Friday, March 20, 2009

Vasco Graça Moura
no obscuro desejo

no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

in Antologia dos Sessenta Anos, ASA, 2002
Pedro Tamen
Natércia

Se tudo fosse assim tão pilotado
por um ser zelador, poderosíssimo,
saltarias do nada, e a meu lado
gerarias poemas no quentíssimo
roçar da pena sobre a pena ferida
e, tal como o leitor e a condolência,
alma minha gentil da minha vida,
ganharias o mar da inexistência.

In Analogia e dedos, 2006

Friday, February 06, 2009

Apaguei as cores da tela
acreditei que sem elas seria mais fácil
sobreviver à tua ausência…
Engano meu

sem elas, sinto a dor da solidão.

ajsp

Monday, January 19, 2009

O homem atlântico (excerto)
Marguerite Duras

(...)
Continua també esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que eu não sabia viver, dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
(...)

in Textos secretos, Lisboa, Quetzal , 1987, trad. Tereza Coelho
Funeral Blues
W.H. Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

Só porque estou muito triste. Tio Francisco, para ti.
Fernanda Vences

Thursday, January 15, 2009

Não sei de amor senão
Manuel Alegre

Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tiddo
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me dói no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse é meu por nunca ter ardido
não sei de amor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido.

Wednesday, January 14, 2009


não te chamei, observei-te

a suavidade do teu caminhar

quebrou-me a voz

fiquei ali, sereno

simplesmente a olhar


Enviado por Artur Patrício.

Tuesday, January 13, 2009

valter hugo mãe

vinha pedir-lhe amor, como se
fosse um pouco de arroz ou assim.
é porque também precisaria de pouco.
a mim qualquer coisa me basta e vindo de si,
juro-lhe, o vir de si já seria mais do
que suficiente. não me considere
disparatado. pode ser um disparate o que faço,
mas é de um juízo grande tudo
o que fazemos para ir de encontro
ao coração quando o coração está certo

in http://casadeosso.blogspot.com/

fingir que está tudo bem
José Luís Peixoto

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

Monday, January 12, 2009


Imagens
Ana Luísa Amaral

Estragas-me a paz.
E eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.
*
* *
Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
pôr aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.
*
* *
Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais,
e que se chove corra a apanhar-te,
não te vás desbotar ou romper,

ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.
*
* *
Mas é que não és tu:
sou eu que ando estragada:
as minhas solidões não as preciso

e a minha paz, coitada,
já teve a mesma sorte
que os bocados mentais de que falava

no verso três
da página anterior.

Coisas de partir
Ana Luísa Amaral

Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo,
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.

in Coisas de partir, Lisboa, Gótica, 2001

Thursday, January 08, 2009

Nicolau Tolentino de Almeida
Obras Completas – Volume I – Sonetos e quintilhas, edição de Claude Maffre, Porto, Campo das Letras – Colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, 2008; p.102.

[Soneto] 54 – A uma camponesa

Não moram em palácios estucados
Almas singelas, almas extremosas;
Nutrem na Corte as damas enganosas
Em brancos peitos corações dobrados.

Venham por largos mares conquistados
As indianas sedas preciosas;
Cubram-lhes as carnes finas e mimosas
Ricos vestidos em Paris bordados.

São isto efeitos da arte e da ventura.
Estimo mais que toda a vã grandeza
Um limpo coração, uma alma pura.

Não na Corte, das serras na aspereza
Fui achar inocência e formosura,
Sagrados dons da simples natureza.