Meu primeiro naufrágio
Capitalismo selvagem consome minhas horas de vida. Precisava
me desligar. Como? Voltando as origens. Da onde eu vim?Praia deserta, ondas,
sol , energia positiva. Feriado 7 de setembro é minha chance.Paraíso próximo?
Ilha Grande, Rio de Janeiro. Praia mais isolada? Praia do aventureiro, nome já
diz tudo. Vamos aventurar!
Xaneca.Nome da embarcação. Casco 17 pés, motor de popa
Evenrude 115.Tripulação: Joao, Guilherme e eu. Um mestre arraes e dois arraes.
Missão: Levar Xaneca até a praia preterida e voltar sãos e salvos.Porto de
partida: Angra.Chegamos as 18hs. Navegação noturna pela primeira vez foi
mágico. Os olhos se adaptam a escuridão e você começa a enxergar no escuro como
num passe de mágica. Lendo a carta náutica chegamos a praia de Abraão dentro da
baía de Ilha Grande. Atracamos nas poitas publicas e dormimos para então zarpar
ao nosso destino.
Chegamos em Aventureiro para encontrar boas ondas de 1m, sem
vento e formação regular. Fomos de encontro a Neneca, mãe de uma grande família
que vive da renda de aluguel de casas e um bar/restaurante na praia. Graças a
anos de relação local/mergulhador, fornecendo peixe fresco, João e Guilherme são
muito queridos na área. Mesmo com as acomodações lotadas, conseguimos alugar o
quarto do Luciano, no alto do morro, vista privilegiada da praia. Após
deixarmos as mochilas com pertences, fomos em busca das ondas a bordo da
Xaneca. Surfamos boas ondas até escurecer.João atracou o barco e fomos dormir.
João foi o primeiro a acordar as 7h. Saiu de casa foi tomar
café. Acordei em seguida e o encontrei no balanço de madeira na beira da praia.
Começamos a divagar sobre as ondas que surfaríamos naquele dia. Guilherme
aparece correndo em direção ao canto direito da praia onde Xaneca estava
apoitada. “Porra João, o barco afundou de novo!”. Eu pensei. “Afundou?De
novo?”. João responde. “É, afundamos aqui em 2007. Vamos la ver o que foi dessa
vez”.Corremos para o canto da praia e já avistamos uma canoa de pescador sobre
o naufrágio. Na pacata praia, 3 homens correndo chamam atenção e logo se formou
uma reunião de curiosos na beira. Fomos nadando até o local para achar a Xaneca
submersa e com ela nossos equipamentos de mergulho, mantimentos para o feriado em
alto mar e outras coisas menos importantes. Me peguei pensando na cena: Como
tirar uma lancha do fundo do mar em pleno feriado em uma praia isolada sem
telefone ou sinal de internet? Juro que mesmo sendo proprietário de barco a
quase 3 anos nunca tinha me passado a real cena/ possibilidade desse fato
acontecer.
Isso sim era desconectar e me ligar a algo muito mais
precioso. Amizade e espírito de equipe para sair dessa roubada. Nessa hora a
intuição é ativada dentro de você e as coisas começam a acontecer naturalmente.
Para começar a família da Neneca e amigos estavam prontos para ajudar. Seu
Paulo, 60 anos, pescador experiente, foi o primeiro a orientar os “meninos”. “Amarrem
os cabos no cunho de proa e vamos desenterrar a hélice do motor e reboco com
minha traineira”- disse. Depois de solta da areia, a reunião de curiosos se
uniram para puxar a lancha “na mão” até
a areia. Na areia esvaziamos com baldes os compartimentos encharcados e Xaneca
voltou a boiar. Agora era correr contra o tempo para reboca-la até um porto
seguro para adoçarmos o motor e minimizar o prejuízo. E as ondas, sol e a
energia positiva?
Nosso dia se voltou para cena impensada até então. Quais
primeiros socorros a um motor salgado? Com conseguir um tel para ligar para o
mecânico para obter informações? Sol a pino e a praia cheia de gente curtindo
aquele dia lindo. A sensação de estar no paraíso, mas não poder curtir, é
péssima. Andávamos de um lado para outro da praia afim de encontrar uma saída
para aquela roubada. As 15hs da tarde conhecemos Jair que nos prometeu levar
até Provetá (baia mais próxima de angra), pois chegando lá teria um amigo que
nos levaria rebocados até a marina do Joao. Chegando lá, o contato do Jair havia
saído para o mar sem previsão de volta. Estavamos nos 3 e Xaneca a ponto de
afundar de novo, a espera de um milagre. Quando o breu tomou conta do pequeno
deck que estávamos chega a traineira Capitão Hernani. Ultima barco a atracar
ali. Era nossa ultima chance.
Desespero bateu. João foi até a embarcação. Depois de 20
minutos de conversa, Joao volta ao deck onde estávamos. “João Victor iria nos
levar, por 300 reais”-disse. Não tínhamos outra alternativa ali. E com nome
sendo a junção dos nossos, era um sinal de que deveríamos seguir. Até Angra
levamos 3 horas navegando da forma que chegamos a Angra, a noite. Dessa vez
tivemos a companhia de um cardume de golfinhos. Exaustos chegamos ao canal onde
teríamos acesso a marina. A traineira de Joao Victor não entrava no canal raso.
Remamos mais 1000 metros até chegar ao porto seguro. As 2h da madrugada de
domingo eu estava deitando na minha cama para dormir. Desligado.
Eu e Guilherme

