Seria mais uma tarde comum de estudos pela universidade. Até que resolvi buscar livros novos. Estava sentada ali olhando praquela capa multicolorida que carrega 600 páginas de difícil digestão. Precisava de algo novo e leve.
Estava buscando algo que alimentasse o vício anterior: crônicas. Nada, nenhum! É, ninguém abandonaria Clarice àquelas prateleiras. Pensei então naqueles romances da moda: havia mesmo muitos exemplares de crepúsculo, anjo não-sei-de-quê, sombra do vento, lua, um monte de capas tentadoras. Mas logo ao lado aquele autor me chama a atenção. Era mais um do Saramago. Excelente, pensei, novinho e barato! Mas, ao ler a história na contracapa fazia um tremendo esforço para tentar gostar daquilo. Não me convencera. Continuei perambulando... não queria aquela filosofia densa que acabara de ler a pouco, achei três livros que estou buscando há tempo, mas... muito velhos. Até que cruzei um corredor e, por acaso, vi uma abertura entre livros na qual se podia ver escrito Lacan. Só ao término do livro fui compreender a profundidade daquele título: “O dia em que Lacan me adotou”.
Aquele que era um dos nomes mais controversos e incompreensíveis da psicologia me chamava a atenção. Já que não podia compreender Lacan através de seus próprios Escritos, a idéia de que um analisando contasse sua terapia, e conseqüentemente, muito de suas idéias, parecia fascinante. Comprei.Imediatamente sentei num daqueles sofás e quando fui interrompida por um garçom já estava na página 38. Não, eu não queria um suco. Já estava totalmente envolvida na história: Gérard, o próprio autor, tinha uma expectativa pessoal e familiar de se tornar médico. Porém, ao se deparar, em um hospital, com a tragédia que eram as “loucuras” humanas, logo se convenceu a se desviar deste caminho. Foi estudar Agronomia e passou um bom tempo entre missões de seu trabalho sobre plantio de arroz e desenvolvimento na África. Ele era tunisiano, mas foi morar em Paris. Mesmo assim, seu trabalho sempre o remetia de volta a seu continente natal.
Com o tempo, Gérard já não se sentia feliz com seu trabalho, passava por crises conjugais e financeiras, além do desencontro com a família. O acaso, seu grande aliado, então o levou à porta do consultório de Lacan. Dez anos depois, ele, o próprio Gérard se tornara médico, psiquiatra.
Não ouso reproduzir as idéias de como Lacan conduzia a terapia. Esses são os pontos mais interessantes do livro. Gérard argumenta que muitos ditos “lacanianos” mal compreendem como Lacan realmente pensava.
Não só isso faz do livro uma leitura desbravadora, mas a quantidade tão diversa de assuntos que ele consegue trazer à tona: fala de seus problemas, dúvidas e questionamentos, ao mesmo tempo que narra um interessante ramo de trabalho da agronomia, suas viagens pela África, seu marxismo militante, o confrontamento pessoal entre judaísmo X ateísmo, a própria ligação de Lacan ao judaísmo. Fala de suas feridas e curas como se fossem universais. Mas sua história não poderia ser mais íntima e particular.
Tenho a sensação de que todo livro que leio parece ganhar o lugar de favorito. Que bom ter sido tomada por uma leitura tão agradável. Mais que recomendado a todos os curiosos de Lacan ou simplesmente das múltiplas faces da vida.



