas páginas senti medos diferentes. A primeira foi ao ver a face de Harvey Dent (o promotor público que se tornaria o vilão) ser deformada por ácido.

Harvey no decorrer da história ainda não era Duas-Caras. Isso se daria quando finalmente assumisse a outra personalidade oculta dentro de si mesmo.

Quando cheguei ao ponto onde isso ocorria me senti fascinado. Não sei se entendia muito bem qual era a daquele personagem que deixava exposto da forma mais evidente o possível o contraste entre seu lado bom e seu lado mal. Mas reafirmo que achava admirável àquilo.

Hoje, quando aqui me recordo, do alto da confusão de minhas lembranças tenho um parecer que ele lidava com isso de um modo também contraditório para a luta que vivia em seu interior. Pois se para muitos, seu distúrbio poderia ser caracterizado como uma constante violência psicológica para consigo mesmo, por outro lado, ele se utilizava de uma resolução bem objetiva para esse conflito: a própria sorte.

Era lançando ao ar a moeda de duas caras com um dos lados riscados, único presente dado pelo pai, alcoólatra e violento, que decidia a vontade de qual dos seus “eus” que deveria prevalecer. Sei que não decidimos o que fazer em nossas vidas necessariamente deste modo, mas por outro lado, acho que constantemente somos obrigados a reprimir uma boa parte de nossos desejos.

E isso se revela, por exemplo, quando nos sentimos incompreendidos por todos. Afinal, num mundo onde as normas, costumes e instituições definem o que podemos ser, não é incomum se sentir desamparado por nunca se poder ser o que de fato se é.

Mas voltando ao Duas-Caras, creio ainda que ele é ainda um exagero proposital do que seria o maniqueísmo para que ao mesmo tempo este seja negado numa análise mais aprofundada.

Como ele também não somos de todo bons ou maus. Acho que nossos sentimentos não se reduzem a essa perspectiva simplificada. Até porque o que tomamos como “bem” ou “mal” nada mais é que definições que foram se articulando a partir de conceituações dadas por pessoas tão humanas e imperfeitas como qualquer um de nós. E obviamente, se nos lançarmos a uma pesquisa sobre tais termos veremos que eles constantemente foram se ajustando em situações específicas, de acordo com interesses daqueles que estavam no comando de governos, religiões ou em acordo com as necessidades das diversas sociedades.

Não nego que existem atitudes consideradas “boas” ou “más”. Porém pergunto: como assim foram definidas?

Acredito que em alguns casos como necessidade da própria espécie humana, como por exemplo, a rejeição ao homicídio dentro da vida civil. Em outros, devido a identificações culturais, tais como algumas das restrições religiosas. Porém, o tipo mais questionável e muitas vezes perverso é aquele se dá por meio político e / ou ideológico e que serve como instrumento de consolidação do poder.

Isso se vê na atribuição de imagens maléficas para aqueles que manifestam algum tipo de objeção divergente. Cito neste caso, a construção do árabe como inimigo da civilização ocidental, o que é de uma arbitrariedade estúpida. Quem disse que nossa forma de compreender o que é civilização é ideal a todo o mundo? Por sua vez, se os países “civilizadores” tivessem um respeito maior pela diversidade cultural, além de não tentarem garantir a qualquer custo sua lucratividade no Oriente, o mundo não seria um lugar de mais paz?

Freud supunha que todos temos algo de perverso. Porém, não é preciso pensar muito para verificarmos que se manifestássemos essa perversidade a todo instante a vida em sociedade seria impossível. Já pensou se não resistíssemos a nossas pulsões sexuais e a saciássemos quando bem nos conviesse? Ou ainda, se sempre agredíssemos alguém quando sentimos raiva?

Enfim, se existe, prefiro pensar que a bondade resida nestes termos: a capacidade de melhor nos relacionarmos e nos solidarizarmos com os outros e na consequente compreensão de que somos integrantes de uma coletividade. Coisas que são bem difíceis numa sociedade tão individualista e que as pessoas mal compreendem a si próprias. Além do que, se assim ficamos, nos afundamos ainda mais nessa contradição e estranhamento de nossos “eus” e com o que definem como “mau” e “bom”. Sem nunca nos atentarmos que tudo isso nos compõe e nenhuma dessas facetas se cliva ou se exclui.

Talvez ter esse entendimento sirva para que não nos tornemos Duas-Caras enrustidos...

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