Nos últimos dias, ao ver como a campanha eleitoral para a Assembleia da República vai, timidamente, começando, dei por mim a refletir. A campanha está a começar mal, num vazio de ideias e propostas efetivamente passadas para o lado dos eleitores, capazes de esclarecer, de trazer oferta de escolhas. Parece que estamos reféns de um modelo que não resolveu, não resolve e não resolverá os problemas de Portugal mas que, paradoxalmente, está a ser bem trabalhado e até aceite: melhor que o PS, só mesmo o (recauchutado PS) para resolver o que em 21 dos últimos 28 anos não conseguiu fazer: construir um Portugal de futuro, onde possa valer a pena viver, trabalhar e investir.
O teste do algodão é simples: basta perguntar aos jovens que saíram de Portugal na última década se ponderam regressar, continuando o país entregue aos mesmos políticos, às mesmas políticas e ao clima de promessas eternamente adiadas ao jeito de “agora é que é”. Quem saiu não vai encontrar impulso para regressar. Portugal está entregue a um país de pequeninos, com um vazio de líderes carismáticos, governado por um bando de profissionais que transitou das jotas para a vida dos adultos, com os vícios de sempre e as mentiras de sempre.
Mas isso os meus conhecidos ignoram ou pretendem ignorar.
É que, ao mesmo tempo que pensava no que acima escrevi, constatei
também que alguns conhecidos, pertencentes à grande família a que chamo de “esquerda
folclórica” revelaram algo que germinava como erva daninha, embora verde, viçosa,
qual fluorescente. E têm vindo a conseguir vender erva daninha como girassóis
ou mesmo gladíolos.
Alguns desses conhecidos que talvez nunca tenham lido um
livro sobre ideias políticas, sobre a origem das diferentes ideologias, sobre
os fundamentos e objetivos últimos das ideologias ou sobre a visão que as
mesmas têm sobre aspetos e temas estruturantes da nossa sociedade e da
construção da sociedade ideal, com primado para o Homem, revelaram um
dogmatismo e uma intolerância que me deixou assustado. E com isso causam-me
alguma irritação porque são como aqueles “músicos” que decoram os acordes mas
desconhecem o solfejo, as claves, as notas musicais e a ciência que está por
detrás das músicas que ouvimos e até sabemos assobiar.
Tenho lido coisas que não esperava, com recurso a coisas
básicas. “Se és gay não podes votar na direita”, se “usaste o elevador social,
deves isso à esquerda”, ou “a direita é contra os direitos das mulheres e em
geral não gosta de pessoas”, ou mesmo ainda que “a direita quer privatizar a
segurança social e o serviço nacional de saúde”. Isto tem ZERO de verdade, e
zero de ideias políticas. E tem de ser combatido, com ideias e propostas que
criem ressonância nos portugueses com algum nível de sensatez. Não é
impossível, embora seja difícil, até mais porque com os anos de geringonça e PS
sozinho, as pessoas se desabituaram de pensar, de questionar, de ver o mundo
para além do pequeno quintal que é Portugal. E quando veem acham que “lá fora
não é melhor”, nem que seja para usarem como auto-ajuda pela sua letargia em
procurarem desbravar caminhos e mundos diferentes, para melhor, por comodidade,
por procrastinação, por dormência cognitiva até. O mundo das redes sociais
também contribuiu para esta asfixia intelectual e hoje mesmo li algures que os
jovens contemporâneos raramente leem um livro, o que me leva a concluir que não
se preocupam com as mesmas causas com que eu e as gerações antecessoras nos
preocupávamos; e que isso levanta sinais de alerta e requer medidas para evitar
o colapso da “crítica” que subjaz à condição humana – a crítica reflexiva, a
crítica que leva a novas reflexões e a novas propostas e a novas respostas para
os problemas de hoje e de amanhã. E é na dicotomia entre o “bom” e o “mau” que
os mais ilustres pensadores, filólogos e filósofos concentraram os esforços da
sua obra. A esquerda não é dona da moral pública. Nem a direita o pode
permitir. De resto, e recorrendo a Friedrich Wilhelm Nietzsche (que a maioria
apenas conhecerá de nome) todos temos a obrigação de promover a “busca da verdade
de uma forma imparcial”.
