(Pousada das Penhas da Saúde) |
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As minhas Janelas (Foto roubada na net) |
Outrora, as minhas
Janelas
(Um dia daqueles de
Junho (2014), em que o Sol quase nos fazia comprar a sombra, subi às Penhas da
Saúde, ou melhor… subiram-me: mão amiga, em busca dum passado que teima em
achar-se presente. E lá estavam elas…, qual fénix renascida, reinventadas por
Souto Moura: “As minhas janelas”.)
Não, não eram as de
Maluda, nem tão-pouco, foram pintadas com as corres de Cézanne. As minhas janelas,
correspondiam, aos quartos 215, 216 e 217 (a contar da direita para a esquerda).
Eram de cor branca e por força dos anos o esmalte começava a descascar deixando
no meu olhar a madeira de castanheiro. Pelos seus pequenos vidros que
embaciavam muitas vezes com o bafo saído do meu nariz, olhava o meu Universo (e
lá longe quase no fim do horizonte, Terra que diziam ser de Espanha). E olhava,
olhava sempre. Ali, pertelinho, tinha o pinhal. O pinhal cobria toda aquela
encosta e terminava lá em baixo, nos arrabaldes da cidade. As galenas e
aparelhos de rádio tinham nos pinheiros, mais altos, um pouso adequado para as
suas antenas tendo a outra extremidade presa às argolas de ferro que pendiam da
extensa cornija que encimava o edifício entre o segundo e terceiro andares. No
Inverno, rigoroso, as estalactites de gelo pendentes no beirado fugiam àquele
olhar, mas as pendentes na cornija levavam-me à admiração e forçavam-me a
recordar os caramelos de gelo da Ribeira do Porssim que acariciava o meu quase longínquo
Sobral. E daquele Universo fazia parte o homem de estatura baixa e forte, com
um fato acinzentado de tecido grosso dado pelo Sanatório e que junto do pequeno
lago, onde havia peixes vermelhos, apanhava beatas. Sim, aquele homem munido
duma pequena vara com um aguilhão na ponta apanhava beatas. Restos de cigarros
havia muitos, naquele tempo acreditava-se que fumar contribuía para cura da
doença. E o homem que seria o mais pobre dos pobres diariamente colhia do chão
a dose de que precisava. Com a vara na mão direita picava a beata e num
movimento rápido, como se envergonhasse, guardava-a no seu bolso esquerdo.
O homem que apanhava
beatas, além de fumar, escrevia. Fumava e escrevia. Muito. Enchia cadernos de
linhas que depositava numa caixa de papelão que as irmãs-freiras lhe tinham
dado depois de utilizados os frascos de P.A.S. e da hidrazida, medicamentos
utilizados no combate à tuberculose. Não mostrava o que escrevia e eu também
não tinha curiosidade em saber. Mas, entre dentes lá ia resmungando que o
Diário Popular, ou seria o Século, de vez em quando, lhe pagava meio conto. O
tempo foi passando e o homem, apesar de fumar muito, curou-se! Com o
“papelinho” que dizia “clinicamente curado” na mão, ficou mais triste que feliz.
Os seus cadernos eram o seu maior tesouro. Folheou todos os cadernos e
arrumou-os melhor na caixa de papelão. No dia da saída, chamou a irmã-freira Pietra
e disse-lhe: Irmã, não tenho condições para levar esta caixa para Lisboa. Não
tenho casa nem família e também não sei quando um dia virei buscá-la, mas
virei, disse convicto. Até lá, peço-lhe que me guarde estes pedaços da minha
vida, até um dia… Arrumou-se o caixote em cima do guarda-fatos e os dias foram
passando lentamente, muito lentamente! No calendário da parede, os meses
foram-se rasgando, até que chegou também o dia da minha saída, não clinicamente
curado, mas em trânsito para o D. Carlos I (hoje Pulido Valente), para ser
operado. Ao sair daquele quarto o meu último olhar foi para aquele caixote que
ali continuava, até um dia...
António Pinto
António Pinto