Como te chamas?
Eis a questão tronco e basilar de onde muitas relações
nascem.
Mas a resposta esconde por vezes pesadas
heranças. Por algum motivo decidi ser
aqui o Henrique Shiuu.
Se sempre olhei para o apelido como um puro
produto de uma cultura patrimonial,
espantou-me saber que só em 1911, com a implantação do registo civil,
tenha surgido a obrigatoriedade hereditária do nome quando até aí as
alcunhas rivalizavam com os nomes ancestrais. Repare-se que até ao século XVII
nem sequer a família real dispunha de apelido.
Note-se que ainda hoje, se muitos lutam pelo
direito ao casamento, poucos manifestam a necessidade de união dos nomes após o
matrimónio. Uma realidade que tanto afecta casais hetero como homossexuais.
Concluo que vivemos numa época em que nada se
sobrepõe ao direito de escolha individual. Algo que me parecia profundamente
fracturante face a modelos tradicionais mas que na verdade não o é.
Desde a sua génese que o apelido tem uma função
fundamentalmente totémica que visa proibir o incesto e garantir um culto aos
mortos.
Toda a restante carga cultural que poderá
fazer dum apelido uma herança, em contraste com o nome que nos foi dado
- importante sublinhar o facto de se tratar de uma dádiva – é na verdade uma opção consentida.
Nestas questões de nomes, um exemplo toca-me
mais do que outros: o de Van Gogh; o artista que assinava os quadros com
Vincent; que recusara por inteiro a função filial do nome embora tivesse
partilhado o grosso da sua vida com o irmão; o pintor que nunca vendera em vida um único
quadro: por detrás do nome de Van Gogh, qual o legado que ficou?