A direita moderada portuguesa, com sólidos valores éticos,
com grande pendor sobre as questões sociais, que procura o equilíbrio justo e
complementar entre público e privado, que acredita na meritocracia, que combate
a apropriação de bens e rendimentos apenas com base na cobiça, inveja e
desprezo com a esquerda radical trata quem empreende (e que o PS mais à
esquerda igualmente representa) não pode ter medo de dizer ao que vem. Deve
apresentar as suas propostas, as suas ideias, deve evitar ir na ladoínha da
comunicação social e da esquerda folclórica que quer discutir se vai ou não
fazer coligação com o Chega; deve ter o poder de marcar a agenda, ignorar os
ataques da esquerda nervosa e fazer crescer a sua base de apoio, com ideias,
com propostas exequíveis, com metas atingíveis, com realismo, sem demagogia,
sem ceder à beleza plástica de algumas das propostas que a esquerda sempre
inventa e cria para fazer o seu “canto das sereias”, que Homero, na epopeia
grega da Odisseia tão bem descreveu. É, portanto, uma estratégia milenar, a de
criar logro para com isso obter vantagem sobre outrem.
Os anúncios de aumentos de salário mínimo devem ser
compensados com as propostas para aumentar o salário médio e proporcionar
melhores condições de vida para a classe média. As promessas de retirar da
pobreza milhares de cidadãos deve ser complementada com as medidas que vão
galvanizar o empreendedorismo e a valorização do mérito. A defesa da escola
pública deve ser acompanhada da defesa do papel complementar a dar pelos
prestadores do setor privado, social e cooperativo. E o mesmo na saúde.
A direita moderada deve ser capaz de se isolar do ruído das verdades
absolutas da esquerda. Não deve ter medo de ter voz própria. Não deve deixar
que a esquerda venda ilusoriamente que a solidariedade social e
inter-geracional, o direito à habitação condigna, o serviço nacional de saúde
(e o sistema de saúde onde os privados também têm lugar), a escola pública (com
o apoio dos privados), a para com a segurança interna, a defesa nacional e a
ambição internacional, são património comum dos portugueses – não são a quinta
privada de nenhuma esquerda, mais ou menos reacionária.
A tarefa é difícil, mas é à direita moderada, na qual me
incluo, que cabe o papel de combater, no respeito pelas regras da democracia,
este abuso, esta usurpação, este confisco também ideológico, programático,
societário, que a esquerda está a quer fazer.
Faço a minha confissão: alicercei a minha crença na social
democracia ao ler Eduard Bernstein, político e teórico político alemão que
viveu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Acredito
no impulso reformista e, não só rejeito, como combato a via revolucionária, nos
termos em que Mark e Engels a teorizaram. E acredito que o reformismo na sociedade
não é incompatível com o capitalismo regulado e o liberalismo económico. Talvez
tenha sido esta a receita para que PSD e PS tenham trilhado caminhos diferentes
após o 25 de abril. Talvez tenha sido que ditou a minha postura em sociedade.
Nunca tive tudo o que desejei, mas também nunca me faltou o mínimo essencial
para me realizar e ser feliz. Sou inconformado e trabalho para ser melhor
pessoa e viver melhor, sem desejar que para eu ter outro qualquer homem ou mulher
tenham de abrir mão do que é seu.
Dito isto, vou continuar a acompanhar a campanha e as
posturas dos meus conhecidos. Mas pelo menos já fiz a minha autoscopia e vou
ter o cuidado de lhes dar pouco crédito e defender mesmo aquilo em que
acredito. Como sempre procurei fazer. E como sinto que é meu dever.