quinta-feira, 20 de maio de 2010

O dia que adotei um livro desconhecido

Seria mais uma tarde comum de estudos pela universidade. Até que resolvi buscar livros novos. Estava sentada ali olhando praquela capa multicolorida que carrega 600 páginas de difícil digestão. Precisava de algo novo e leve.
Estava buscando algo que alimentasse o vício anterior: crônicas. Nada, nenhum! É, ninguém abandonaria Clarice àquelas prateleiras. Pensei então naqueles romances da moda: havia mesmo muitos exemplares de crepúsculo, anjo não-sei-de-quê, sombra do vento, lua, um monte de capas tentadoras. Mas logo ao lado aquele autor me chama a atenção. Era mais um do Saramago. Excelente, pensei, novinho e barato! Mas, ao ler a história na contracapa fazia um tremendo esforço para tentar gostar daquilo. Não me convencera. Continuei perambulando... não queria aquela filosofia densa que acabara de ler a pouco, achei três livros que estou buscando há tempo, mas... muito velhos. Até que cruzei um corredor e, por acaso, vi uma abertura entre livros na qual se podia ver escrito Lacan. Só ao término do livro fui compreender a profundidade daquele título: “O dia em que Lacan me adotou”.
 Aquele que era um dos nomes mais controversos e incompreensíveis da psicologia me chamava a atenção. Já que não podia compreender Lacan através de seus próprios Escritos, a idéia de que um analisando contasse sua terapia, e conseqüentemente, muito de suas idéias, parecia fascinante. Comprei.
Imediatamente sentei num daqueles sofás e quando fui interrompida por um garçom já estava na página 38. Não, eu não queria um suco. Já estava totalmente envolvida na história: Gérard, o próprio autor, tinha uma expectativa pessoal e familiar de se tornar médico. Porém, ao se deparar, em um hospital, com a tragédia que eram as “loucuras” humanas, logo se convenceu a se desviar deste caminho. Foi estudar Agronomia e passou um bom tempo entre missões de seu trabalho sobre plantio de arroz e desenvolvimento na África. Ele era tunisiano, mas foi morar em Paris. Mesmo assim, seu trabalho sempre o remetia de volta a seu continente natal.
Com o tempo, Gérard já não se sentia feliz com seu trabalho, passava por crises conjugais e financeiras, além do desencontro com a família. O acaso, seu grande aliado, então o levou à porta do consultório de Lacan. Dez anos depois, ele, o próprio Gérard se tornara médico, psiquiatra.
 Não ouso reproduzir as idéias de como Lacan conduzia a terapia. Esses são os pontos mais interessantes do livro. Gérard argumenta que muitos ditos “lacanianos” mal compreendem como Lacan realmente pensava.
Não só isso faz do livro uma leitura desbravadora, mas a quantidade tão diversa de assuntos que ele consegue trazer à tona: fala de seus problemas, dúvidas e questionamentos, ao mesmo tempo que narra um interessante ramo de trabalho da agronomia, suas viagens pela África, seu marxismo militante, o confrontamento pessoal entre judaísmo X ateísmo, a própria ligação de Lacan ao judaísmo. Fala de suas feridas e curas como se fossem universais. Mas sua história não poderia ser mais íntima e particular.
 Tenho a sensação de que todo livro que leio parece ganhar o lugar de favorito. Que bom ter sido tomada por uma leitura tão agradável. Mais que recomendado a todos os curiosos de Lacan ou simplesmente das múltiplas faces da vida.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Uma luz sobre Direito Econômico Internacional

Instrumentos Jurídicos das relações econômicas internacionais e da integração regional

