A propósito do Dia Mundial do Consumidor, tive vontade de transcrever um excerto do livro que estou a ler de Gonçalo M. Tavares, "UMA MENINA ESTÁ PERDIDA NO SÉCULO À PROCURA DO PAI "
Numa conversa entre Marius e o velho Terezin , que vivia num quarto de hotel .
"Terezin começou por elogiar o pouco peso que transportávamos.
- Há povos que demoram séculos a entender isso - disse ele, e depois riu como se tivesse acabado de contar uma anedota.
Hanna riu também - quase sempre respondia aos risos dos outros com uma gargalhada.
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Explicou depois como era fundamental aquela questão do peso.
Eu levava a mochila às costas com as minhas coisas essenciais e com objectos de Hanna, incluindo a pequena caixa com os exercícios para pessoas com deficiência mental. Hanan nada levava.
- Não conheceram o meu quarto, disse o velho Terezin, quando voltarem convido-vos para irem lá. Vão ver - murmurou - como está vazio.
Vou dizer-vos o que existe no meu quarto : um colchão, quatro livros - um deles saberão qual, certamente; e depois ainda uma cadeira, uma mesa de madeira, os lençóis de cama e alguma roupa, pouca. Um outro par de sapatos que quase não usei. E tenho depois quatro pequenos objectos - não vou dizer quais, peço desculpa ; algumas folhas de papel, umas canetas... e está tudo.
Ao longo destas anos, pode parecer estranho continuou Terezin -, mas o quarto foi perdendo elemento, nada entrou e algumas coisas saíram.
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- Vou dizer-lhe - lhe quanto pesa o meu quarto. Já alguma vez pensou nisto? - perguntou-me. - O peso de tudo o que está no quarto?
E começou a fazer a lista, dizendo alto o peso que correspondia a cada coisa, e escrevendo no papel :
Colchão - 1Kg
Mesa - Kg
Cadeira -2Kg
4 livros -2,Kg
Objectos vários -1,5Kg
E no final escrevera:
Eu - 63kg
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- Não vale a pena grandes rodeios - disse-nos - , no limite é o nosso peso que está em jogo, é ele que temos de carregar para um lado ou par outro. Quando temos de fugir, podemos ter tempo para pegar num ou outro objecto, mas tal é raro. A rapidez com que se pega no próprio corpo e se foge de um lugar onde a nossa vida está em risco, esta rapidez depende muito do nosso trabalho anterior, de esvaziar o espaço á nossa volta.
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Claro que numa emergência ninguém quererá carregar objectos consigo, numa emergência cada um tentará fugir o mais rápido possível ; a questão é o tempo que demora decisão de largar todas as coisas. O tempo que demora esta decisão vai ser determinante - uns vão sobreviver outros não. O tempo de que falo não é medido em minutos, nem em segundos, trata-se de milésimos de; segundo ; por vezes sobrevivemos, escapamos do lugar onde estamos, porque decidimos num milésimo do segundo correr dali, correr o mais rápido possível, sem olhar para trás; e esta decisão a de correr , a de nos afastarmos de um espaço, se demorar mais um milésimo de segundo pode tornar-se fatal. Pego nas minhas coisas ou não?
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Pintura, O Quarto de Van Gogh