O repuxo cantava a frescura dum fim de tarde enquanto as
damas nas suas saias rodadas pisavam levemente o chão e conversavam sobre os
últimos escândalos da corte. As mãos pequenas enfiadas em luvas de renda
seguravam o leque francês pintado com figuras de coloridas aves e abanavam os
rostos protegidos por chapéus de grandes abas atadas por debaixo do queixo com
fitas de cetim. Poderia ser um quadro romântico do sec. XVII ou XVIII em que
havia reis e rainhas e muito povo com fome.
Hoje, do terraço onde me encontro, nesta hora admirável de
final do dia, em que o sol, por obrigações celestiais, tem de nos abandonar, posso
admirar o mesmo repuxo rodeado por canteiros de sebes baixas, ouvir o cantar da
água que jorra elevando-se no ar para tornar a cair na bacia de pedra que o
circunda mas, não vejo damas de fartas saias rodadas trocando entre si pequenos
segredos com risinhos à mistura. Somente os hóspedes deste palácio, agora
tornado unidade hoteleira, por ali deambulam em alegres conversas envergando
frescos calções e blusas vaporosas que assim o exige a agradável temperatura
deste outono algarvio.Fecho os olhos e a brisa da tarde refresca-me o rosto e os pensamentos.
Não temos rei nem rainha mas o povo continua com fome.
foto e texto de Benó