            Este resumo trata das relações entre direito e a atividade econômica e seu objetivo é o de explicar o sentido e a função do direito econômico internacional.
            Antes de tudo, há que se desfazer um grande mal entendido sobre o tema mercado X regulação. A dominância da ideologia liberal leva a crer que há um funcionamento automático e livre dos mercados, que estes se regulariam por si só. A intervenção do Estado seria algo excepcional. Esta visão, além de imprecisa, reforça a idéia da desregulamentação da economia – outrora aclamada, agora condenada como uma das causalidades da crise financeira atual.
            Desde o momento em que acordamos até o fim do dia, estamos cercados de fatos corriqueiros que estão vinculados à regulação da economia. Acender a luz, tomar banho, dirigir. Seja no fornecimento de energia ou nas regras de trânsito, é certo que muitas ações estão relacionadas a regulamentações. Justificar a intervenção do Estado pela existência de falhas de mercado é, portanto, inadequado.
            O Estado intervém na economia, não porque há falhas de mercado, mas por que a economia é uma atividade social em que agentes distintos interagem e têm, ou podem ter, interesses diversos. Portanto, assim como toda atividade social, a economia também está juridicamente regulada. Todo mercado tem regulação. Se não a tem, é o chamado mercado negro.
            O papel da regulação pode ser verificado em diferentes instituições. O FMI, por exemplo, prega por uma liberalização dos fluxos internacionais, combinada com uma regulação mais estrita dos mercados financeiros internos. É preciso ter cuidado para não confundir liberalização do fluxo de capitais com integração dos mercados financeiros. Na União Européia, muitos economistas caíram nesta falácia, e com surpresa só muito mais tarde se deram conta de que os Estados membros da UE estão sujeitos a legislações e sistemas de supervisão internos muito distintos uns dos outros, o que nem sempre proporciona a integração, embora haja fluxo de capitais entre eles.
           Então, para facilitar a compreensão das relações entre Direito e Economia, criou-se uma comparação destas com a relação de jogo de luz de uma discoteca. De um lado, tem-se a pista de dança (a economia, e seus diversos atores dinâmicos) e do outro, um complexo jogo de luzes que ilumina esta pista com diferentes cores, formatos e foco (a regulação que modela a realidade econômica). As luzes poderão ter maior ou menor foco, intensidade ou dimensões do círculo, assim como a regulação tratará de diferentes temas, poderá ter diversas orientações políticas ou vários âmbitos de aplicação. Desta forma, é preciso estar atento a atitudes reducionistas ou soluções únicas e universais, pois os fatores descritos estão interligados, ou seja, iluminados por um complexo e variante jogo de luzes, que não pode ser resolvido com o ajuste em apenas uma dimensão.
            A economia é uma atividade social juridicamente regulada. Cada Estado constrói e faz funcionar o jogo de luzes que molda esta atividade. Mas, é certo que essa atividade também se expande para o cenário internacional: há, cada dia mais, operações e transações econômicas internacionais. E assim, surge a necessidade de um jogo de luzes internacional que regule tais realizações. No plano global, no entanto, não existe uma entidade para controlar as luzes. A “criação” do direito econômico internacional (DEI) só poderá ocorrer por meio de tratados ou acordos.
            Assim, o DEI não é uma luz superposta à luz da pista de dança, mas um próprio mecanismo adicional para regular as luzes nacionais! Isso faz com que o jogo de luzes internacionais tenha muito menos instrumentos de manobra, de onde surge a seletividade dos temas tratados pelo DEI: a relevância de alguns temas sobre outros, de certa orientação política por outra, de aplicação X ou Y.
            Elevar o jogo de luzes nacionais ao plano internacional é uma tendência quase certa de maus resultados, pois internamente o jogo de luzes está guiado por um superfoco, a Constituição, que sistematiza e garante a combinação de luzes em cada ponto da pista. Já na arena internacional, coexiste uma série de mecanismos independentes que afetam e influenciam as luzes nacionais. É como se fossem várias técnicas diferentes de regular as luzes nacionais, mas sem nenhuma garantia de solução das possíveis contradições que possam existir. Ou seja, internacionalmente existem os tratados, que tentam regular, de alguma forma, o comportamento dos Estados nacionais; mas não existem garantias do cumprimento ou dos resultados vindouros destes acordos.
            Os problemas essenciais da interação entre direito nacional e DEI são as diferentes perspectivas do que se “vê” e “ilumina” a mesma realidade. Como os focos são distintos, não se deve estranhar que haja contradições entre as lógicas do plano nacional e dos distintos planos internacionais que tentam regular aquele. Este problema de perspectiva é um dos principais problemas políticos do DEI.
Não se deve confundir o que (objeto) se regula com o como (instituição) se regula. O DEI atua de modo indireto no instrumento regulador internacional, criando obrigações aos Estados. Em matéria regulada (objeto), o foco são as relações entre Estados e particulares.
Entretanto, apesar das intrincadas relações, economia e direito não são inseparáveis e nem o direito é o único mecanismo de regulação. Sua capacidade para tal, inclusive, é muito questionável, pois o Direito pode ser violado, reduzindo sua capacidade de regulação e podendo criar efeitos contrários dos propostos. Muita cautela é necessária frente a tais efeitos. Mas os Estados têm outras opções além do direito: poderão atuar em atividades públicas (serviços de educação, infra-estrutura), na redistribuição de renda por meio de transferências orçamentárias e por instrumentos diplomáticos, para atingir seus objetivos.
O direito, portanto, modela a economia, funcionando como seu jogo de luzes. Para que sua prática seja eficiente, o DEI precisa ser seletivo nos temas e relações que trata – como compõe as luzes – e faz-se necessário que atue com uma lógica distinta da do direito interno. É preciso estar claro que o direito não é o único instrumento disponível ao poder estatal ou internacional. Dada a complexidade do jogo de luzes na pista, mais vale se utilizar das diversas ferramentas do que fazer mal uso do mecanismo jurídico e acabar com a festa na pista de dança.


terça-feira, 4 de maio de 2010

Os mitos da Globalização

Moisés NAÍM – Globalization 

A globalização é, para os pessimistas, a causa do colapso financeiro, da desigualdade, do comércio não-justo e da insegurança. Para os otimistas, é a solução de todos esses problemas. Certos ou errados, o inegável é que a globalização chegou pra ficar.
Neste artigo, Naím traz uma abordagem inovadora, ao comentar pontos que são tidos como senso-comum em questões que tratam da globalização. A idéia é desmistificar certos conceitos e trazer novos pontos de vista a serem construídos sobre a globalização. São 7 principais:

 “A globalização é uma casualidade da crise econômica”: Não. Não é, porque globalização não se trata apenas de economia e investimentos, pelo contrário, vai muito além disso. A globalização representa uma ampliação, aprofundamento e aceleração da conectividade global em todos os aspectos da vida. A crise econômica não foi e não será suficiente para impedir que os países continuem no processo de integração. Mesmo com algumas medidas de proteção, muito dificilmente os países conseguirão evitar as influências externas. Não há nenhum indicativo de que esta tendência mude.
 “Globalização não é nada de novo”.  Ah,  é! Alguns argumentam que a globalização é um processo de continuidade que remonta desde os tempos em que os continentes se encontraram pela primeira vez. Mas ainda sim, o ponto é que esta nova globalização não tem nenhum precedente: nunca foi tão veloz, tão individualizada, provocando mudanças significativas quase que instantaneamente e a baixo custo. As possibilidades, e principalmente, as conseqüências são fatos nunca antes vistos pela humanidade.
“Globalização não significa mais americanização”: E nunca significou! A globalização abriu espaço não apenas para os EUA, mas levou sushi e telenovelas para todos os continentes, gerando inclusive a possibilidade improvável do surgimento de rivais contra a hegemonia americana em vários setores. Não se pode dizer que a globalização é um modelo de exportação do modelo norte-americano (american way of life). É claro que os EUA se beneficiaram muito com este processo, mas certamente não foram os únicos.
“Políticas de grandes potências estão de volta”: e nunca foram embora. Acreditava-se que a integração dos países seria benéfica contra as guerras e de fato foi. Até que vieram os ataques de 11 de setembro: a figura do Estado mínimo saiu de moda e era hora de mostrar a força de Estado. Laissez-faire está por fora, o importante é mostrar a atuação governamental. O fato é que a globalização não acabou com os nacionalismos, deixou-os mais complexos. A diferença é que globalização e geopolítica agora coexistem, e vieram para ficar.
A globalização é feita para e por ricos”: países emergentes como Brasil, Vietnam, India e China provam o contrário, haja vista o efeito de investimentos facilitados pela globalização. Acredita-se que esta tirou muita gente da linha de pobreza, enriqueceu as classes médias. As evidências estão aí.
“A globalização faz do mundo mais seguro”:  não é verdade. O número de conflitos diminuiu significativamente, mas as formas de conflito e violência mudaram. Terrorismo, narcotráfico, doenças, proliferação nuclear. De alguma forma o mundo é está mais longe da aniquilação do que quando as superpotências se armavam e guerreavam, mas hoje há um medo iminente, desconhecido, que provoca uma esfera de insegurança o tempo todo.
“A crise financeira é um sintoma do comportamento selvagem da globalização”: Sem dúvida a globalização multiplicou os problemas que não podem ser resolvidos unilateralmente. A necessidade de colaborar é tão óbvia quanto a dificuldade de se chegar a uma solução. As instituições internacionais não conseguirão resolver os problemas por si só. O maior desafio é, portanto, diminuir a lacuna entre os progressos da comunidade internacional e a habilidade individual colaborativa de cada Estado frente aos problemas.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A crise e a ordem

-  A crise financeira de 2008 como um grande revés para o Ocidente.

                A crise financeira de 2008, a maior em mais de 70 anos, foi o maior revés para a Europa e os Estados Unidos. Neste meio tempo, estes governos não têm tido nem os recursos nem credibilidade para influenciar o mundo como outrora faziam. Acredita-se que esta tendência está afastando o centro de gravidade do mundo para mais longe dos Estados Unidos.
                Com o colapso do sistema financeiro, os países agiram de forma a nacionalizar seus interesses em um nível que contradiz os princípios do capitalismo moderno: o papel do Estado volta a ser peça fundamental para a saída da crise.
                Embora a crise possa ter beneficiado os EUA em termos da eleição do presidente Barack Obama, invocando novas promessas, Altman acredita que a crise – com influência de forças históricas – deixará o mundo cada vez mais distante da ordem unipolar dominada pelos EUA.
                Os argumentos são relativos à ascensão da China no cenário global. Acredita-se que este país tenha sido pouco afetado pela crise (em menor nível que os EUA) e que seu crescimento doméstico esteja se consolidando a cada dia, além da aumentada capacidade de investimento estrangeiro, em um momento em que o Ocidente não pode praticar tais jogadas.
                Diferentemente do que o senso comum acredita, sobre a causa da crise financeira ter se iniciado com a bolha imobiliária americana, Altman explica que a crise foi mais que isso, uma combinação letal entre juros baixos e liquidez sem precedentes, gerando caos no sistema global em brevíssimo espaço de tempo. As ferramentas outrora utilizadas pelos governos na contenção financeira, já não estavam mais funcionando. O sistema financeiro global estava devastado.
A crise refletiu o maior fracasso regulatório da história. Altman acreditou que após o colapso, os países adotariam novas referências para o cenário internacional, criando padrões e regras rígidas aos empréstimos, para evitar futuros infortúnios. Ele apostou que os mercados ocidentais não recuperariam sua saúde em muitos anos.
Sua critica mais interessante, a meu ver, é sobre a suposta queda do modelo capitalista. A crise pôs em xeque o modo como a política econômica é conduzida. A tão aclamada “mão invisível” e o laissez-faire estão agora constrangidos sob uma forte política de regulação. O sistema, segundo ele, falhou.
Neste artigo, Altman cita a idéia de Haass sobre a não-polaridade, como uma conseqüência da ascensão de economias emergentes. Ele sugere que a influência chinesa será cada vez maior. E que Índia e Rússia também merecem atenção.
Mas diferentemente de Haass, a questão levantada por Altman é sobre a viabilidade de uma regulação global do sistema financeiro e econômico internacional. Agora seria um momento ideal para um Bretton Woods II, em que seria possível discutir uma reordenação dos padrões e administração dos problemas. Tal regulação internacional, entretanto, é tão ou mais complexa que a própria crise, devido ao tamanho e ao poder dos mercados financeiros, que são praticamente incontroláveis neste nível.
A proposta então seria a de reforçar e remodelar as antigas instituições como o FMI – tornando-o mais flexível, o G8 – cujo formato se tornou obsoleto, dando lugar ao G20 e por fim, revisar as regras do Comitê de Basiléia II (que trata da regulamentação financeira mundial), que têm se mostrado ineficientes e precisam ser renovadas diante do que se tem na atualidade.
Por fim, afirma: os Estados Unidos vão continuar a ser a nação mais poderosa do mundo por muito tempo. Só por sua força militar isso pode ser dito com muita segurança. Mas a crise trouxe um revés muito grande aos EUA, que nem mesmo as expectativas do governo Obama poderão esconder. Além disso, o mundo já vinha se abrindo em um momento histórico diferente, em que o foco estava se desviando dos EUA.
 Abre-se espaço para os demais.

- O texto de Altman tem um caráter mais neutro do que o de Haass. Altman não traz muitas novidades no que se refere a modelos ou soluções para a crise, ocupa-se apenas em descrever como a crise ocorreu em seu ponto de vista e suas expectativas em termos meramente econômicos – ele trata da regulação, questiona se uma instituição global é válida, mas não cria um novo modelo de ordem e nem sugere como o mundo deveria ser. Ele trata o mundo como é, como ele tem enxergado que as coisas acontecem.
Um ano após seus escritos, percebe-se que a realidade não era e nem causou conseqüências tão graves quanto as esperadas. O capitalismo continua aí, não se criou nenhuma OI global regulatória, a ordem mundial parece ter sido mantida e a crise “milagrosamente desapareceu”. Desapareceu das capas de jornais e do alarde dos investidores e da imprensa, mas pode não ter desaparecido por completo e está por aí na iminência de eclodir a qualquer descuido...

terça-feira, 27 de abril de 2010

What the hell?

Relações Internacionais como área do conhecimento e sua consolidação nas instituições de ensino e pesquisa
Eiiti SATO – original aqui

Neste artigo, Sato aparece para elucidar o nada simples campo das Relações Internacionais. No campo de trabalho, na academia, nas relações políticas, afinal, o que faz, como atua o profissional de Relações Internacionais e como se produz conhecimento nesta área tão recentemente desbravada?

Sato acredita que o crescente interesse pelas Relações Internacionais tenha surgido da era da globalização. O estudo e a profissionalização na área decorrem então, não por uma finalidade específica, mas porque este campo está ligado a diversas preocupações que afetam as sociedades em nossos dias.  Ou seja, há uma demanda social por este tipo de estudo; como que uma obrigação moral de revelar aquilo que nos atinge diariamente.

                Sato faz um apanhado histórico do nascimento pelo interesse na disciplina, contrapondo Dante X Hobbes, Hume, passando pelo positivismo de Comte, citando Carr, voltando para o conceito de soberania de Bodin. Ele explica como eram as relações entre Estado e a influência da Igreja – esta como elemento fundamental na organização das relações sociais e políticas, numa autoridade que implicava a manutenção da estabilidade da ordem vigente. Ao longo do tempo, essas relações foram ficando mais delicadas, principalmente com a expansão das idéias reformistas. Os jogos de poder entre os reinos ficavam mais acirrados.

                O marco para a consolidação do sistema de Estados nacionais foi a Paz de Westphalia ao final da Guerra dos Trinta Anos. Este novo conceito trazia uma estrutura mais adequada à Europa devastada por conflitos políticos e religiosos. Posteriormente surgirá um conflito paradoxal entre a importância de instituições internacionais – como a ONU, por exemplo – com objetivos universais em contrapeso à soberania dos Estados nacionais. Esta é uma questão que pode ser debatida exaustivamente até hoje.

                Sato mostra a evolução do debate teórico das correntes liberal e marxista e como aquela exerceu seu domínio sobre esta última, com argumentos da geração de riqueza e do desenvolvimento do livre comércio. Acredita-se que o comércio seria o instrumento capaz de aproximar os países, e que a política seria fonte de conflitos.

                Angell, em “A grande ilusão”, defende a idéia de que a guerra nunca é benéfica, nem mesmo para a nação vencedora. Na era dos conflitos mundiais, o campo de investigação de Relações Internacionais ganha força: a idéia era a de que a sociedade deveria promover o estudo e reflexão, tanto quanto possível, em bases científicas, sobre as relações internacionais. Com isso, acreditava-se que seria possível tornar o estudo da política algo mais previsível, e assim, conter as guerras e infortúnios. Nos países chamados de terceiro mundo também havia este interesse, mas o foco era voltado para a temática do desenvolvimento.

                O estudo das RI tornou-se importante na era da globalização para tratar não apenas dos assuntos políticos e econômicos, ou de poder, mas porque novas questões foram trazidas às agendas internacionais: temáticas de meio ambiente, comunicação, direitos humanos, empregabilidade, migrações, desigualdades. Sato dá uma grande ênfase no ponto da desigualdade advinda dos processos frutos da globalização.

                Segundo o autor, o estudo das relações internacionais vive no momento marcado pela globalização. No Brasil, especificamente, o interesse neste campo de estudos surgiu a partir da década de 90, o que explica o aparecimento tardio da disciplina como área do conhecimento no país. Sato procura desmistificar um importante fato: o de que no Brasil há uma cultura – equivocada – de que cursos universitários correspondam a profissões. Isso explica o espanto e desconhecimento em relação a área: afinal, o que faz alguém que se forma em RI?

                Para Sato, o mais importante não é considerar o estudo necessariamente igual a uma profissão. O interessante é que nesta área há várias opções.  E a questão chave para sua consolidação é a provada relevância do assunto. Do contrário, a disciplina não estaria tão em voga como nunca esteve. A procura por um curso de Relações Internacionais, então, não se justifica pela opção de uma profissão correspondente, mas pelo fator inquietante de que as realidades internacionais afetam e influenciam a vida de diferentes maneiras. O ser humano vai em busca de resolver esses dilemas.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Era da Não-Polaridade


- O poder é distribuído e não concentrado

   A característica principal da ordem mundial é a de não-polaridade. Isso significa um mundo não mais dominado por um ou dois Estados, mas por uma série de atores exercendo diferentes tipos de poder.  Acredita-se que hoje o poder seja difuso.
   Haass diferencia o mundo outrora multipolar como sendo uma ordem que envolve vários pólos ou concentrações de poder, da ordem não-polar, caracterizada por diferentes centros de poder significativos. Haass diz que no mundo multipolar não há um poder hegemônico, pois se assim fosse a ordem seria unipolar, e que também esta ordem não gira em torno de dois eixos principais, o que geraria uma ordem bipolar. A diferença do mundo multipolar para não-polar, então, segundo o autor, é de que hoje existem muito mais centros de poder e que muitos destes são poderes não-estatais. Ele sugere que os Estados estão perdendo o monopólio do poder, e que organizações internacionais, ONGs, milícias e outros grupos estão crescendo. O poder está agora em várias mãos e em vários lugares.
   O autor admite, no entanto, que os EUA ainda são e por um bom tempo permanecerão como  uma grande concentração de poder, mas tenta argumentar como este poder está em queda frente à ascensão de outras fontes de poder. (ex: Londres como novo centro financeiro, queda nas trocas comerciais em dólares e valorização do euro)
   Segundo Haass, poder e influência estão cada vez menos interligados na era da não-polaridade. Seu argumento é de que potências regionais muitas vezes exercem mais pressão e resultados sobre outros Estados, numa tentativa de confirmar seu argumento sobre o declínio do poder norte-americano. Até em termos de cultura e informação, Haass acredita que há alternativas ao domínio da produção dos Estados Unidos.
   Outro argumento é o de que a integração mundial alcançada amortece a competição do surgimento de novas grandes potências. Mas mesmo sem tais rivais, a unipolaridade acabou. Não há um hegemon, por três diferentes razões assim resumidas:
-  Estados se desenvolvem! Empresas e ONGs também, e têm cada dia mais poder
- EUA demandam forças alternativas e enfraqueceram sua própria posição frente aos emergentes
- a política econômica dos EUA, com os custos das guerras do Iraque e Afeganistão, gerou déficit, pressão sobre o dólar e inflação, contribuindo para geração de riquezas em outros centros de poder que não os EUA.
   O mundo não-polar é portanto, conseqüência  da ascensão  de novos agentes de poder, de erros na condução da política norte-americana e da própria  globalização. A globalização dilui a influência dos grandes governos e reforça o poder das instituições. Aparentemente, ser o Estado mais forte não significa mais ter o monopólio da força/poder.
   As conseqüências dessa nova ordem mundial, segundo Haass, trazem alguns pontos negativos (principalmente para os EUA) para o mundo. Sua tese é de que muitos atores internacionais comprometem a tomada de decisões, tornam mais difícil a obtenção de respostas conjuntas e de fazer as instituições funcionarem. Controlar muitos é mais difícil do que controlar uns poucos. O desconsenso de Doha é um exemplo argumentativo desta defesa.
   A não-polaridade também aumenta a vulnerabilidade e ameaças globais, direcionadas especialmente aos Estados Unidos. O caso do Irã é um exemplo de não-polaridade: os EUA não podem e não conseguem lidar com este problema sozinhos.
   Haas retoma os conceitos de Bull sobre anarquia e sociedade: na ordem não-polar um acordo para modelar o mundo seria essencial para prevenir uma ordem cada vez mais desorganizada ao longo do tempo. Mesmo que o mundo unipolar seja uma coisa do passado, ele defende que os EUA podem e deveriam colocar “a casa em ordem”, pois ainda é o único com tal capacidade para ajustar o sistema internacional. O ponto chave é fazer a sociedade mais resiliente. Não há como inserir todos, como agradar a todos, mas há como criar alternativas.
   A idéia é combater a produção de bombas nucleares e produzir energia, estabelecer um combate rígido do terrorismo, utilizar-se do comércio como fonte de integração e estimular investimentos. O multilateralismo, então, é essencial para se lidar com o mundo não-polar. Como buscar o consenso de muitos torna-se mais difícil, a opção é a de se buscar acordos menores entre as partes, até chegar em uma resolução maior e comum. É o que ele chama de “multilateralismo à la carte”.
   Ademais, Haass acredita que a não-polaridade também complica a diplomacia. Não há mais estruturas fixas e relações tradicionais entre Estados. Fica cada vez mais difícil classificar Estados como aliados ou adversários. Em alguns casos há de se cooperar, em outros, resistir.
   A não-polaridade é mais difícil e perigosa. Encorajar um nível maior de integração global é uma solução. Haass sugere a criação de um grupo chave de atores, uma chamada “não-polaridade concentrada”. Segundo ele, isto não elimina a ordem não-polar e ao mesmo tempo consegue administrar o sistema internacional para que não se deteriore e nem se desintegre.

  - O texto de Haass está recheado de contradições e argumentos fracos em relação à definição e diferença entre a ordem multipolar e não-polar. Ele varia muito nas posições sobre os EUA (ora admite que é o mais poderoso, mas também defende que seu poder está diminuindo) e por fim, sua sugestão final de uma “não-polaridade” concentrada, de alguma forma deixa de ser o que a não-polaridade definida por ele mesmo deveria ser. Parece que ele advoga uma nova ordem, confusa, paradoxal, que nem ele mesmo sabe definir.

- Texto original do Haass integralmente em PDF disponível AQUI

terça-feira, 20 de abril de 2010

Acho que o amor é coisa séria. Não o proclame sem ter a coragem de vivê-lo e a responsabilidade de cuidar do que deveria ser pra sempre...